segunda-feira, abril 27, 2015


    Na mesa para dois tomavam café na hora errada quase todos os dias. A rotina era torta, sempre com um desajuste de causa maior. A porta demorava a fechar, precisava de batidas fortes e de, no mínimo, três verificações antes de saírem. O descaso era dele que vivia perseguido por adjetivos de bar e a preocupação era dela, só dela. Às vezes pensava que via coisas em excesso, se flagrava imaginando que a vida fosse como o café servido nas manhãs: amargo e morno. Às vezes até encontrava razão em comparar o amor deles com a porta que precisava de uns trancos, uns empurrões para fechar, que não era fácil por culpa dos contornos amassados, por culpa de tanta batida que já aguentou. Mas ela não ia embora, checava a vida deles mais que a chave na fechadura. Ele passava quase despercebido porque ela cuidava pelos dois, mas aguentar não é sustentar e o vazio ficava maior. Depois de tanto ver tanta cena em um cenário só, tanto do que nunca quis ver, aliviou as forças. Na mesa para dois não tomaram café, já era tarde. A rotina se desfigurou de todos os outros dias. A porta nem foi fechada porque ela correu. E não tinha mais tempo para que ele reparasse na medida errada da receita, no trinco quase caindo, na vida estampada no azedume diário, ela já tinha ido.


Flávia Andrade

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