segunda-feira, junho 30, 2014

quarta-feira, junho 25, 2014

Obrigada por estar aqui

    Eu posso escrever milhares de cartas e queimá-las para que ao menos a fumaça te alcance. Posso voltar correndo para a nossa casa velha – e agora abandonada e te procurar nos cômodos de cores pálidas, posso gritar seu nome naquele vazio, implorar por uma resposta. Posso rever as fotos e usá-las para cobrir a parede amarelada do meu quarto, desperdiçar essas semanas fitando-as e esperando que nosso abraço ou seu sorriso torne-se real novamente. Um mês para completar quatro anos que se foi e eu ainda não superei um dia sem sua voz me cantando músicas improvisadas e de rimas bobas – que me fizeram amar a poesia mais simples. Estive por todo esse tempo te buscando em detalhes, arremessando-me contra o chão, pregando os joelhos e rezando para te ter outra vez, nem que minha vida fosse o preço. Eu busquei a cada amanhecer uma sombra e senti sua falta nas noites de lua cheia. Quem dirá:
- Olha como ela está bonita hoje.     E me fará correr para fora para encarar a bola branca no céu?
    Eu fiz tudo errado. Eu procurei. Duvidei por dias e depois finalmente acreditei que realmente me deixou. Somente agora vejo que não faria isso comigo, não me machucaria de tal maneira e nunca se permitiria ser o motivo de minhas lágrimas.
    É noite, é a lua do sorriso brilhando lá de cima com você, ela ri de seu humor. Eu finalmente percebo que nunca deixou de estar aqui, assim como o dia e a noite, assim como a vida que me habita, a alma que me protege, assim como o Deus que me ilumina, estás aqui. Seus dedos estarão eternamente entrelaçados aos meus, seu abraço nunca deixará que o mundo me mate de frio e se eu ficar bem quieta, ainda posso te ouvir cantando. Eu poderia por séculos continuar com essa busca toda até que um dia percebesse – como percebi essa noite – que estás em mim.
   Nenhum universo nos separa. Eu te amo e amo a maneira como me cuida agora.

Flávia Andrade

quarta-feira, junho 18, 2014

   Vê como vo-cê. Palavrinha pequena poderia combinar com qualquer rima? Eu acrescento qualquer ê que a língua portuguesa proporciona e eu te encho de versos. Faço metáfora, sinestesia, hipérbole. Vê como eu. Tão só sobra em qualquer frase? Eu digo, mas só digo. Faço uma elipse e só. Ver como vo-cê. Deixa tudo otimista, mais cores, mais livre. Ver como eu. Deixa tudo pessimista, mais preto e branco, mais jaulas. Sabe uma figura de linguagem que poderíamos ser? Paradoxo. Eu aqui me comunicando cheia de eufemismo, e você no máximo uma onomatopéia. Vê como 'cê deixa tudo simples? Vê como deixo cada simples coisa complicada? Vê como eu arrumo e você bagunça? Vê como você tarde ensolarada e eu tornado? Vê vo-cê. Vê cê. Vê-se aqui nesse textinho e diz logo que sabe que vo-cê é você. Vê como me embolo para admitir logo quem é você? Vê como te coloco em elipse também? Pequeno tropo seu que é um pouco de mim.

Flávia Andrade

domingo, junho 15, 2014

Amava o jardim, o conjunto, a colocação de espécies uma rente à outra, aquilo que lhe fazia pulsar o coração. Seus sentimentos afloravam quando se guarnecia de cores.

Flávia Andrade
no livro "Natasha"

domingo, junho 08, 2014

É domingo de junho, mas ainda escrevo sobre a terça-feira de janeiro. Não lembro muito bem, mas gosto de como isso soa. Poderia ter sido uma quinta, mas tudo de quinta não parece bom. Quero mesmo que tenha sido um dia após a ressaca de segunda, um dia antes das missas de quarta. Um dia que não tem nada definido, distante das festas que se iniciam na sexta. Por isso invento. Quero ao menos que a data seja poética, pois nós não fomos nenhum pouco. Eu dizia frases que formariam um diálogo bonito, mas você descabido dizia coisas absurdas que não poderiam vir para os meus textos de domingo. Voltando para hoje, é só mais um dia de chuva, isso eu lembro, eu também me molhei naquela vez. Acontece que o que era para ser certo não foi, mas tudo o que é errado hoje também foi naquele sábado.

Flávia Andrade

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Você que me trouxe essa balbúrdia, ora, seja direto, diga logo o que quer: roubar mais um pouco de mim ou apenas permanecer na minha vida de vez? Não posso mais adivinhar porque minha mente está sobrecarregada de lembranças e elas talvez sejam futuras, algo que ainda não houve, não confie em meus fatos. Você que veio de tão longe se sentar nesse único lugar perto de mim, ora, ou leve-o de vez ou traga uma cama, uma sala de estar, uma cozinha e todo o resto de uma casa. Porque eu já não sei para onde vou se você não decide se vai ou se fica. Você que desapropria o chão dos meus pés e desacelera minha calma, ora, pois trate de não tirar mais nada, apenas acrescentar e somar. Se for sumir por dois dias que seja para voltar com mais quatro. Você que é cheio de si, não me deixe cheia de mim, cheia de nada, quero mesmo é que transborde. Já vem? Pois venha, ora, para que se acanhar? Traga tudo o que tiver porque é tempo de nos construir.

Flávia Andrade

sábado, junho 07, 2014

O jeitinho de uma pessoa, enjoadinho e cheio de fricotes é sempre lindo para um novo alguém que só a vê de longe. O jeitão daquele rapaz que não consegue controlar muito o volume da voz e pouco acerta nas piadas pode ser o grande encantamento da menina que foi rejeitada por ser muito quieta. O tique que incomoda aquele velho amigo há anos. A mania da filha. O vício do namorado. O excesso do pastor. O silêncio da amiga. Frases que não terminam sem um bordão. Poesias que não acabam sem clichê. Dedos estalando o dia todo. Braços cruzados até para um aperto de mãos. Cutucadas para chamar atenção. Gírias incômodas. Cabeça baixa. Olhos desesperados na mentira.
Há muitas pessoas sendo deixadas por seus "muitos". Seja muito exagerado, muito pouco, muito desatento, muito observador. Sejamos novos, renovados, reciclados, repensados. O jeito de alguém vai ser sempre novo para outrém. Não mude, não tente ser igual, apenas conheça e se aproxime de quem ainda não te viu.

Flávia Andrade

quinta-feira, junho 05, 2014

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Você pensará em excesso, beberá um pouco mais que isso, criará falsos testemunhos para acertos seus, evitará vítimas de seus erros, sonhará com um passado que volta e fica, planejará um futuro melhor do que este que já vem, não se permitirá chorar, mas intimidará muita gente para que te arranquem um sorriso forçado como se fosse simples. Você estará sendo a pessoa que te espera no fim do caminho que decidiu traçar, esse que eu avisei que não valeria a pena. Estará em um canto tentando entender onde foi que errou, e não esqueça que também terá por perto somente sombras de quem um dia já te quis, restos de quem você já desmanchou com manchas de arrogância em cada centímetro seu. Você apenas será consequência de si mesmo.

 Flavia Andrade

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