segunda-feira, setembro 29, 2014

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Mata a saudade no sufoco, quando as imagens já não se formulam exatas na memória, cria cenas novas, algo melhor para um futuro distante. Perambula pela casa, o perfume lá fora de um desconhecido tem cheiro que rouba os sentidos da pessoa de dentro. Alguma voz repetindo na mente, misturada ao trânsito da avenida, é aquela coisa nostálgica de quando saíam juntos: o silêncio tímido e o mundo conversando por eles. Sente falta do que não quis ter, mas agora quer e se arrepende. Sente falta do som que odiava, mas que de longe tem melodia boa. Sente falta do exagero e do pouco, quase inexistente, de detalhes que não notou anos atrás. Sente falta de algo que lhe preenchia sem querer, de um quebra cabeças ao qual não deu atenção.
Mata a saudade nos caminhos em que passaram, anda tudo novamente e ri do que não achou engraçado de primeira, chora da despedida que não foi tão trágica na hora, percebe a falta que foi avisada que faria, vê no fim o que deveria ter sido seu no começo.

Flávia Andrade

quinta-feira, setembro 25, 2014

terça-feira, setembro 23, 2014

A Grande Espera

    Chega tarde, não tem bancos, senta-se na grama com formigas e alguns receios, tais como ver alguém passar. Algum conhecido, velho amigo, decepcionador. A mente ainda não se desligou, a caminhada foi longa em busca de paz, mas ainda pensa em outras semanas, pensa sobre aquele dia mais cedo, o almoço, hora de ir para casa, se alguém vai aparecer e notar, se reconhecerão as mãos escrevendo apressadas no caderno novo e caneta roubada, pensa se alguma coisa chegará para preencher o que tem vivido. A vida nunca parece boa o suficiente, quando o ano se desenrola e as metas feitas na virada antes dos fogos não se realizam, quando o acontecimento que parecia um sonho excepcional não é tão grandioso assim.
    O lugar não tem bancos, mas tem folhas bonitas, amassadas no chão, é primeiro dia de primavera, mas algo diz que a estação nada tem a ver com o céu, estão descompassados. A cena não soa tão estranha, seu corpo está em um localzinho da infância realizando a rotina: escrever. Tão cotidiano como esperar uma mudança.
Flávia Andrade

Não demorará muito, prometo. Mais alguns dias de nada, mais uns dias de "que diabos estou fazendo com a minha vida?", mais dias de "eu não faço a menor ideia", poucos outros de fuga, incontáveis imprevisíveis. Dias rápidos, vastos ou vagos passarão num piscar de olhos, não alcançarão o próximo ano, com sorte, nem dezembro. Leva tempo e o tempo se leva sozinho, você apenas vive o que uma decepção traz e a espera partir, sem táticas e planos, passa porque a vida tem mais a oferecer. 

Flávia Andrade

domingo, setembro 21, 2014

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Eu vou nessa viagem só. Música ensurdecendo enquanto o mundo lá fora nada ouve. Pouca bagagem, sustentos para um. Estrada só de ida e de mão única. Desconheço o caminho, a chance é exclusiva: desvendá-la. Dentes-de-leão serão libertos por só e tão somente meu sopro. Não aprendi, mas consertarei os problemas que ocorrerem no veículo, talvez eu precise apenas juntar peças. O grito, no vazio, é só meu, voz que ofusca qualquer cantor no som. Podem ser até guitarras e assovios. Não há procura, meus olhos não buscarão outro alguém, seguirei em frente sem desvios de atenção. Vou só, coragem acumulada e vento no rosto. Vou, mãos firmes e pés dançantes, ensaiados. Vou, há muita beleza nesse caminho.

Flávia Andrade

Foto: Eu vou nessa viagem só. Música ensurdecendo enquanto o mundo lá fora nada ouve. Pouca bagagem, sustentos para um. Estrada só de ida e de mão única. Desconheço o caminho, a chance é exclusiva: desvendá-la. Dentes-de-leão serão libertos por só e tão somente meu sopro. Não aprendi, mas consertarei os problemas que ocorrerem no veículo, talvez eu precise apenas juntar peças. O grito, no vazio, é só meu, voz que ofusca qualquer cantor no som. Podem ser até guitarras e assovios. Não há procura, meus olhos não buscarão outro alguém, seguirei em frente sem desvios de atenção. Vou só, coragem acumulada e vento no rosto. Vou, mãos firmes e pés dançantes, ensaiados. Vou, há muita beleza nesse caminho.

Flávia Andrade

quarta-feira, setembro 17, 2014

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Um filme

Escreve, apaga, escreve, risca, escreve, amassa, escreve, desiste, escreve, cansa, escreve, cria, escreve, persiste, escreve, copia, escreve, ouve, escreve, diz, escreve, arrepende-se, escreve, respira, escreve, enlouquece, escreve, ensurdece, escreve, dança, escreve, ri, escreve, pensa, escreve, chora, escreve, esquece, escreve, inventa, escreve, anuncia, escreve, pede socorro, escreve, foge, escreve, volta, escreve, não está, escreve, é outro, escreve, perde-se, escreve, reage, escreve, desencoraja, "escreve" vira uma palavra feia, as palavras perdem a magia, escrita descolore a vida, escreve outra vez, escreve enquanto ouve música, escreve o que está dentro de si e ouve o que esteve em outro alguém, escreve como quem chega atrasado no encontro marcado, escreve como quem pede a bebida mais fraca e acaba com os piores efeitos, escreve como quem morre, escreve para viver. Viver na loucura, escreve porque é insano, perdeu carteira, chaves, amor, escreve porque dizer não dá resultados tão bons, escreve porque frustra, escreve para trazer um problema à tona e compreender ao fim, escreve, pois decidiu, escreve por ter indagações, escreve por silenciar, escreve porque a mente grita, escreve o que estará em sua lápide, escreve cartas ao passado, escreve o inexistente, "escreve" é uma palavra bonita outra vez, escreve sem pontos finais, escreve sem fim, escreve porque predomina o vocabulário, escreve sem ações, escreve movendo cada parte de si, escreve porque é humano, escreve por pensar ser alguma coisa ainda não descoberta, escreve por saudade de escrever, escreve por rotina, escreve por paradoxo, escreve porque ama hipérbole, escreve sobre escrever porque assim não intimida, escreve sobre o que não incita a guerra no coração de outro alguém, escreve controlando o desassossego, escreve para ter paz, escreve sem perceber.

Flávia Andrade

quinta-feira, setembro 11, 2014

quarta-feira, setembro 10, 2014

Reconsidera a conversa antiga entre uma bebida e outra. Quanto mais embriagada a cara, mais infernal a lembrança. Aumenta o nível de agressividade no diálogo para ver se com o coração desolado desiste de voltar atrás. Machuca-se propositalmente com a repetição mental de palavras mal ditas, nem tem certeza se foi realmente dito ou já misturou com auto conselho vulgar. Pede a conta, cansa de estar parado, sai do local, anda dezesseis ou dezessete quadras, continua sem rumo, sem resposta, sem coragem, volta para a casa, deita, dorme, amanhece, vai para o trabalho, finge que a vida é só aquilo, anoitece, pensa em desaparecer, imagina a burocracia de deixar tanta coisa para trás, desiste disso também, cansa de tentar fazer algo que mude, volta para a casa, liga a televisão e decide ignorar o tempo. São efeitos de uma pessoa e muitas bebidas, são coisas de qualquer vida alheia.

Flávia Andrade

segunda-feira, setembro 01, 2014

Olá, setembro

Outro início de mês. Acordo tarde, rejeito café como venho rejeitando álcool há uns dias, coisas velhas estão maçantes. Ouço uma conversa no ônibus, a velha com cheiro de cigarro diz que vai largar o vício e a outra, que pouco se importa, diz que é charme, que ela fumará um maço na primeira oportunidade. Sinto que por todos os lados do veículo os assuntos giram em torno de um só: setembro.
As pessoas me forçam a pensar em mudança, mas não quero mais mentir. Em janeiro eu não me importaria com o que os outros dizem, em fevereiro prometi que não me estressaria por coisa pouca, em março eu não ligaria, em abril não mandaria mensagens, em maio não criaria mais expectativas, em junho não ficaria vagando por aí esperando encontrar alguém, em julho não choraria mais, em agosto eu iria superar. Fiz tudo ao contrário e errado, acumulei promessas não pagas e falsos recomeços. Pensei: para setembro não quero nada. Mas já penso no que fazer amanhã, em como lidar com um diálogo e um encontro que ainda não aconteceu. 
As pessoas pensam tanto no futuro e sufocam o presente. Eu vou junto, mas trago todo o passado comigo, não sei deixar nada para trás. 
Volto para tomar café, sei o número de cor, não lembro mais o que planejei dizer, e não sei se ainda tenho rancor daquele alguém. Desisto de planejar, penso: o dia vai virar, eu estarei onde pertenço e ninguém sabe o que pode acontecer, eu não controlo nada, não sei manipular. Então vou observar o céu e seja o que setembro quiser.

Flávia Andrade

Natasha

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