segunda-feira, abril 27, 2015


    Na mesa para dois tomavam café na hora errada quase todos os dias. A rotina era torta, sempre com um desajuste de causa maior. A porta demorava a fechar, precisava de batidas fortes e de, no mínimo, três verificações antes de saírem. O descaso era dele que vivia perseguido por adjetivos de bar e a preocupação era dela, só dela. Às vezes pensava que via coisas em excesso, se flagrava imaginando que a vida fosse como o café servido nas manhãs: amargo e morno. Às vezes até encontrava razão em comparar o amor deles com a porta que precisava de uns trancos, uns empurrões para fechar, que não era fácil por culpa dos contornos amassados, por culpa de tanta batida que já aguentou. Mas ela não ia embora, checava a vida deles mais que a chave na fechadura. Ele passava quase despercebido porque ela cuidava pelos dois, mas aguentar não é sustentar e o vazio ficava maior. Depois de tanto ver tanta cena em um cenário só, tanto do que nunca quis ver, aliviou as forças. Na mesa para dois não tomaram café, já era tarde. A rotina se desfigurou de todos os outros dias. A porta nem foi fechada porque ela correu. E não tinha mais tempo para que ele reparasse na medida errada da receita, no trinco quase caindo, na vida estampada no azedume diário, ela já tinha ido.


Flávia Andrade

domingo, abril 26, 2015

pra te/me/nos salvar



    posso estar correndo na contramão com suas coisas roubadas e esquecendo de levar o que tenho de melhor, com um telefone no bolso que só me deixa discar números de socorro e com a cara cheia de maquiagens das festas antigas. ainda assim, mesmo que caia no meio do caminho, segurarei as tralhas no alto como um bêbado equilibra sua bebida com os braços esticados e, insistente, levantarei pra continuar correndo enquanto os ventos me empurrarão ao contrário. e mesmo que esteja indo em direção a um beco sem saída, não me deixo me perder, não me deixo perder tudo, eu salvo com toda a força que você não pensa que eu tenho para que coisa alguma (que supostamente há entre nós) acabe.

Flávia Andrade

porque sim


    não é nem por você, nem pelo suco de goiaba e os pães que me trouxe, nem pela tv que programou no canal certo e nem pela roupa que decidiu vestir hoje. não é por teimosia, nem desistência e não ache que é por amor, não é por amor. caso contrário, seria também por carinho, mas não é. e não é por precaução, por medo ou receio, imagina se fosse. não é pelo bom dia, pela frase de auto ajuda disfarçada de e-mail na minha caixa de entrada, não é pelo problema resolvido no computador. não é pela história de ontem, aquela que você contou e eu ouvi só durante os primeiros quinze segundos, não é por você. não é nem pela vida que ainda prezo, não é para ter motivo. eu apenas decidi ficar e até juro que não vou mais embora.

Flávia Andrade

quarta-feira, abril 22, 2015

Nós por nós



    Sou uma carta deixada na sua caixa de correspondências e você é uma carta guardada numa caixa de onde não foge o seu perfume. Você é mais meu do que sou sua, pois temos maneiras diferentes de sentir. Sou mais sua do que minha, uma descontrolada que só se acalma no seu colo, uma perdida que só lembra e acerta o endereço da sua casa. Você é mais seu do que do mundo, um reservado sem esperanças, um sossegado nas entranhas do imediatismo. Eu sou mais sua do que de qualquer outro alguém, não te deixo para trás como deixei tantos outros. Somos mais de nós do que de outros e não há motivos para achar que alguém possa interferir.


Flávia Andrade

nosso universo de erros


    traz seu bocado de solidão que eu dou um jeito de fazer sumir, escondo junto com a poeira no canto da varanda e a gente se acomoda na sala, nem vê o que ficou pra fora. traz todo seu desastre pra dançar que a gente põe uma música que aprove giros desarticulados como se fossem dança e fecha as cortinas pra ninguém espiar. traz todo esse tumulto na sua mente que eu assopro como se fosse pra mais um ano de vida, que isso fica pra trás enquanto a gente tenta recomeçar algo bem melhor. traz seus defeitos que eu já estou aqui pronta com os meus, porque eu sei que agora, depois dos porres todos, nós já podemos lidar com quem somos.

Flávia Andrade

terça-feira, abril 21, 2015


    ela é uma complicação mal resolvida que não se desespera. enquanto eu, quase todo certo e encaminhado, ando aflito pensando em pessimismos e azares. tenho blocos de notas não usados e ela espalha bilhetes de sarcasmos como se fossem bom dia. digo pouco sobre o que sinto e ela expõe ao mundo que sua intensidade assombra meus surtos emocionais. até tenta se explicar dizendo que somos, no fim, transtornados por tudo que não se completou. mas a vejo seguindo a vida com seu olhar neurótico e tampouco parece incomodada com qualquer vazio. eu aqui, com todo o disfarce no rosto, como se a mente fosse quieta, pareço um tanto conturbado com metades. eu pauso a vida para resolver dilemas e ela desencadeia ações enquanto soluciona dragões de sete cabeças. ela diz que me preocupo em excesso, deita na rede e adormece antes de ouvir minha resposta. e minha resposta não passa de reticências mudas querendo se tornar grito. e eu imagino meu grito adentrando os sonhos tranquilos e até penso que a gente se encaixa em alguma coisa. talvez esteja quase certa, e somos, na verdade, transtornos que deixaram de ser incompletos.


Flávia Andrade

     Andando em círculos, curvas e paralelas. Dá voltas na mesma quadra com as mãos se entrelaçando descontroladas e com a mente dando nós. Não sabe aceitar com facilidade essas notícias repentinas sobre qualquer fim. Inquieta rodeia a mesma ideia que se passa enquanto vê o primeiro parágrafo do capítulo cinco do livro. Chegou a este capítulo na marra e ainda não entende o enredo, pois não está na leitura, está muito mais distante. Lê outras coisas na própria mente e as folhas em seu colo são decoração. Dá voltas pela casa com as mãos nos bolsos para sossegar e gostaria de correr para outro canto, alcançar outra pessoa e dizer: não é assim que termina um diálogo ou uma relação, não é assim que se dá fim a uma história como a nossa. Gostaria de acusar todos os erros enquanto dá voltas dentro dos próprios deslizes. Essa aflição toda, ela gostaria de confessar, é o peso da culpa por ter posto fim também, por ter deixado o fim ser mera cena de dois minutos. Quanto mais foge do que sente, mais adentra no âmago e a intensidade confunde.

Flávia Andrade



    Ela diz que presta pouco com um sorriso malicioso no rosto e não vai se preocupar em voltar atrás de suas palavras. Ela vai confessar, sem sobriedade, que anda errando com tanta gente que não merece e, por mais consciência que pareça ter, não vai tentar consertar o que tem feito. É coisa dela esse defeito disfarçado de graça que hora ou outra alguém começa a gostar, sem explicação alguma, e acaba se prendendo sem chances de fuga.

Flávia Andrade

Mas só chove


    A previsão é de tempestade daqui três horas e pessoas correndo nas ruas sem casaco e guarda-chuva. A previsão é de que a gente duvide dela e arrisque sair sem precauções. A previsão é de que faça frio lá fora e que cada um tente encontrar dentro de si alguma chama pequena, quase inexistente, que possa aquecer. A previsão é de que não acabe bem por tanta insistência em continuar o que já começou pelo fim. A previsão não soará bonita para nós, mas continuaremos.

Flávia Andrade

Sobre fingir tanto


    Venho sendo um pouco mais do que posso, pois só amor não enche o que falta em mim para te surpreender, e meu esforço tem cuidados enormes para que passe despercebido, para parecer ser espontâneo. Venho sendo, entre tanto do que sou e não posso te mostrar, aquela que talvez possa receber um reconhecimento tardio, que você possa finalmente perceber e dizer que é com ela que quer ficar. Mas assim, meu bem, viro uma música de letra e melodia bonita que não significa nada.

Flávia Andrade

Histeria


    Não me peça calma, eu ainda tenho um tanto pra gritar. A voz está aquecida com uma vontade enorme de enrouquecer, pois a voz baixa de trezentos e sessenta e cinco dias está exausta de auto-controle. Não sinto muito, o que tenho é esse exagero que não se contém. Que venham os gritos histéricos, que os pratos quebrem, que o vocabulário de baixo calão seja a decoração do cenário de expressão.  Não me recomende sossego, eu já desabei meu próprio mundo, já fiz tormenta, vou até o fim. Não me ofereça água com açúcar, não desvie a discussão. É mais que clichê, é mais que piegas, é uma porra dum amor.

Flávia Andrade

Caminho da Fossa

     Miseravelmente só no banheiro do bar. Miseravelmente bêbada. Miserável e só. Sem grana e com caráter canalha. O mundo, eles dizem, é muito maior do que pensa e ele não precisa de você. Pois então, saibam, vocês estão lidando com uma egocêntrica.
     Engano deles ver em mim razão alguma. Não tenho razão que os satisfaça. Meu hálito tem teor alcoólico, não confiem no que digo. Somente eu posso confiar. Minhas pernas são bêbadas equilibristas, não confiem no que trilho e faço, nem para onde eu corro. Se confiassem, afinal, também estariam neste banheiro completamente vomitado agora.
       Eu limpo a boca e lavo as mãos. Vomito outra vez. Limpo a boca e lavo as mãos. Meto as mãos molhadas nos quatro bolsos da calça, acumulo papéis em cima da pia. Meto a mão nas botas e tiro mais besteiras. Recolho desastradamente tudo e jogo no vaso. Descarga. Isso vem deles e não quero mais.
     Olho ao redor e faço um jogo mental: o que está mais lixo? O banheiro, minha vida ou minha consciência? Não sei responder. Outra questão: quem/o que durará mais alguns anos? O banheiro, minha vida ou minha consciência? Não faço ideia.
       De qualquer maneira, ainda que miserável, valho mais que esse banheiro podre. E é com esse sentimento que saio dele. Pacífico.

A Viciada (personagem fictício de Flávia Andrade)
postado em O Beco Bêbado

segunda-feira, abril 20, 2015

Propaganda se vende com saudade


    Eu te deixei virar sinônimo de saudade e, por azar e desleixo, quando falam sobre a falta que alguém faz só consigo pensar em você. Às vezes o aperto no peito nem é forte, nem mexe na ferida e eu até consigo passar por algumas horas sem efeito de tristeza-e-vazio algum. Às vezes até esqueço seu nome e nunca lembro quantas semanas já nos deixaram para trás. Mas se eu saio na rua com meus passos quase atentos dá pra ver: a palavra saudade está estampada em todo lugar.

Flávia Andrade

Som Chiado


    Você se tornou algo parecido com uma música antiga que ainda toca todos os dias, no mesmo rádio, programado sempre na mesma estação; e depois de tanto tempo, quem ficou para ouvir dia após dia essa música rotineira, fui eu.

Flávia Andrade

Bagagem de Memórias


    Com licença, pra eu passar cheia de devaneios. É que eu sinto falta de amores de agosto, no meio do ano costumam dar certo e vou sendo feliz com alguém. É que sinto falta de amores dos dias finais do mês, tem algo aí que faz ser bom. É que o que dura pouco deixa uma saudade enorme. É que eu confio em astrologia e bambeio nas esperanças. É que eu gosto um tanto da sorte. Com licença, pra eu passar com toda a saudade que pesa em mim. É que eu lembro muito de coisa feita pra ser vã e não deixo para trás o que ninguém mais viu. É que só sei andar se for com um sorriso nostálgico no rosto e a mente cheia de diálogos antigos. É que eu só sei ficar feliz se o passado, presente e futuro estão em certa sintonia. É que eu não costumo largar ninguém em canto algum. Mas se não quiser dar licença, pode apenas vir junto, porque você eu não quero deixar pra lá também.
Flávia Andrade

sexta-feira, abril 17, 2015

Mesa Para Egoístas


    Mesa para dois: apenas um fala. Das palavras todas, boa porcentagem é cansativa e ouço nada mais do que as erradas. A voz alheia se torna um defeito muito maior do que posso suportar nesta sexta à noite. A segunda voz é minha, coesa e plausível: a conta, por favor.

Flávia Andrade

Encontro de 10 segundos


    Um pouco longe, mas ao alcance dos meus olhos: você. Como tem sido, em outros sentidos, nessas últimas semanas. As pernas bambeiam imediatas em concepções de fuga, ainda assim prosseguem. Eu não sei mais, nem por dedução, se você ainda é o mesmo de agosto ou o mesmo de dezembro. Contudo não tento por outra vez retornar ao passado. Sinto, com toda percepção, os corpos se aproximando e também sinto, com certa intuição, os corpos se tocando e se repelindo, vejo o afastamento repentino que não foi cedo e nem tarde. Você segue seu caminho, eu me perco no meu. A cena é de costume, já causada em tantos outros verões. A tristeza é passageira, já deixada para trás ao virar a rua.

Flávia Andrade

Toda Devaneio

 

   Ela parece personagem fugitiva de um filme de tragédia cômica. Quando está com medo desembesta a falar (com um palavreado não cabível no texto) sobre inúmeras possibilidades azaradas e usa porcentagens de pesquisas não feitas para apontar o quanto seu medo, no-fundo-no-fundo, é válido  dadas as circunstâncias. Quando argumenta com sua voz desenfreada, escondendo descaradamente o receio de estar dizendo algo errado, gesticula sem perceber e vez ou outra diz boas frases ou coisa que o valha. Quando dança desarticulada em relação ao resto do mundo que está sempre parado enquanto ela se move, até deixa em deslizes um pouco de esforço para acertar o ritmo, embora grite aos quatro ventos que pouco se importa. Aliás, quando ela finge que não se importa, mesmo que esteja se tornando um acumulo ambulante de importâncias, desenterra forças dentro de si para não demonstrar em momento algum que seu coração é bem maior. Mas ela deixa, por descuido ou cansaço, que em detalhes possa ser percebido todo o amor que sente. E quando ama, e aqui entramos em uma narração distante das características mais profundas, mistura todas as suas loucuras disfarçadas, torna-se, de longe, um ser incoeso e peculiar que precisa de teorias aprofundadas para ser compreendido. Não desiste, nem por somente alguns segundos, de amar mais do que sente, de transbordar mais do que pode e de se esforçar mais do que seja merecido ao outro. E quando vive, de verdade, sem pensar duas vezes ou se mascarar, com todos esses devaneios, venetas e explosões, é a criatura mais humana que posso ter conhecido.

Flávia Andrade

quinta-feira, abril 16, 2015

Ambos os Lados


   O dia ainda tem mais umas horas até acabar, o fim do mês está longe de vista e por esses, entre tantos motivos, pouco posso calcular o quanto essa saudade já se acumulou. Mas eu vou exagerar o máximo que consigo, com todo o meu dom de hipérboles, e dizer que os minutos são mais demorados que anos no meio de umas frases mal feitas, vou dizer que penso mais que existo e sonho mais que vivo, em contraposição a todas suas teorias pensadas e repensadas. Mesmo assim, eu sei, você vai entender que tudo isso vem de mim porque sou a pessoa sentimental típica de romances clichês e vai rir por toda essa influência de horóscopo que acredito ter. A nossa vida ainda tem mais um tempo até a gente se cansar, o fim nem chegou, mas vou dizendo até ver seu rosto entortar, aí do outro lado, com todo esse pessimismo. E você vai discordar com os argumentos de sempre só pra eu parar de insistir nos assuntos ruins. Mas quando eu falo tanto, aos poucos canso, a gente dorme, nem vê quando um dia acaba de verdade e outro começa. Depois reiniciamos outra vez o desacordo manso que invade tão lentamente que nem vemos tamanho tumulto que causa.

Flávia Andrade

Descansem em Paz

    No alto do vigésimo terceiro andar ainda uma vida, nos segundos da queda a dor entregue e sem volta, no chão uma manchete e caso encerrado. No enforcamento literal todo o sentido figurado das palavras guardadas. Nas pílulas e entorpecentes tudo aquilo que não pôde ser encontrado em cada vinte e quatro horas de dias atormentadores. Do terceiro andar a queda do futuro, da graduação infindável, a morte demorada, ainda que cedo, de uma simples vida de estudante. Quatro suicídios.
sui.ci.dar (suicida+ar2vpr 1 Dar a morte a si mesmo; pôr termo à própria vida:Presume-se que a moça se suicidou. 2 Arruinar-se, destruir a sua própria influência e prestígio, ser a causa da própria ruína: Renunciando naquela situação, suicidou-se politicamente.
     O advogado foi a um hotel caro da cidade. O marido de uma diretora de auto-escola encontrou uma corda ou coisa que o valha. O médico teve acesso à remédios e drogas. A estudante foi à universidade. Os quatro virariam motivo de burburinhos nos ônibus, nas rodas de conversa, virariam assunto nas redes sociais, teriam suas privacidades invadidas. Estariam na televisão, rádios e jornais. Seriam, a partir do dia de suas mortes, a saudade dolorida de alguém, o vazio nos lugares que frequentavam, o peso no coração de quem achava que sabia lidar com partidas inesperadas, mas que nunca pensou em desistências extremas. Os quatro seriam indagações sem fim em mentes inquietas. Os quatro seriam momentos de segundos, minutos ou horas de paralisação em algum canto de Campo Grande.
     Quando as mortes aos poucos foram anunciadas, todo ser próximo ou distante com pouca ou muita comoção teve seu tempo de digestão daquelas frases mórbidas e, por mais eufemismos que tivessem sido usados, também grotescas. Quatro anunciações de suicídios foram feitas durante apenas uma semana. Em um intervalo de sete dias, entre uma vida que nunca ou há muito não via notícia parecida e uma vida que talvez nunca ou por muito não conseguirá ter o mesmo pensamento sobre a morte, a palavra suicídio teve mais força. E essas forças nos puxaram para baixo.
    Quando doeu lá no fundo de mim, notícia por notícia, eu quis encontrá-los em um tempo do passado para acompanhar suas trajetórias até seus respectivos fins. E quis, acima de tudo, dar voz àquelas dores antes que transbordassem de maneiras tão cruéis.
      Contudo, do alto do vigésimo terceiro andar, a morte foi implorada. A estrangulação do outro homem atingiu também todo o físico e emocional de pessoas que iam além do seu campo de visão desistente e turva. A morte talvez nada ou muito calculada do médico colocou em tumulto os princípios de razão e emoção. A queda da estudante em uma universidade entregou a nós, iniciantes no percurso decisivo de nossos futuros, uma perda mais que dolorosa, como se fossemos nós mesmos os auto-vitimados no chão.
       Acima de tudo, não os culpo. Não tenho direito, não compreende a mim e a dor, a depressão, a emoção é - usando agora uma palavra que sempre nos faltas nestes discursos, individual. E sendo assim, não haverá em momento algum completa compreensão de seres que, por mais semelhantes, diferem de nós. Nós mesmo nos contradizemos e quem somos para questionar contradições alheias? Nós mesmos sofremos e quem somos para julgar sofrimentos alheios? Nós mesmos desistimos, de quase tudo a cada segundo, nós mesmos pouco persistimos, por que eles não poderiam?
      Que antes que o desejo de voltar no tempo seja um aperto em nossos corações, as coisas feitas a cada dia, a cada hoje, possam salvar vidas. E vidas, tão rápidas quanto quedas, são salvas em segundos, minutos ou poucas horas. E também vidas, ao contrário de mortes (amém), sempre têm novas chances.

Flávia Andrade

quarta-feira, abril 15, 2015

Cinzeiro


    Apaga teu cigarro que o vício agora é outro, que eu já não aguento mais nossa dependência sendo ofuscada. A saudade nos mata aos poucos e toda a sua nicotina diária é para servir de disfarce, eu sei. Apaga teu cigarro pra eu ver teus olhos paranoicos por trás da fumaça. Joga fora os maços porque eu estou indo para longe e toda a dor da falta vai precisar de mais atenção. Não se perca nos tragos, por favor, apenas encontre um jeito de me trazer de volta. Apaga teu cigarro pra você não perder de vista a queimada que provocamos. Deixa o cinzeiro de lado, pois nossos dias estão mais escuros.

Flávia Andrade

A Criatura Criativa


    Papéis sobre papéis sob papéis justapondo papéis grampeados a papéis. Letras grudadas por riscos, inseparáveis à partir de suas construções nos papéis. Pontos, vírgulas, reticências. Parágrafos introdutórios que se quedam ao precipício da conclusão. Parágrafos enormes com vontades avassaladoras de se tornarem estrofes numa poesia. Mas, ao fim, parece que nada está escrito. Os significados e o contexto estão perdidos na mente do escritor em crise.

Flávia Andrade

terça-feira, abril 14, 2015

Inquietudes


    De segundos em segundos, pouco a pouco, respira fundo enquanto amassa, sequencialmente, guardanapos que ao longo da conversa estão sendo retirados da caixinha. Ela tem aquele pensamento de toda sexta-feira em casa, de todo sábado sem festa, de todo domingo por excelência, aquela ideia que rodeia não somente sua mente, mas corpo, cotidiano e vida. Aquela coisa de sempre que agora ela diz para a pessoa a sua frente: "é que, sabe, já era pra eu ter superado..." E as reticências se transformam em um silêncio cheio de culpa, por ambos, enquanto o outro tira com as unhas os rótulos da garrafa de cerveja. Alguém na porta do estabelecimento vê a cliente amassando tantos guardanapos e até planeja ir avisar que não pode, que não passa de um simples papel para limpar a boca e as mãos. Mas quem é que vai falar para aquela moça a função de uma coisa tão simples? Ela que pensa tanto com uma persistência incrível em uma ideia só e mesmo assim não se resolve. E quem é que vai se aproximar para dar pitaco? Ela que precisou de vinte e três guardanapos, oito ou nove suspiros, treze frases iniciadas e por fim abandonadas simplesmente  para dizer em voz alta nove palavrinhas (apenas porque é sempre muito difícil dizer o que pensa). Quem é que vai se intrometer? Se a essa altura já tem alguém ali na sua frente com um silêncio culpado mesmo que não esteja dentro daquela ideia, quem? De tempo em tempo, exagerada sem querer, ela traz uma ou duas pessoas para seus tumultos, faz esses discursos sobre a própria vida, conta suas histórias e quem ouve não encontra outro caminho para seguir senão ficar ali e passar por tudo ao lado dela. E quem é que vai dizer que não quer ouvir? Ela que quase nunca expõe sua voz, que nem deixa beira para qualquer pessoa encontrar defeito. Quem é que vai negar ficar mais um pouco e, sutilmente, a vida toda? Logo para ela que, com voz baixa e olhos tristes, conta que não tem mais ninguém e, mesmo que você esteja extremamente inquieto com aquele desperdício todo de guardanapos, não conseguirá não se comover. 

Flávia Andrade

    Meus dias são tão trágicos quanto atentado terrorista ao meio-dia. É sempre um novo tumulto e não me perca em algum deles se deseja continuar. Não me deixe em qualquer esquina, não me deixe ir a bares sozinha se ainda deseja que sejamos dois. Quando eu fico ou quando eu chego só, dou jeito de tomar outro rumo e deixo quem me deixou para trás. Ao me deixar, você perde seu nome e se torna apenas um pronome indefinido. Sinto muito, não perdoo seus atrasos, não espero mais de dez minutos. Esperar causa cansaço e cansados não podemos caminhar para lugar algum. E parados não podemos seguir. Aliás, em dez minutos, meu bem, a vida já passou, o clima já passou, a festa já acabou.

Flávia Andrade

segunda-feira, abril 13, 2015


     Você seria só mais um rastro que aos poucos se apagou e se perdeu na minha memória, mas nem com outras casas, outras pessoas e outras vidas te esqueço. Nem quando mudo o rumo da vida, nem quando ainda dá tempo de desfazer decisões. Você seria só mais um alguém desconhecido daqui um tempo, mas o tempo não passa para mim, não passa para nós. O tempo é sempre o mesmo, assim como o clima, a tristeza e o resto do que somos.  Sou ainda a mesma que conheceu tantos outros que você já foi,  tantos mais do que você seria.

Flávia Andrade

A Beleza da Contradição


    Às seis, ela vê nas borbulhas do café dentro da xícara um recado: o cotidiano é poesia. Ela sabe pelo cheiro reconhecível desde à infância, pela cor do país na bebida quente, simplesmente sabe. Talvez deva dar razão à luz matinal que de tão amarelada deixa os olhos muito mais suscetíveis ao que consideram "coisas do coração". Mas às sete da manhã, ele, o outro, prefere um conhaque e não há recado. Há somente aviso: o cotidiano é morte. A vida é pressuposto da morte e continuar tentando não o impede de continuar morrendo. Talvez deva dar razão à ressaca que de tão dolorosa deixa os olhos muito mais suscetíveis ao pessimismo. Às oito, porém, os dois dão as mãos e, prestes a sair, na porta da casa veem: a beleza da contradição. A contradição que tanto é poesia quanto dá ao mundo a certeza de sua morte. Que belo dia, pensam então (um muito irônico e outra simplesmente otimista), para serem felizes para sempre.


Flávia Andrade

domingo, abril 12, 2015


    Chega tarde, não tem bancos, senta-se na grama com formigas e alguns receios, tais como ver alguém passar. Seja algum conhecido, velho amigo ou decepcionador. A mente ainda não se desligou, a caminhada foi longa em busca de paz, mas ainda pensa em outras semanas, pensa sobre aquele dia mais cedo, o almoço, a hora de ir para casa. Se pergunta se alguém vai aparecer e notar, se alguma coisa chegará para preencher o que tem vivido. Pois a vida nunca parece boa o suficiente quando o ano se desenrola e as metas feitas na virada antes dos fogos de artifício não se realizam, quando o acontecimento que parecia um sonho excepcional não é tão grandioso assim. Chega tarde porque o tempo já se perdeu e não tem mais ânimo de ver a vida acontecer. O lugar não tem bancos, mas tem folhas bonitas, amassadas no chão. É primeiro dia de primavera, mas algo diz que a estação nada tem a ver com o céu, estão descompassados. A cena não soa tão estranha, seu corpo está em um localzinho da infância realizando a rotina: escrever. Tão cotidiano como esperar uma mudança.

Flávia Andrade

Observação: texto reescrito à partir deste.

Reticências e Reticênicas


Reticências.
    Depois de três pontos, eles sugerem, sempre acrescente algo bem bonito que surpreenda. Eu penso tanto nas minhas reticências, no vazio que deixo por não saber (nunca) o que dizer. Eu procuro sinônimos para cada palavra das minhas ideias banais, assim vejo se no papel elaborado ficam melhores. É sempre uma ação má sucedida. Nada novo, nada que se prolongue à vida e ao texto. Depois de três pontos perco o foco e se os coloco, é porque já perdi o ritmo. Eu incrementaria com um trecho daqueles que ficam batucando na mente mesmo depois de horas, mas eu não sei onde esses trechos se perdem em mim. Eu os tenho, mas não os encontro. Depois de três pontos um fim.

Reticênicas.
    Mas o fim, digo a eles, atua por si mesmo. O fim esclarece a frase, o parágrafo e a história, contudo deixa um mundo inteiro por fora daquilo e quem lê assiste com os olhos que quiser, olhos maravilhados ou inquietos.Tantos tipos de olhares se destinam à peça que se desencadeia pós fim. Então, eu junto meu fim às minhas reticências, transformo-os em reticênicas, deixo uma grande ideia por vir. E ela virá por quem lê. E quem lê virá pelas frases iniciais. E o texto nunca acaba, nunca morre. Sempre novo, sempre prolongado além da vida e do texto.

Flávia Andrade

Um Pouco e Ainda Morta


    Acidentalmente dei vida àquelas palavras tuas, àquelas que se sobrepuseram na discussão. Dentro de mim toda a vida delas sufocaram a minha própria. Por fora pareciam personificadas dando como motivo da minha morte um sútil enforcamento. Eu sobrevivi, um pouco e ainda morta. Mas enquanto ando acompanhada de silêncio externo, internamente travo guerras. Suas palavras estão presentes, olha que ironia, logo as palavras que você usou para desaparecer. Com passos neuróticos tento fugir do tumulto que ocorre na minha mente, mas resta só tua voz se transformando em um monstro maior do que posso enfrentar, um monstro que eu enfrentaria se você estivesse comigo. Mas olha que ironia, esses monstros me encontraram porque você desencontrou nossos caminhos. Elas começaram a adquirir rostos desconfigurados que me seguem e, aos poucos, entre toda a dor e saudade, aproxima-se também a loucura. Por favor, avise ao mundo todo - que você teve coragem de visitar sozinho, que uma moça deixada por você não tem mais sobriedade para a vida repentina na qual ficou.

Flávia Andrade

sábado, abril 11, 2015

Meu Amor é uma Embriaguez Gratuita


    Desculpa, meu amor é mais que fácil, é entregue ao mundo. Meu amor se envolve no meio de qualquer perfume alheio grudado na roupa, no meio de qualquer frase e exagero de vozes bonitas, em cantos esquecidos de velhos casais. Meu amor se engana quando assiste a comédias românticas na televisão, quando ouve uma música boa do Nando Reis e até pensa que o mundo é bom, quando sente cheiro de café e chocolate num cômodo só. Meu amor acha que são bonitas essas coisas com defeito, palavras erradas, roupas amassadas e danças sem ritmo. Meu amor vê amor em lugar vazio e lugar abandonado, não faz muitas escolhas, apenas encontra e abraça o mundo todo como se fosse seu.

Flávia Andrade

sexta-feira, abril 10, 2015

De-coração de Interiores


    A casa é enorme, eles dizem com exagero. A solidão dentro de mim é bem maior, ela pensa em meio ao zelo de controlar as próprias palavras. Mas ela juntou todos os bons objetos numa cômoda só, todos os bons sentimentos naquele corpo só e assim, tudo tão próximo, uma barreira é construída contra o que pode afetá-la. As coisas vão dar certo nessa vidinha, sabe? Ela comenta e a cada dia vai acreditando nisso um pouco mais até virar uma verdade. Uma verdade dessas boas que todos gostam de dizer por aí.

Flávia Andrade

quinta-feira, abril 09, 2015

Ela escreve poemas


    Agora você imagina, com os olhos voltados para o céu e os pés no chão, o quanto de amor é desperdiçado por dia. E, silenciosamente, você faz uma lista mental de maneiras de racionamento para ver se assim as coisas ficam menos complicadas. Sabe, as coisas relacionadas aos exageros emocionais. E você vê aquela menina com um coração transbordando e se pergunta se talvez ela seja a maior culpada, se ela deixa amor caído por todos os quilômetros que passa correndo em busca de uma pessoa só. E você se vê paralisado num canto só, sem quantidade alguma e sabe que, se caso alguma quantidade houvesse, seria de má qualidade. E você se pergunta, ali parado: "por que é que essa menina corre na minha direção?"

Flávia Andrade

domingo, abril 05, 2015

Em Alguma Esquina de Suas Curvas


    Embaixo do cobertor os pés se encontram. Pés frios e pés quentes. As pernas se enroscam, as mãos dele sentem toda a extensão das coxas dela. As bocas se encostam, os lábios se molham e se avermelham um pouco mais. Beijam os pescoços, mordem as orelhas, soltam risos maliciosos entre apertos e arranhões.

— Eu poderia ficar aqui a vida inteira. — A frase sai em um sussurro.
— Então fica. — A resposta vem com um carinho no rosto.

Flávia Andrade

sábado, abril 04, 2015

Prazer Feminino


    Eu me sentia segura até receber olhares doentios em ruas escuras e vazias e precisar acelerar meus passos. Até começar a ouvir que minhas melhores roupas precisariam ficar no fundo da gaveta caso eu não quisesse ser vítima de abusos sexuais. Até ter que repreender desejos e esconder bons acontecimentos. Eu me sentia bonita até receber um catálogo de estereótipos e não me encaixar em nenhum, até precisar usar fitas métricas, balanças e remédios para me adequar. Eu costumava ter mais coragem na vida antes de tantos comentários apontando minha inferioridade por ser mulher. Eu listaria tantas outras coisas que me levaram a um medo doloroso de agir como bem me agradava e repetiria todos os comentários de repreensão, mas antes disso - e talvez eu nem os liste, eu tenho uma coisa nova a dizer: eu não gostava de correr riscos até enxergar no mundo um movimento retrógrado e precisar correr na contramão para manter minha liberdade. Eu me arrisco todos os dias quando faço o que amo, quando falo o que penso, quando luto pelo o que quero, quando satisfaço meus desejos. E o prazer do risco não deixa que eu desista de ser o que sou.

Flávia Andrade

Brecha


    Ela está de short jeans rasgado e sutiã verde com rendas. Eu estou na rua fumando um palheiro. Ela está dançando alguns blues com uma cerveja na mão. Ela está gritando a letra da música que diz alguma coisa que ela gosta, ignorando o mundo fora e eu bem dentro dela. Dentro da geladeira tem vinte e duas garrafas de cerveja que ela comprou com todo o dinheiro que sobrou no fim do mês. Eu a vi no mercado e não consegui voltar pra casa. Dentro do meu carro semana passada ela esqueceu a carteira com alguns trocados e não vai pedir de volta. Eu penso em usar como desculpa para ter voltado aqui. Eu estou de fora ouvindo sua voz desafinada e vendo algumas vezes ela dançar através de uma brecha da cortina, eu quero dizer que sinto muito. Quero dizer que não sou como todos os outros, que às vezes realmente bebo mais do que devo, mas que ela também faz isso e pode me entender. De longe eu sei que ela não está sentindo nada. Não nesse momento. Nós não sabemos o que está acontecendo com um e com outro, nem com nós mesmos. Nós apenas estamos nessa porra de relação complicada que está acabando desde semana passada. Ela está de short jeans rasgado e sutiã verde com rendas como eu disse que ela fica linda, como ela odiou ser vista da outra vez. "É minha roupa de ficar em casa", ela disse. Ela está linda. Eu estou parado enquanto ela segue em frente. Eu estou sem saber o que fazer. Bato palmas em seu portão, ela abre a cortina e a janela, sabe que sou eu.

- Eu posso entrar?

    Seu sorriso já está desfeito, a música perdeu o sentido. Eu sinto vontade de pedir desculpas por estragar seu dia, mas eu precisava fazer alguma coisa. Eu me perco imaginando-a virando toda aquela bebida gelada. Ela se afasta da janela e fecha tudo novamente. É um jeito de me mandar embora. Deixo-a com short jeans rasgado e sutiã verde com rendas para trás, deixo os elogios e a felicidade de abraçá-la para trás. Ele está descendo a rua, ele, o outro. Aquele que roubará meu lugar ainda quente. Eu daria um soco em seu rosto se eu mesmo não fosse um babaca e também merecesse. Eu o imagino tirando o sutiã verde de rendas dela antes mesmo de elogiar, antes mesmo de analisar o quanto ela fica bonita nele e no short jeans rasgado pelo simples fato de se sentir extremamente confortável. Eu o imagino no sofá com ela. Os dois transando. Eu sinto uma raiva filha da puta em mim e de mim porque eu sou um babaca. Eu paro no fim da rua e olho para trás, ele está na frente da casa dela, ele está entrando na casa dela, ele está fechando o portão da casa dela. Eu não pude entrar, eu não pude ficar e dizer que ela é minha. Ela não quis me esperar para consertar tudo novamente. Acendo outro cigarro e sigo em frente voltando cada vez mais para trás.

Flávia Andrade

Perdoa a Inconveniência


    É você que anda por aí dizendo tanto sobre os outros, mas nada sobre mim? É você que já me esqueceu? Ou será outro que te sirva de disfarce, será outro rapaz de camiseta branca que não ligue mais? Porque eu não sei explicar o porquê, mas ainda lembro, ainda sinto uma saudade enorme, uma vontade desenfreada de voltar atrás e refazer minha vida para que se encaixe na sua sem problemas dessa vez. É que eu ainda escrevo e falo sobre você, seu nome ainda dança nos meus lábios e eu nem sei fingir. É você que não me lê mais? Então perdoa, por favor, mais esse texto atoa.

Flávia Andrade

Mensagem às Três da Manhã


O celular vibra. Uma notificação. Um pequeno texto dele.

     "Vem me visitar que eu te trago pra bagunça do meu quarto com cheiro de cigarros tragados e nem deixo que a bagunça da minha vida te tumultue. A gente se perde com portas e janelas fechadas sem saber quando o dia acaba ou começa, em cima do colchão largado no chão com nossas roupas. Eu largo um pouco (só um pouco) do meu clichê, te sirvo vinho em xícara e estico minhas pernas sobre as suas durante aquele filme francês que você quer ver há meses. Eu prometo não te contar o final e juro que não te faço assistir E o Vento Levou... outra vez. A gente faz um acordo, ninguém dorme. Provocaremos arrepios e faremos confissões antes que o sono venha. A casa é pequena e eu não tenho um violão para te dedicar qualquer música boba que você ouve, mas a gente fica por aqui. O espaço da varanda está tomado por uma mesa de sinuca e podemos jogar, eu deixo você ganhar uma partida ou outra e deixo de lado meu lado competitivo. Prometa também que entrará somente com os bons sentimentos e boas histórias, dessa vez não quero chorar na sua frente. Vem me visitar que a gente se finge de casal completo e feliz e disfarça todas as outras brigas, todas as decepções. Prometa, quando chegar, que não será a última visita e se for, prometa quando chegar, que será a melhor."

sexta-feira, abril 03, 2015



    Deus, joga a chuva aqui pra dentro de casa pra disfarçar essas minhas lágrimas, manda um vendaval pra que leve embora todo objeto e sentimento dele que ficou. Depois eu recupero o teto, só não dá pra viver com o coração doendo tanto. Se o tempo que passa não muda, me ajuda num jeito de me ajeitar, de dar outro rumo que dessa vez dê certo, de cometer um acerto que supere os erros. Se uma confusão dessa acontece, um tempo ruim desse adentra minha porta, ao menos funciona pra que qualquer dia desses eu possa pedir: devolve o sol, por favor, eu já consigo sair e me desprender daqui.

Flávia Andrade

Natasha

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