terça-feira, dezembro 30, 2014

Sobre o próximo ano

   Cansei disso de acaso, procuro rumo traçado. Não quero tropeço, quero queda no precipício. Que seja um erro interminável, estou longe de acertos redundantes. Que seja um risco válido e dê fim às decisões mornas. Que seja somente aquilo que ainda não foi, que seja somente começo, nada refeito. Eu guardei todos os bons desejos alheios e levo todo o bem junto de mim.

— Flávia Andrade.

quarta-feira, dezembro 24, 2014

Mas fica

   Não conhece meus planos, mas está em todos eles, como taças de vidro que embrulhamos cuidadosamente nas caixas de mudança. Vou levando esse peso comigo, esse peso de gostar mais de outro alguém que de mim, vou desocupando tudo para deixar espaço para quem possa, no fim, decidir ficar de vez. Como Chico canta "mas fica, meu bem, quem sabe por um dia, por descuido ou poesia você goste de ficar". Acredito que por acomodação ou escapatória, por correr risco ou ter certeza, você decida não ir embora, decida que é comigo que a vida ruma ao destino certo. Eu cuido bem, não deixo nada maior cair sobre você, levo com cautela para saber que estou por aqui. 

— Flávia Andrade.

Declínio

Meus olhos desacostumados — que por muito tempo não te veem, até riem da falta que sentiam meses atrás. Menos cabisbaixa, menos minuciosa nas lembranças, agora te ter em pensamento é só um borrão aleatório que esteve presente. Muitas pessoas foram deixadas para trás, foram consequência da falta de contato, dos silêncios semanais, das vidas tumultuadas, das novas preocupações. E, mesmo assim, sempre tem você que embora esteja lá no fundo da memória, inquieto e taciturno, será sempre um nome que ronda as histórias, oculto nos textos, implícito em qualquer música velha. Eu não o vejo mais e o tempo não quis parar para que eu visse, acasos estiveram exaustos de reencontros, então só fomos nos deixando para trás. Meus olhos agora veem tanta coisa mais bonita, cansaram-se de fitarem coisa vã e gente vazia.

— Flávia Andrade.

É amor, é teimosia

   Dizem que amor não correspondido se cura com um novo amor, daqueles que surpreendem dois desprevenidos que nada esperam. Dizem que ressaca se cura no bar. Dizem que os erros servem para nos ensinar, que as mancadas são coisas da vida e nos darão uma luz mais para frente. Dizem provérbios, ditados, parafraseiam alguns autores conhecidos, sabem de tudo! Mas e se eu quiser ficar com tudo afundado como está? E se eu esperar que, de repente, tudo seja recíproco? E se minha dor virar alvo de sequência de comédias românticas na televisão? E se eu acumular algumas almofadas, algumas lágrimas, várias garrafas, e se eu não atender ligações de mais ninguém? Eu não quero que saibam tudo sobre mim, na verdade, nem que pensem que sabem qual rumo terá minha vida. Eu quero esses momentos de não saber de nada, de só deitar e esperar, recuperar energia para o próximo turbilhão de decepções e montanhas russas de emoções. Eu quero ficar aqui tendo minhas indecisões e esperando alguém que me salve em silêncio, esperando o único alguém que eu penso que pode me salvar, persistindo no erro até que eu me canse. Pois, sinto muito dizer, eu sou assim. Eu insisto enquanto posso.

— Flávia Andrade.

terça-feira, dezembro 23, 2014

Você não era nada além

   Eu sempre soube. Quando você roubou minha atenção pela primeira vez sem esforço algum, quando eu quis me aproximar nos outros dias para te conhecer melhor, quando eu fui percebendo que todo o silêncio me intrigava e eu queria cada vez mais saber sobre a sua vida, quando eu sorria boba com cada palavra sua antes mesmo de pensar que era amor. Eu sempre soube que uma hora ou outra, naquela semana, mês ou ano, eu estaria correndo pela rua indo ao seu encontro. Eu sempre soube que você seria a primeira pessoa para quem eu dedicaria tanto tempo, tanto pensamento, tanto texto, tanto riso, tanto choro. E foi o que eu fiz, mas ignorei o pranto que me aguardava, ignorei saber que nós dois era como no primeiro dia: eu sozinha, você cheio de amigos, eu tão perdida e você tão cheio de si, eu pouco sóbria e você firme. Eu sempre soube que seria assim. Só assim. 

— Flávia Andrade
   Eu erro mais do que acerto, haja dias para consertar minhas noites. Eu culparia todo o mundo, mas se sou eu quem dou meus próprios passos, a culpa é de quem? E afinal, eu não tenho licença para errar? Talvez esteja escrito em algum lugar por aí que é a junção da idade com alguns traumas, talvez tenha alguém que me salve quando julga que só quero ter atenção. Eu estou distante de decidir pelo o que é certo, optar pelo o que é seguro, e no fim dá uns arrepios assustadores só de pensar em morrer dentro de casa por não fazer nada. Algo me diz que é desperdício não aumentar a velocidade na estrada por medo, que não vale a pena dizer tanto não. E algo me diz que pensar assim é errado e convenhamos: eu sou aquela que apontam e dizem: é caso perdido. E se ainda não apontaram e disseram, é porque ainda não viram muito de mim, não ouviram minhas histórias, então precisam de mais. Eu vou em busca de mais, afinal, não posso negar minhas próprias frases e eu já comecei dizendo o que faço.

— Flávia Andrade.

segunda-feira, dezembro 22, 2014

Acômodo incômodo

   O problema é que eu enjoo das coisas, das pessoas, da vida que levo, mas ainda resta a vontade de ter um pouco mais do mesmo. Como todos os "nunca mais" que viram "só mais um". Eu não sei lidar com ladainha, falta paciência para dizer: você já me disse isso. Eu só penso em sair de perto, em deixar essa gente que repete palavras e discursos falando sozinha. Eu só penso em ganhar um tempo em algum lugar diferente, mas para onde vou? Eu vou para onde todos sabem que podem me encontrar, eu vou para onde tenho que dizer: hoje não quero sair. Às vezes concordo, sabendo que não vai ser bom, sabendo que não vai dar certo, eu saio, eu finjo que quero festejar. E enjoada das músicas que tocam, das roupas que vestem, enjoada de tudo desaproveito o que já foi bom, desaprovo também. O que é que pessoas assim fazem? Se isolam? Eu vou continuando.

— Flávia Andrade.

sexta-feira, dezembro 19, 2014

O de Sempre

   Eu ando até o bar e poderia ir de olhos fechados sem correr o risco de me perder, compro uma garrafa cheia e quente pelo calor de qualquer coisa com alto teor alcoólico, pode ser que o dono do bar já me conheça de vista há um tempo e eu não precise ficar explicando o que quero, acontece de maneira tão natural que não sei bem como funciona, saio dali o mais rápido possível, pois não sou como eles, sou levemente pior, um pouco mais afundada na lama, mais caída no precipício. Caminho sem previsão de chegada ou ponto específico para alcançar, com a garrafa agarrada nos meus braços, tirando-a do conforto só para alguns goles. Por alguns momentos eu gostaria de ter uma casa para ir, alguém para visitar, algum conforto para chegar e dizer: eu trouxe para nós. Mas eu sequer lembro claramente se já tive algo assim. No fim, alcanço o canto mais escuro de sempre. E essa é uma expressão frequente para mim. Eu sou um acúmulo de hábitos, somente faço as coisas de sempre. Eu sento onde ninguém pode ver – ou talvez vejam, mas ignorem, e mato meu último gasto válido do dia. Com o dinheiro mais sujo que eu poderia conseguir, comprado com a cara mais lavada que posso manter, e nada degustado. São só longos goles e olhares para o nada, são apenas uma canção de ninar para os meus pensamentos que não silenciam até receberem a pequena dose de setecentos e cinquenta mililitros de bebida alcoólica.
    Entre algum momento de paz e um susto nessa noite, vejo alguém se aproximar.
— Impressionante como eu sempre sei te encontrar.
— Impressionante como eu sempre estou aqui e você sabe. – Retruco mais em tom de reclamação do que expondo um fato.
— Você não muda mesmo.
— Se é um incômodo, eu não me preocupo em deixar você ir embora. – Eu automaticamente fico incomodada.
— Mais uma vez.
— Sabe, você pede indiretamente e eu penso “vou mandar esse pobre coitado embora de vez, e ele vai sem se sentir covarde”.
— Mas eu estou aqui, não estou?
— Acabou a bebida.
    Ele ri. Balbucia algo como “eu não estou aqui pela bebida”, mas se está por mim, só precisa mudar uma letra e acrescentar um acento circunflexo. Bêbada. Um adjetivo de fato reconhecido.  Ele diz que me vê por aí e às vezes acha que estou menos perdida que ele, diz que me vê fazendo as mesmas coisas e ainda vivendo, enquanto ele tenta sempre mudar e é como se estivesse enfiando a corda no pescoço. Continua o discurso suicida e quem quer morrer sou eu. Esse é um dos motivos pelo qual o deixei para trás certa vez e disse para não me procurar. Na verdade, esse é um dos motivos pelo qual deixei o mundo todo para trás. As pessoas estão insatisfeitas a todo instante e acham que todo semelhante insatisfeito pode sentar e ouvi-las. Eu não quero ouvir ninguém. 
   Eu levanto meio torta, meio cambaleando, talvez eu tenha tropeçado. Jogo a garrafa na direção dele, vejo-o se afastar rapidamente e dizer que sou louca. Eu dou risada dos cacos espalhados. Ele repete mais umas quatro vezes a última afirmação. A afirmação de sempre. Eu gostaria de ter acertado sua boca, mas só neste momento, pois ele tem uma boca bem contornada que não deveria ser desperdiçada, e eu tenho que superar isso de gostar tanto dessa aparência. Desacostumar esses olhos.
    Eu começo a me afastar, mas ele se aproxima novamente e diz que sente tanto, tanto, tanto minha falta. E eu me afasto mais por causa das repetições exageradas, eu odeio tanto, tanto, tanto quem precisa de tantas, tantas, tantas palavras para dizer algo. Então continuo caminhando, talvez eu tenha gritado algo ofensivo sem perceber, ou tenha feito algum discurso sarcástico, às vezes perco a sintonia do que faço e penso que faço, e volto a andar para a direção de sempre. A direção do bar. Mas sei que em algum momento daquela semana, vou repentinamente lembrar o caminho da casa daquele que me chama de louca e vou bater na porta, entrar, esperar ele me expulsar outra vez. Vou encontrar a rua dele como quem encontra mais um cigarro no maço e sem pensar o acende, apenas pelo hábito, apenas pelo vício.









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quinta-feira, dezembro 18, 2014

Sobre julgamentos

    Eu seria melhor se não quisessem enxergar somente meus erros, mas o que sou acima deles. Eu seria melhor se escutassem o que penso e não julgassem o que faço. Eu seria melhor se não listassem a consequência, mas prestassem atenção no discurso de intenções. Não seria melhor para mim, pois o presente é o que me convém, seria melhor para quem tanto diz, para quem aponta e acusa, para quem gasta algum tempo desperdiçado dizendo que não sou boa o suficiente. Eu seria melhor se engolissem o orgulho, eu seria melhor se escolhessem outro lado para observar. Mas preferem ver aquilo que enriquece a tão engajada carreira de criticar, negativar e olhar com desdém.

Flávia Andrade
   No meio dessa gente que divide uns minutos com você, no meio dessa gente que passa ao seu lado despercebida, no meio dessa gente que sabe agir normalmente, no meio dessa gente que não perde um pouco da respiração e nem bambeia as pernas, no meio dessa gente que não planeja mil diálogos para no fim só acenar de longe e abaixar a cabeça, no meio de tudo, eu. Que você não oferece tantos minutos, não percebe muito, que não te sequestro ações, que não te dou uns efeitos, que não te faço elaborar frases repensadas, que não aceno direito, fica sendo aceno para o ar e você nem vê. E no meio dessa gente eu dou um grito em silêncio para você notar, eu corro em um passo vagaroso para acompanhar sua paciência, eu me aproximo como quem se distrai só para saber se você olha. Enquanto no meio da gente do meu mundo eu procuro em todo rosto aquele que não posso ver a cada minuto, eu busco você. E você é sempre um novo alguém para um coração turista como o meu, então entre toda essa gente, eu amarei mais que uns, acenarei muito, acompanharei vários passos, no meio dessa gente deve ter alguém que fique.

— Flávia Andrade



terça-feira, dezembro 16, 2014

   Em algum canto ficou esquecida aquela calma para iniciar assuntos, para falar um pouco sobre a própria vida com a mera intenção de ouvir mais histórias de quem lhe escutava, em algum tropeço deixou a intensidade de olhar para aquele alguém, de se lembrar da falta que trinta e dois minutos sem a presença lhe fazia. Em tantos rostos que repousou um sorriso enquanto, por hábito, ia para o mesmo lugar encontrar seu alguém, talvez tenha deixado mais do que deveria e por um dia de descuido, chegou sério. E entre os desencontros, as horas tantas desmarcadas, entre os atrasos e as explicações, perdeu o interesse em levar frases planejadas para roubar algumas risadas, alguns encantos. E de repente, para aquele alguém que não esperava, mostrou-se só a pessoa que era quando não tinha ninguém, que não pensava muito sobre nada, não elaborava tão bem o que dizia. Em algum engano abandonou suas vontades, o desejo de ficar mais um pouco, o agrado que tentava causar. Em alguma reclamação de cansaço, deixou de vez o esforço para trazer aquele alguém para perto e sem querer tanto, deixou-o, ao poucos, partir. E em um ponto específico, onde nunca tinha ninguém ao redor, onde era só, naquele único lugar que cabiam apenas dois pés percebeu: nos cantos onde foi deixando tudo para trás, deixou o que mais tinha importância em sua vida, perdeu aquele alguém.
— Flávia Andrade



Te des(espero)

   Não tenho certeza se há um espaço para mim deste lado, talvez você tenha se esquecido de deixar indícios de que ainda posso visitar. Não sei se a sua vida continuou e mudou muito, ou só a minha que permaneceu do mesmo jeito – e um pouco mais parada. Só não quero acreditar que o contraste é o mesmo: nós juntos, mas com mentes e corações distantes. Só não sei me concentrar nos passos se não ouço você dizer que posso voltar. Só não sei ficar tão muda, tão sumida, se a todo instante tento planejar um jeito de errar o meu caminho e acertar o seu. Não é tão certo que ainda tenha algo a me oferecer, ou algo que me possa negar, só não quero fingir mais uma vez que tanto faz. Não tenho certeza se ainda espera mais uma palavra, mais um texto exagerado, mais uma música cabível, mas eu estou aqui com todas essas coisas aglomeradas repetindo em mim, a cada minuto, para que de alguma forma te alcance. Para que, se caso você errar o caminho também, ouça a música aqui dentro, uma quase desesperança.
— Flávia Andrade



sábado, dezembro 13, 2014

Aquele que ficou para trás

   Aqueles dias que eu não esquecia, que me seguiam segundo a segundo por todas as vezes que eu tentava não lembrar, agora estão distantes. Pouco recordo das palavras ditas, se era terça ou quarta-feira, não sei mais quem chamou, quem errou primeiro, quem foi embora mais cedo. Esqueci que roupa vestia, esqueci de gostar tanto dos defeitos, de ver como tudo parecia tão bonito. Agora só vejo o que era e de longe, de outro patamar, com olhos diretos, sinceros, descobertos, agora só penso: quanta inocência.

— Flavia Andrade

Natasha

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