domingo, fevereiro 22, 2015


O que você não entende em mim, em você eu também não entendo. E a graça é a gente, no meio de tanta incompreensão, apenas se perder.

sábado, fevereiro 21, 2015

Outro Texto; Outro Recomeço


    Não prometo que seja o último texto, mas por agora é. Eu posso sempre voltar atrás enquanto tudo muda, seja em períodos longos ou curtos. Há um ano eu esperava de você um cumprimento ocasional no meio da rua, ultimamente eu tenho desviado meu caminho do seu. Duas horas atrás eu estava te esperando, agora estou só pensando no que fazer da vida e como seguir em frente. Não jogarei a culpa nas suas mãos, com as minhas levantadas vou me render. Eu me arrependo sempre de voltar atrás enquanto tudo muda. Há dois anos eu não te conhecia, esse ano eu quis não te conhecer. Três horas atrás eu te liguei, três minutos atrás eu parei de me sentir burra. Enquanto tudo muda, eu planejo mudar também. Uma vida para trás com anos passados e outra vida, bem melhor, com semanas que virão dia após dia. Não prometo que seja o último recomeço, mas por agora é.



quinta-feira, fevereiro 19, 2015

Quase Invisíveis



    Eu reparo em toda timidez que se confunde com mãos nos bolsos, em gestos quase despercebidos no meio de histórias empolgantes, contadas por vozes baixas que ninguém quer ouvir. Reparo no silêncio distante do único alguém que apenas vê a festa acontecer enquanto os pés distraidamente sapateiam sem ritmo. Reparo nas respostas corretas sussurradas que outros repetem mais alto e levam os créditos, nas reações rápidas às ironias boas. Percebo as mentes inquietas em rostos tranquilos e toda a vontade de estar em qualquer outro lugar. E eu penso em me aproximar e dizer: eu também quero sair daqui.


O Remorso a Minha Frente



    Desconheço seu olhar manso, mas reconheço a fúria com qual me encara como se pudesse perfurar o rosto. É que a decepção deixa estragos emocionais. Sinto, além de sua dor, muito por não ter sido uma completa idealização e por não ter ficado para explicar quem realmente sou. Não vejo mais a simpatia das primeiras semanas juntas de um embalo fácil para conversar, nem ouço os convites que tentavam parecer espontâneos para lugar nenhum. Em pé, na minha frente, só você, muros, escudos e os clichês de auto proteção. Sinto muito por esse caos. Se eu não tivesse perdido toda a voz, toda a chance de explicação e se não tivesse tanto medo de te fazer fugir mais uma vez, desarmada eu daria motivos. Sem nada além do que não sou mais, permaneço aqui de mãos atadas e cabeça cheia querendo demonstrar que compreendo, em cada detalhe, a negatividade que seus passos transmitem para a minha direção.


Completos Insones



    A cidade inteira dormiu, você continua acordado e eu. Os cachorros, as rádios, os canais, as operadoras, tudo adormeceu, mas você e eu estamos despertos. Não há som algum além do nosso silêncio e luz alguma além da lâmpada amarelada acima de nós. O vento e a vida continuam sem pausas e, por sermos completos insones, seguimos somente estes. Somos sussurros que de fora penetram sonhos, leves incômodos no ronco das pessoas dentro de suas casas repousadas.


Devaneios



    Enquanto você fala tanta coisa sobre sua própria vida, eu apenas observo a extensão entre sua boca e pescoço, as palavras meigas se escondendo na barba e as firmes saindo em um tom de voz mais forte. Eu memorizo o jeito que você me olha enquanto conta uma história e presto atenção se alguém ao redor também está ouvindo, assim vou me perdendo enquanto você se encontra dentro das lembranças pessoais que quer compartilhar comigo. 
    Enquanto você reclama do dia, só penso em uma maneira de pedir para gastar o resto da semana, talvez ano e vida ao meu lado. Mas não peço. Eu tenho tanta bobagem para dizer em resposta às suas confissões banais, mas seguro o riso e finjo que ouço atenta.
    Vou me afundando cada vez mais na sua voz que não se cala e eu gosto. Eu posso te dar um livro de poesias com mais de quinhentas páginas pra você ler pra mim? Posso te fazer recitar uma peça inteira na minha frente? Desculpa, eu só quero ouvir e pouco me importo se não se sair tão bem.
Eu me perderia nos seus olhos também, mas você os tira da minha direção, o chão rouba cada olhar.       Eu colocaria meus braços ao seu redor e não soltaria mais, digo, nunca mais. Eu trancaria a porta, chutaria a chave para fora por entre a madeira e o piso, eu faria você ficar. Eu contaria os sonhos que não fizeram sentido, mas que gostei.
     Enquanto você fala, elaboro planos. Desculpa se eu concordar sobre qualquer coisa dita, acho que me perdi logo que você chegou.


terça-feira, fevereiro 17, 2015

    Intitular uma obra pode ser mais trabalhoso que criá-la, afinal, como transmitir toda a essência do que há para ser descoberto sem entregar o ápice, despertar curiosidade e avidez para que um desconhecido queira conhecer seu trabalho e exalar criatividade ao mesmo tempo? E mais, como colocar tudo isso em uma única frase acima de todo seu inspirado esforço?

    Tudo bem, às vezes um título vem repentinamente e você encerra o dia com tudo feito, às vezes você tem o título, mas não tem o resto e mal sabe por onde começar, às vezes você tem título, começo, menos seu pior pesadelo: o fim. Outra coisa acontece frequentemente, está tudo feito e corretamente intitulado, porém - e isso pode soar mais depressivo do que realmente é, aos seus olhos está uma porcaria. E se nem você, que nada mais é do que o criador, aprovou, quem aprovará? Então começa a busca pelos defeitos como um pedreiro analisando a calçada destruída com uma pá de cimento em mãos tapando buraco por buraco e aí, depois de cobrir tudo, o que você vê nem deveria se chamar calçada.

    Dentro da minha mente exausta de busca por títulos começou então um processo de criação de táticas, um jeitinho brasiliterário de resolver um dos problemas que escritores enfrentam. Essa ideia começou a surgir como furto quando um amigo meu e também colaborador deste blog, Roger Portela, contou-me sua teoria para a criação de títulos. Para ele, o rótulo da obra é resultado de uma matemática básica: s + a = x. Eu sei, somos de humanas, explicarei melhor: s é substantivo, + é mais, a é adjetivo, = é igual, x é o título. Una um substantivo e um adjetivo e crie seu título. (Podemos encaixar a Bíblia Sagrada aqui?). Primeiramente lembremos que a ordem dos fatores não altera o resultado, agora pensemos em livros famosos que se encaixam nisso: Laranja Mecânica, O Homem Invisível, Divina Comédia, O Pequeno Príncipe. E aposto que O Menino do Pijama de Listras não ficaria tão bom.

    Concluindo essa primeira linha de pensamento e tediosamente listando as cores em inglês percebi outra chave para bons títulos, mas dessa vez aconteceu observando bandas renomadas: Pink Floyd, Whitesnake, Red Hot Chili Peppers, Black Sabbath, Green Day, Deep Purple. As cores estão em todos e eu não me arrependeria se tivesse me tornado um ídolo usando estes nomes.

     Se as cores são a chave do sucesso para nomear bandas, e a junção de substantivos com adjetivos é chave do sucesso para títulos de livros best sellers, o que acontecerá se você intitular sua próxima obra usando substantivo e adjetivo sendo um deles uma cor? Você pode se tornar milionário, bilionário, pode revolucionar o mundo. Podem criar um prêmio para títulos criativos e que se encaixam em todos os quesitos mencionados no início deste texto. Pode ser a obra do século ou, sendo mais humilde, apenas a obra da década.

     Você ainda não confia? Eu tentarei ajudar mais um pouco, pois também não confio em muito disso. Essas podem ser as piores teorias, principalmente e meramente, pelo fato de serem teorias. Títulos são fundamentais, porém não definem extremamente o conteúdo, podem ser abrangentes, mas o leitor só descobrirá se realmente ler. Gostar ou não gostar é outro tópico mais complexo, mas assim como rótulos, três primeiras páginas ruins podem te fazer desistir de mais de cem páginas maravilhosas ou vice-versa. Assim como rótulos, nada será perfeitamente bem construído do início ao fim para todo mundo. A teoria pode ser ótima, a tática de junção de palavras que soam bem e são magnificamente pronunciáveis pode ser excelente, mas não é uma fórmula mágica e única.

      Pode até doer lá no fundo do orgulho escritor não conseguir elaborar algo tão, aparentemente, simples como o título de sua própria obra. Pode dar aquela pontada deprimente de vontade de reescrever tudo ou simplesmente apagar e começar outro livro, conto, crônica, prosa ou poesia. Contudo, ao alcançar o fim e dar aquele riso aliviado por inteiro, percebemos todos os motivos prazerosos pelos quais chegamos ao ponto final e começamos do zero outra tortura instigante de se dedicar a algo só seu que possivelmente terá chance de ser lido por mais pessoas, tais que desconhecerão (por mais que você tente explicar) toda a loucura para encontrar sempre as palavras certas.

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    Já duvidou daquilo que, se caso fosse sincero, mudaria sua vida? Um frio congelante dentro de você e uma tontura exaustiva dentro da mente após ouvir um "eu te amo". A tormenta de não saber como lidar com uma notícia boa que alavancaria toda sua carreira para a qual tanto se dedicou. O medo extremo de errar mesmo tendo na consciência a exatidão de que fez tudo certo. O desespero a cada batida na porta como se fossem te roubar para outro planeta enquanto senta com uma xícara de café esperando aquela visita boa. É como estar só no meio da multidão, com a feição séria no meio dos risos, com os olhos marejados enquanto os outros somente brilham. É como prever o futuro com erros do passado, ver refletido no espelho somente quem você não quis ser e não acredita que pode mudar. É uma prisão dentro de si mesmo. Já duvidou sobre ser amado por alguém? Pensou que pudessem sentir pena, compaixão, qualquer coisa por você, menos amor. Já esteve à beira do precipício sem expectativa de volta e com pensamentos suicidas que antes eram somente uma angústia no fundo do peito? Aquele medo de achar que está seguindo em frente, mas apenas voltando atrás ou andando em círculos, aquele receio de caminhos desconhecidos que podem ferir seus pés mais ainda, aquele despreparo para levar alguém junto e a vontade de correr sozinho para bem longe mesmo precisando de sossego em um abraço. Já pensou ser um caso perdido? Alguém sem fé, sem perspectivas, sem nada mais para ganhar, alguém que não merece nada bom.


segunda-feira, fevereiro 16, 2015



    Você pergunta se estou bem e eu gostaria de dizer que estou agoniada, pois tento fazer qualquer coisa que te tire da minha cabeça, mas você interrompe todas essas coisas quase sem querer. Gostaria de dizer que estou exausta, a cada dia fica mais complicado pensar em nós porque tem sempre um motivo novo para desistir e três outros para insistir. Eu queria dizer que até sinto tonturas enquanto encontro razões diferentes para coisas que você disse há tanto tempo e que eu vou perdendo a exatidão e só vou me recordando do que senti. E eu gostaria de dizer que estou confusa, os sentimentos nunca estiveram tão bagunçados para mim como estão agora e que o agora é o espaço-tempo que adentrei quando te conheci. Gostaria de dizer que até sinto um sufoco. Eu gostaria de confessar que na memória eu tenho uma caixinha toda sobre você na qual guardei detalhes do seu sorriso, voz e essas coisas que você já sabe de cor que eu gosto porque, sabe, já deixei escapar. E eu gostaria de dizer que estou louca, só para retornar às discussões passadas porque agora eu tenho respostas e elaborei bons argumentos, gostaria de voltar aos diálogos de semanas atrás porque agora eu sei bem o que dizer. Eu queria que você soubesse que eu me esforço para fingir que não me importo tanto, mas que quando tento contradizer qualquer coisa relacionada a você não consigo. E eu faria um drama imenso sobre tudo isso que sinto e pediria para você vir me ver, ficar até o resto da vida só para eu ser feliz. Mas eu respondo que estou bem, você segue com o seu dia tranquilo e eu sigo com o meu, esse dia de sempre, dia de ter tanto para dizer e somente acumular.


quarta-feira, fevereiro 11, 2015

Maus Elementos



    Eu poderia te fazer um bem danado e você poderia ser só meu bem, mas nunca fomos bons sujeitos, tampouco conjugamos bons verbos. Nunca fomos dessas flores que se cheire, dessas boas companhias que se recomende. Às três da tarde andamos num tropeço interminável de quem não conhece bem o dia, mas às três da manhã dançamos em toda rua, todo canto, toda esquina. Somos poesia pela metade, conto sem fim e crônica sem palavras.
    Eu poderia ser a melhor para você, mas nos encontramos no que há de pior. Você poderia ser o melhor para mim, mas só sabemos rir do que é ruim e já nem faz tão mal. Com tanta má reputação construiremos um personagem para que os outros possam comentar, com trapaça correremos tortos por trieiros para alcançarmos o destino errado que nos servirá. Servirá, meu não-tão-bem, de garantia para nosso final quase contente.


quinta-feira, fevereiro 05, 2015

Moradia



     Eu diria para não reparar na casa bagunçada e nem em mim que sou uma desordem, mas você já viu tudo e adentrou o caos. Enxergou em detalhes os meus tumultos, a sujeira embaixo dos tapetes, o tanto de coisa espalhada que pouca gente pode ser capaz de reorganizar. Viu em cada riso e poeira algo que escapa com o vento e com cautela anda tentando examinar melhor. Eu até digo que te dou abrigo, ofereço aconchego no meu abraço, só não repara no mundo lá fora porque eu vou te pedir para ficar.

terça-feira, fevereiro 03, 2015

Traz um Isqueiro

     Traz um isqueiro, eu peço. Mas eu não fumo, ele diz. Mas eu sim, eu comento. Você tem que parar, ele retruca. Então vou parar de te ver também, eu provoco. Ele desliga o telefone.
    Mas eu não disse que não traria, ele fala parado na minha frente no beco escuro. E eu sabia que você viria, eu rimo e acho estupidamente desnecessário. Ele senta ao meu lado, me dá o isqueiro e eu acendo o cigarro, ele ri. Do que você está rindo? Eu pergunto. Eu estou encarando, mas ele não olha para mim. Ele fica sério. Você é dependente de mim. Eu não sou dependente de você. Sou pior que nicotina pra você. Eu corrigiria: você é melhor que nicotina pra mim. Mas não. Eu fiquei quieta porque não posso me entregar de bandeja, embora já esteja na bandeja com uma maçã na boca. Ou eu esteja fazendo uma bandeja como no basquete, sabe, quando você pula em direção à cesta e solta a bola pertinho do aro. Tem alguma metáfora boa nisso, alguma que não sei  explicar direito. Talvez eu esteja jogando certo, talvez se entregar seja o melhor a se fazer. Mas há tanto medo.
     Você faz disso tudo um drama, no meio da outra conversa longa que se desencadeou ele diz. E ele está certo ou está me manipulando, de qualquer forma eu concordo em silêncio e disfarço com um riso. Busca uma bebida, eu peço. Eu quero que você vá beber comigo, ele pede sem pedir. Então eu fico num silêncio como se encerrasse uma ligação. Levanto e espero que ele fique em pé também pra gente ir, porque somos assim, temos um linguajar que vem com o vento até em dia abafado e não precisamos dizer muita coisa.
    Eu faço disso tudo um drama, eu me entrego depois de umas horas de rodeios, de bandeja, fazendo bandeja, marcando gosto e ponto como esporte ou degustação, como prazer. Então continuo: a música que toca aqui, a bebida que a gente vira goela abaixo, o jeito que você me olha, o timbre da sua voz, o que eu penso em responder, é tudo muito dramático para mim. Pode ser mais um dos meus vícios, mas eu gosto do fato de você fazer parte dele, você não desiste na primeira nem na vigésima cara de choro. Você sempre fica mais um pouco, termino de dizer.
    Mas hoje eu tenho que ir mais cedo, alguns minutos bem tardios ele responde. Eu pergunto o motivo porque é o que pessoas dependentes fazem, eu penso. É que quando você diz tanta coisa para mim depois de tanto silêncio, ele vai dizendo, eu preciso de mais horas sozinho pra rever e repensar tudo, porque eu sei que em cada palavra, vírgula e pausa para respirar tem mais significado que um dicionário e um estudo aprofundado de síntese, semântica ou seja lá o que for possa definir.
     Ele diz algumas coisas erradas no meio de frases bonitas e eu gosto tanto, devaneio ainda no silêncio de trocas de olhares. Assim ele levanta e vai embora. (Mais cedo pra continuar pensando em mim). Eu fico ali pensando mais um pouco nele. Eu não sou a única dependente, mando uma mensagem de texto. Podemos montar um grupo de dois, ele responde. A gente dorme sorrindo.








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    Minha vida estava sem rumo, daí eu rumei ela às cegas para não sei onde, ficou desgovernada, atropelou os sonhos magros e gordos, novos e velhos, feriu as confianças mais bonitas, chamou a atenção da insegurança. Minha vida desde então está presa onde eu nunca quis chegar.
— Flávia Andrade.

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

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Equilibrante

    A cada dia encontro algo em mim que gosto menos e algo em você que disfarça esse defeito. Algo que me falta e sobra no seu jeito e eu penso que preciso ter. É um pouco da sua paciência que carece no meu surto, é muito do seu riso para o meu choro desenfreado, é você tão racional para o ser tão emocional que sou, são as provas concretas que você tem para as minhas intuições. É que eu sou uma desajustada e você é o esforçado que traz pesos a mais para o outro lado da balança e me deixa em equilíbrio. 
— Flávia Andrade.
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