quinta-feira, julho 31, 2014

Aquela que era livro aberto

Por mais erradas que fossem as palavras, dizia. Tirava de si, sinceramente, e permitia que soubessem. Tudo se espalhava com o vento, seus segredos não eram mais só seus. Mas ela ria, ironizava, deixava como estava, tentava se esvaziar. Preenchia ouvidos com suas histórias, esperava o momento certo, então levantava e ia embora deixando o pior de si. Não demonstrava o melhor, era muito para ela, era muito para eles, era raro demais para se ver, era precioso para se perder.

Mas ser como água, transparecer e revelar sua profundidade foi o erro maior. Foi montanha comparada aos tropeços em pedras, aos mal entendidos e acasos. Foi entregar permissão a quem não entendia, deixar que dissessem sobre o que não conheciam. Eles acharam que sabiam dela, dos problemas e receios. Empurraram-na para um precipício, disseram: você vai melhorar se arriscar. Mas ela só queria sossego, de tumulto estava exausta, a mente fervilhante já era bagunça o suficiente. Os conselhos eclodiram como se desde sempre estivessem ali guardados até se tornarem surtos amargurados de quem sente pena. 
Ela só e só voltou para casa, desistiu de ser aquilo, repensou quem era, foi se renovar com as pernas bambas, coração apertado e olhos marejados.

Flávia Andrade

terça-feira, julho 29, 2014

Término

Nesse incômodo todo, 
diz: - acomoda-me no olhar
apazigua a angústia
enquanto peço calma, 
diz: - aconchega-se no colo
pra sarar
Diz se é só o tempo frio
ou a relação também,
diz: - acerta o horário, já pode ir
Questiona se a chuva que cai
deixa lágrimas choverem também
diz: - ritma essa água toda que quero nadar até
(que você)
diz: - apareça

Flávia Andrade

sexta-feira, julho 25, 2014

Dia do Escritor!

Escrever é encontrar uma loucura inspirada e criativa dentro de si. É ter liberdade para ir até o inexistente e coragem de enfrentar o que é real. Coisa complexa que se simplifica quando começa a virar parágrafos e estrofes.

Flávia Andrade

terça-feira, julho 22, 2014

Desculpa se não é assim que se faz um diálogo, se não completo o que seu pensamento inicia e nem acerto a resposta e retórica que você gostaria de ouvir. Desculpa se as coisas andam fora da linha e meio quebradas, desandadas, eu não tenho sido muito sábia nisso de amar.
Cresci acreditando que ter um amor era pular janelas, fugir com sapatos de cristais e se declarar de longe, bem alto, para todos ouvirem. E você vem pela porta, quer me levar para qualquer lugar que a realidade esteja presente e diz bem baixinho que gosta muito de mim. Desculpa se eu acho isso tão triste pra nós e espero mais.
Peço sim, para que seja um pouco mais do que venho sendo, que me leve para qualquer ocasião que eu não tive coragem de ir sozinha, que me faça feliz de maneira diferente dos risos que escapam na sala de estar. Que estar só seja falta sua e estar com você preencha qualquer solidão.

Flávia Andrade

domingo, julho 20, 2014

A lembrança tamborila na cabeça, bate, batuca, faz um som com a mesma cena daquele acontecimento (que durou uma ou duas horas) e quero esquecer para todo o sempre. Mas repete, repassa, até enjoar, as palavras da memória são uma péssima canção de um péssimo filme. Como sai daqui? Dessa mente persistente. Como se desliga se o filme no tem fim e não há como dormir? Tamborila lentamente até a cabeça doer.

Flávia Andrade



O pensamento longe, mas os olhos estão atentos. Você diz tanta coisa com a voz de quem sabe onde quer chegar, com palavras mais firmes que seus pés sempre no chão. E eu, sem saber se minha função racional funciona mesmo ou é tudo culpa dos sentimentos que transbordam e me levam muito além, empurrando-me sem calma, apenas por impulso. Você rouba a pacificidade que ando tentando manter. Rouba o livre arbítrio que me deram, pois estarmos juntos é prisão de um velho amor que não me deixa. Estamos nisso sem saber o que fazer. Você na terra, eu nas nuvens, mas os mesmos passos tortos e oscilados. Você tarde de segunda-feira preso no trabalho, eu sábado à noite endiabrada de tédio. O que podemos fazer? Se os dias nos sufocam e qualquer encontro parece rotina, por mais que demorem séculos. Estamos aqui e você continua dizendo alguma coisa que chamou sua atenção ontem, e eu desatenta, sorrio e concordo para ter mais tempo de decidir se fico ou vou embora.
Você apenas não me deixa ir, e eu apenas não sou capaz de seguir em frente.

Flávia Andrade


Às vezes as coisas têm fim. Raramente. De resto, apenas viram poeira embaixo do tapete.
Quando você gosta mais de quando está longe, assim podendo imaginar loucuras e risos, planejar viagens, rios, e trilhas, querer abraços e cafunés. E odeia quando chega e o amor fica tão banal, com beijo frio, café sem sabor e vontade de dormir para sonhar algo muito melhor. 
Às vezes as coisas acabam porque sonhos são diferentes.
Às vezes as coisas acabam porque o fim esteve presente no início. Pois para ir em frente com uma situação, precisou desistir de outra.
Às vezes suas coisas acabam porque quem começou não foi você.

Flávia Andrade

Quem é esse mundo? Rendendo a própria personalidade em troca de atenção. Sendo igual ao mundo lá fora que se deu muito bem com tal pose, sendo sombra e reflexo. Quem é esse mundo que a mãe disse não ser? Vista-se direito, esse não é você! Esse mundo imita o jeito, o som e as palavras pra ver se a felicidade do outro vem junto. Ouça, meu filho: você não é todo mundo.

Flávia Andrade


Às vezes o amor aponta pra um certo alguém tão desigual e a vida desanda. As coisas velhas vão se desfazendo. A casa desmonta, pois o alguém muda cada canto. A dor antiga desmerece tamanho sofrimento. O falatório desenrola, o riso desembesta. 
E você pensa: será desamor? Como pode se no fim você só desfruta e não desapega? Façamos os verbos ao nosso favor.

Flávia Andrade

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Que esse dia sare a dor de ontem e amanhã eu não queira voltar atrás. Que termine o dia e o amor errado, que eu procure outro tão melhor. Que desacreditar seja um passo a frente e reacreditar seja recomeço. Que qualquer rua tenha um novo alguém e para qualquer música outro sentido.

Flávia Andrade

Menina, ajeite a saia e a coragem, retoque a maquiagem, a independência e o sorriso. Vamos dançar à luz do sol, pois é de dia que seus olhos brilham mais, então tire o óculos escuro e veja muito além daquela noite em que nada deu certo. Vá para longe do dia em que perdeu sua fé. Distancie-se da pessoa que arrancou à força sua felicidade. Só por agora construa um lugar calmo para você e o habite. Depois a vida toda é sua para respirar fundo e rir, resgatar boas lembranças, rejuvenescer a menina velha que não queria mais sair de casa. Não é hora de dar um passo a frente, passou da hora de olhar para um bom lugar e correr.

Flávia Andrade

Menina que sobe escadas todo dia, desviando de cada olhar, disfarçando o medo de rejeição. Menina que entra na mesma sala cinco vezes por semana, encara os mesmos rostos, mas não os vê lá fora. Menina que desorganiza bolsas, cômodos e corações, que não sabe silenciar mentes. Menininha que viaja para universos paralelos antes de dormir, mas enfrenta o mundo real quando levanta. Menininha tão diminuta em coragem, tão gigante em sensibilidade, só quer não amar. Deseja lutar sozinha. Mas a menina esbarra em amores, leva-se em palavras baratas de quem a quer e ela pensa também querer. Menina independente quando pensa, sobrevivente quando age, carente quando ama.

Flávia Andrade

Escrevi um texto que ontem não era nada de mim, e hoje é exatamente o que sou. Estou nessas crises de não saber a que lugar pertenço, onde quero chegar e como devo ir. Então vou tentando achar identidade e sentido no que se escreve. Vou sendo, a princípio, um eu lírico, mas depois sou só eu. Primeiro escrevo, depois encaixo frases e se você olhar com jeitinho, como quem me conhece há anos, pode até entender melhor que sinto muito, não por mim, mas por amores, medos e dúvidas alheias. Que alguém tem me preocupado com aflições pessoais, que outro alguém tem uma história muito bonita e que às vezes o "você" sou eu. São misturas, bagunças resultantes de uma escritora extremamente desorganizada que mal sabe para onde vai com tamanha infinitude de palavras.

Flávia Andrade

Ela tinha algumas dúvidas, sabe? Aquelas que se acumulavam e faziam de sua mente um turbilhão. Ela se desligava quando começava a indagar motivos e perdia o rumo, caminhava só para espairecer, mas nem tinha certeza se sozinha era capaz. Cheia de opções, opiniões, confusões e devaneios, nem sabia como cabia tanto pensamento em si.
Havia somente uma coisa da qual ela não duvidava e oscilava: o amor por ele.
Mas ele, uma vez, em uma das discussões acusou:
- Você não me ama! Se me amasse não ficaria pelos cantos lamentando.
Mas era por o amar tanto que calculava cada passo. Uma inocente incriminada, um acerto perdido entre erros, por essa razão não conseguiu ser feliz.

Flávia Andrade


Como se fosse


Se fechei a porta? Não lembro. Já estou a algumas quadras de distância andando apressada como se tivesse lugar para chegar, como se do outro lado você me esperasse com algum café gelado e pedidos de desculpas por me meter nessa loucura, ando e só. A cabeça baixa, braços cruzados e lábios que deixam escapar algumas palavras baixas dos diálogos que planejo. Dessa vez parece não ter ninguém ao redor e figuro na mente sua imagem me esperando com seu jeito de quem pouco se importa, escorado na porta aberta. Aliás, a minha está fechada? Não sossegarei pensando que não, ficarei ao seu lado inquieta se não conferir e tiver certeza, então dou meia volta para que a ocasião não falhe mais do que as possibilidades apontam.
Enquanto isso penso se vale a pena arriscar, certamente vai chover e mal sei o endereço. Parece alguma outra vez que corri descompassada para lugar nenhum e não deu em nada. Pois são coisas que ocorrem em filmes e minha vida é apenas um tumulto.
Ando mais devagar como quem oscila quase desistindo. De longe vejo a porta bem fechada. Paro ali. Mas como quem tem coração no lugar do cérebro, volto a ir.
Sigo para lugares desconhecidos e a chuva começa a me molhar e deixar a situação menos bonita. Apenas ando para não parecer tão idiota como quem está correndo. A idiotice que cometo indo até você sem avisar é algo de conhecimento só meu, então supostamente ainda pareço um pouco mais sábia do que os outros.
Não quero que me veja nesse estado, mas só consigo pensar em te ver, então continuo. Recapitulo diálogos antigos como se fossem quebra cabeça, tento lembrar do dia que você disse "apareça qualquer hora", precisarei dessa lembrança para argumentar e dizer: "três horas da manhã é o que chamo de qualquer hora".
Há tudo para dar errado, mas quero acreditar em uma chance do acaso.
Ia virar para a direita, pensei sobre isso no caminho, mas por descuido ou intuição fui para a esquerda. A terceira casa, provavelmente, por sorte é a sua.
Eu te ligo, digo boa noite e que é pra você ir me ver. Você não está em casa.

Flávia Andrade


Eu vejo você por aí, mas por onde eu ando? Antigamente eu conhecia cada passo nosso, porém agora somos dois e acho que fiquei com tudo o que você era e perdi tudo o que, um dia, foi meu. Você ainda tem os passos desengonçados, os olhos acima de sua própria altura e o desespero em ser muito além do que os outros vêem. 

Eu roubei sua timidez, suas piadas de mal gosto e visão sobre a vida. Agora vou muito bem, obrigada. E como você está? Ser um pouco de mim é ter pouca paciência, muita ansiedade e essa eterna angústia. Mas você levou e não posso contestar.
Manhã de sábado e nem sei se já chegou. Se ao menos trocou a roupa e conseguiu dormir. Se foi bem no jogo, se distraiu a mente e ignorou o coração. Outro dia que não tenho certeza se foi fácil me esquecer. Mais um dia que não me sai da cabeça se era você o louco gritando meu nome na rua que eu não conhecia.
São episódios que passam. Passadam-se. E não discuto com o passado. Se lembro? A cada minuto. Nada de querer remendar. Você escolheu essa vida de silêncio e eu preferi narrar a minha. Eu fui bem, você de mal a pior. Assim que as coisas são.
Mas liga, reclama, ri e se declara outra vez. A gente se encontra, faz de conta que está tudo normal e nem comenta o choro no telefone.

Flávia Andrade


No entanto, amor um tanto quanto tonto, seja franco: ignoramos o pranto. Brinca e brinda esse erro nosso, justifica com o tempo, desperdiça a razão. Entende que essa é nossa história? Um resumo de semanas, vamos e voltamos, nunca acertamos, acomodamo-nos no choro da partida, pois retornar é tão bom.

Flávia Andrade

Encha a cara, esvazie o coração. Só por essa noite. Tome álcool, tome ar, tome coragem. Obtenha o que há em bares, jantares e ruas, só não se apaixone. Não por agora. Escore nos cantos, calçadas e camas, mas não fique por muito tempo. Corra, fuja, volte com outro par de meias, outro rasgo na calça, uma camisa nova. Você sabe a que lugar pertence, mas errou na hora de se entregar. Então, estrague-se. Quebre, arranque, solucione na marra. Saia dessa, vá pra outra, luz que vira fumaça, copo que te faz rir, só uma vez e você volta livre em si. Conselho de amigo, encha-se de ilusões, esvazie o copo, isso não dura além do suficiente.

Flávia Andrade

Há um vazio nessa folha que deseja se preencher, mas minhas mãos e vocabulário fogem. A metalinguagem é somente o que me resta. Quero escrever sobre o amor, mas ele me angustia. Esqueça, há algo mais profundo no fim de uma reticência...

Às vezes dói como o diabo pensar em tudo o que poderia ter acontecido, mas por outras vezes ter em mente os “e se...” é confortador. A verdade é que cada pormenor da vida tem dois lados, alguns são paradoxo, outros são somente paralelos. Contudo sempre estaremos entre o céu e o precipício, entre a escolha errante e a certeira decisiva. Nunca saberemos se foi acaso ou destino, se ambos existem ou é somente ilusão. E nesse exato segundo eu me pergunto se estou do lado certo, amando o correto e me dedicando ao merecedor. Ao mesmo tempo eu não tenho ideia de onde estou psicologicamente, o chão que piso nesse momento não passa da única matéria plana na minha vida.
Duzentas palavras pareciam o suficiente para o deixar. Mas eu voltei, regredi como em todas as coisas que faço. Presa no passado por vontade própria, medo e orgulho. Quantos personagens de best sellers passaram por isso? Milhares. Seus autores devem ter sofrido o mesmo. Todos superaram com um ótimo desfecho, mas eu sou um livro que nunca se finda.


Flávia Andrade

Qualquer hora dessas encontro você por aí na rua em que andávamos. Quem sabe um dia a gente se tropeça e caio em você novamente, me derrubo no teu jogo. Encontro-te por ali e a gente se resolve e se complica, como sempre seremos uma discrepância não questionada. Não fique esperando, não programe encontro, deixa acontecer. Não me cerque com esses olhos de quem sabe o que vê e o que quer enxergar, olhe-me confuso e curioso. Deixa ser como será. Quem sabe um dia a gente se empurra e se amarra e me prendo a você, as tuas palavras e cantadas baratas. Assim revivemos algum filme dos noventa e seremos só nós dois como o amor de Lisbela e o prisioneiro. Vamos nos danar meio bêbados, meio loucos, como canções de velho rock. Podemos pegar nosso caminho para o inferno ou ao céu, como bem decidir. Se eu te encontro, encaixa tua música na minha. Alma solta que tem destino traçado sempre se embola e se enrosca com quem foi feito para ser e pertencer a um só.

Flávia Andrade

Foto: Qualquer hora dessas encontro você por aí na rua em que andávamos. Quem sabe um dia a gente se tropeça e caio em você novamente, me derrubo no teu jogo.  Encontro-te por ali e a gente se resolve e se complica, como sempre seremos uma discrepância não questionada. Não fique esperando, não programe encontro, deixa acontecer. Não me cerque com esses olhos de quem sabe o que vê e o que quer enxergar, olhe-me confuso e curioso. Deixa ser como será. Quem sabe um dia a gente se empurra e se amarra e me prendo a você, as tuas palavras e cantadas baratas. Assim revivemos algum filme dos noventa e seremos  só nós dois como o amor de Lisbela e o prisioneiro. Vamos nos danar meio bêbados, meio loucos, como canções de velho rock. Podemos pegar nosso caminho para o inferno ou ao céu, como bem decidir. Se eu te encontro, encaixa tua música na minha. Alma solta que tem destino traçado sempre se embola e se enrosca com quem foi feito para ser e pertencer a um só.

ins(pira)ção

Um pássaro voando: inspiração. Um pássaro preso: loucura. Sou um pássaro que voa com correntes, escrevo insana, incendeio folhas. Pouso no pormenor da inatenção, caso contrário não paro. Afloro, à flor da pele, o impacto da vista. Daqui de cima tudo é mais bonito e não quero voltar.

Flávia Andrade

terça-feira, julho 01, 2014

   Tenho anseios e despreparos desproporcionais, posso desejar que tudo aconteça de uma vez, mas não posso, repentinamente, aprender a lidar com todos estes casos. Tenho planos enquanto outro eu pulsa me desencorajando. Tenho sonhos que se escondem como segredos para que nunca se tornem pesadelos.
    Em minha vida dois passos para frente equivalem ou, ao menos, têm como consequência três passos para trás.  Volto porque não confio em minha força para continuar andando entre pedras e enfrentando desastres. Volto porque nunca é o suficiente. Para mim, é preciso persistir no erro para finalmente aprender.
    É cansativo.  A vida é cansativa e até clamar por sono profundo tem se tornado exaustivo nessa vivência que mais parece uma eterna insônia.

Flávia Andrade

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