segunda-feira, março 30, 2015

2x2


    Deixou a chave no carro e o motor esquentando tal como a cabeça. O caminho entre a abertura da porta do veículo e as batidas firmes na porta da casa passou como dois segundos de blackout. Mas lá estava ele, supostamente forte e estático, vendo-a assustada, talvez admirada - por seu grande feito de encarar o problema maior, aquela relação.
    Os olhos se abrem e, na verdade, ele ainda está no carro. Tira a chave do carro, sente tudo desligado e silencioso dentro e fora. Não há som algum às... acende a tela do celular, tenta se acostumar com a luz e vê a hora: três e sete da manhã, não há som. Desce do carro, caminha vagarosamente até a porta, para de frente a ela e de si como quem sai do corpo e quer entrar na casa, com um olhar distante a encara por alguns minutos. Como um milagre, alguma luz dentro da casa acende, ele lembra do clarão do celular em suas retinas e imagina os olhos castanhos lá dentro tentando lidar com a iluminação repentina. Ouve passos se aproximando e prepara o discurso, respira fundo.
    Os olhos se abrem outra vez. Ele se ajeita no banco e sente, com as mãos - como uma criança exagerada, o coração bater desesperadamente: - olha, eu só queria dizer que suas falhas não me farão desistir de você(!)(?)(...)
     Os olhos reabrem.
    Olha em volta, vê tudo escuro, vazio e taciturno. Fala sozinho: é fácil, você consegue, vá lá. Fala consigo, fala com outro ele dentro dele que lhe atormenta. Treina o discurso, muito agressivo. Treina a fala, muito calma. Sem palavras difíceis, sem repetir muito "você". Lasca um beijo nela! Larga de tanto medo, cacete. Mas ao fim, deixou a chave no carro, até esperou um roubo só para ter uma desculpa realmente boa para estar ali, "fui roubado e sua casa era a mais próxima", mas até os ladrões com suas armas dormem. E ele lá, ex-babaca, tentando recuperar um relacionamento. Para em frente a casa, fisicamente, e recupera memórias dentro de si.
     Desiste.
     Não posso.
     Não pode. 
     Sem chances.
    Volta para o carro não roubado, liga-o, ferve a mente, vai embora. Hoje não é um dia favorável para ex-babacas, diz em voz alta. Liga o som. "Desculpe, estou um pouco atrasado, mas espero que ainda dê tempo de dizer que andei errado e eu entendo...". Nando Reis teve coragem.
      Porra.
      Amanhã ele tenta, ele jura que vai tentar. São só duas semanas fazendo essas visitas todos os dias, são só duas semanas com o mesmo CD no carro, são só duas semanas sendo um só numa cama, um só numa madrugada vazia, um só num carro não roubado, um só com tanta coisa para dizer. (Acontece que ela foi embora justamente porque disse seus tantos primeiro. Que inferno.)

Flávia Andrade

Três Dias de Fevereiro


    Eu sinto falta do seu carinho que quase um mês depois você chamou de chamego. No dia, você reparou nos meus pés gelados - eu já tinha avisado, enquanto eu me aconchegava cada vez mais no seu peito. Minha mente estava sobrecarregada de localizações na cidade, pois você queria sair e eu precisava te levar para qualquer lugar bom. Eu confessaria, se não fosse tamanha a timidez, que queria ficar somente no quarto, eu e você por três dias inteiros. Eu conversaria mais caso minha cabeça não estivesse habitando um tumulto. Eu me mexeria mais na cama caso não estivesse te querendo como cobertor ou segunda pele, todo meu por todos aqueles dias. Perdoe o que não fiz, foi tudo o que eu quis e pude fazer. A essa altura até desisto de saber se você quer voltar só para me ver, até paro de me questionar se por algum momento te fiz mais feliz do que você poderia se fazer sozinho. Se, banalmente, te valeu a pena. Eu sinto falta dos beijos tímidos de trinta e quatro dias atrás com sorrisos escapados, dos beijos que conversavam mais que (e por) nós. Mas eu chego logo aí para matar um pouco dessa vontade toda e no caminho vou esperando e pedindo baixinho que você ainda queira me ver outra vez, que me cubra por mais dias, que a gente esqueça o mundo lá fora por mais horas.

Flávia Andrade

domingo, março 29, 2015


    Não repara na mancha de café na minha blusa branca que eu nem comento da minha língua queimada, assim você não vai notar todo o meu desastre logo cedo. Não ando desatenta, só sou um pouco desarticulada em relação ao mundo, só não me encaixo nos espaços certos, estou constantemente fora do eixo e tropeçando. Desculpa não ter tanta postura, isso também serve para me desculpar sobre minha falta de ética às vezes. Além dos tropeços, sou também das trapaças. Além disso, ainda por cima - e eu espero que você não saia correndo antes de ouvir todos os meus defeitos - bebo mais do que devo no fins de semana, encho meu copo no mesmo segundo em que o esvazio, prezo pela cerveja gelada, ai dela se esquentar. Mas não repara na minha voz embargada que eu posso até tentar evitar algumas coisas a serem ditas. Não repara no meu sono enquanto você me leva para casa, talvez eu durma no seu ombro, no seu colo, talvez você tenha que passar a noite. Não repara no quanto eu fico carinhosa nas madrugadas e como acordo correndo, até com atitudes frias, logo cedo para me dedicar à vida independente. Não repara no quanto oscilo em tudo o que faço e em como eu sou. Eu nem sei o que e como sou, nem sei porque sou assim, mas sou... E se você não reparar tanto, eu espero que por algum acaso silencioso você vá ficando cada vez mais, que a gente fique pertinho assim um do outro e não te machucarei com esbarrões, talvez eu nem precise ir embora todo dia, talvez a gente possa dividir um apartamento de um quarto só. Não repara nos meus planos repentinos que eu nem confesso que já os planejei há mais de semanas. Não repara no que aos poucos vou te causando que eu nem digo que você mudou minha vida toda.

Flávia Andrade

sexta-feira, março 27, 2015

Reflexo de Uma Guerra Interna


    Um livro pesado arremessado no chão, algumas páginas estão sendo amassadas pelas outras deixando-o horrendo. Uma garrafa de vinho quebrada por alguém que não soube retirar a rolha está com pouco líquido e muitos cacos. Imagino cacos com gosto de vinho seco descendo garganta abaixo e olhos lendo história tão mal escrita que fizeram as mãos em um movimento ligeiro produzirem essa cena que causa pena das folhas. Ainda imaginativa visualizo mentalmente uma garganta com sangue e olhos querendo ser retirados com garfos ao ler o que agora escrevo. Morro um pouco, alguma dor em mim. Borrões de tinta na parede causadas e deixadas como rastros por quem quis apagar qualquer coisa que estivesse escrita, agora ilegível. Busco a relação do livro, vinho e parede. Provavelmente uma dor corrosiva foi sentida para causar tamanha desordem. Aproximo-me do espelho: duas manchas pequenas de vinho na blusa branca. Pouco encaro minha face assustada no reflexo. Os braços com sangue, o mesmo sangue que escorre de um dos tornozelos. Engulo em seco o que vejo e sinto o gosto na boca, o gosto de tudo o que vi. De vinho com cacos, de leitura interrompida, de braços cansados que esfregaram a parede. No fim da degustação, o gosto mais amargo. A dor que senti tem gosto tangível e ao mesmo tempo inalcançável. Um gosto que me tirou de mim. Vejo tudo o que fiz e no meio da pequena bagunça, eu, o caos.

Flávia Andrade

Ficção Realística


    O espectador está sentado no sofá e assiste a um filme de terror. O suspense está acontecendo na tela, a música assombrosa ficando mais alta. Ele encolhe os pés para cima do móvel e para baixo do cobertor. Todo o contexto cinematográfico avisa, implícito, que o pior vai acontecer. A agonia percorre o corpo de quem assiste enquanto a raiva percorre o personagem que se direciona para outro cômodo. Na sala ninguém se move. Um grito estridente penetra os ouvidos medrosos e com o som o espectador leva a mão direita aos olhos. Escuridão. Gritos inquietantes: a cena está acontecendo, é o ápice da trama. Enquanto a mão tapa os olhos o roteiro, o trabalho de direção e atuação são desperdiçados. É retirada dos cômodos a essência do horrendo. Silêncio. Ele tira a mão dos olhos, o filme vai bem, acabou o momento de terror, acabou a maravilhosidade do medo. Para o espectador o fim do filme foi em vão, ele ainda sente outros medos.

Flávia Andrade

quinta-feira, março 26, 2015

    

    Esqueço-o enquanto, concomitante, abandono quem fui. Esqueço-o desfazendo enlaços que antes nos uniam. Noto, na confusão descarada de nossas histórias, que ele em sua total realização era somente reflexo dos meus erros. Era minha pele, carne e ossos; minha impertinência. Eu tragava o cigarro, ele era a fumaça que saía de mim e percorria o ar já poluído.  Se me deixo para trás, deixo-o também. Se me esqueço, talvez o esqueça também. Como um único dia que difama em silêncio todo o passado, a semelhança que nos põe como um corpo só nas mentiras não passa de algo que possa ser chutado porta afora. Esqueço-o enquanto não vivo mais a vida que vivia.

Flávia Andrade

segunda-feira, março 23, 2015

Acidamente Despreocupada


     Eu me preocupo tanto, meu bem. Controlo seu horário de saída e de chegada, presto atenção daqui de longe para notar o barulho dos seus pés tocando esse chão. Espero tanto que me canso, sento ou deito e espero. Às vezes, inquieta, como e como e como, eu tenho até ficado um pouco inchada. Se você disser que ainda assim estou bonita, meu bem, eu vou ficar feliz outra vez. Mas corre logo para me ver, pois eu espero tanto que me canso, quase morro, quase choro. Espero tanto que te canso de dizer que estou aqui há horas, plantada e criando raízes te esperando. Nem vivo, muitas vezes, para te esperar a vida toda. Mal respiro e economizo batidas de coração. Espero tanto que ligo a cada segundo, encho de mensagens, faço perceber a falta que faz. Percebe? Tem notado essa falta que me faz? No silêncio, no vazio, na indiferença que me escapa. Note, meu bem.

Flávia Andrade

sábado, março 21, 2015

Desconfortáveis


    Passos desajustados dentro do shopping. Um sorvete na mão direita. Uma sacola com chocolates na mão esquerda. Olhos com lágrimas prestes a despencar. Uma mente tumultuada com lembranças. Passos desajustados dentro do shopping querendo correr para fora, correr até alcançar o carro. Aquele carro que já está em movimento. Dentro do carro pés inquietos. Na mão direita um celular. A mão esquerda se apoia na mochila. Olhos semicerrados pelo sol que adentra o veículo. Uma mente cheia de coisas que fez, não fez e poderia ter feito. Na vida sempre resta um que fica e outro que vai, um que supera e outro que não esquece. Sempre um torto e outro de caminhos certos. Sempre um racional e um emocional. Passos emocionais dentro do shopping. Passos emocionais conforme os dias se seguem. Passos emocionais de um ser emocional à flor da pele. Passos com saudade. Passos que tentam se enganar e dizer que já não sentem mais nada. Para lá do carro, para lá do aeroporto, para lá do estado: passos inquietos de quem sempre tem algo melhor a fazer, que não se prende aos dias que passam. Passos renovados. Mesmo que digam que sentem saudade, não significam. Os passos se contradizem e vão em direções opostas. Aos poucos vão alcançando distâncias tão longas onde não poderão se ver mesmo que olhem para trás. Passos vazios. Passos solitários.

Flávia Andrade

sexta-feira, março 20, 2015

Haraquiri Amoroso


    Foi indiferença à primeira vista. Quando ele não me olhou nos olhos e nem reparou, eu soube que era destino. Eu não poderia estar em um lugar mais errado que aquele, não poderia ser mais indesejada naquele dia do que fui, eu soube, seria um belíssimo amor não correspondido. Era daquilo que eu precisava: uma frieza nociva ao meu estoque quente de clichê. Naquele exato momento previ todas as músicas ruins que eu escutaria e associaria a ele. Todos os filmes tão nossos que me fariam chorar. Eu previ o oceano de lágrimas salgadas descendo pelo rosto. Foi para não ser e por isso eu quis que fosse. Fui conhecendo os defeitos, todos aqueles que eu repudiava até arrepiarem os pelos dos braços e da nuca. A cada dia queria gastar mais algum tempo notando cada um. Discordávamos até mesmo em vírgulas, desde as coisas mais simples da vida às complexidades da idealização. Ele fugia em cada centímetro do estereótipo que eu sempre procurei e eu era seu nunca. Eu gostava tanto daquele desgostoso jeito de falar comigo, de quando ele colocava a cadeira longe fazendo parecer que a culpada era a mesa por estar ali entre nós. Mas não era só uma mesa, a cada dia um muro que nos separava ganhava mais tijolos, se tornava mais árduo alcançá-lo para outra discussão magnífica sobre assuntos banais e então, assim como nos conhecemos, foi indiferença à última vista, ao fim. Acabou e em mim restou somente a lembrança única e duradoura: a dor destilada, bem feita e industrializada, de amar.

Flávia Andrade

Outra Como as Outras


    Outra manhã ainda com sono, outro sonho com você. Eu ainda não sei o que significam os sonhos, eu ainda não sei o que aconteceu com nós. Outro dia e ainda não deixei para trás, outro dia que nem dói tanto, mas ainda sinto. Não nos falamos desde agosto e março parece tão longe, você parece tão longe e sua casa é bem ali. Tudo parece o que não é, assim como parece que te esqueci. Eu tinha tanta coisa para falar, agora eu só penso em como teria sido se eu não tivesse sido eu. Você sabe, eu faria qualquer loucura à beira do abismo em que te conheci, eu não seria eu, seria outra. Outra manhã e ainda me culpo, ainda acho em mim todos os defeitos que você escondeu bem. Outra manhã e a mesma confusão na mente e no coração. Outra manhã e escrever sobre você ainda é clichê, por mais que eu corra, as coisas nunca mudam. 

Flávia Andrade

quinta-feira, março 19, 2015

É que eu não esqueço


    Não posso sair hoje, marquei uma bebedeira comigo logo no início da noite, reservei uma comédia em um canal televisivo e separei músicas que provocam sono, tenho que ir para a cama cedo, pois demoro horas até conseguir dormir. Não pode ser amanhã cedo, primeiro vou a farmácia comprar um remédio para o sono, para a dor de cabeça pós noite mal dormida e depois estarei comprando café, tomando café, vivendo de café porque acabei dormindo tarde, é sempre assim. No caminho não pode ser, o ônibus estará cheio e sentaremos em bancos separados, sendo impossível conversar. Não posso aceitar esse convite para almoço, eu realizo algumas ligações enquanto como, tenho muito para resolver. À tarde também não dá, estarei ocupada com todos os projetos e estudos no quais me envolvi, lidando com pessoas novas e ideias tumultuadoras, indo a reuniões, pagando as contas, comprando um suco pseudo saudável, esquecendo de me alimentar, lendo alguns livros. Eu tenho uns dez ou vinte minutos lá pelas tantas, mas nem vou te chamar, pois estarei fazendo alguns planos só para mim, refletindo sobre algumas leituras de auto ajuda que fiz, alguns filmes com os quais me identifiquei e os assuntos das reuniões, estarei pensando em provas, notas e burocracia. Enquanto ando de um local para o outro será complicado, eu ando fumando tanto e qualquer brecha ao ar livre é boa para acender um cigarro, prefiro me dedicar a este vício. Não posso sair por outra noite, o plano de me distrair até repousar é permanente por ora. Acontece que quando não durmo rápido é porque penso em você, quando tomo café é para tentar me despertar de um devaneio nosso que adentro toda noite, e toda tarde corro pelo labirinto de todos esses sentimentos enchendo a mente com problemas racionais e, se paro alguns segundos, é só para tentar me colocar nos eixos outra vez, te tirar dos meus eixos de vez. Acontece que tudo isso tem acontecido para que, de alguma maneira, eu consiga te deixar para trás e por enquanto, por mais que eu tente, eu não deixo... Vou procurar uma roupa para vestir e ir te ver hoje.

Flávia Andrade

A Desvairada


    Desculpe pelo romance contemporâneo que te fiz adentrar, por te botar nesse imediatismo que chega e vai embora tão de repente que precisaríamos de outro Shakespeare que criasse outro suddenly. Desculpe não ter expressões que se adequem, a tecnologia está impregnando em todo canto e parece que todo o resto é velho o suficiente para não servir mais. Nem os sapatos estão tão válidos, aqueles sapatos de semana passada já estão acabados e nem é assim que chamam hoje. A bateria está acabando e eu ainda não planejei o que dizer, salvei algumas coisas nos blocos de notas, mas não estão se encaixando na conversa que você conduziu, não encontro brechas. Me perdoe por sair do contexto, por ser tão imediato já foi, supere, agora eu tenho que dizer: desculpe, o que eu sentia não sinto mais. Sei que te trouxe até aqui e era mesmo só até aqui que eu queria te trazer. Não quero mais que isso, não quero que fique. Desculpe, quero me desligar, nem quero que se desligue, não quero te descarregar, continue indo bem firme e estático assim, mas eu mudo sempre. Você sabe, eu já confessei, eu mudo sempre, você sabe, até me encho de ênfases automáticas e redundâncias para dizer. Até te faço ouvir a mesma frase tantas vezes, mas de várias formas para ver se entende. É que você ainda está vivendo o ontem e ontem para mim já é o século passado e não me importa. Eu vou embora, mas deixo uns avisos, umas placas e até uns papeizinhos amarelos por aí para você ir lembrando e esquecendo ao mesmo tempo, levando e me deixando. Desculpa pelo romance contemporâneo, nele é tão difícil ser de um só.

Flávia Andrade

sábado, março 14, 2015

Adeus Sem Consoantes


    Olho para você com toda a calma que eu aprendi a ter, enquanto na mente só o desassossego rodeia. Disfarce um riso, peço para mim. Disfarce um abraço frouxo que se torne apertado e não o deixe ir, recomendo em silêncio. E, calmamente, entre o sorriso e braços abertos, te digo para ficar. Não quero demonstrar que preciso, mas não quero mentir que logo esqueço. Olho para você como se tomasse um café cheio de açúcar, com as bochechas coradas. Mas aqui dentro estou inundada de café amargo, com os olhos marejados. Não mostre seu riso, imploro ainda quieta. Não mostre que está tão bem para não parecer que só para mim tem sido difícil lidar. Se você fizer um tumulto, uma cena, eu faço também. Se você desistir de ir, eu desisto também. A condição para o meu silêncio é o seu e assim é o resto. Olho (com esses olhos que tanto conversam) como quem diz: tudo bem, é só mais um capricho meu, pode ir.

quarta-feira, março 11, 2015

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A Despedida


    O olhar foge da cama, ignora a cômoda e sequestra a moça. Ela, na frente do espelho, enxergando pouca beleza pela baixa autoestima tenta passar despercebida. Mas ele a olha, faz memórias fotográficas para o sonho de mais tarde, para quando o espaço esquerdo da cama ficar vazio. A despedida é silenciosa enquanto os dois se arrumam, ocorre um beijo estalado no centro do quarto quando se cruzam. Os passos e os braços estão vagarosos em cada movimento para que aqueles últimos minutos durem um pouco mais. As roupas deslizam pelo corpo querendo voar para longe outra vez, mas vão ficando apenas acomodadas. Ao fim, parecem, frente a frente, prontos, arrumados e vestidos enquanto por dentro estão despreparados para a saudade que sentirão. O olhar dele a encara profundamente ainda feliz, o olhar dela desvia todo triste. Eles são, ao mesmo tempo, ternura e lamento. São, juntos, mais do que nunca poderão ser sozinhos. Andam trocando suspiros pelos corredores, alcançam as calçadas, atravessam as ruas. As mãos dadas estão muito mais firmes que a coragem de seguir com os dias que estarão longe, as mãos dadas se aquecem como se pedissem para não mais esfriarem. Os olhares escapam para céus e terras, para todo o clima que os acompanha até ali. Ali onde o último abraço em um longo espaço de tempo acontece. Onde os dois sorriem com custo. Onde ambos sabem que precisam tomar caminhos diferentes. Eles ainda não disseram palavra alguma e não dirão, suas vozes talvez estejam embargadas e o aquecimento dos corpos significam mais do que poderiam dizer. Ao fim, andam para caminhos opostos e sorrateiramente se olham.

Um Resumo do Amor

    Sou uma causa perdida e esperava o amor. Sabe, da música que diz: por amor às causas perdidas. Os dragões que são moinhos de vento, os dramas que são parte do meu caráter otário. Tudo se encaixa. Sou uma causa perdida que ouve um bom som a vida toda, desde quando eu era uma coisa minúscula na barriga da minha mãe, ela ficava perto de onde tocava rock nacional. Agora eu, por mim mesma, fico perto de onde tocam essas músicas boas. Fico também onde tem cerveja gelada. Fico também onde vai dar problema. E costumava ficar também onde tivesse alguém que me desse esperança de amor ao que sou, sabe, a causa perdida. E por ser causa perdida, ninguém chegou até o fim comigo.
     Agora eu não tenho fé nenhuma, crença nenhuma, esperança nenhuma – talvez um pouco desse último item, mas é do meu jeito próprio de esperar. Eu estou sempre parada em um bar, com um copo ou uma long neck na mão, olhando tudo ao redor, vendo as pessoas casadas, namorando, solteiras, vendo todo mundo e reprisando na mente alguns episódios com coadjuvantes que me disseram coisas como: você vai encontrar alguém que te ame, só tem que parar de procurar, ele vem. Eu não procuro, não espero, não acredito que venha, eu só fico aqui com palavras de outros na minha mente e rebatendo coisas como: cala a porra da sua boca. Eu tenho imensas discussões na mente, às vezes boas frases escapam em voz alta.
     Não foi sempre assim, porém. Eu já tive duas curtas histórias de amor. Uma certamente foi mal sucedida, foi a primeira. Toda primeira história de amor é mal sucedida – a não ser que você seja uma puta pessoa sortuda. A segunda, bom, apenas foi. Apenas virou uma história, certo? Eu poderia deixa-las morrerem comigo e com quem viu de perto ou eternizá-las no que faço: beber. O que eu decidi? O pior caminho, é claro, eternizá-las. Eu fico aqui escorada, bebendo, sofrendo, remoendo, relembrando, sofrendo outra vez. É um hábito que nunca acaba, que vai me seguir até o fim dos dias. Enquanto eu bebo, recupero o amor antes que possa deixá-lo ir, tornou-se então, algo falsificadamente intrínseco a mim. Não o espero, vivo com o pior que restou.

domingo, março 08, 2015

A Labuta do Escritor

    Por algum motivo desconhecido você começa a escrever. Não lembra se já escreveu antes disso e não sabe se continuará escrevendo. Não sabe se está indo bem realmente ou se só pensa que está. Estranha o próprio vocabulário com palavras que no cotidiano nunca usou e em reflexões instantâneas acredita que pode ter aprendido com as inúmeras leituras. Acredita, então, que se lê tanto pode também escrever. O que te separa do autor que escreveu aquele livro que você tanto ama? Quem disse a ele que tem talento e quem te disse que você não tem? Continua escrevendo, pensa em voltar os olhos ao início e reler tudo, mas teme que não esteja tão bom quanto na ideia, teme que algum desvio no impulso enviado do cérebro para as mãos possa ter impedido que a narrativa fique clara. Aos poucos seu corpo perde todo o peso, o mundo silencia, aos poucos você não pertence a mais nada além da trama. E a trama, na beleza da inspiração, é uma criação sua. Você torna-se então o deus daquilo que é escrito e o sentimento passa a ser mais prazeroso do que imaginava ser.
     Contudo, e isso é estranhamente bem generalizado, você é um deus que procrastina. Um deus que às vezes abandona a criação e por outras vezes cuida com tanto zelo que acredita não ter restado nenhuma imperfeição. Com toda a divindade da liberdade narrativa, mesmo que demore, você chega ao fim e por ser fim, não importa se foi pulsante na trama, é o ápice. Repentinamente, o deus não é mais um ser que cria, avalia, lapida e dá forma, mas é aquele ser que precisa encontrar um mundo ao redor e que nesse mundo tenha pessoas que admirem a grande criação. Precisa, cautelosamente, colocar a criação em um lugarzinho e chamar calmamente: venham, observem o que fiz.
Um escritor iniciante sem bagagens literárias, sem livros autorais na mala, com no máximo três — ou nenhum conto publicado aleatoriamente no mercado nacional, ao finalizar sua primeira obra entra em uma maratona incessante para buscar chances. As chances, no entanto, são enganosas. O mercado editorial parece cada vez maior e interessado (ao menos é o que tenta demonstrar), enquanto apenas se limita a certos nomes e espécies de currículos de autores. O autor em sua maratona passa então a fazer uma coleção de links, endereços, telefones e e-mails para onde pode enviar o original da obra. Vai, de pouco em pouco, acumulando nomes de editoras e expectativas. Porém, e por aqui inicia-se o pesadelo para ser publicado, as respostas começam a chegar e não são, nem de longe, tão boas quanto foi esperado.
    As propostas não são apenas propostas, são, na verdade, orçamentos preocupantes. Não encontro frequentemente novos escritores que planejam ficarem milionários com isso, porém também não encontro nenhum que planeje perder uma boa quantia de dinheiro para ser publicado. É como se você pagasse para trabalhar. E isso, infelizmente, é a situação intrínseca à literatura atual nacional. Um número alto de editoras cobram para que seu livro seja impresso, dificilmente divulgado e com certas burocracias posto em livrarias. O número de editoras que não cobram é um pouco menor e primeiramente é para essas (e eu diria: unicamente essas) que um autor deve recorrer. Então, deixando para trás — apenas por um momento, os valores e exigências de uma editora e chegando à segunda fase de ser escritor, vejamos.
    Uma vez publicado, o autor passa então a aumentar o ritmo de sua maratona e dessa vez para encontrar leitores. A teoria é simples (principalmente se a essa altura o autor ainda se considera um deus da criação literária): encontre meios, divulgue, invista e fique famoso. A prática complica um pouco: os meios estão cheios de outros autores se divulgando também, as divulgações precisam de todo um suporte publicitário que o autor não planejou inicialmente ter, os investimentos também são caros e ficar famoso dificilmente é questão de talento. Você, o autor, é então um deus frustrado querendo causar um dilúvio — não associe nenhuma dessas palavras a textos bíblicos, por favor.
Uma vez publicado, o autor precisa superar preconceitos por ser o que simplesmente é: escritor, brasileiro, iniciante e com pouco dinheiro. Precisa por si só saber a vender sua obra, criar táticas próprias de divulgação, buscar por apoios, incomodar colegas, amigos e família com a mesma ladainha de sempre, precisa de muitas horas de seus dias somente para conseguir um certo alcance e através desse alcance quebrar estereótipos e convencer que o que fez é bom. Tudo bem, muitas profissões envolvem esse esforço, mas o caso é que, embora muitas envolvam, a literatura é uma das poucas que tem cunho social, cultural e pessoal ao mesmo tempo.
    E sem saber como chegou até esse "uma vez publicado..." apenas se dedica, dentro do mundo que se envolveu, a ser nada mais do que um escritor. Dedica-se a escrever mais para si do que para qualquer outro, pois onde se encontra, no momento, é primeiro preciso adquirir forças para continuar insistindo e somente depois tentar ser reconhecido.

Flávia Andrade

Sobre Ser, Acima de Tudo, Mulher



    A cama cheia de roupas, cabides espalhados, as gavetas das cômodas abertas, portas do guarda-roupas escancaradas. Nada se encaixa, nada serve, nada combina: — eu não tenho roupa nenhuma para vestir! O esmalte que ainda não secou nas unhas e uma delas já borrou quando fui tentar experimentar os sapatos de saltos demoníacos e altos. O cabelo que ainda não quer ser encarado no espelho, o celular vibrando na mesinha com gente perguntando se já estou chegando, mas eu nem tenho roupa para ir. A saia está desconfortável, o short não fecha direito, a blusa marca a barriga, a outra blusa já usei nas últimas três ocasiões importantes, a outra blusa não vai combinar com a calça e eu nem quero ir de calça, o vestido está com um botão faltando e eu esqueci de ir na costureira, eu não tenho roupa para ir. Eu vou vestir um pijama e ficar em casa. Pego o celular para pedir uma pizza e lá está a mensagem: estou passando aí para te buscar. Eu nem quero mais sair e penso em fazer um drama. Eu poderia dizer que estou de tpm, mas usei essa desculpa cinco dias atrás, não vai funcionar tanto. Então eu me arrumo, na marra, com aquela roupa que já se tornou uniforme, a roupa de sempre. A mente está cheia com o diálogo do dia anterior, algo sobre me dedicar mais que o outro para manter uma boa relação, algo sobre a iniciativa ser sempre minha, sobre exigências para fazer mais do que posso e algo sobre não mudar por ninguém. Talvez eu tenha feito a coisa certa, mas alguma coisa no diálogo se subverteu e fez parecer que eu, como sempre, estive errada. Eu digo que vou sozinha só para ganhar tempo de pensar mais e me tornar outra quando chegar. As saudades mínimas de detalhes quase imperceptíveis batem. Eu penso em largar essa mania de reparar em sorrisos tortos, em gente torta que não me faz bem. Eu sempre ouço que posso ter alguém melhor, mas talvez eu sempre seja a pior de tudo. Estou com esses complexos e neuroses, tão agitada por quem anda tão calmo. Eu espero só encontrar aquela boa amiga para contar tudo o que houve na última noite e talvez conseguir algum conselho bom. Espero encontrar alguma bebida gelada para matar qualquer tipo de sede dentro de mim. Espero querer ficar até o outro dia ou encontrar uma desculpa boa para ir embora de uma vez. Espero não encontrar ninguém envolvido nos diálogos ruins. Passo a noite prestando atenção nas letras das músicas e ignorando as conversas perto de mim, vou me identificando com cada uma, vou me afundando. Repentinamente começo a dançar. Então me afundo outra vez. Bom humor, mau humor, bom humor, mau humor. Contente, descontente, contente, descontente. Sóbria, pouco sóbria, sóbria, pouco sóbria. A música que tocou no primeiro dia, a música que tocou no quinto dia, a música do primeiro mês, a música que ele gosta. Entro em repetições de tudo, em algo bem mais profundo do que pensei que fosse. Descubro em mim o que eu não quis perder, mas deixei escapar. Não voltarei atrás, farei valer o desespero para encontrar uma roupa para hoje. Farei valer os esmaltes nas unhas, as meninices todas. Bom humor outra vez, contente outra vez, ignorando a sobriedade outra vez. Algo sobre não querer e não precisar mais saber de nada, algo sobre o aqui e o agora. Algum mantra bom na mente. Algum otimismo nos conselhos recebidos. Algo sobre só voltar para casa quando estiver claro o suficiente para não precisar encontrar o interruptor da luz, apenas deitar na cama em cima de todas as roupas bagunçadas e continuar o plano de esquecer o resto do mundo.

quarta-feira, março 04, 2015


    Desculpa, essa não é uma história boa. Minha vida não tem grandes frases e acontecimentos. Não tem aquele blablablá de “quando eu era pequena meu pai dizia...”. Meu pai não me dizia nada. Ele era quieto e às vezes me mandava ir ao mercado comprar tomates. Nunca houve nada tão relevante e nada tão bonito. Os maiores acontecimentos resultaram em dores que eu precisei aprender a lidar e conviver com elas. Os menores acontecimentos eu esqueci e ainda esqueço. Desculpa, não tenho nada para te mostrar, nenhum conto bom sobre o ano passado que te faça rir. Desculpa, se você me pedir para falar de mim eu vou ficar em silêncio, vou mexer na comida do prato como uma criança, vou comprar mais uma cerveja. Desculpa, eu vou perguntar sobre você outra vez mesmo já sabendo de todas as suas histórias, mas eu ouço, posso ouvir, eu juro. E mesmo eu sendo um completo vazio e você sendo alguém que quase transborda, quero que a gente se junte e de alguma maneira se complete. Minha mala está vazia, meu coração também, nem ocupo tanto espaço, você só tem que me deixar ficar. Não é uma história empolgante e talvez, por isso, não pareça boa, mas a gente pode tentar transformar todo o meu silêncio ao seu lado tagarelo em algo que todos vão querer ouvir. 


    Perdoa não cumprir as coisas que te prometi, as coisas prometidas para mim eu não cumpri também. Eu oscilo a cada passo, sou sempre um planejamento em desordem, um prédio que inclina um pouco mais a cada mês. Se penso que sigo frente estou somente retornando, se eu te deixo para trás é porque quero te levar comigo. Se desisto é porque ainda sonho e se ainda sonho é porque uma hora não vou querer mais. Eu sei que não posso decidir mais nada, não passo de um tumulto. Eu sei que não posso pedir mais, não passo de algo momentâneo que se torna desistente. Eu sei que não posso te fazer outra promessa, você não ouviu nem a primeira. Perdoa, eu só precisava explicar que se para você eu sou tão errada, para mim não tenho sido nada certa também.

Natasha

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