domingo, março 08, 2015

Sobre Ser, Acima de Tudo, Mulher



    A cama cheia de roupas, cabides espalhados, as gavetas das cômodas abertas, portas do guarda-roupas escancaradas. Nada se encaixa, nada serve, nada combina: — eu não tenho roupa nenhuma para vestir! O esmalte que ainda não secou nas unhas e uma delas já borrou quando fui tentar experimentar os sapatos de saltos demoníacos e altos. O cabelo que ainda não quer ser encarado no espelho, o celular vibrando na mesinha com gente perguntando se já estou chegando, mas eu nem tenho roupa para ir. A saia está desconfortável, o short não fecha direito, a blusa marca a barriga, a outra blusa já usei nas últimas três ocasiões importantes, a outra blusa não vai combinar com a calça e eu nem quero ir de calça, o vestido está com um botão faltando e eu esqueci de ir na costureira, eu não tenho roupa para ir. Eu vou vestir um pijama e ficar em casa. Pego o celular para pedir uma pizza e lá está a mensagem: estou passando aí para te buscar. Eu nem quero mais sair e penso em fazer um drama. Eu poderia dizer que estou de tpm, mas usei essa desculpa cinco dias atrás, não vai funcionar tanto. Então eu me arrumo, na marra, com aquela roupa que já se tornou uniforme, a roupa de sempre. A mente está cheia com o diálogo do dia anterior, algo sobre me dedicar mais que o outro para manter uma boa relação, algo sobre a iniciativa ser sempre minha, sobre exigências para fazer mais do que posso e algo sobre não mudar por ninguém. Talvez eu tenha feito a coisa certa, mas alguma coisa no diálogo se subverteu e fez parecer que eu, como sempre, estive errada. Eu digo que vou sozinha só para ganhar tempo de pensar mais e me tornar outra quando chegar. As saudades mínimas de detalhes quase imperceptíveis batem. Eu penso em largar essa mania de reparar em sorrisos tortos, em gente torta que não me faz bem. Eu sempre ouço que posso ter alguém melhor, mas talvez eu sempre seja a pior de tudo. Estou com esses complexos e neuroses, tão agitada por quem anda tão calmo. Eu espero só encontrar aquela boa amiga para contar tudo o que houve na última noite e talvez conseguir algum conselho bom. Espero encontrar alguma bebida gelada para matar qualquer tipo de sede dentro de mim. Espero querer ficar até o outro dia ou encontrar uma desculpa boa para ir embora de uma vez. Espero não encontrar ninguém envolvido nos diálogos ruins. Passo a noite prestando atenção nas letras das músicas e ignorando as conversas perto de mim, vou me identificando com cada uma, vou me afundando. Repentinamente começo a dançar. Então me afundo outra vez. Bom humor, mau humor, bom humor, mau humor. Contente, descontente, contente, descontente. Sóbria, pouco sóbria, sóbria, pouco sóbria. A música que tocou no primeiro dia, a música que tocou no quinto dia, a música do primeiro mês, a música que ele gosta. Entro em repetições de tudo, em algo bem mais profundo do que pensei que fosse. Descubro em mim o que eu não quis perder, mas deixei escapar. Não voltarei atrás, farei valer o desespero para encontrar uma roupa para hoje. Farei valer os esmaltes nas unhas, as meninices todas. Bom humor outra vez, contente outra vez, ignorando a sobriedade outra vez. Algo sobre não querer e não precisar mais saber de nada, algo sobre o aqui e o agora. Algum mantra bom na mente. Algum otimismo nos conselhos recebidos. Algo sobre só voltar para casa quando estiver claro o suficiente para não precisar encontrar o interruptor da luz, apenas deitar na cama em cima de todas as roupas bagunçadas e continuar o plano de esquecer o resto do mundo.

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