quinta-feira, abril 16, 2015

Descansem em Paz

    No alto do vigésimo terceiro andar ainda uma vida, nos segundos da queda a dor entregue e sem volta, no chão uma manchete e caso encerrado. No enforcamento literal todo o sentido figurado das palavras guardadas. Nas pílulas e entorpecentes tudo aquilo que não pôde ser encontrado em cada vinte e quatro horas de dias atormentadores. Do terceiro andar a queda do futuro, da graduação infindável, a morte demorada, ainda que cedo, de uma simples vida de estudante. Quatro suicídios.
sui.ci.dar (suicida+ar2vpr 1 Dar a morte a si mesmo; pôr termo à própria vida:Presume-se que a moça se suicidou. 2 Arruinar-se, destruir a sua própria influência e prestígio, ser a causa da própria ruína: Renunciando naquela situação, suicidou-se politicamente.
     O advogado foi a um hotel caro da cidade. O marido de uma diretora de auto-escola encontrou uma corda ou coisa que o valha. O médico teve acesso à remédios e drogas. A estudante foi à universidade. Os quatro virariam motivo de burburinhos nos ônibus, nas rodas de conversa, virariam assunto nas redes sociais, teriam suas privacidades invadidas. Estariam na televisão, rádios e jornais. Seriam, a partir do dia de suas mortes, a saudade dolorida de alguém, o vazio nos lugares que frequentavam, o peso no coração de quem achava que sabia lidar com partidas inesperadas, mas que nunca pensou em desistências extremas. Os quatro seriam indagações sem fim em mentes inquietas. Os quatro seriam momentos de segundos, minutos ou horas de paralisação em algum canto de Campo Grande.
     Quando as mortes aos poucos foram anunciadas, todo ser próximo ou distante com pouca ou muita comoção teve seu tempo de digestão daquelas frases mórbidas e, por mais eufemismos que tivessem sido usados, também grotescas. Quatro anunciações de suicídios foram feitas durante apenas uma semana. Em um intervalo de sete dias, entre uma vida que nunca ou há muito não via notícia parecida e uma vida que talvez nunca ou por muito não conseguirá ter o mesmo pensamento sobre a morte, a palavra suicídio teve mais força. E essas forças nos puxaram para baixo.
    Quando doeu lá no fundo de mim, notícia por notícia, eu quis encontrá-los em um tempo do passado para acompanhar suas trajetórias até seus respectivos fins. E quis, acima de tudo, dar voz àquelas dores antes que transbordassem de maneiras tão cruéis.
      Contudo, do alto do vigésimo terceiro andar, a morte foi implorada. A estrangulação do outro homem atingiu também todo o físico e emocional de pessoas que iam além do seu campo de visão desistente e turva. A morte talvez nada ou muito calculada do médico colocou em tumulto os princípios de razão e emoção. A queda da estudante em uma universidade entregou a nós, iniciantes no percurso decisivo de nossos futuros, uma perda mais que dolorosa, como se fossemos nós mesmos os auto-vitimados no chão.
       Acima de tudo, não os culpo. Não tenho direito, não compreende a mim e a dor, a depressão, a emoção é - usando agora uma palavra que sempre nos faltas nestes discursos, individual. E sendo assim, não haverá em momento algum completa compreensão de seres que, por mais semelhantes, diferem de nós. Nós mesmo nos contradizemos e quem somos para questionar contradições alheias? Nós mesmos sofremos e quem somos para julgar sofrimentos alheios? Nós mesmos desistimos, de quase tudo a cada segundo, nós mesmos pouco persistimos, por que eles não poderiam?
      Que antes que o desejo de voltar no tempo seja um aperto em nossos corações, as coisas feitas a cada dia, a cada hoje, possam salvar vidas. E vidas, tão rápidas quanto quedas, são salvas em segundos, minutos ou poucas horas. E também vidas, ao contrário de mortes (amém), sempre têm novas chances.

Flávia Andrade

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