sexta-feira, novembro 28, 2014

Olhos vermelhos

   "É uma nova embriaguez. Meus olhos coloridos de um pouco de sono e muito riso àtoa. Eu estive tão cansada, meu bem, foi tão difícil lidar sóbria com toda essa gente que não escuta, eu estive levando caixas de desaforos para a casa, arrastando-as por correntes amarradas nos tornozelos, deixando marcas nas ruas onde passei, os pés encravados no caminho ruim. Mas voltei para aquela rua nossa, a rua sempre minha, para a direção do bar.
   Eu estive pensando em você, meu bem, querendo a cada segundo correr para te abraçar. Dessa vez eu não pude correr, as pernas entrelaçavam enquanto eu ria de tanta coisa, mas cambaleando torta eu fui até você e senti seu corpo com a mesma intensidade que senti saudade nos últimos meses. Eu olhei para você, meu amor, para que visse a cor nos meus olhos de novo, eu estou de volta, com mais garrafas, mais álcool, mais de mim. E eu sei que você não vai ligar se eu cair aqui no sofá, sei que entende a despreocupação sobre o resto do mundo, sobre o que somos nós. Então eu deito aqui e penso nas nossas músicas, não lembro como canta.
   Amanhã, meu bem, a gente levanta, prepara um café, canta a música que não lembro agora, e a gente vai ser feliz. É uma promessa de bêbado, promessa pensada e repensada sóbria, promessa que escapou porque estava transbordando lá no fundo. Aliás, pode encher mais esse copo."

— Flávia Andrade

quinta-feira, novembro 27, 2014

Sobre te encontrar

"Se diz, no meio do silêncio, como quem não quer nada e com poucas palavras, se diz que vem, o desequilíbrio me apropria. Resta pouca noção de tempo, somente foco para o dia que avisou e não penso mais em nada. Se diz, sem rodeios e discreto que o mundo lá fora não é tão importante e que prefere nós dois como protagonistas, se diz que estaremos bem quando vier, então cautelosamente me equilibro para te esperar"

— Flávia Andrade

quarta-feira, novembro 19, 2014

Dois traços azuis

Desculpa a demora, eu não tenho mais respostas. Eu culparia o mundo, mas já o culparam por mim. Eu te diria para esquecer, mas sei que esse pedido só faz lembrar. Estou dando uma pausa, mas não dura muito até chegar outra pergunta. Eu pediria um conselho, mas dessa vez é sobre você. Agiria sem pensar, mas já foram muitas noites mal dormidas pensando tanto. Fingiria que não sei de mais nada, talvez realmente não saiba, mas tanta incerteza não prova e não move, ficaríamos parados nesse ponto de incompreensão. Eu pediria desculpa, mas sem saber o motivo. Por enquanto, perdoe somente o silêncio. Eu te escreveria um texto (e talvez já tenha escrito), mas falta coragem. Espero mais um pouco, mais uma semana ou um mês, como se isso fosse sumir. Desculpa a demora, pode ser aviso para que não digamos coisa alguma.

— Flávia Andrade

quinta-feira, novembro 13, 2014

Um pouco de calma

Entre a despedida e o pedido para ficar, entre quem muito ainda queria e quem desistiu há semanas, havia tamanha preocupação. Era tarde para um, cedo para outro, mas quando os horários se reajustassem, como saberiam lidar sozinhos? 
Quando os lados fossem opostos, para quem tanto viu um no outro o futuro, para onde seguiriam? 
Entre dependência e auto suficiência, através de uma proposta silenciosa, andaram para seus novos rumos.
Se fosse realmente boa aquela liberdade, se fosse verdadeiramente tão dolorosa aquela solidão, se não lhes restasse saudade, se não lhes sobrasse prazer, que os ventos entortassem, que não necessitassem mais de acaso, voltariam com certeza imediata de que entre o fim que um sugere e o início que outro implora, tem um meio que não requer coisa alguma, simplesmente existe e se faz presente dentro deles.
E entre o silêncio lá fora e o tumulto no âmago, decidiriam o que discussão nenhuma poderia concluir.

— Flávia Andrade

terça-feira, novembro 04, 2014

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Não ando mais de olhos fechados. Ando observando à frente tudo o que posso trilhar e o que o olhar alcança. Não ando somente sem saber, ando para descobrir. Não digo que aquele amor acabou, mas não vou se não espero tantos novos. Na verdade, eu rumo para encontrar qualquer sentimento novo que textos não descrevam. E se eu corro não é por falta de tempo, é para ganhar sem desperdícios. O que faço agora é por ter decidido fazer diferente, é por ter confessado um erro e prometido acertos, é por querer não somente a fonte, mas rios, mares e oceanos de inspiração. O que faço agora é porque o que você deixou em mim foi pouco, foi ruim. Eu ando para jogar fora esses restos e me renovar. O que faço agora é viver o que ninguém viverá por mim. 

Flávia Andrade

Eram quatro passos. Dois de cada um de nós e de cada vez para acompanhar o ritmo da música. O ritmo que você já conhecia, o ritmo no qual eu ainda tentava me enquadrar. Eram novos passos que aos poucos se entendiam, dançavam sem noção de tempo. Nossa dança era um abraço seu em mim, um recato meu pesando em seus ombros, uns minutos a sós para nossas desavenças. A música era condição para que ficássemos quietos, mas qual a condição para te fazer ficar?
Era um esporte novo, você corria e eu me escondia, desconhecia as regras, achava que você viria procurar. Era muita invenção de cada um, eu elaborava uma novela nossa, você achava que era o de sempre com qualquer pessoa. Para mim era infinito, para você era só agora. Talvez nem fosse nada.
Mas quando estávamos no salão ou em quadra. Quando era a mesma função aos dois. Quando podíamos fazer o que sabíamos, era uníssono o que não dizíamos. Era só aquilo que acontecia e não tinha teimosia minha ou enfrentamento seu. Era simples, mas somos seres complexos. Assim, deixamos coisas desentendidas, coisas subentendidas, algumas subvertidas e quando a música acabou e o jogo terminou, só fomos cansados para casa e tomamos alguma coisa antes de dormir. Só seguimos sem som, sem torcida, sem ânimo. Fomos fazer o que fazíamos quando ninguém via, quando estávamos sozinhos, afinal, era somente como sabíamos estar.

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