segunda-feira, março 30, 2015

2x2


    Deixou a chave no carro e o motor esquentando tal como a cabeça. O caminho entre a abertura da porta do veículo e as batidas firmes na porta da casa passou como dois segundos de blackout. Mas lá estava ele, supostamente forte e estático, vendo-a assustada, talvez admirada - por seu grande feito de encarar o problema maior, aquela relação.
    Os olhos se abrem e, na verdade, ele ainda está no carro. Tira a chave do carro, sente tudo desligado e silencioso dentro e fora. Não há som algum às... acende a tela do celular, tenta se acostumar com a luz e vê a hora: três e sete da manhã, não há som. Desce do carro, caminha vagarosamente até a porta, para de frente a ela e de si como quem sai do corpo e quer entrar na casa, com um olhar distante a encara por alguns minutos. Como um milagre, alguma luz dentro da casa acende, ele lembra do clarão do celular em suas retinas e imagina os olhos castanhos lá dentro tentando lidar com a iluminação repentina. Ouve passos se aproximando e prepara o discurso, respira fundo.
    Os olhos se abrem outra vez. Ele se ajeita no banco e sente, com as mãos - como uma criança exagerada, o coração bater desesperadamente: - olha, eu só queria dizer que suas falhas não me farão desistir de você(!)(?)(...)
     Os olhos reabrem.
    Olha em volta, vê tudo escuro, vazio e taciturno. Fala sozinho: é fácil, você consegue, vá lá. Fala consigo, fala com outro ele dentro dele que lhe atormenta. Treina o discurso, muito agressivo. Treina a fala, muito calma. Sem palavras difíceis, sem repetir muito "você". Lasca um beijo nela! Larga de tanto medo, cacete. Mas ao fim, deixou a chave no carro, até esperou um roubo só para ter uma desculpa realmente boa para estar ali, "fui roubado e sua casa era a mais próxima", mas até os ladrões com suas armas dormem. E ele lá, ex-babaca, tentando recuperar um relacionamento. Para em frente a casa, fisicamente, e recupera memórias dentro de si.
     Desiste.
     Não posso.
     Não pode. 
     Sem chances.
    Volta para o carro não roubado, liga-o, ferve a mente, vai embora. Hoje não é um dia favorável para ex-babacas, diz em voz alta. Liga o som. "Desculpe, estou um pouco atrasado, mas espero que ainda dê tempo de dizer que andei errado e eu entendo...". Nando Reis teve coragem.
      Porra.
      Amanhã ele tenta, ele jura que vai tentar. São só duas semanas fazendo essas visitas todos os dias, são só duas semanas com o mesmo CD no carro, são só duas semanas sendo um só numa cama, um só numa madrugada vazia, um só num carro não roubado, um só com tanta coisa para dizer. (Acontece que ela foi embora justamente porque disse seus tantos primeiro. Que inferno.)

Flávia Andrade

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