segunda-feira, janeiro 26, 2015

    Faço do resto do mundo uma desculpa para não sair nessa tarde, ficar em casa nessa noite. Faço do drama na casa ao lado motivo para ficar atenta na janela, de olho no telefone, assim não posso passar do portão. Faço da história de ontem uma causa de dor de cabeça hoje, infelizmente, você me perdoa, mas não vou nem querer me arrumar. É que eu sou assim, tenho mil motivos, tenho dramas escorpianos, tenho sempre um adeus para dizer. É que eu nunca estou segura lá fora, perco o sossego quando você se aproxima, é que eu estive tão bem sozinha esse tempo todo.
— Flávia Andrade

domingo, janeiro 25, 2015

    Meu dia fica fora de contexto se você não aparece, se não diz entre uma conversa e outra que andou fazendo algum plano bom para nós. Meu dia fica desfocado de outros dias bons se você não dá um sinal de vida, de vontade de me ver. É que eu estou sempre aqui com todos esses pensamentos que envolvem passado e futuro, e você precisa se encaixar no meu presente para que tudo faça sentido, como se fosse você quem eu precisava para deixar o que ficou para trás e buscar novos acontecimentos. E, na verdade, é você sim. Eu só não posso dizer tantas vezes coisas assim para que não vire um peso nas suas costas e você não tenha que se arrastar para chegar mais perto de mim. Eu não posso dizer tanto o quanto sua falta desestabiliza imediatamente minha semana inteira, seria me deixar muito vulnerável ao seu redor. Mas me deixa.
— Flávia Andrade.

quarta-feira, janeiro 21, 2015

Entre a Meia Noite e o Meio Dia

    O sonho é coisa do inconsciente, todos sabem. Conte para a sua vizinha e ela vai tentar interpretar, ela andou lendo umas revistas por aí, saiu uma vez no jornal também. Conte à psicóloga e talvez ela tenha uma explicação mais lógica. Mas é melhor você refazer seus passos do dia anterior, assim vai saber que sonhou com o Zé porque viu ele rapidamente na rua e até que bateu uma saudade, aquela memória ficou repercutindo na mente o dia todo, é claro que você sonharia com ele. Por que não pensou nisso antes de deitar para dormir? Se tivesse pensado talvez deitasse mais tarde para tentar evitar, talvez visse um filme de terror ou uma comédia romântica daquelas que se encaixam na vida da gente. Mas você dormiu antes da meia noite. 

    Acontece que depois de tudo você acorda. Sempre acorda. Quem somos nós para dizer que nunca acordamos? Estamos vivinhos. Então, por enquanto é sempre. Antes de levantar já alcança o celular: embaixo do travesseiro, na mesa de cabeceira ou em alguma outra gambiarra inventada para sustentar o vício. Olha as notificações, duas pessoas responderam seu boa noite, uma mandou bom dia, já tem gente pedindo favor e querendo saber onde você está. É aniversário da Maria e você nem pensou em comprar presente, tem alguém pedindo votos para alguma coisa e você não quer votar em ninguém. Convidaram-te para um evento que sabem que você não vai nem morto – e você sempre acorda. Tudo isso você já pensou antes de colocar um pé para fora da cama, incluindo o fato de que sua garganta parece um pouco inflamada e você precisa de um copo de água e bem que queria, lá no fundo, ficar reclamando do pequeno incômodo até o outro dia sem sair do lugar. Mas você tem que levantar, você tem que ter vida social, você tem que trabalhar, tem que encontrar um rumo na vida, tem que terminar aquela discussão pela metade de ontem, tem que pensar no que vai almoçar, tem que almoçar. Isso tudo antes do meio dia.


sábado, janeiro 17, 2015

Entorpecente

    Alguma coisa especial para mim? Alguma encomenda sem endereço no remetente? Alguma garrafa cheia embrulhada e sem nome? Algum milagre tardio? Dou passos cegos dentro do bar, andando em círculos, fitando a jukebox, sentindo uma música dentro de mim e dela, vindo de nós duas. Welcome to the hotel california. A voz canta na gente – a gente na qual uma é apenas tecnologia parada no tempo. Eu também parei, só o corpo move, mas o pensamento está preso em algo não identificado. Eu estou entorpecida.
    She said: we're all prisioners here of all our own device. Eu continuo dando voltas, eu vejo as outras pessoas, eu vejo o dono do bar, vejo uma mendiga próxima da porta querendo estar aqui dentro, sinto o mau cheiro de maus bêbados e do deplorável banheiro unissex. E se a música acabar antes que eu possa encontrar o que tem para mim? 
    Eu a faço tocar outra vez. E outra. E outra. E mais outra. E vou ficar aqui e eles não podem me mover, eles não podem me tocar, não mais, eu não deixo que me toquem.
    A não ser que paguem, alguma outra voz dentro de mim contradiz meu pensamento. Você é um lixo humano, uma terceira (ou quarta?) voz julga aqui dentro. No âmago. Faço a música repetir. Eu não ganho nada com isso? Um prêmio de consolação, um oferecimento de ajuda, um conselho de outro desnorteado?
    Eu apenas cheguei nesse estado em que não sinto ninguém. Vejo as pessoas próximas de mim, mas é como se não existissem, como se fossem mortos vagando ao meu redor. Eu estou em um universo que existe no mais profundo do que sou, cheio de questionamentos e lirismo. Eu fico aqui esperando ver vida em um único alguém e que esse alguém veja esperança nessa coisa que sou por fora e me salve. Me salve com uma coisa especial, uma encomenda, uma garrafa de presente. Um quesito de preocupação. Um resquício de importância. Um sossego do que faço sem parar. Um desvio para onde ainda não fui. Mas é tudo igual. 
    A luz de fora do bar é apagada, é um aviso silencioso de que devemos dar os últimos goles, ouvir a última música e ir embora. Eu faço aquela tocar outra vez, mas dessa vez sento para ouvir e tento me transportar desse universo encrustado na alma para o que devo ser no meio de todos. Sinto um pouco dos efeitos sumirem de mim, sinto sonolência e ânsia, sinto o início dos efeitos ruins pós qualquer porcaria que tenho usado. 
    Uma das portas é fechada, é praticamente uma expulsão sucintamente quieta. Então eu me retiro, eu sento no meio fio e vejo o chão girar, perco a coragem de olhar para o céu. Parece alguma outra noite em que tudo parecia não ter fim, mas eu sobrevivi mais e mais dias. E vou sobrevivendo, ao mesmo tempo em que vou me matando.
    Vou girando ao contrário do que devo e se em algum momento eu acertar a direção, já estarei preparada para a tontura momentânea.








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É só receio, meu bem

    Diga aí uma coisa qualquer que você já saiba que eu não gosto, procure nas minhas reclamações algo que pareça um defeito seu e me conte. Não posso gostar tanto assim e você não pode ser tão bom pra mim, tem que ter um desbalanço e um desequilíbrio logo agora, para eu saber como me manter em pé depois. Sabe, depois que tudo der errado, porque é o que acontece. Eu vou pesquisar seu signo e saber se bate com o meu, vou consultar tarot, amiga conselheira e me perdoa se te comparar com quem já não deu certo. É que eu não quero andar em caminho escuro outra vez, eu não quero andar tanto e depois de estar com os pés cansados não gostar mais do rumo para qual estava indo. Conte uma história ruim, confesse uma coisa que pode me dar um susto e querer fugir, me deixe em cima do muro oscilando. Discorde das loucuras que eu digo e nem precisa elogiar esses meus textos todos, é só para eu não me prender muito na ideia de que você gosta de mim. Caso contrário, depois que tudo acabar e você for embora vai ser difícil entender os motivos. E eu sempre procuro motivos como agora, eu peço explicação no início e no fim porque me perco totalmente no meio, nele é só a gente vendo o lado bom um no outro, mas escuta, estou vendo que nossos signos não têm tanta afinidade e caiu uma carta ruim no nosso tarot, eu nem acredito tanto e uns conselhos me dizem para arriscar. Escuta, já está chegando na parte em que eu fico perdida, sem saber o que fazer, desnorteada. É um filme repetitivo, talvez eu tente te afastar sem querer como numa preparação para ser deixada de lado. E você tem que decidir se já reclama dos meus jeitos agora ou um pouco mais tarde, eu sei que vai. Diga se o que eu planejei se encaixa nos seus planos, diga se enquanto eu mudo por medo você não se cansa, diga se ainda não quer desistir. Alguma coisa em você tem que ser errada, não pode alguém ser tão certo para mim, tão "destinado para ser", tão "é esse", tão "meu futuro". Então diga o que pode desmoronar o que a gente começou a construir, diga por agora, eu tenho medo de cair de um lugar muito alto outra vez.
— Flávia Andrade.

quinta-feira, janeiro 15, 2015

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Ah, a vida!

    Eu tenho dezessete anos e estou ansiosa para ter dezoito, esperançosa para que com isso algo mude, e olha que sou mais pessimista que otimista. Eu tenho uma família que não me irrita, nem fica no pé, apoiam quando eu preciso, mas mesmo assim me sinto como se não encaixasse. Sou só uma ovelha, nem negra, nem branca, talvez sem cor nesse meio. Até hoje tudo o que fiz foi terminar o ensino fundamental e médio sem nunca ter reprovado ou ficado de exame, publiquei um livro, um romance, e não é tão grandioso quanto soa, pelo menos não para min. Eu tirei oitocentos na redação do vestibular, isso significa que ser escritora não muda tanta coisa, pelo menos não para mim. Não sou mil em tudo o que envolve texto, é bem ao contrário, na verdade. Eu só sei transbordar em palavras, o que é uma coisa boa, pois ninguém atura quem transborda em lágrimas o dia todo e não estou querendo inaugurar nenhum rio. Sou um pouco anti social, eu tento ter amigos, mas só consigo amizades passageiras, gente que vai sumindo da minha vista e depois não me atendem mais quando ligo, e eu sinto que o problema é todo meu, somente não sei onde eu erro tanto. Nunca tive um grande grupo de amigos, sempre foi um aqui, outro lá, e esses se divertiam muito mais com seus grupos do que comigo, então eu comecei me auto isolar para a dor ser menor do que quando excluída por outro alguém. Além das leituras, me perco nas músicas, mas ao contrário da literatura, eu só sei apreciar e não criar. Não tenho ritmo para tocar algum instrumento e nem para dançar, não tenho afinação e nada mais. Eu ouço de tudo e isso inclui boas e más músicas, eu fico tentando me fazer feliz sozinha e é por essa razão que estou sempre cantando horrivelmente ou dançando como um robô pela casa. Eu gosto de letras de músicas bonitas, eu gosto de coisas como "quando ela cai no sofá, so far away" e "ela apareceu, parecia tão sozinha, parecia que era minha aquela solidão", gosto daquelas com as quais me identifico, assim como me encontrar em um personagem de livro.
     Sobre o amor, eu defino como gostar tanto de uma pessoa a ponto de escrever um texto sobre ela, eternizá-la em uma história, personagem, parágrafo ou somente uma frase. Isso, para mim, é amor. Mas teve uma pessoa para a qual eu escrevi mais de cem textos, e eles começaram bonitos, apaixonantes e terminaram melancólicos. É fácil identificar um texto sobre ele depois de todo esse tempo e é difícil mudar o rumo das minhas palavras. Vem surgindo um novo alguém e ja escrevi três textos para ele, não entregues. Como sempre, começaram bonitos, se eu releio até me contenho para não chorar, vem sendo um sentimento bom, parece tão certo. Acontece que na minha vida, tudo o que parece certo no fim descubro ser errado. Na vida toda, desde pequena. E eu tenho tanto medo de errar, pois já estou com um acúmulo de burradas e não sei onde jogar fora essa entulheira.
     Eu sei muito do que quero, mas tenho mais medo do que querer. Tenho mais facilidade em desistir do que arriscar, mais chances de deixar para atrás do que correr para alcançar, eu sou esse tipo de gente que se acomoda no que é ruim. Eu estou deitada nessa entulheira e só tenho dezessete anos. Mal sei como terminar meus textos, não sou boa com despedidas e conclusões, muito menos com finais. Mas eu sei, lá no fundo, que posso conseguir alguma coisa para mim, algo que me faça feliz. Eu tenho esse pouquinho de otimismo e espero.
— Flávia Andrade.

domingo, janeiro 11, 2015

O pseudo ator e a espectadora


    Ele é aquela pessoa que se oferece para subir no palco e participar do espetáculo. Eu sou aquela que fica em um canto distante assistindo tudo com o sorriso mais discreto que pode ter. Ele é improviso, eu sou uma interminável preparação. Ele apenas faz, eu apenos planejo, mas com toda essa vontade de sair do lugar, ele invade meus planos, inunda minha mente e coração e me leva junto dele para onde eu nunca iria sozinha. Eu não sei estar no controle, e me pergunto o que posso fazer quando um dia ele se cansar de me levar como carga pesada nos ombros, se perder um pouco a força e precisar de mim para continuar a corrida. E se eu deixar virar caminhada? E se eu deixar virar uma pausa? E se eu deixar tudo sem graça? E se eu deixar ter fim?
    Ele é aquela pessoa que não faz essas perguntas mentalmente, enquanto eu penso, repenso e até escrevo. Ele é aquela pessoa lá em cima se divertindo ao máximo pelo show que pagou, eu sou aquela pessoa que foi meio sem querer e quer ir embora antes de acabar. Talvez o show seja nossa vida. E o que duas pessoas vivendo de maneira tão diferente podem fazer tão próximos um do outro? E então eu caio nessa de chorar numa apresentação de humor, e ele está lá no palco vendo uma única pessoa derramando lágrimas, e se ele não quiser descer? E se ele procurar por uma plateia melhor e opitar por esquecer a única que não gostou tanto? E se ele não entender que o problema é todo meu? O caos sou eu, a melancolia é minha. 
    Eu sou aquela com os olhos intercalados entre o palco e o portão de saída, eu sou a indecisão ambulante no meio da multidão.

— Flávia Andrade

Final e Mente


    O fim foi apenas um silêncio, e a dificuldade para esquecê-lo são palavras não ditas repercutindo na mente. O fim foi apenas uma última repetição de atitude que não deveria nunca ser tomada, e a vontade de ter feito tudo diferente me persegue por cada cômodo. O fim foi preciso, o recomeço soa necessário e a saudade impede qualquer boa decisão.

— Flávia Andrade

quarta-feira, janeiro 07, 2015

Que me causa recaída


    Não se trata de onde estou, não agora. É para onde você me levou, é para onde quisemos ir, é sobre onde você deu as costas, onde eu pedi um último abraço. São os lugares com mesma aparência e grande carga emocional, são as ruas que parecem retratos, é o canto onde os olhares não se cruzam mais. Não se trata de refazer meus caminhos, mas retirar deles os resquícios seus.

— Flávia Andrade
   Eu sei que sou um pouco complicada. Tenho sorrisos diferentes para situações variadas e nem sempre compreensíveis, às vezes é só um riso disfarçado ou uma gargalhada contida, às vezes é para não fazer desfeita e às vezes é porque me escapa. Eu tenho olhares diferentes também, olho para cada um de uma maneira e talvez você nem saiba que o olhar mais sincero e cauteloso vai para a tua direção, mas olho com cuidado quando não quero ser percebida, olho para baixo enquanto ando só para não tropeçar ou ver alguém que eu não queira, olho perdida em busca de alguém que me salve quando estou em algum lugar que não gosto, olho pedindo socorro até quando digo que está tudo bem, e não vai nada bem se você não nota. Eu sei que é difícil entender o tanto de sim por trás de cada não e todo não em todo sim receoso, sei que é quase impossível saber o que realmente significa tanto faz, você que sabe e talvez, sei que é raro quando você percebe a voz trêmula quando tento mentir ou omitir algum fato, sei que nem sempre posso esperar que meus charmes sejam entendidos como pedidos para ficar mais um pouco, enrolações para adiar despedidas e uma maneira de pedir carinho. Sei que é estranho quando você me encontra sorrindo para o nada e que não entende que estou pensando em alguma coisa boa para nós, sei que pouco sabe o significado de devaneio e talvez ache impossível alguém devanear com a pessoa do lado, é que eu sempre quero mais e você pensa que somos suficientes. Até somos, mas sei que eu não aguentaria cair no hábito de somente amar. Sei que pedir por um pouco de loucura, querer brigar por motivo atoa e te provocar sem precauções é um pouco desnecessário para você, mas é que eu preciso de um divertimento extra. Sei que sou um pouco complicada e para você, que gosta tanto de simplificar, seja árduo lidar comigo, mas é que eu preciso de você aqui e isso é algo tão complexo que eu me transformo em mil para dizer de milhões de maneiras diferentes, sem deixar enjoar, que eu te amo muito. Muito mesmo. Sei que as minhas reclamações não transparecem, mas eu quero tudo de você sempre por perto. Sei que parece que eu me afasto às vezes, mas é para nos ver de longe como quem assiste um filme bonito e chora. Eu só quero que o filme nunca acabe.

— Flávia Andrade

segunda-feira, janeiro 05, 2015

O Sossego do Sufoco

    Quando você se desprende de uma relação que foi capaz de te virar do avesso, colocar o coração pulsante para fora gritando por alguém, o que você precisa depois? Digo, depois de tudo, das lágrimas, dos porres, das ligações que não deveriam ter sido realizadas, dos porres novamente, dos dias inteiros na cama desperdiçando vida, da vontade de desistir de tudo, o que você precisa depois? Um amor que renove. Outra relação. Mas que essa segunda, seja o oposto da primeira sem deixar de fazer estrago – e esperamos que o estrago seja positivo.
    O que acontece quando você encontra um amor que, de repente, te rouba e você não sabe mais viver sem, mas sempre te deixa oscilando, não te faz arriscar nada, é café com leite? O que acontece quando você tem e sequer pode reclamar? Aquele amor que você pensa: ou é por ele, ou por mais ninguém. É aquilo que convém no momento, mas não é completo, não te sufoca por inteiro. E se nessa vontade toda de algo a mais você começa a perceber que gosta mais do amor que te faz sofrer? Pois aquele que te mantém segura não causa sentimento exagerado algum.
    Você está lá e tem uns mínimos ataques de ciúmes, mas nada que dê oportunidade ao surto. E se seu amor é extremamente paciente? E se você gosta de quem parece carga explosiva? E se, em alguns pensamentos inevitáveis você reflete que precisa do que é errado, daquela ideia perversa de não estar na lei, ou apenas quebrar tabus? Sabe, no meio das comparações você percebe que só precisa ter alguém que mostre lugares que você nunca iria sozinha, que seja o que falta, não para te completar, mas para te fazer dizer: eu vivo, e vivo muito bem, obrigada. E que sobre esse amor você não possa contar para ninguém os detalhes sórdidos.


Só Mais Um

    Pouquíssimo sóbria. É assim que ando, meus dedos estão entrelaçados nos de alguém que conheci há pouco mais de duas horas. Estamos andando como casal, pois às vezes o romantismo tenta uma chance comigo, mas não vê que tenho apelo sexual nos olhos e que posso sair daqui a qualquer segundo atrás de alguém que faça mais que isso. Que converse menos e aproveite mais. Não que eu queria aproveitar de verdade e sugar todo o tutano da vida como recomendou Thoreau, apenas quero ter um bom motivo para lamentar durante a ressaca das próximas horas.

— Eu nunca pensei que um dia estaria aqui com você. – Ele diz. Eu só ignoro.

    Eu aprendi a fazer tudo em busca de uma causa realmente válida. Que sempre seja a melhor ou a pior. Que eu não me arrisque por nada que é morno, taxado de "mais ou menos" ou quase insignificante. Que sempre seja o pior erro ou o melhor acerto — embora eu não seja muito de acertar. É como não desperdiçar lágrima atoa e ter sempre alguém ou alguma lembrança que lhe dê um bom motivo para chorar. Então em todo dia seguinte eu tenho uma resposta bem elaborada para mim mesma, um argumento que não me dê oportunidade de arrependimento vão.

    Eu havia feito uma promessa às duas da manhã do dia anterior. Eu prometi parar de beber e de fumar. Prometi dar um jeito na cara, no corpo, nas roupas. Prometi começar a correr. Ou só caminhar — meu pulmão não aguenta muito. Mas promessas feitas nessas horas são imprestáveis, acontecem quando você pensa que pode mudar por que todos já estão dormindo e não tem ninguém para perturbar, acontecem quando você vai acreditando, meio sonolenta, que o mundo é aquilo da madrugada: um silêncio perpétuo. Mas o dia chega, as pessoas se aproximam, e você tem que levantar e dizer mentalmente todos os palavrões possíveis. Eu havia feito essa promessa e ela parecia ótima, então umas vinte horas mais tarde eu comecei a trilhar meu caminho até aqui, nesse momento em que nada é arriscado o suficiente e eu poderia vomitar apenas para estragar toda a cena bonita que esse alguém ao meu lado pensa que está acontecendo, e eu poderia ter um pulmão bom para correr e deixar tudo para trás. 

    Acendo mais um cigarro. É o último do maço. O que caralhos estou fazendo com a minha vida? Eu deveria estar próxima de algum lugar que vende cigarro vinte e quatro horas, sozinha e morrendo aos poucos. Eu já deveria ter desistido de ser útil para algo ou alguém. E talvez eu tenha vício em pronomes indefinidos. Talvez eu tenha vício em fazer o que não gosto. Talvez eu tenha vício em me meter no que não fui e nem quis ser chamada. Talvez eu vicie em tudo o que me causa desgosto. E neste momento, neste exato momento, eu sou uma repulsa para mim. 

    Se eu estivesse em outro corpo e me visse andando nessa rua agora, com essa cara, com esse cara, com as mãos assim, com os pés assim, eu juro — pelo o corpo que eu teria, que sentaria próximo e começaria a rir como se a vida fosse acabar no riso. Aquela risada que vai ficando tão boa que perde o som, o fôlego, e as lágrimas caem. Eu ficaria ali vendo a vida acabar com eles. Acabar com a gente.








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sexta-feira, janeiro 02, 2015

D-istração

   Você é quem me deixa distraída com pares de sapatos trocados, chave esquecida em cima do balcão, nomes não memorizados ou confundidos, você é quem me deixa na contra mão dos meus destinos, dá uma disritmia nos pés que não sabem mais dançar, não sabem se vão ou se voltam. Você é aquela pessoa que ocupa boa parte dos pensamentos e não me deixa chances de me concentrar em algo a mais, fica tamborilando na mente, vai sendo um acúmulo de lembranças e planos futuros, seu nome repercutindo de um lado só e do outro lado tenho as coisas mais improváveis pelas quais podemos passar juntos. Porque eu vou pensando em você e vai virando tudo uma loucura, o sossego é quando você chega e essa bagunça toda aqui dentro começa a se acalmar, e eu até lembro de apagar todas as bocas do fogão, guardar as coisas na geladeira e dar aquele recado de duas horas atrás que alguém pediu, até entendo a trama do filme passando na televisão, até sei a pontuação dos jogos, até faço um comentário válido. Mas você sempre vai embora e eu fico aqui nesse tumulto de quem não sabe mais estar só. 

— Flávia Andrade



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