segunda-feira, janeiro 05, 2015

Só Mais Um

    Pouquíssimo sóbria. É assim que ando, meus dedos estão entrelaçados nos de alguém que conheci há pouco mais de duas horas. Estamos andando como casal, pois às vezes o romantismo tenta uma chance comigo, mas não vê que tenho apelo sexual nos olhos e que posso sair daqui a qualquer segundo atrás de alguém que faça mais que isso. Que converse menos e aproveite mais. Não que eu queria aproveitar de verdade e sugar todo o tutano da vida como recomendou Thoreau, apenas quero ter um bom motivo para lamentar durante a ressaca das próximas horas.

— Eu nunca pensei que um dia estaria aqui com você. – Ele diz. Eu só ignoro.

    Eu aprendi a fazer tudo em busca de uma causa realmente válida. Que sempre seja a melhor ou a pior. Que eu não me arrisque por nada que é morno, taxado de "mais ou menos" ou quase insignificante. Que sempre seja o pior erro ou o melhor acerto — embora eu não seja muito de acertar. É como não desperdiçar lágrima atoa e ter sempre alguém ou alguma lembrança que lhe dê um bom motivo para chorar. Então em todo dia seguinte eu tenho uma resposta bem elaborada para mim mesma, um argumento que não me dê oportunidade de arrependimento vão.

    Eu havia feito uma promessa às duas da manhã do dia anterior. Eu prometi parar de beber e de fumar. Prometi dar um jeito na cara, no corpo, nas roupas. Prometi começar a correr. Ou só caminhar — meu pulmão não aguenta muito. Mas promessas feitas nessas horas são imprestáveis, acontecem quando você pensa que pode mudar por que todos já estão dormindo e não tem ninguém para perturbar, acontecem quando você vai acreditando, meio sonolenta, que o mundo é aquilo da madrugada: um silêncio perpétuo. Mas o dia chega, as pessoas se aproximam, e você tem que levantar e dizer mentalmente todos os palavrões possíveis. Eu havia feito essa promessa e ela parecia ótima, então umas vinte horas mais tarde eu comecei a trilhar meu caminho até aqui, nesse momento em que nada é arriscado o suficiente e eu poderia vomitar apenas para estragar toda a cena bonita que esse alguém ao meu lado pensa que está acontecendo, e eu poderia ter um pulmão bom para correr e deixar tudo para trás. 

    Acendo mais um cigarro. É o último do maço. O que caralhos estou fazendo com a minha vida? Eu deveria estar próxima de algum lugar que vende cigarro vinte e quatro horas, sozinha e morrendo aos poucos. Eu já deveria ter desistido de ser útil para algo ou alguém. E talvez eu tenha vício em pronomes indefinidos. Talvez eu tenha vício em fazer o que não gosto. Talvez eu tenha vício em me meter no que não fui e nem quis ser chamada. Talvez eu vicie em tudo o que me causa desgosto. E neste momento, neste exato momento, eu sou uma repulsa para mim. 

    Se eu estivesse em outro corpo e me visse andando nessa rua agora, com essa cara, com esse cara, com as mãos assim, com os pés assim, eu juro — pelo o corpo que eu teria, que sentaria próximo e começaria a rir como se a vida fosse acabar no riso. Aquela risada que vai ficando tão boa que perde o som, o fôlego, e as lágrimas caem. Eu ficaria ali vendo a vida acabar com eles. Acabar com a gente.








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Natasha

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