sexta-feira, agosto 31, 2012

Liberdade que os 11 deixou


Se eu olhar as nuvens
não verei mais desenhos modelados
verei minha infância dando adeus
a uma menininha alta
que não quer crescer.

Se eu olhar as nuvens
não verei mais corações se formando
verei um cenário de decepções mostrando
a uma garotinha imatura:
é hora de viver.

Eu, tão menininha esperei
pelos quinze
pelos dezoito
pelos trinta
mas não gostei
quando ali, sozinha, cheguei.

As responsabilidades que assumi
as irresponsabilidades que deixei,
as lembranças que a qual sorri
agora, em um pacote, levei.

Se eu olhar o céu agora agora, os passarinhos
a liberdade deles, ah, como cobiçarei
a liberdade de mocinha correndo, aprendendo sozinha a voar
para cada canto, cada luar que pudesse alcançar

Se eu olhar o céu agora, em um triz
não terei mais tempo para desvendar desenhos em nuvens
terei celular tocando, alarme disparando, lembretes apitando
de uma vida corrida de mulher
aquela da idade que eu quis

Flávia Andrade

quinta-feira, agosto 30, 2012

Des(espero)

Desejando
aos poucos
mutilando
as mentiras que omitem
sorrisos me testando,
procurando respostas
para jogos,
desafios
apostas

Apostas de te ter
jogos que te vendem
e desafios que te perdem.

Querendo debalde fugir
deles a me invadir.

Eles, os que manipulam
que não sentem,
mentem
os olhos, são eles
quem falam.

Mostram o que não quero
em minutos de apelo
desespero.
Des-espero.
Não espero sen-ti-men-to.
sem-ti-minto
sem-ti-medo

Flávia Andrade

Decifrar

- Você não sorriu hoje,
ele disse e me abraçou
talvez eu devesse receber tal abraço,
talvez eu devesse sorrir,
mas não o fiz.

Rapidamente chorei desesperada
- Você não está bem.
É claro que não!
- Que mal me pergunte...
Não pergunte!

- Quer alguma coisa?
Cuide de mim!
Não fez nada, não leu meus pensamentos
Sempre esperei que o fizesse,
Pois nunca tive voz.

Voz para pedir, responder, voz para ser
Só tinha letras escritas, frases elaboradas,
E cadernos, versos... Só tinha cartas,
Que nunca recebera,
Nem imaginava!

- Fique bem.
Não ficarei se não ajudar!
Diga, diga que o quer
Diga que o ama
Peça que fique
Implore que não vá.

Solucei.
Isso não é frase nem pedido
Não há como interpretar
Não há poderes, mas entenda
As promiscuas de um coração ferido.

Ah, como odeio tal loucura
De prender as palavras enquanto
diz ser poeta

Mas de repente fico assim
Meus atos não obedecem
As falas que se tecem
só em papel

Flávia Andrade

quarta-feira, agosto 29, 2012

Guarde este segredo

Eu deveria estar me fazendo de forte,
mas essa música,
mas essa noite,
está te lembrando como nunca...

Eu devo ligar, devo sim, dessa vez
coração e cérebro juntos, amor e razão, unidos
dizendo: Liga Flávia, pára de ser orgulhosa!
E eu ligo?

Fiz promessa, amarrei santinho, usei a cor certa
virada de ano, champagne e lágrimas,
metas, deveres a cumprir e problemas a esquecer
desculpa por ter sido um desses.

Não ligarei, buscarei ou irei atrás
não, nem, nunca.

Eu deveria estar me fazendo de forte,
mas enquanto prendo tudo aqui dentro
quero que saiba que é impossível
não te lembrar em algum momento.

Flávia Andrade

Desentendimentos

Tentando,
pensando,
desistindo.

Fazendo da conversa morta,
uma lembranças tão viva

Chorando,
evitando,
deixando.

cansando de indagar,
vendo os dias passarem
caindo em cacos,
deixando pedaços,
não havia como aguentar.

Partindo,
despedindo,
indo.

Nada como eu sonhava,
desculpe não deixar que respondesse
desculpe não deixar que dissesse
qualquer coisa que pudesse
me convencer que errada estava.

Errando,
ignorando,
levando.

Flávia Andrade

domingo, agosto 19, 2012

Armas e escudos


   Abotoei os botões da camisa e junto com eles, todo o meu orgulho, juntei tudo o que tinha, sufoquei-os o quanto coube. Guardei como escudo tudo o que aprendi vivendo e convivendo, as decepções, mágoas, todas bem presas pela camisa totalmente abotoada. Ergui a cabeça. Seja forte, pensei. Talvez ninguém merecesse ver meus olhos desfocados, meu sorriso ofuscado e as marcas de lágrimas preenchendo todo o rosto. Uma maquiagem, uma água fria, nada poderia resolver. Assim como outra pessoa não poderia substituir aquele que se foi.
   Não era fácil ter que sair e lidar com as pedras e pessoas que eu pudesse encontrar, mas que seja, ninguém nunca me disse que algo nessa vida seria fácil e eu já estava acostumada, então... O que mais eu deveria temer? Um tropeço, uma queda, um fantasma? Seja forte. Dessa vez, perdida no mundo, recebendo olhares mais uma vez, sentindo as palavras sendo atacadas, e eu não poderia simplesmente fechar os olhos e fugir. Não era um lugar só meu. Por um momento pedi a Deus baixinho que me trouxesse você de volta. Se estivesse no meu lado naquele instante, eu teria agarrado a sua mão e apertado bem forte para simplesmente aguentar e seguir com o meu caminho.
   Dizer que não se importa com o que os outros vão pensar, parece uma boa maneira de ser hipócrita enquanto tenta fingir um sorriso. Então digo, eu realmente me importava e assim, deixava de ser livre.

Flávia Andrade

Revide

Crer que acertava enquanto insistia no mesmo erro foi o paradoxo que trouxe a decepção com meu próprio ser. Não tenho mais o pés no chão para que possa fugir e muito menos asas para tentar voar. Não tenho mais mentiras e máscaras para fingir, nem passos no caminho feito para saber voltar. Não sei mais encontrar as palavras que possam me tirar esse peso que estou carregando.
   Eu costumava pensar que na vida tudo tinha uma razão para ser e acontecer. Mas agora, sinceramente, tanta coisa se passou e aconteceu... Estou confusa e sem razão. Minhas memórias tentam encontrar respostas para toda essa angustia guardada. Se não sei nem quem eu sou, como poderei entender o que faço e sinto?
   Deus, se ainda está aí, pode me dar um sentido? Sem lados, sem oposição. Enquanto eu amo tentando não morrer. Se continua aí, Deus, leve-me de uma vez ou aniquile todo o horror dos meus passos desengonçados que não sabem para onde vão. Quem sabia? A dúvida era uma boa aliada, mas se até mesmo ela se calou por não encontrar nunca uma solução, como posso então, tentar seguir em frente? Esquecer não é possível e "nada pode o olvido com o forte apelo do não". Desculpa parafrasear qualquer rima de poeta, qualquer frase e dialeto. Eu estou enlouquecendo sem saber. Minhas palavras? Fugiram. Até elas tiveram forças para andar, correr, ir embora. Enquanto eu continuo no mesmo lugar desconhecido.

Flávia Andrade
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sexta-feira, agosto 10, 2012

Monodia deixada

  Fui amando assim, meio aos poucos e debalde subitamente me afastando. Tentando evitar mais uma de minhas decepções, mas em meio desses meus desatinos, fui amando, não notei a saudade, não queria os amores ínfimos, mas continuei me apaixonando. Tanto tempo foi que eu não queria ser amada, nem sequer me sentir assim. Não queria apelar declarações, nem o olhar baixo pro chão na volta pra casa, e os pensamentos voltados pro céu indo com o amor melancólico que sempre se torna.   Uma parte de mim ficava silenciosa voltando pro sofá da sala em meio a outros móveis supérfluos, enquanto outra parte ia com aquele perturbável amor de inverno. Se você soubesse que iria, se planejava que eu ficaria e se queria que nossos pés se desencontrassem, antes de se tornar inevitável, mesmo que sem planos, se não fosse um covarde, não iria dizer que me amava e nem me iludir em vão.
   Quando foi embora, com toda a frieza, que meu coração contigo não levasse. Quando foi embora, que antes de uma vez me matasse. Não me deixasse aqui morrendo assim, aos poucos. Se não fosse um egoísta.
   Amar e morrer agora são sinônimos. Antes de ir embora que não errasse na escolha de me deixar. Antes de fazer desse amor simplesmente algo acabado, que não me dissesse para te amar.
   Eu estou tentando abdicar. Desistir por vontade própria agora que você me forçou a sofrer.

Flávia Andrade


quinta-feira, agosto 02, 2012

Reflexo

Os monstros se assombram com meus medos
as portas se abrem e eles temem me assustar.
É uma contagem regressiva para o desespero.
Não há anjos, não há canção-de-ninar
que possa aveludar a escuridão.

É uma chantagem.

Os monstros não estão - e nem ficam -
embaixo da cama ou como penduricalhos no teto.
Não se escondem no guarda-roupas ou entre os brinquedos das crianças.
Não têm olhos grotescos, nem fazem barulhos estridentes.

Eles estão refletidos no espelho e sentem medo do meu terror.

É toda a raiva tida, todo o ódio guardado.
É a criatura pérfida que criei.
É isso que os assustam.
Eles não têm medo da imagem.
É a alma, escura e tenebrosa.
São as promessas mutiladas,
os perdões nunca ouvidos pelo orgulho.
São as palavras irrefletidas,
as mágoas perenes
e o sabor enfarado dos dizeres.

Tudo o que fora insolente, ignóbil e infenso.
 
Sentem medo do meu terror
do que guardei no sorriso melancólico no olhar mentiroso.
Tudo o que espalhei pelo vento sussurrado e aniquilei.

Flávia Andrade

Vocabulário fleumático

 Leio o que na folha não se escreve
escrevo com as mãos manchadas de tinta
apenas o que os cegos podem ler
 Reflito a dor do mundo e
 no mundo sinto prazer
refaço as caras dos atordoados
rio das prosas que cá me trazem.

Meu vocabulário elide a certeza do que sou.
Fujo das curvas que fazem as palavras
conceberem o pecado da razão escrita
e embaralho com elas
um sete de copas, um As de ouro e a carta coringa.

Faço delas o significado de minha alma possuidora
de sete amores, uma riqueza e do sarcasmo incólume
sempre penetrando qualquer oração de sujeito composto ou simples.

Nada se faz presente quando me vem a lucidez.
Serei a vírgula e também o ponto.
Pois com ponto e vírgula termino e não;

Flávia Andrade

Abismo celeste

   Estou incólume neste abismo, nada se esfacelou ou estropiou e a luz de um serafim está diafamando-se em meus olhos. Estou oscilando para onde não posso chegar. Desconheço meu abrigo, sequer sei como o alcancei. Lembro de resignar a certeza de estar em casa;
   Esvaeci.
   Saí ruando, suscitando vida, justapondo o tangível... Saí célere e caí. Onde estou? É um abismo, mas qual? A quem pertence? É pitoresco, mas me assusta.
   Não quero voltar.
   O assombro tênue e merencório me traz forças e mantimentos para ficar. Quero este abismo incógnito e inefável.
   Não quero voltar.
   Perdoe-me se eu fechar os olhos e partir. Fique bem. É um abismo confortável que não me feriu. É o abismo celeste que me resgatou da vida tumultuada. Perdoe quando eu fechar os olhos.
   Quero ficar, então, adeus. Ao Deus, em Deus.

Flávia Andrade
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