sexta-feira, março 27, 2015

Reflexo de Uma Guerra Interna


    Um livro pesado arremessado no chão, algumas páginas estão sendo amassadas pelas outras deixando-o horrendo. Uma garrafa de vinho quebrada por alguém que não soube retirar a rolha está com pouco líquido e muitos cacos. Imagino cacos com gosto de vinho seco descendo garganta abaixo e olhos lendo história tão mal escrita que fizeram as mãos em um movimento ligeiro produzirem essa cena que causa pena das folhas. Ainda imaginativa visualizo mentalmente uma garganta com sangue e olhos querendo ser retirados com garfos ao ler o que agora escrevo. Morro um pouco, alguma dor em mim. Borrões de tinta na parede causadas e deixadas como rastros por quem quis apagar qualquer coisa que estivesse escrita, agora ilegível. Busco a relação do livro, vinho e parede. Provavelmente uma dor corrosiva foi sentida para causar tamanha desordem. Aproximo-me do espelho: duas manchas pequenas de vinho na blusa branca. Pouco encaro minha face assustada no reflexo. Os braços com sangue, o mesmo sangue que escorre de um dos tornozelos. Engulo em seco o que vejo e sinto o gosto na boca, o gosto de tudo o que vi. De vinho com cacos, de leitura interrompida, de braços cansados que esfregaram a parede. No fim da degustação, o gosto mais amargo. A dor que senti tem gosto tangível e ao mesmo tempo inalcançável. Um gosto que me tirou de mim. Vejo tudo o que fiz e no meio da pequena bagunça, eu, o caos.

Flávia Andrade

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