sábado, abril 04, 2015

Brecha


    Ela está de short jeans rasgado e sutiã verde com rendas. Eu estou na rua fumando um palheiro. Ela está dançando alguns blues com uma cerveja na mão. Ela está gritando a letra da música que diz alguma coisa que ela gosta, ignorando o mundo fora e eu bem dentro dela. Dentro da geladeira tem vinte e duas garrafas de cerveja que ela comprou com todo o dinheiro que sobrou no fim do mês. Eu a vi no mercado e não consegui voltar pra casa. Dentro do meu carro semana passada ela esqueceu a carteira com alguns trocados e não vai pedir de volta. Eu penso em usar como desculpa para ter voltado aqui. Eu estou de fora ouvindo sua voz desafinada e vendo algumas vezes ela dançar através de uma brecha da cortina, eu quero dizer que sinto muito. Quero dizer que não sou como todos os outros, que às vezes realmente bebo mais do que devo, mas que ela também faz isso e pode me entender. De longe eu sei que ela não está sentindo nada. Não nesse momento. Nós não sabemos o que está acontecendo com um e com outro, nem com nós mesmos. Nós apenas estamos nessa porra de relação complicada que está acabando desde semana passada. Ela está de short jeans rasgado e sutiã verde com rendas como eu disse que ela fica linda, como ela odiou ser vista da outra vez. "É minha roupa de ficar em casa", ela disse. Ela está linda. Eu estou parado enquanto ela segue em frente. Eu estou sem saber o que fazer. Bato palmas em seu portão, ela abre a cortina e a janela, sabe que sou eu.

- Eu posso entrar?

    Seu sorriso já está desfeito, a música perdeu o sentido. Eu sinto vontade de pedir desculpas por estragar seu dia, mas eu precisava fazer alguma coisa. Eu me perco imaginando-a virando toda aquela bebida gelada. Ela se afasta da janela e fecha tudo novamente. É um jeito de me mandar embora. Deixo-a com short jeans rasgado e sutiã verde com rendas para trás, deixo os elogios e a felicidade de abraçá-la para trás. Ele está descendo a rua, ele, o outro. Aquele que roubará meu lugar ainda quente. Eu daria um soco em seu rosto se eu mesmo não fosse um babaca e também merecesse. Eu o imagino tirando o sutiã verde de rendas dela antes mesmo de elogiar, antes mesmo de analisar o quanto ela fica bonita nele e no short jeans rasgado pelo simples fato de se sentir extremamente confortável. Eu o imagino no sofá com ela. Os dois transando. Eu sinto uma raiva filha da puta em mim e de mim porque eu sou um babaca. Eu paro no fim da rua e olho para trás, ele está na frente da casa dela, ele está entrando na casa dela, ele está fechando o portão da casa dela. Eu não pude entrar, eu não pude ficar e dizer que ela é minha. Ela não quis me esperar para consertar tudo novamente. Acendo outro cigarro e sigo em frente voltando cada vez mais para trás.

Flávia Andrade

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