terça-feira, dezembro 30, 2014

Sobre o próximo ano

   Cansei disso de acaso, procuro rumo traçado. Não quero tropeço, quero queda no precipício. Que seja um erro interminável, estou longe de acertos redundantes. Que seja um risco válido e dê fim às decisões mornas. Que seja somente aquilo que ainda não foi, que seja somente começo, nada refeito. Eu guardei todos os bons desejos alheios e levo todo o bem junto de mim.

— Flávia Andrade.

quarta-feira, dezembro 24, 2014

Mas fica

   Não conhece meus planos, mas está em todos eles, como taças de vidro que embrulhamos cuidadosamente nas caixas de mudança. Vou levando esse peso comigo, esse peso de gostar mais de outro alguém que de mim, vou desocupando tudo para deixar espaço para quem possa, no fim, decidir ficar de vez. Como Chico canta "mas fica, meu bem, quem sabe por um dia, por descuido ou poesia você goste de ficar". Acredito que por acomodação ou escapatória, por correr risco ou ter certeza, você decida não ir embora, decida que é comigo que a vida ruma ao destino certo. Eu cuido bem, não deixo nada maior cair sobre você, levo com cautela para saber que estou por aqui. 

— Flávia Andrade.

Declínio

Meus olhos desacostumados — que por muito tempo não te veem, até riem da falta que sentiam meses atrás. Menos cabisbaixa, menos minuciosa nas lembranças, agora te ter em pensamento é só um borrão aleatório que esteve presente. Muitas pessoas foram deixadas para trás, foram consequência da falta de contato, dos silêncios semanais, das vidas tumultuadas, das novas preocupações. E, mesmo assim, sempre tem você que embora esteja lá no fundo da memória, inquieto e taciturno, será sempre um nome que ronda as histórias, oculto nos textos, implícito em qualquer música velha. Eu não o vejo mais e o tempo não quis parar para que eu visse, acasos estiveram exaustos de reencontros, então só fomos nos deixando para trás. Meus olhos agora veem tanta coisa mais bonita, cansaram-se de fitarem coisa vã e gente vazia.

— Flávia Andrade.

É amor, é teimosia

   Dizem que amor não correspondido se cura com um novo amor, daqueles que surpreendem dois desprevenidos que nada esperam. Dizem que ressaca se cura no bar. Dizem que os erros servem para nos ensinar, que as mancadas são coisas da vida e nos darão uma luz mais para frente. Dizem provérbios, ditados, parafraseiam alguns autores conhecidos, sabem de tudo! Mas e se eu quiser ficar com tudo afundado como está? E se eu esperar que, de repente, tudo seja recíproco? E se minha dor virar alvo de sequência de comédias românticas na televisão? E se eu acumular algumas almofadas, algumas lágrimas, várias garrafas, e se eu não atender ligações de mais ninguém? Eu não quero que saibam tudo sobre mim, na verdade, nem que pensem que sabem qual rumo terá minha vida. Eu quero esses momentos de não saber de nada, de só deitar e esperar, recuperar energia para o próximo turbilhão de decepções e montanhas russas de emoções. Eu quero ficar aqui tendo minhas indecisões e esperando alguém que me salve em silêncio, esperando o único alguém que eu penso que pode me salvar, persistindo no erro até que eu me canse. Pois, sinto muito dizer, eu sou assim. Eu insisto enquanto posso.

— Flávia Andrade.

terça-feira, dezembro 23, 2014

Você não era nada além

   Eu sempre soube. Quando você roubou minha atenção pela primeira vez sem esforço algum, quando eu quis me aproximar nos outros dias para te conhecer melhor, quando eu fui percebendo que todo o silêncio me intrigava e eu queria cada vez mais saber sobre a sua vida, quando eu sorria boba com cada palavra sua antes mesmo de pensar que era amor. Eu sempre soube que uma hora ou outra, naquela semana, mês ou ano, eu estaria correndo pela rua indo ao seu encontro. Eu sempre soube que você seria a primeira pessoa para quem eu dedicaria tanto tempo, tanto pensamento, tanto texto, tanto riso, tanto choro. E foi o que eu fiz, mas ignorei o pranto que me aguardava, ignorei saber que nós dois era como no primeiro dia: eu sozinha, você cheio de amigos, eu tão perdida e você tão cheio de si, eu pouco sóbria e você firme. Eu sempre soube que seria assim. Só assim. 

— Flávia Andrade
   Eu erro mais do que acerto, haja dias para consertar minhas noites. Eu culparia todo o mundo, mas se sou eu quem dou meus próprios passos, a culpa é de quem? E afinal, eu não tenho licença para errar? Talvez esteja escrito em algum lugar por aí que é a junção da idade com alguns traumas, talvez tenha alguém que me salve quando julga que só quero ter atenção. Eu estou distante de decidir pelo o que é certo, optar pelo o que é seguro, e no fim dá uns arrepios assustadores só de pensar em morrer dentro de casa por não fazer nada. Algo me diz que é desperdício não aumentar a velocidade na estrada por medo, que não vale a pena dizer tanto não. E algo me diz que pensar assim é errado e convenhamos: eu sou aquela que apontam e dizem: é caso perdido. E se ainda não apontaram e disseram, é porque ainda não viram muito de mim, não ouviram minhas histórias, então precisam de mais. Eu vou em busca de mais, afinal, não posso negar minhas próprias frases e eu já comecei dizendo o que faço.

— Flávia Andrade.

segunda-feira, dezembro 22, 2014

Acômodo incômodo

   O problema é que eu enjoo das coisas, das pessoas, da vida que levo, mas ainda resta a vontade de ter um pouco mais do mesmo. Como todos os "nunca mais" que viram "só mais um". Eu não sei lidar com ladainha, falta paciência para dizer: você já me disse isso. Eu só penso em sair de perto, em deixar essa gente que repete palavras e discursos falando sozinha. Eu só penso em ganhar um tempo em algum lugar diferente, mas para onde vou? Eu vou para onde todos sabem que podem me encontrar, eu vou para onde tenho que dizer: hoje não quero sair. Às vezes concordo, sabendo que não vai ser bom, sabendo que não vai dar certo, eu saio, eu finjo que quero festejar. E enjoada das músicas que tocam, das roupas que vestem, enjoada de tudo desaproveito o que já foi bom, desaprovo também. O que é que pessoas assim fazem? Se isolam? Eu vou continuando.

— Flávia Andrade.

sexta-feira, dezembro 19, 2014

O de Sempre

   Eu ando até o bar e poderia ir de olhos fechados sem correr o risco de me perder, compro uma garrafa cheia e quente pelo calor de qualquer coisa com alto teor alcoólico, pode ser que o dono do bar já me conheça de vista há um tempo e eu não precise ficar explicando o que quero, acontece de maneira tão natural que não sei bem como funciona, saio dali o mais rápido possível, pois não sou como eles, sou levemente pior, um pouco mais afundada na lama, mais caída no precipício. Caminho sem previsão de chegada ou ponto específico para alcançar, com a garrafa agarrada nos meus braços, tirando-a do conforto só para alguns goles. Por alguns momentos eu gostaria de ter uma casa para ir, alguém para visitar, algum conforto para chegar e dizer: eu trouxe para nós. Mas eu sequer lembro claramente se já tive algo assim. No fim, alcanço o canto mais escuro de sempre. E essa é uma expressão frequente para mim. Eu sou um acúmulo de hábitos, somente faço as coisas de sempre. Eu sento onde ninguém pode ver – ou talvez vejam, mas ignorem, e mato meu último gasto válido do dia. Com o dinheiro mais sujo que eu poderia conseguir, comprado com a cara mais lavada que posso manter, e nada degustado. São só longos goles e olhares para o nada, são apenas uma canção de ninar para os meus pensamentos que não silenciam até receberem a pequena dose de setecentos e cinquenta mililitros de bebida alcoólica.
    Entre algum momento de paz e um susto nessa noite, vejo alguém se aproximar.
— Impressionante como eu sempre sei te encontrar.
— Impressionante como eu sempre estou aqui e você sabe. – Retruco mais em tom de reclamação do que expondo um fato.
— Você não muda mesmo.
— Se é um incômodo, eu não me preocupo em deixar você ir embora. – Eu automaticamente fico incomodada.
— Mais uma vez.
— Sabe, você pede indiretamente e eu penso “vou mandar esse pobre coitado embora de vez, e ele vai sem se sentir covarde”.
— Mas eu estou aqui, não estou?
— Acabou a bebida.
    Ele ri. Balbucia algo como “eu não estou aqui pela bebida”, mas se está por mim, só precisa mudar uma letra e acrescentar um acento circunflexo. Bêbada. Um adjetivo de fato reconhecido.  Ele diz que me vê por aí e às vezes acha que estou menos perdida que ele, diz que me vê fazendo as mesmas coisas e ainda vivendo, enquanto ele tenta sempre mudar e é como se estivesse enfiando a corda no pescoço. Continua o discurso suicida e quem quer morrer sou eu. Esse é um dos motivos pelo qual o deixei para trás certa vez e disse para não me procurar. Na verdade, esse é um dos motivos pelo qual deixei o mundo todo para trás. As pessoas estão insatisfeitas a todo instante e acham que todo semelhante insatisfeito pode sentar e ouvi-las. Eu não quero ouvir ninguém. 
   Eu levanto meio torta, meio cambaleando, talvez eu tenha tropeçado. Jogo a garrafa na direção dele, vejo-o se afastar rapidamente e dizer que sou louca. Eu dou risada dos cacos espalhados. Ele repete mais umas quatro vezes a última afirmação. A afirmação de sempre. Eu gostaria de ter acertado sua boca, mas só neste momento, pois ele tem uma boca bem contornada que não deveria ser desperdiçada, e eu tenho que superar isso de gostar tanto dessa aparência. Desacostumar esses olhos.
    Eu começo a me afastar, mas ele se aproxima novamente e diz que sente tanto, tanto, tanto minha falta. E eu me afasto mais por causa das repetições exageradas, eu odeio tanto, tanto, tanto quem precisa de tantas, tantas, tantas palavras para dizer algo. Então continuo caminhando, talvez eu tenha gritado algo ofensivo sem perceber, ou tenha feito algum discurso sarcástico, às vezes perco a sintonia do que faço e penso que faço, e volto a andar para a direção de sempre. A direção do bar. Mas sei que em algum momento daquela semana, vou repentinamente lembrar o caminho da casa daquele que me chama de louca e vou bater na porta, entrar, esperar ele me expulsar outra vez. Vou encontrar a rua dele como quem encontra mais um cigarro no maço e sem pensar o acende, apenas pelo hábito, apenas pelo vício.









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quinta-feira, dezembro 18, 2014

Sobre julgamentos

    Eu seria melhor se não quisessem enxergar somente meus erros, mas o que sou acima deles. Eu seria melhor se escutassem o que penso e não julgassem o que faço. Eu seria melhor se não listassem a consequência, mas prestassem atenção no discurso de intenções. Não seria melhor para mim, pois o presente é o que me convém, seria melhor para quem tanto diz, para quem aponta e acusa, para quem gasta algum tempo desperdiçado dizendo que não sou boa o suficiente. Eu seria melhor se engolissem o orgulho, eu seria melhor se escolhessem outro lado para observar. Mas preferem ver aquilo que enriquece a tão engajada carreira de criticar, negativar e olhar com desdém.

Flávia Andrade
   No meio dessa gente que divide uns minutos com você, no meio dessa gente que passa ao seu lado despercebida, no meio dessa gente que sabe agir normalmente, no meio dessa gente que não perde um pouco da respiração e nem bambeia as pernas, no meio dessa gente que não planeja mil diálogos para no fim só acenar de longe e abaixar a cabeça, no meio de tudo, eu. Que você não oferece tantos minutos, não percebe muito, que não te sequestro ações, que não te dou uns efeitos, que não te faço elaborar frases repensadas, que não aceno direito, fica sendo aceno para o ar e você nem vê. E no meio dessa gente eu dou um grito em silêncio para você notar, eu corro em um passo vagaroso para acompanhar sua paciência, eu me aproximo como quem se distrai só para saber se você olha. Enquanto no meio da gente do meu mundo eu procuro em todo rosto aquele que não posso ver a cada minuto, eu busco você. E você é sempre um novo alguém para um coração turista como o meu, então entre toda essa gente, eu amarei mais que uns, acenarei muito, acompanharei vários passos, no meio dessa gente deve ter alguém que fique.

— Flávia Andrade



terça-feira, dezembro 16, 2014

   Em algum canto ficou esquecida aquela calma para iniciar assuntos, para falar um pouco sobre a própria vida com a mera intenção de ouvir mais histórias de quem lhe escutava, em algum tropeço deixou a intensidade de olhar para aquele alguém, de se lembrar da falta que trinta e dois minutos sem a presença lhe fazia. Em tantos rostos que repousou um sorriso enquanto, por hábito, ia para o mesmo lugar encontrar seu alguém, talvez tenha deixado mais do que deveria e por um dia de descuido, chegou sério. E entre os desencontros, as horas tantas desmarcadas, entre os atrasos e as explicações, perdeu o interesse em levar frases planejadas para roubar algumas risadas, alguns encantos. E de repente, para aquele alguém que não esperava, mostrou-se só a pessoa que era quando não tinha ninguém, que não pensava muito sobre nada, não elaborava tão bem o que dizia. Em algum engano abandonou suas vontades, o desejo de ficar mais um pouco, o agrado que tentava causar. Em alguma reclamação de cansaço, deixou de vez o esforço para trazer aquele alguém para perto e sem querer tanto, deixou-o, ao poucos, partir. E em um ponto específico, onde nunca tinha ninguém ao redor, onde era só, naquele único lugar que cabiam apenas dois pés percebeu: nos cantos onde foi deixando tudo para trás, deixou o que mais tinha importância em sua vida, perdeu aquele alguém.
— Flávia Andrade



Te des(espero)

   Não tenho certeza se há um espaço para mim deste lado, talvez você tenha se esquecido de deixar indícios de que ainda posso visitar. Não sei se a sua vida continuou e mudou muito, ou só a minha que permaneceu do mesmo jeito – e um pouco mais parada. Só não quero acreditar que o contraste é o mesmo: nós juntos, mas com mentes e corações distantes. Só não sei me concentrar nos passos se não ouço você dizer que posso voltar. Só não sei ficar tão muda, tão sumida, se a todo instante tento planejar um jeito de errar o meu caminho e acertar o seu. Não é tão certo que ainda tenha algo a me oferecer, ou algo que me possa negar, só não quero fingir mais uma vez que tanto faz. Não tenho certeza se ainda espera mais uma palavra, mais um texto exagerado, mais uma música cabível, mas eu estou aqui com todas essas coisas aglomeradas repetindo em mim, a cada minuto, para que de alguma forma te alcance. Para que, se caso você errar o caminho também, ouça a música aqui dentro, uma quase desesperança.
— Flávia Andrade



sábado, dezembro 13, 2014

Aquele que ficou para trás

   Aqueles dias que eu não esquecia, que me seguiam segundo a segundo por todas as vezes que eu tentava não lembrar, agora estão distantes. Pouco recordo das palavras ditas, se era terça ou quarta-feira, não sei mais quem chamou, quem errou primeiro, quem foi embora mais cedo. Esqueci que roupa vestia, esqueci de gostar tanto dos defeitos, de ver como tudo parecia tão bonito. Agora só vejo o que era e de longe, de outro patamar, com olhos diretos, sinceros, descobertos, agora só penso: quanta inocência.

— Flavia Andrade

sexta-feira, novembro 28, 2014

Olhos vermelhos

   "É uma nova embriaguez. Meus olhos coloridos de um pouco de sono e muito riso àtoa. Eu estive tão cansada, meu bem, foi tão difícil lidar sóbria com toda essa gente que não escuta, eu estive levando caixas de desaforos para a casa, arrastando-as por correntes amarradas nos tornozelos, deixando marcas nas ruas onde passei, os pés encravados no caminho ruim. Mas voltei para aquela rua nossa, a rua sempre minha, para a direção do bar.
   Eu estive pensando em você, meu bem, querendo a cada segundo correr para te abraçar. Dessa vez eu não pude correr, as pernas entrelaçavam enquanto eu ria de tanta coisa, mas cambaleando torta eu fui até você e senti seu corpo com a mesma intensidade que senti saudade nos últimos meses. Eu olhei para você, meu amor, para que visse a cor nos meus olhos de novo, eu estou de volta, com mais garrafas, mais álcool, mais de mim. E eu sei que você não vai ligar se eu cair aqui no sofá, sei que entende a despreocupação sobre o resto do mundo, sobre o que somos nós. Então eu deito aqui e penso nas nossas músicas, não lembro como canta.
   Amanhã, meu bem, a gente levanta, prepara um café, canta a música que não lembro agora, e a gente vai ser feliz. É uma promessa de bêbado, promessa pensada e repensada sóbria, promessa que escapou porque estava transbordando lá no fundo. Aliás, pode encher mais esse copo."

— Flávia Andrade

quinta-feira, novembro 27, 2014

Sobre te encontrar

"Se diz, no meio do silêncio, como quem não quer nada e com poucas palavras, se diz que vem, o desequilíbrio me apropria. Resta pouca noção de tempo, somente foco para o dia que avisou e não penso mais em nada. Se diz, sem rodeios e discreto que o mundo lá fora não é tão importante e que prefere nós dois como protagonistas, se diz que estaremos bem quando vier, então cautelosamente me equilibro para te esperar"

— Flávia Andrade

quarta-feira, novembro 19, 2014

Dois traços azuis

Desculpa a demora, eu não tenho mais respostas. Eu culparia o mundo, mas já o culparam por mim. Eu te diria para esquecer, mas sei que esse pedido só faz lembrar. Estou dando uma pausa, mas não dura muito até chegar outra pergunta. Eu pediria um conselho, mas dessa vez é sobre você. Agiria sem pensar, mas já foram muitas noites mal dormidas pensando tanto. Fingiria que não sei de mais nada, talvez realmente não saiba, mas tanta incerteza não prova e não move, ficaríamos parados nesse ponto de incompreensão. Eu pediria desculpa, mas sem saber o motivo. Por enquanto, perdoe somente o silêncio. Eu te escreveria um texto (e talvez já tenha escrito), mas falta coragem. Espero mais um pouco, mais uma semana ou um mês, como se isso fosse sumir. Desculpa a demora, pode ser aviso para que não digamos coisa alguma.

— Flávia Andrade

quinta-feira, novembro 13, 2014

Um pouco de calma

Entre a despedida e o pedido para ficar, entre quem muito ainda queria e quem desistiu há semanas, havia tamanha preocupação. Era tarde para um, cedo para outro, mas quando os horários se reajustassem, como saberiam lidar sozinhos? 
Quando os lados fossem opostos, para quem tanto viu um no outro o futuro, para onde seguiriam? 
Entre dependência e auto suficiência, através de uma proposta silenciosa, andaram para seus novos rumos.
Se fosse realmente boa aquela liberdade, se fosse verdadeiramente tão dolorosa aquela solidão, se não lhes restasse saudade, se não lhes sobrasse prazer, que os ventos entortassem, que não necessitassem mais de acaso, voltariam com certeza imediata de que entre o fim que um sugere e o início que outro implora, tem um meio que não requer coisa alguma, simplesmente existe e se faz presente dentro deles.
E entre o silêncio lá fora e o tumulto no âmago, decidiriam o que discussão nenhuma poderia concluir.

— Flávia Andrade

terça-feira, novembro 04, 2014

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Não ando mais de olhos fechados. Ando observando à frente tudo o que posso trilhar e o que o olhar alcança. Não ando somente sem saber, ando para descobrir. Não digo que aquele amor acabou, mas não vou se não espero tantos novos. Na verdade, eu rumo para encontrar qualquer sentimento novo que textos não descrevam. E se eu corro não é por falta de tempo, é para ganhar sem desperdícios. O que faço agora é por ter decidido fazer diferente, é por ter confessado um erro e prometido acertos, é por querer não somente a fonte, mas rios, mares e oceanos de inspiração. O que faço agora é porque o que você deixou em mim foi pouco, foi ruim. Eu ando para jogar fora esses restos e me renovar. O que faço agora é viver o que ninguém viverá por mim. 

Flávia Andrade

Eram quatro passos. Dois de cada um de nós e de cada vez para acompanhar o ritmo da música. O ritmo que você já conhecia, o ritmo no qual eu ainda tentava me enquadrar. Eram novos passos que aos poucos se entendiam, dançavam sem noção de tempo. Nossa dança era um abraço seu em mim, um recato meu pesando em seus ombros, uns minutos a sós para nossas desavenças. A música era condição para que ficássemos quietos, mas qual a condição para te fazer ficar?
Era um esporte novo, você corria e eu me escondia, desconhecia as regras, achava que você viria procurar. Era muita invenção de cada um, eu elaborava uma novela nossa, você achava que era o de sempre com qualquer pessoa. Para mim era infinito, para você era só agora. Talvez nem fosse nada.
Mas quando estávamos no salão ou em quadra. Quando era a mesma função aos dois. Quando podíamos fazer o que sabíamos, era uníssono o que não dizíamos. Era só aquilo que acontecia e não tinha teimosia minha ou enfrentamento seu. Era simples, mas somos seres complexos. Assim, deixamos coisas desentendidas, coisas subentendidas, algumas subvertidas e quando a música acabou e o jogo terminou, só fomos cansados para casa e tomamos alguma coisa antes de dormir. Só seguimos sem som, sem torcida, sem ânimo. Fomos fazer o que fazíamos quando ninguém via, quando estávamos sozinhos, afinal, era somente como sabíamos estar.

terça-feira, outubro 28, 2014

Ao que me falta, paciência. Ao que me resta, bom aproveito. Ao que me sacia, apego. Ao que me desagrada, desdém. A quem não gosta de mim, um sorriso. A quem nem gosta ou desgosta, não importa, um beijo a quem me faz bem. Aos problemas, uma piada. Aos desentendimentos e às brigas, uma cama para dormir. Aos fins, inícios. Aos inícios, fé. Ao amor, um brinde. Ao resto, sossego. A tudo o que quero, coragem e ao que não quero, força. Às vírgulas, aposto. Aos pontos, reticências. Ao tempo que me sobra, festas. Ao tempo perdido, aprendizado. A cada momento, boas lembranças!

Flávia Andrade

terça-feira, outubro 21, 2014

Pensei em tudo o que você deveria ser e assim ser para mim. Em tudo o que deveria acontecer para a gente acontecer também. Em toda frase que deveria dizer para eu compreender e responder o que você espera. Pensei tanto que eu vi outras duas pessoas, um mundo distante, outra relação, não tinham nada de nós e por isso eram perfeitos.
Pensei no que eu diria quando chegasse, em quem eu mostraria ser quando você me visse, como gesticularia com as mãos para que você entendesse melhor. Calculei o tom da voz, o tanto de "me desculpe, mas...", a quantidade de fatos e toda a explicação. Pensei tanto que estava em outra galáxia quando você repetiu meu nome pela quarta vez: você está bem? Quer uma água? 
Percebi que você não sabia, nem ao menos, o que me oferecer. Percebi seu jeito que é só pra você, ninguém pode invadir. Fiquei muda pensando e regredi os passos. A história toda se passou na minha mente e eu não tinha sinopse para mostrar.
E eu ainda penso: a gente se contradiz mais que discurso político, argumentos sem fatos e amor eterno declarado em rede social. Penso que cansei de ficar mais um pouco quando já não quero mais, que não gostar de gostar tanto não faz mais sentido.
Pensei tanto que vou embora para longe de três pessoas: você que é você, você que eu pensei que fosse, eu que você pensou que eu fosse. Vou embora comigo mesma, eu que sou eu, assim: não olho por onde ando, vou pensando, sendo meio desajustada, sendo melhor sozinha.

Flávia Andrade

quarta-feira, outubro 15, 2014

Eu percebi, no meio de toda aquela gente dançando animadamente, que você seria o único a ver que eu queria levantar da cadeira e dançar também, mas não sabia. Eu percebi, entre tanta gente resolvida e independente, que você seria o único a vir dizer: eu te ensino. Na confusão de pensar tanta coisa sobre aquela hora, meio que sem querer, caiu a ficha de que você me veria tão pensativa e me tiraria daquele lugar. Entre o tumulto dentro do salão e o vazio dentro de mim eu vi que só você se adequava a tudo, aos dois: ao salão e a mim. Eu deixei meus pensamentos irem até você sem me esforçar, a saudade veio sem pedir autorização. Vi que eu precisava correr dali para algum lugar e só conhecia o caminho da sua casa, vi que precisava conversar com alguém e seu número seria o único a atender naquela hora da madrugada, vi que eu não tinha escapatória de todos os seus efeitos, vi que eu tinha tanta coisa para contar e só você teria paciência para ouvir, vi que eu queria chegar em algum lugar seguro e dizer o quanto custou para que eu percebesse todas essas coisas. Então, entre a sanidade momentânea e a loucura acumulada de tantos dias sem você, eu segui o caminho de sempre, o único que sabia de cor. Eu cheguei e disse: pode me ajudar a dançar, por favor?

Flávia Andrade

domingo, outubro 12, 2014

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Eu iria dar ao domingo uma trégua. Um tempo dos tédios infindos, das reclamações sobre a vida, de receber visitas inconvenientes como prêmio por ter passado o dia dentro de casa sem ter feito nada, um tempo de mais do mesmo, do de sempre, da rotina. Mas ninguém veio, nem ligou, nem você para dizer: vem aqui qualquer hora. E quem sou eu para ligar? Eu com toda essa lista que não se acaba na mente fazendo prós e contras para me arriscar, duvidando da certeza de que amor é incerto e que não adianta teimar em fazer de um jeito só, pois no fim é tudo errado e a vida só é válida para as pessoas errantes. Quem sou eu para sair dessa comodidade para dividir meus hábitos com alguém? Eu que estou em toda essa vida teórica dando regras ao que ainda não aconteceu, procurando sequência de atos como se eu vivesse numa novela trágica. Quem sou eu para fingir ser normal perto de quem deixa as coisas no lugar? Eu que não gosto de arrumar minhas bagunças, eu que tumultuo a própria mente, eu que nunca sei onde estão as chaves, o celular e a coragem. Eu iria dar a mim uma trégua. Um tempo desse pessimismo, dessa loucura de pensar oito mil vezes antes de dar meio passo ao contrário, dessa mente fervilhante que diz: mas e se?. Um tempo de talvez, de será, de não sei. Mas quem é que condiz com o que planeja? Então começa tudo de novo e eu espero você dizer: você é sempre tão assim e até que eu gosto.

Flávia Andrade

sexta-feira, outubro 10, 2014

Repare nos olhos. Nesses olhos que olham para outra direção. Nesses olhos que ficam sem cor quando você chega. Nos olhos que procuram escapatória em outros lados. Olhos que não querem te encarar. Olhos perdidos, mas curiosos. Olhos indecisos, mas ainda ressentidos. Repare nas pernas trêmulas, nas mãos inquietas, repare em todos esses gestos enquanto você proclama mais um discurso e esquece de ir embora. Repare no olhar que procura alguém que me salve. Nesse olhar sem endereço para ir. No olhar que não quer dizer nada, mas se entrega aberto. Repare nos cílios, sobrancelhas, bochechas, repare em toda extensão. Veja que não sou mais a mesma, veja que você me desestabilizou, veja que nesse novo alguém nada (além dos olhos) te reconhece, repare que sua voz pode persistir, seu perfume pode impregnar, mas ainda não sei te ver. Repare nos olhos culpados que já viram tantos risos nossos, repare que eles sentem saudade dos seus. Repare que meus olhos, vez ou outra, fecham uns instantes e lembram dos seus que se fecham quando você ri. Repare que o tempo para se você chega com audácia e encara esses meus olhos cansados, exaustos por todas as lágrimas que você causou. Repare que você é um peso grotesco para olhos tão sensíveis. Repare que se você chegar não pode estar tão próximo, não pode olhar tanto. Repare disfarçadamente, de canto de olho, repare com um olhar roubado esse meu olhar despertencido.

Flávia Andrade

segunda-feira, outubro 06, 2014

Desencontrados

Eu gostava de esclarecimentos e você não gostava de se explicar, as coisas tinham lugares específicos em nossas vidas e não poderíamos interferir no caminho um do outro. Eu era apaixonada por frases diretas, você era apenas um viciado em entrelinhas. Eu buscava amor em gestos, você buscava em outro mundo porque nossa realidade não era o suficiente, tínhamos rumos traçados, mas ainda estávamos parados no mesmo lugar. Éramos iguais na falta de coragem, nas atitudes acorrentadas. E quando eu disse para você ir, era somente o que faltava, saiu andando pra vida que achava merecer. Eu adorava esses desencontros, não sabia que um dia eles te cansariam tanto, talvez eu insistisse menos em discordar, mas você foi embora e nós fomos um dia um pronome só. 

Flávia Andrade

quarta-feira, outubro 01, 2014

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Bem-vindo, outubro

Tenho dito: um mês só é bom quando as expectativas no primeiro dia são ruins. É como quando você diz: nunca mais, e no outro dia acontece de novo. Quando você desiste de procurar algo e isso aparece na sua frente repentinamente. Quando cansa de buscar alguém para amar e mesmo assim se apaixona. Quando tenta mudar e faz tudo igual. 
Silêncio sobre esse mês, ninguém comenta, ninguém espera, só acontece e daqui uns dias acaba.

Flávia Andrade

segunda-feira, setembro 29, 2014

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Mata a saudade no sufoco, quando as imagens já não se formulam exatas na memória, cria cenas novas, algo melhor para um futuro distante. Perambula pela casa, o perfume lá fora de um desconhecido tem cheiro que rouba os sentidos da pessoa de dentro. Alguma voz repetindo na mente, misturada ao trânsito da avenida, é aquela coisa nostálgica de quando saíam juntos: o silêncio tímido e o mundo conversando por eles. Sente falta do que não quis ter, mas agora quer e se arrepende. Sente falta do som que odiava, mas que de longe tem melodia boa. Sente falta do exagero e do pouco, quase inexistente, de detalhes que não notou anos atrás. Sente falta de algo que lhe preenchia sem querer, de um quebra cabeças ao qual não deu atenção.
Mata a saudade nos caminhos em que passaram, anda tudo novamente e ri do que não achou engraçado de primeira, chora da despedida que não foi tão trágica na hora, percebe a falta que foi avisada que faria, vê no fim o que deveria ter sido seu no começo.

Flávia Andrade

quinta-feira, setembro 25, 2014

terça-feira, setembro 23, 2014

A Grande Espera

    Chega tarde, não tem bancos, senta-se na grama com formigas e alguns receios, tais como ver alguém passar. Algum conhecido, velho amigo, decepcionador. A mente ainda não se desligou, a caminhada foi longa em busca de paz, mas ainda pensa em outras semanas, pensa sobre aquele dia mais cedo, o almoço, hora de ir para casa, se alguém vai aparecer e notar, se reconhecerão as mãos escrevendo apressadas no caderno novo e caneta roubada, pensa se alguma coisa chegará para preencher o que tem vivido. A vida nunca parece boa o suficiente, quando o ano se desenrola e as metas feitas na virada antes dos fogos não se realizam, quando o acontecimento que parecia um sonho excepcional não é tão grandioso assim.
    O lugar não tem bancos, mas tem folhas bonitas, amassadas no chão, é primeiro dia de primavera, mas algo diz que a estação nada tem a ver com o céu, estão descompassados. A cena não soa tão estranha, seu corpo está em um localzinho da infância realizando a rotina: escrever. Tão cotidiano como esperar uma mudança.
Flávia Andrade

Não demorará muito, prometo. Mais alguns dias de nada, mais uns dias de "que diabos estou fazendo com a minha vida?", mais dias de "eu não faço a menor ideia", poucos outros de fuga, incontáveis imprevisíveis. Dias rápidos, vastos ou vagos passarão num piscar de olhos, não alcançarão o próximo ano, com sorte, nem dezembro. Leva tempo e o tempo se leva sozinho, você apenas vive o que uma decepção traz e a espera partir, sem táticas e planos, passa porque a vida tem mais a oferecer. 

Flávia Andrade

domingo, setembro 21, 2014

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Eu vou nessa viagem só. Música ensurdecendo enquanto o mundo lá fora nada ouve. Pouca bagagem, sustentos para um. Estrada só de ida e de mão única. Desconheço o caminho, a chance é exclusiva: desvendá-la. Dentes-de-leão serão libertos por só e tão somente meu sopro. Não aprendi, mas consertarei os problemas que ocorrerem no veículo, talvez eu precise apenas juntar peças. O grito, no vazio, é só meu, voz que ofusca qualquer cantor no som. Podem ser até guitarras e assovios. Não há procura, meus olhos não buscarão outro alguém, seguirei em frente sem desvios de atenção. Vou só, coragem acumulada e vento no rosto. Vou, mãos firmes e pés dançantes, ensaiados. Vou, há muita beleza nesse caminho.

Flávia Andrade

Foto: Eu vou nessa viagem só. Música ensurdecendo enquanto o mundo lá fora nada ouve. Pouca bagagem, sustentos para um. Estrada só de ida e de mão única. Desconheço o caminho, a chance é exclusiva: desvendá-la. Dentes-de-leão serão libertos por só e tão somente meu sopro. Não aprendi, mas consertarei os problemas que ocorrerem no veículo, talvez eu precise apenas juntar peças. O grito, no vazio, é só meu, voz que ofusca qualquer cantor no som. Podem ser até guitarras e assovios. Não há procura, meus olhos não buscarão outro alguém, seguirei em frente sem desvios de atenção. Vou só, coragem acumulada e vento no rosto. Vou, mãos firmes e pés dançantes, ensaiados. Vou, há muita beleza nesse caminho.

Flávia Andrade

quarta-feira, setembro 17, 2014

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Um filme

Escreve, apaga, escreve, risca, escreve, amassa, escreve, desiste, escreve, cansa, escreve, cria, escreve, persiste, escreve, copia, escreve, ouve, escreve, diz, escreve, arrepende-se, escreve, respira, escreve, enlouquece, escreve, ensurdece, escreve, dança, escreve, ri, escreve, pensa, escreve, chora, escreve, esquece, escreve, inventa, escreve, anuncia, escreve, pede socorro, escreve, foge, escreve, volta, escreve, não está, escreve, é outro, escreve, perde-se, escreve, reage, escreve, desencoraja, "escreve" vira uma palavra feia, as palavras perdem a magia, escrita descolore a vida, escreve outra vez, escreve enquanto ouve música, escreve o que está dentro de si e ouve o que esteve em outro alguém, escreve como quem chega atrasado no encontro marcado, escreve como quem pede a bebida mais fraca e acaba com os piores efeitos, escreve como quem morre, escreve para viver. Viver na loucura, escreve porque é insano, perdeu carteira, chaves, amor, escreve porque dizer não dá resultados tão bons, escreve porque frustra, escreve para trazer um problema à tona e compreender ao fim, escreve, pois decidiu, escreve por ter indagações, escreve por silenciar, escreve porque a mente grita, escreve o que estará em sua lápide, escreve cartas ao passado, escreve o inexistente, "escreve" é uma palavra bonita outra vez, escreve sem pontos finais, escreve sem fim, escreve porque predomina o vocabulário, escreve sem ações, escreve movendo cada parte de si, escreve porque é humano, escreve por pensar ser alguma coisa ainda não descoberta, escreve por saudade de escrever, escreve por rotina, escreve por paradoxo, escreve porque ama hipérbole, escreve sobre escrever porque assim não intimida, escreve sobre o que não incita a guerra no coração de outro alguém, escreve controlando o desassossego, escreve para ter paz, escreve sem perceber.

Flávia Andrade

quinta-feira, setembro 11, 2014

quarta-feira, setembro 10, 2014

Reconsidera a conversa antiga entre uma bebida e outra. Quanto mais embriagada a cara, mais infernal a lembrança. Aumenta o nível de agressividade no diálogo para ver se com o coração desolado desiste de voltar atrás. Machuca-se propositalmente com a repetição mental de palavras mal ditas, nem tem certeza se foi realmente dito ou já misturou com auto conselho vulgar. Pede a conta, cansa de estar parado, sai do local, anda dezesseis ou dezessete quadras, continua sem rumo, sem resposta, sem coragem, volta para a casa, deita, dorme, amanhece, vai para o trabalho, finge que a vida é só aquilo, anoitece, pensa em desaparecer, imagina a burocracia de deixar tanta coisa para trás, desiste disso também, cansa de tentar fazer algo que mude, volta para a casa, liga a televisão e decide ignorar o tempo. São efeitos de uma pessoa e muitas bebidas, são coisas de qualquer vida alheia.

Flávia Andrade

segunda-feira, setembro 01, 2014

Olá, setembro

Outro início de mês. Acordo tarde, rejeito café como venho rejeitando álcool há uns dias, coisas velhas estão maçantes. Ouço uma conversa no ônibus, a velha com cheiro de cigarro diz que vai largar o vício e a outra, que pouco se importa, diz que é charme, que ela fumará um maço na primeira oportunidade. Sinto que por todos os lados do veículo os assuntos giram em torno de um só: setembro.
As pessoas me forçam a pensar em mudança, mas não quero mais mentir. Em janeiro eu não me importaria com o que os outros dizem, em fevereiro prometi que não me estressaria por coisa pouca, em março eu não ligaria, em abril não mandaria mensagens, em maio não criaria mais expectativas, em junho não ficaria vagando por aí esperando encontrar alguém, em julho não choraria mais, em agosto eu iria superar. Fiz tudo ao contrário e errado, acumulei promessas não pagas e falsos recomeços. Pensei: para setembro não quero nada. Mas já penso no que fazer amanhã, em como lidar com um diálogo e um encontro que ainda não aconteceu. 
As pessoas pensam tanto no futuro e sufocam o presente. Eu vou junto, mas trago todo o passado comigo, não sei deixar nada para trás. 
Volto para tomar café, sei o número de cor, não lembro mais o que planejei dizer, e não sei se ainda tenho rancor daquele alguém. Desisto de planejar, penso: o dia vai virar, eu estarei onde pertenço e ninguém sabe o que pode acontecer, eu não controlo nada, não sei manipular. Então vou observar o céu e seja o que setembro quiser.

Flávia Andrade

domingo, agosto 31, 2014

Sem explicações. Avisto-o, levanto-me e vou para casa, não me despeço dos outros para a saída não ser dramática. Sem demora, ao chegar há somente o vazio, sem tristeza desmarco encontros para que não tenha desencontros, desfaço o que poderia ser certo antes que seja errado. É solidão? Talvez, mas considere o cansaço de sofrer. Sem sossego, sem paz de espírito, sem calma, porém em um retrato falho onde tudo ficou branco: quem vê, nada vê. Sem passos e gritos bêbados, apenas a sobriedade que tenta se auto compreender.
Mais alguns minutos, esforço-me para aprender novos estilos de poesia, outra receita, datas que não decoro. Até que acontece: ouço-o partir e volto ao que também é meu. O canto ficou pequeno para tudo o que houve e a plateia também o lota. Chego de mansinho, pedindo perdão em silêncio, compreendam minha calma, não há mais choro, quando ele chegar outra vez eu vou embora.

Flávia Andrade

quinta-feira, agosto 28, 2014

Sou. Oscilando entre quem fui e quem serei. Sou. Duvidando entre o que pensam e o que planejo. Sou. Permitindo o que aconselham e o que rejeitam. Sou. Sem mais, nem menos, sou entre metades, nem por inteiro, nem faltando ou restando, sou na medida do possível. Sou sem saber quem sou, incerteza imediata a cada amanhecer, arrependimento existencial a cada ressaca, sou quem não quis e não quero ser, mas o que posso.

Flávia Andrade

terça-feira, agosto 26, 2014

Perdoa a loucura de querer tão fácil um alguém que simplesmente diz coisas bobas. Perdoa o apego imediato por quem sorri sem motivo. Perdoa por me arriscar tanto numa frase mal planejada apenas por medo de não ser o suficiente, por mais que o exagero seja pior. Perdoa o clichê disfarçado de ironia, perdoa os caminhões de desejos que despejo em cada novo alguém. É essa intensidade momentânea que preenche meus dias, traz segurança em meio a tantos medos de nunca amar ninguém.

Flávia Andrade

domingo, agosto 24, 2014

Não sei te odiar, meu amor não vira repulsa. Se me fez chorar um dia, as lágrimas que já caíram não voltam mais. Se me fez cair, não tropeço mais naquele chão e nem o acuso. Apenas sigo um caminho diferente que talvez tenha obstáculos também, mas as quedas me trouxeram coragem. Também não deixarei de amar qualquer outro alguém por medo de sofrer, eu quero que dê certo um dia. Vou embora quando você chegar, pois já foi caos o suficiente, vou olhar só para os novos, para quem merece boas emoções.

Flávia Andrade

sexta-feira, agosto 22, 2014

Meu bem, nós somos tantas canções e palavras oblíquas. Lembra aquela que diz "nós dois temos os mesmos defeitos", pois então, você aponta os meus e justifica os seus. "Eu levo a sério, mas você..." desgraça, meu bem, você desgraça toda a graça de gostar de alguém, gostar de você. Desculpa se estou sendo repetitiva, sabe algo que repete mais ainda? Nossa história. Nem deve saber, pois eu que me sofro de matar por aqui, pois se disser que me mato de sofrer você reclama da melancolia. Não posso nem ser triste, pois você é infeliz com o próprio azedume e se recusa a ver outrém no mesmo entulho de ruindades.
Mas eu estive aqui, meu bem, como aquela menina do Renato Russo, "era quase escravidão, mas ela me tratava como rei". Juntei cada desaforo e voltei todas as vezes, voltei pra me reconhecer, voltei pra te rever. Tantas voltas que você viu, mas não olhou para as idas. Disfarçou, fingiu, mentiu para nós. Tudo bem para você, certo? Afinal "nós" nunca existiu. Só uns momentinhos em cantinhos da sua vida. Nunca foi de verdade, nunca te roubou da realidade, foi meio termo, morno, aquilo que fica uns minutos e depois não faz falta. 
Mas, veja bem, sinto lhe informar que na minha vida isso, esse nós inexistente, preencheu todo o espaço que estava vazio naquele tempo, não foi uma visitinha, acampou, fez morada, construiu um prédio. Agora tá aqui, não consigo derrubar e destruir. 
Mas sobre o que eu estava dizendo? As canções, tenho mais uma para você, essa é segredo, não escutarei tão alto, não cantarei ao seu lado, essa é pra te esquecer.

Flávia Andrade

sábado, agosto 16, 2014

Não sou uma cena, um encontro, uma situação. Não sou palavras de outra pessoa, histórias de um inventor, confissões de um mentiroso. Não sou o que se vê em duas horas, nem três dias. Não sou primeira impressão e nem última, não sou o que se vê. Sou emoções a flor da pele, intangível e introspectiva. Não sou quadro, poesia e nem trecho de música, minha vida até pode ser um seriado, uma comédia dos 90, mas não me veja de uma maneira só. Não tente nem ver, não encare para não perder os outros sentidos, não procure o que não se esconde, apenas não se mostra. As manias são intrínsecas, mas a avidez de não ser uma só é muito mais, não pense que um camaleão tem uma cor só. Eu sou emoções e momentos, sou instantes e tempo perdido. Deixa acontecer, deixa eu me ser.

Flávia Andrade

Não há medo para que vejam minhas superficialidades e maldades, não temo que acreditem na invenção de outrém, que ando relaxando e morrendo por aí, talvez matando, manipulando, sendo ruim. Mas aqui dentro, quem em mim escreve outra história teme mostrar a felicidade sincera, não diz nunca que ama e que sente, sente muito por cada um, que sofre e chora, que tem tantas preocupações, não quer que desvendem a ilusão além dos personagens. Tem medo de se mostrar sensível, vulnerável, prestes a desabar, mas é tudo o que é.

Flávia Andrade

quinta-feira, agosto 14, 2014

Mais uma tentativa. Respiro fundo, penso nas garrafas vazias, na casa vazia, no copo vazio, na mente cheia. Parece que tenho só mais uma chance, gosto de lidar sob pressão: agora ou nunca, mas sei que tenho o resto da vida para fazer o que tenho que fazer. Bato o pé por birra ou charme, porque tem que ser agora: um texto que não seja para você, um indício de superação, um "deixar para trás". Mas olha, já está indo em sua direção, já virou uma indireta que faz curva, passa por chuva e chega despedaçada ao seu endereço.
Mais uma vez, escrever é simples, amar é complicado, escrever amando é um inferno. Mas amo também o inferno, a loucura de sentir e transformar em palavras desencorajadas. Gosto de pensar naquela rua, são tantas ruas, tantas histórias, mas uma delas só tem você. Assim como meus textos e as músicas que ouço, e as músicas que você ouve, e as músicas que tocam naquela rua, e os filmes que assistimos, as novelas que odiamos, tudo é você.

Mais uma chance. Andei o quanto quis, não cheguei onde planejei, mas tentei. Tentativas são certezas de falhas, caso contrário não seriam plural. Quase atropelada por um carro, com fome, sem lágrimas, desnorteada, vilipendiada, com uma palavra nova no vocabulário, palavrões velhos em grande uso, lembranças misturadas com expectativas futuras quebradas, mas tentei. Andei para outro caminho, quase uma estrada, só não tinha destino, era sem fim. Mas eu pensei: vou voltar, sei bem lidar com isso, sei ter fim, vou escrever mais um texto e não vai ser pra ninguém.
Só tentei.

Flávia Andrade

Com tantas cores quem é suficientemente acomodado na escolha de enxergar somente o preto e branco? Podemos nos conformar com risco no carro, maquiagem borrada, amor não correspondido. Mas por qual razão se conformar com a tormenta da melancolia? Quem pode ser monotonia ambulante?
É muito desperdício para os outros lados, estradas, rumos. São esnobes com as oportunidades aqueles que não se deixam levar por acasos, não tem, ao menos, o prazer de às vezes errar a direção. Seguem reto. 
Considere a vida toda uma literatura: Linhas retas estão aqui para serem escritas com suas fontes e tamanhos diferentes, o vazio delas nos convida para quebrar regras, sair da margem, apagar e até rasgar (se for o caso vândalo inocente). Linhas retas não merecem ser seguidas como são, precisam de mudança, letras desajeitadas, rabiscos espontâneos. 
Tudo tem milhares de opções. Por que estamos sempre aproveitando uma única e igual? Somos podres e desastrosos se somos assim. Não somos suficientes para nós mesmos, precisamos ir além.

Flávia Andrade

sábado, agosto 09, 2014

Daqui, um pouco longe, algumas vezes por semana, raramente em dia de chuva, disfarçadamente (e falha), observo-te. Olho como quem te espera, escondo-me pois não sou quem você procura, sou sombra de outro alguém melhor. Mas paro e fico a espiar você e o dia que vem vindo, o dia em que o vento soprará seu perfume só pra mim.
Mas em outros dias, bem de perto, quase nunca, principalmente no frio, olho-te nos olhos como quem te deseja, você vê, acredita e é recíproco, então os outros dias em que somos do mundo não importa, somos só de nós no meio desse vento gelado que alcança nossos rostos aquecidos.
São tantos os dias em que nada vai bem, enquanto os poucos dias que os olhos brilham são cheios de ego e relembram-se em cada choro dos outros. Eu mantenho você por perto por algumas horas e a alegria disso inunda o resto dos meses.

Flávia Andrade

   O braço não se deu a torcer. Nem foi culpa minha, são instintos, nada se move se você manda. Bati o pé, não sabe o que diz! Ouça-me, não é bem assim. Retruquei o quanto você aturou, sabe outra coisa? Eu atirava em seu lugar, matava logo essa menina impertinente. Mas descobriu a paciência aos vinte anos e é outro alguém, o alguém que eu amei e por te amar, não quis te deixar ir embora me dando conselhos tão bons. Então eu teimei, disse que não os seguiria, quem é você para saber mais da minha vida que eu? Nem quis permanecer. Você estava sendo bom, mas eu contei que foi muito ruim comigo. Severo? Até que é verdade, de resto eu menti, teve boas intenções sim. Mas cadê o amor que sentia? Quer que eu deixe para outros? Não é justo.
De uns dias pra cá, entre a saudade e o cansaço de sentir sua falta, entre o apego e o desapego, entre sua rua e a rua de outro alguém, eu me questionei: "por que é que não vou ser feliz como ele disse?". Então você passou sorridente, e meu braço não se deu a torcer, eu fingi ser feliz também. E de lá pra cá, isso virou verdade, seu poder sobre mim vem até de longe e eu sorri sinceramente pelo resto dos dias em que te esquecer foi mero detalhe.

Flávia Andrade

quinta-feira, agosto 07, 2014

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Aquieto a mente. Silenciosamente o coração para de gritar também. O mundo (que estava dando voltas e meias sem completar nenhuma) sossega. Esse momento, agora, é brecha para um dos infinitos que a vida tem.


Flávia Andrade

Não me tire da rotina de pedir: toca Raul, de dizer: mais um chopp, e de, sem querer, deixar escapar: quero te ver. Deixe-me na mesmice de cantar que sou metamorfose ambulante, talvez esteja mais próxima da mudança. Não me roube a ingenuidade de procurar malícia em tudo, não furte minha maneira desligada de caminhar, sou apenas mais um alguém que sonha com os pés no chão. Deixa a monotonia permanecer (se ela ainda for bonita), só me tire disso quando as escapatórias virarem casa e não restarem outros abrigos.

Flávia Andrade

segunda-feira, agosto 04, 2014

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Quando saiu de casa ainda tinha um foco e um rumo, veria quem tanto quis e nada mais interessava. Mas de uns minutos pra lá, quanto mais andava menos queria chegar, começou a sentir uma dessas coisas de não se sentir o suficiente, começou a se achar só uma gentinha sem jeito querendo cuidados de restos de outro alguém que se entregou pra uma pessoa mais sortuda. Parou os pés, acelerou a mente, nisso o choro veio e virou toda aquela cena de quem se arrepende de não ser o que planejou quando era criança. Coisas que acontecem quando se vive esperando muito e ganhando pouco. Que mal tem em ter o mínimo? Que mal tem em arriscar no máximo? Lembrou que tinha um bem muito maior em si e não queria sofrer por quem ilude. Relembrou que era mais forte do que imaginavam e foi, sem querer provar nada pra ninguém, para onde ria e ia sem motivos, sem esperanças, lá era certo que estaria feliz.

Flávia Andrade

quinta-feira, julho 31, 2014

Aquela que era livro aberto

Por mais erradas que fossem as palavras, dizia. Tirava de si, sinceramente, e permitia que soubessem. Tudo se espalhava com o vento, seus segredos não eram mais só seus. Mas ela ria, ironizava, deixava como estava, tentava se esvaziar. Preenchia ouvidos com suas histórias, esperava o momento certo, então levantava e ia embora deixando o pior de si. Não demonstrava o melhor, era muito para ela, era muito para eles, era raro demais para se ver, era precioso para se perder.

Mas ser como água, transparecer e revelar sua profundidade foi o erro maior. Foi montanha comparada aos tropeços em pedras, aos mal entendidos e acasos. Foi entregar permissão a quem não entendia, deixar que dissessem sobre o que não conheciam. Eles acharam que sabiam dela, dos problemas e receios. Empurraram-na para um precipício, disseram: você vai melhorar se arriscar. Mas ela só queria sossego, de tumulto estava exausta, a mente fervilhante já era bagunça o suficiente. Os conselhos eclodiram como se desde sempre estivessem ali guardados até se tornarem surtos amargurados de quem sente pena. 
Ela só e só voltou para casa, desistiu de ser aquilo, repensou quem era, foi se renovar com as pernas bambas, coração apertado e olhos marejados.

Flávia Andrade

terça-feira, julho 29, 2014

Término

Nesse incômodo todo, 
diz: - acomoda-me no olhar
apazigua a angústia
enquanto peço calma, 
diz: - aconchega-se no colo
pra sarar
Diz se é só o tempo frio
ou a relação também,
diz: - acerta o horário, já pode ir
Questiona se a chuva que cai
deixa lágrimas choverem também
diz: - ritma essa água toda que quero nadar até
(que você)
diz: - apareça

Flávia Andrade

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