domingo, maio 31, 2015


    não se preocupe com todos os livros que já li, nem com os filmes que vi e as músicas de bandas desconhecidas que só eu conheço e esqueça esses textos que escrevo como se eu os respirasse, porque nada disso adianta quando eu amo. nem que eu tenha lido artigos científicos de oitenta páginas sobre o amor saberei amar. eu me inverto, eu me mudo, eu me transformo, eu me alimento de mim até não sobrar nada, e eu me vomito, e eu me recolho. eu sou uma tremenda estranheza má afeiçoada quando se trata de amor. 

flávia andrade

é sobre você


    eu não ia escrever hoje. ia deitar e dormir o dia todo, mas estou no terceiro texto. reli o segundo mil vezes e vejo como é mais do que meu, é meu e seu. comecei a escrever porque você apareceu, você mexeu em alguma coisa que estava quieta aqui dentro e agora desassossegou. comecei a escrever porque se não digo aqui, não digo nunca até que eu exploda e vire pedacinhos na sua janela, na manchete e no prato de comida da minha família. eu não ia escrever hoje porque já escrevi muito sobre  uma pessoa só, mas você veio. eu bateria na sua porta, esperaria você abrir, colocaria as mãos na minha cintura e diria: você tinha que vir, não é?. mas eu não sei ser assim, eu só me tranco aqui e escrevo. e já não sei mais se vivo enquanto escrevo, se escrevo enquanto vivo, se são a mesma coisa ou se sou como clarice lispector que quando não escrevia estava morta. não sei que diabo me trouxe pra isso de escrita, mas sei que você é o diabo que me faz sentar aqui no cantinho e escrever. os textos ficam aí, eu deixo eles aí olhando pra mim, tentando me dizer alguma coisa que eu mesma não sei dizer. eles ficam me encarando. se eu me levanto e dou uma volta no cômodo eles acompanham com os olhos de letra o. e eu não me liberto deles, são meus, ficam marcados. e eu não te perdoo por me fazer escrever, eu só queria dormir, mas você tinha que aparecer, não é?

flávia andrade

coisas que eu sei


     eu sei que você já me esqueceu e também sei que não esqueceu completamente. sei que sou só mais um nome entre tantos outros e entre outras pessoas que também se chamam assim, mas também sei que você gostava de dizer o meu em um tom de voz único, e bons costumes não se perdem tão facilmente. eu diria que você não sente mais nada, mas te dou somente um quase nada, um nada com resquícios, pois magia, poder, medicina, oração ou feitiço nenhum removeu da sua mente por completo a minha imagem e todo o resto de mim, nem os diálogos, nem as noites, nem a viagem, nem as coisas boas, tampouco as coisas ruins. aliás, não prezo pelo esquecimento das coisas ruins, por mim, que fiquem, ainda que só restem elas. não prezo por uma memória emocional tão boa quanto a minha, nem por todo sentimento que ainda tenho e que você costumava ter. aceito a condição de ficarmos distantes sem que haja esforço algum para um reencontro, alguma conversa longa ou até mesmo um pedido de favor. mas não me impeço de saber que ainda sou uma parte, mesmo que mínima, em você. sei que sou um desvio, mesmo que feito de poeira, no seu caminho e que, assim quase sem jeito, te levei para algum lugar diferente. eu sei que também não lembrarei de você para o resto da vida e as lembranças já estão confusas, mas também sei que ainda vou lembrar por mais algum tempo, vou escrever mais alguns textos, contar para alguém, terei mais alguns porres pensando em você e vou tentar te encontrar em alguma madrugada sem rumo para depois me arrepender. sei que outra pessoa como você, mesmo que tenha mesmo nome e eu saiba chamar no mesmo tom de voz, não aparecerá na minha frente querendo criar uma história parecida e melhor, mas também sei que por mais um tempo insistirei, sem querer, em encontrar seus aspectos em outros rostos, suas qualidades no meio dos defeitos de outros e talvez até me apaixone por alguém que tenha o mesmo perfume. tenho a consciência de que você já vai bem desde alguns meses, enquanto eu continuarei indo de muito mal a pouco mal durante mais um tempo. sabendo de tantas coisas que talvez você acredite que eu não saiba (por eu fazer tantas coisas erradas e transparecer tão pouca maturidade), posso tentar me desprender, me desacostumar, me tirar daqui. pois sabe, estou no mesmo lugar, não me movo, pois me mover significa uma mudança drástica que causa fim, e a única coisa que ainda não sei é como chegar ao fim.

flávia andrade

até o fim


    não peço mais perdão por ser esse desastre ambulante que age sem pensar, nem digo desculpas que tentem justificar todo esse meu jeito de sempre voltar atrás de uma coisa que supostamente eu já havia desistido. eu volto sim, quebro a cara no mesmo lugar mais de duas vezes, erro mais do que acerto e a dor aumenta. mas a dor é minha. eu que sofro, eu que me sofro, não devo explicação. sei que risco nomes e rasgo folhas pra esquecer e três dias depois lá estou eu completando mais uma ligação, deixando mais uma mensagem, pensando em mais alguma foto. por qual motivo eu deveria me desculpar? logo eu que amo tanto e não posso conter o tanto que me transborda. não peço perdão, o choro desenfreado vem dos meus olhos e não obrigo ninguém a ver; já me mato toda semana com cigarro, conhaque e ansiedade, por que pedir desculpa por mais uma decepção amorosa? tudo faz mal e morre comigo no fim.

flávia andrade

sexta-feira, maio 29, 2015

Frio atoa


    Me diz o que é que eu faço com esse frio? Se você já não aquece mais. Se sopa, cobertor e filme não aquecem. Se não sair de casa e casacos não aquecem. Se morrer um pouco por sua causa só me congela. Se nossos planos despencam como a temperatura. Dá uma resposta, porque nada mais resolve, e o frio persegue como se eu já tivesse fugido desse país, como se a vida já fosse outra e as coisas assim não se combinam, mas estão próximas assim como nós estamos, e do que adianta? Digo, nós e o frio, do que adianta?

Flavia Andrade

Um só rumo


    Não fosse o medo de nunca mais te ver, eu já estaria bem longe desse tumulto que causamos. Inda que estivéssemos um pouco pior, se acabasse a bebida, se a música parasse de tocar, as boates fechassem, o mundo entrasse em greve, se só restasse sua casa pra ir, eu me aninhava sem contradições. Eu tomaria seu cobertor pra mim, e seus filmes e seus discos e seus maços e seus violões e sua rotina desesperadora. Se não fosse o medo de você me mandar embora, eu até voltava a frequentar esse lugarzinho seu.

Flávia Andrade

quinta-feira, maio 28, 2015

desenhos animados


    eu gritaria que sim, que tenho coragem, mas aos sussurros diria que o nome dela é cão covarde. eu correria atrás de você como coiote seguindo o papa léguas, eu participaria de uma corrida maluca. e ai de quem ligasse para o fato de que seríamos como tom e jerry. eu até me transformaria numa menina super poderosa que não fizesse os meninos chorarem. até porque, meu bem, você é um menino que não chora, você é o pernalonga sempre sorridente, mas que troca cenoura por cigarro na vendinha da esquina. eu pediria sua ajuda pra abrir esse meu coração, como o prefeito precisava de ajuda para abrir a lata de picles. eu pediria ajuda para lidar com as pessoas más do bairro e a gente (eu e você) valeria por uma turma inteira. e mesmo que eu confundisse seu nome como sempre confundi du, dudu e edu, eu nos levaria para um lugar distante, para a caverna do dragão, para o esconderijo do tutubarão, para o qg das três espiãs demais, eu providenciaria uma vida inteira de nós dois sendo felizes como desenhos animados, eu faria uh mu bu gai fei di tal quando a gente precisasse de uma solução. viveríamos como quem explode junto duma dinamite e só queima as sobrancelhas, como quem é acertado por uma bigorna caída dos céus e continua vivendo. a gente seria um faz-de-conta, um casal mais apaixonado que mickey e mouse, e esses problemas todos resultariam somente numa música que toca todo dia no mesmo horário, na mesma programação, anunciando que mais uma vez as coisas deram certo, porque em desenho sempre dão.

flávia andrade

quarta-feira, maio 27, 2015

Conselho de Amiga


    Menina, é tarde e você ainda está na rua carregando o peso de três anos pensando em um só alguém. Juro, se fosse para sofrer tanto assim, eu te trazia um conhaque, um CD de músicas que te botam para baixo, uns textos do Caio Fernando. Somente se fosse para sofrer, mas eu tô tentando te fazer um bem que há muito tempo cansou de procurar. Eu te daria uns trabalhos acadêmicos para fazer e umas louças para lavar, mas eu sei que amor não passa com tarefas diárias. Eu te contaria que também passei por essas ruindades de gostar tanto, tanto, tanto sem motivos de exagero, sem recompensas, mas sei que ouvir mais do mesmo não muda em nada a quantidade de amor que transborda sem parar. É tarde e você tem que voltar pra casa, não pode procurar por ele por aí, não pode esperar que ele venha. Juro, se fosse para ele vir, já estaria aqui, mas ele não vem, então volta. Volta que o amor não vai acabar nessa escuridão, não vai acabar quando a fome apertar, não vai passar nem que morra de sede. Volta que é tarde até para sofrer, é tarde para insistir. Eu te faço um chá, te empresto um cobertor, recomendo um filme para chorar até depois de amanhã e digo ao resto do mundo que você só vai sair quando quiser.


Flávia Andrade


Qualquer coisa sobre você


— Mas por que é que você gosta tanto de mim?

    (Talvez seja a lista infinita de defeitos, esse cabelo desgrenhado, essa cara de sono, seus silêncios quando preciso de respostas, a demora toda para dizer um sim, a inquietude para dizer não. Devem ser essas suas reclamações diárias, esse jeito de ser velho com vinte e poucos anos, o resto da vida que você nem pensa em gastar. Só podem ser suas mudanças de humor, suas festas estranhas com gente esquisita, essa coisa de ser o que me dá uma raiva tamanha que eu acabo achando graça).

— Eu nem gosto.

    E você ri.

Flávia Andrade

perdoa, mundo


    eu me pergunto se tô perdida nesse mundo velho como formiga de boate bêbada por pinga derramada, se lá no alto estão aproveitando mais que aqui ou se aqui é melhor e não quiseram me contar. não sei se mudei demais para uma realidade que não destoa dos séculos passados. eu só sei que não tô nos estereótipos, não tô em revista, não fico em casa cozinhando, não penso em casar, não uso taça pra vinho, não uso sapato em casa, as coisas de amor que escrevo não são tão bonitas e até dão um desgosto pra quem lê. é que eu mudo quando quero e parece que desobedeço leis sociais, eu ando em círculos e esqueço do tempo que me apressa para um futuro que não desejo e nem vou seguir. e se a vida lá fora vai ruim, aqui dentro eu sinto uma coisa boa ainda, mas não posso contar porque o mundo não quer saber de gente feliz. e eu me pergunto se me perdi o suficiente, distante o bastante, longe além pra rir tanto assim dos desencontros, dos erros, dos vícios e acabar sendo melhor do que deveria ser, melhor do que deveria estar.
flávia andrade

sexta-feira, maio 22, 2015

Se não fosse a poesia em tudo

  

  Toca aquela música boa no rádio, eu sento e espero a vida ruim passar, mas quem passa é você, do outro lado da rua com a cara séria, com o meu amor esmagado no bolso, com o disco no pen drive que tem a música boa que dependo do rapaz da rádio pra ouvir, com tudo o que é sentimentalmente meu e você não devolve. A música perde a graça, o dia perde a graça, a vida ruim não passa, ela para e fica, permanece aqui enquanto você se vai mais uma vez, você que deveria parar e ficar, permanecer aqui. Dou voltas em círculos e nós. E então toca aquela música ruim no rádio que toca todos os dias a cada três horas, é como aquele sentimento ruim que dá a cada três dias sobre a vida ruim não passar.

Flávia Andrade

quarta-feira, maio 20, 2015

Vida de Cão


    O cachorro hoje se comportou. Não pulou em mim quando cheguei e nem sujou minha calça, não me arranhou, não latiu desesperadamente para os cachorros vizinhos, não roeu o pé da mesa, não destruiu o novo pote de ração. As bitucas de cigarro que fui jogando durante anos em cima do mesmo telhado foram caindo ao chão com uma ventania não vista há tempos. O dia revezou entre silêncio e grito, sossego e tormenta. O dia fui eu. O cachorro agiu como eu agiria se fosse um animalzinho de quatro patas trancafiado nessa casa por obrigações de um pseudo-dono. As bitucas despencaram como toda mentira minha vem à tona por mais tempo que perdure. A geladeira está vazia, o sofá está vazio, a televisão está vazia. Eu estou vazia. Em mim, apenas um cachorro sem dono sem raciocínios, nem emoções. Em mim, apenas uma bituca de cigarro sem utilidade alguma, sem nicotina pra se tragar. Em mim, apenas uma casa com paredes de tintas descascadas e móveis frios como o tempo. Nada aquece, nada preenche, nada causa coisa alguma. O cachorro hoje se comportou, e eu faço como ele: me deito no chão gelado, sem objetivos, sem sonhos, sem querer roer ossos, apenas deito e durmo como se fosse para o resto da minha vida.

Flávia Andrade
aquele cara grande, estúpido, não ia se mover
quando eu passasse pelo corredor; naquela noite no salão
de dança Elmer Whitefield perdi um dente enfrentando
Eddie Green;
nós vamos pegar seu rádio e nós vamos pegar seu relógio, eles disseram,
apontando pra mim, merda Yankee; mas eles não sabiam que
eu era um poeta louco e encostei lá bebendo vinho
e adorando todas as mulheres deles
com meus olhos, e eles estavam assustados e intimidados
como um gado de cidadezinha
tentando descobrir como me matar
mas primeiro
estupidamente
precisavam de uma razão; eu poderia ter dito a eles
como há pouco tempo
eu quase me matei sem razão alguma;
ao invés disso, eu peguei o ônibus das 8:15
para Memphis


Caught Again at Some Impossible Pass, Charles Bukowski
Tradução: Flávia Andrade

Não era uma noite só


    Não foi amor. Ele reparou no par de coxas grossas, no cabelo desgrenhado, na saia curta, no hálito de tequila, no relógio parado, no cheiro de qualquer perfume masculino em corpo feminino. Não foi a conversa boa. Ele reparou na voz alta contando histórias terríveis que sempre começavam com "eu estava bebendo e...", percebeu os traços da boca que pareciam de desenho animado e no quanto ela falava sem parar sobre coisas banais que pareciam extremamente importantes e não parava para respirar um segundo e as vírgulas se perdiam no ar com todas as boas intenções. Não era para levá-la para a casa. Mas ela tirou a carteira da bolsa, contou sete reais, o táxi queria cobrar vinte e oito, ela queria morrer de overdose, a banda queria tocar mais alguns minutos, ele queria ir embora, o dono do bar queria desistir daquela vida, ela queria uma garrafa de pinga de sete reais, ele queria parar de ver todas aquelas cenas, ele disse: vamos para a minha casa. Não era para ser, mas era ela, e ela conduzia a vida de olhos fechados, com faróis apagados, na contramão e mesmo assim chegava onde nem sabia que queria. Era ela, e foi.

Flávia Andrade

terça-feira, maio 19, 2015

Entre todos os vômitos

    Miseravelmente só no banheiro do bar. Miseravelmente bêbada. Miserável e só. Sem grana e com caráter canalha. O mundo, eles dizem, é muito maior do que pensa e ele não precisa de você. Pois então, saibam, vocês estão lidando com uma egocêntrica.
    Engano deles ver em mim razão alguma. Não tenho razão que os satisfaça. Meu hálito tem teor alcoólico, não confiem no que digo. Somente eu posso confiar. Minhas pernas são bêbadas equilibristas, não confiem no que trilho e faço, nem para onde eu corro. Se confiassem, afinal, também estariam neste banheiro completamente vomitado agora.
    Eu limpo a boca e lavo as mãos. Vomito outra vez. Limpo a boca e lavo as mãos. Meto as mãos molhadas nos quatro bolsos da calça, acumulo papéis em cima da pia. Meto a mão nas botas e tiro mais besteiras. Recolho desastradamente tudo e jogo no vaso. Descarga. Isso vem deles e não quero mais.
    Olho ao redor e faço um jogo mental: o que está mais lixo? O banheiro, minha vida ou minha consciência? Não sei responder. Outra questão: quem/o que durará mais alguns anos? O banheiro, minha vida ou minha consciência? Não faço ideia. Bato a cabeça três vezes na parede pensando em qualquer coisa que me dê um motivo para não permanecer ali.
    Um tempo.
    Encontro razão: de qualquer maneira, ainda que miserável, valho mais que esse banheiro podre.
    E é com esse sentimento que saio dele. Pacífico.

Dominó


    Acredita quando quer em tudo o que não pode acreditar a vida inteira, assim resgata, sempre que possível, um viés de astrologia, de fé ou coisa que valha para si. Às vezes se sente como uma peça de dominó prestes a cair na sequência, ou ainda, uma peça de dominó que caiu sozinha quando todas as outras continuaram estáticas. Por isso, acredita só de vez em quando que algo bom pode vir com o sol, no ar, por boas vibrações e passa o resto da vida não esperando por nada, porque esperar causa um cansaço maior do que pode suportar junto de todo o peso das coisas que não dão certo. Por isso acredita, como quem não quer nada, em destino e depois segue sem procurar por rumo exato.

Flávia Andrade

sábado, maio 16, 2015

Aposto uma vida nova e um cigarro


    Posso ou não ser viciada em jogos. O fato é que eu odeio perder enquanto finjo que jogo por jogar. Uma partida só deve começar quando ninguém mais está sóbrio, afinal, a sobriedade deve te por na cama antes da meia-noite, enquanto os porres te deixam na rua, no beco ou no bar para continuar aproveitando até a próxima manhã.
    Eu conheço cada artimanha de cada jogo e conheço o suficiente para usá-las sem ser notada. É por essa sutileza em minhas rodadas que sempre me aproximo da derrota. E é na derrota que abro os olhos e a competição realmente se inicia. Sempre jogo para perder, acontece que nos jogos me recupero e na vida não.
     Na vida meus vícios não estão sob controle, meu corpo não lida bem com a embriaguez emocional e sofro perda total depois de todo grande acontecimento. Não sei seguir uma tática e há sempre alguém que me controla melhor que eu mesma. Ando, ando, ando e não saio do lugar. Bebo, bebo, bebo e vômito nenhum me limpa por dentro. Sofro, sofro, sofro e choro nenhum lava porra de alma alguma. Me dê um taco, por favor, eu vou jogar sinuca. Me dê este baralho, por favor, eu vou quebrar minha mão quando bater na mesa e gritar truco. Eu vou jogar um poker, buraco, 21 ou qualquer outra coisa e apostar minha dignidade, vou jogar porque viver ainda não tem regras que eu possa seguir e essa normatização tem me feito um mal dos infernos.

Flávia Andrade (A Viciada, em O Beco Bêbado)

    Quando penso em escrever sobre mim, termino escrevendo sobre você. Acontece que somos dois contadores de histórias, narramos causos. Eu inspirada por todas as leituras e músicas, e você se inspirando na própria vida. Eu presa em clichês e substantivos casuais, você livre para qualquer conjugação de qualquer verbo. Inevitavelmente, não sabemos nos conter, encontramos sempre um novo alguém que nos ouça por mais de dez minutos. Tenho exigências de que prestem atenção nos detalhes, você apenas implora por perguntas toda vez que diz uma frase vaga. E, mesmo assim, deixamos que nossa própria e maior história terminasse em silêncio. Foi por toda a quietude que, enquanto seguimos nossos rumos, cada pessoa que nos encontrou ouviu algo diferente. Tivemos tanto a dizer sobre nossas palavras não ditas. Que perdoem a confusão que causamos, porque agora somos livros, discos, filmes, ditados, folclore. Somos personagens de nossas histórias, das histórias que recontaram sobre nós, do que nos tornamos em outras versões. Estamos em todo cartaz de amor não correspondido e de desapego. Mas deixa eu contar, do meu jeito simples e de sempre, um causo que estava guardado ainda, mesmo que escapando em cada prosa minha. Deixa eu contar que a menina que ficou aqui ainda só sabe escrever sobre você e qualquer outro texto não vale nada.

Flávia Andrade

quinta-feira, maio 14, 2015

Gritos casuais


    Eles se esbarraram na rua dos inesperados. Estavam com o frio de agosto na roupas de maio, carregando as decepções passadas que queimaram como o sol do meio-dia. Não puderam, ou talvez não quiseram, seguir por outra rua. Sem sintonia e sintaxe foram andando, pois há muito tempo já sofrem de completa disritmia e descompasso. O silêncio é obrigação imposta pelo cansaço de ambos, pela exaustidão de desentendimentos. Contudo, enquanto andaram quietos, sem intenções, acabaram conversando. Na mudez apressada a moça pediu desculpas "... porque eu sinto muito por essa situação de agora, sei que errei também". Enquanto o rapaz, que ficou taciturno a uns passos de distância, disse "... não insisto mais em dizer esses pensamentos entalados na garganta (...) não adianta", no rangido dos passos lentos lamentou. Ela, aflita, quis começar um assunto menos desconfortante quando estralou os dedos e agir como se a vida inteira dos dois estivesse resolvida. Emocional demais, assim retornariam aos problemas antigos. Ele tentou explicar o quanto é tarde e, "pelo estrago feito", não há chances de recomeço. Os dois silenciaram de vez. Aquela foi, provavelmente, a vigésima despedida. Ambos se observaram no futuro em que disseram que estariam algum dia, e era justo aquele. Contaram as novidades de maneira imagética, através do novo corte de cabelo, da barba mais crescida, da mochila pesada que força a má postura. Na curva da rua, onde os trajetos de seus caminhos se diferenciam, a moça notou que houve um silêncio não dito, restou-lhe uma incompreensão e duas confissões. Afinal, a falta que ela percebeu que ainda sente, ele percebeu também?

Flávia Andrade

quarta-feira, maio 13, 2015

Por um fio, por uma dose


     Sou um porre contido prestes a subir na mesa do bar e cantarolar aquela canção dos desamores. A ponto de prometer (ao mundo todo) ficar sóbria por um ano. À beira de um tombo que funcione como uma ficha caindo para acordar para a vida. Sou um porre preso, atônito pelo autocontrole, que não me liberta para não causar estrago. Sou uma bebedeira sem líquido algum. Apenas uma inconsciência presente que vai à frente guiando o rumo que quero seguir. Um porre afeta o gosto na minha boca e eu ajo ainda com completa sobriedade, até que minha lucidez fingida e quase subvertida me corrompa, até que eu viva no intervalo entre o porre e a ressaca.

Flávia Andrade

Divergentes



    Ainda não avisaram ao mundo que o nome dela é nome de flor, uma flor inexistente plantada no meio de seus tumultos neuróticos. Ela toda é confusão, vive numa dança desenfreada de uma música sem fim. Ainda desconhecem que o riso dela é um livro cheio de incógnitas lido em voz alta, um riso que depende de contexto para ser compreendido. E se essa maneira é flor, dança e livro, o que eu faço sendo apenas um sujeito invisível? Um sujeito sem perfume, sem ritmo e mudo.

Flávia Andrade

terça-feira, maio 12, 2015

De corpo sem alma


    Escorado na parede com as mãos nos bolsos, com cara de sono e mentalmente retornando ao sonho da madrugada. Distante do mundo exterior com cansaço e um pouco de frio, com saudade e fome matinal, com peso na mochila, nas pálpebras, no que chamam de coração. Carregando todos esses incômodos, alguns estampados e outros guardados, pensa em desistir. Diz "bom dia" com uma voz suicida que quer dizer: "antes não houvesse outro dia, antes eu estivesse esticado na cama". Pergunta o preço da passagem de ônibus para calcular quanto custa a ida, a volta, o cigarro e a janta, até planeja não voltar para que sobrem os trocados de um isqueiro. Escorado e imóvel, perdido no lugar de sempre que já sabe de cor, querendo não estar, desejando não ser. O dia está morto e ele anda por obrigação, sai do lugar para não ser expulso. Ele se move apenas para disfarçar e escorar em outro canto. Esse dia que não acaba parece com a saudade que não some, com aquela que não volta, com o tempo que não esquenta, só esfria. Escorado na outra parede não pensa em nada, não enxerga nada, mas ainda é o mesmo que sente tanta falta a ponto de não existir mais, de ser vazio por inteiro. É só um corpo escorado por precaução para não despencar.

Flávia Andrade

segunda-feira, maio 11, 2015

Novacaine


    É tão fácil pra eu mesma me machucar, um corte no dedo por causa de uma folha de caderno, um corte na vida pra evitar outra decepção, um tropeço num degrau da escada e um tropeço na escolha de um certo alguém. Às vezes até sei que é arriscado, que tenho mais chances de me causar ferimentos do que chances de sair sã e salva, mas ainda assim eu vou, e vou como quem não tem medo, e comprovo que realmente não deveria ter ido: volto com um osso quebrado, com um coração em pedaços. Pedacinhos de pedaços porque estou sempre deixando que o quebrem, porque não sei cuidar bem. Mas até já sei como dá jeito, conheço umas plantas pra passar em feridas que são melhores que qualquer coisa de farmácia e umas sombras de árvores para deitar que são mais válidas que psicólogos. Conheço as medidas que se prepara um remédio e as quantidades de álcool que podem me sanar. Sei como que cura minha febre, dor no estômago e saudade. E depois que curo, volta e meia, os sintomas retornam. Ainda assim persisto, como quem acumula água parada para pegar dengue, como quem sabe de cor os sintomas da doença do ano, como quem todo dia sofre de um transtorno diferente. É tão fácil que as dores nem duram tanto mais, que estou quase em estado contínuo de anestesia. Quando chegar, então, avisa que a intenções são boas pra eu me preparar para bons sentimentos e dar um aquietada nas defesas.

Flávia Andrade

Lá pra cima



   Essa coisa de pensar em planetas, galáxias e quantidade de estrelas faz meu eu ser maior, porque quando penso só nesse mundo acabo pensando em você, que é coisa que vem de dentro de mim e aqui dentro as coisas são pequenas, são arredores de outras pessoas, são restos e mais restos do que já foi esfacelado, dilacerado, são machucados permanentes. E pra lá, fora daqui e mais distante do que posso calcular, é tudo maior, e assim posso ser maior também. Por isso que penso tanto em todas essas coisas quase-desconhecidas além do céu, por isso não sei andar a noite sem tropeçar, por isso os olhos estão sempre para cima, pois vou tentando estar acima do que sou.

Flávia Andrade

sexta-feira, maio 08, 2015

Ela escreve, fuja


    Vê aí o que você faz com sua própria vida. Nunca ouviu sobre tomar juízo? Juízo você não encontra em escritora não. Corre o risco de perder toda a lucidez ao se apaixonar por uma, risco de entrar numa linha tênue entre um dia vivido e uma crônica narrada às pressas. Não se aproxime se não pode se adequar a tanta letra espalhada por todo o caminho que ela anda, pois se pisar em falso em alguma dá problema de má interpretação e vira até tumor. Você vai trazendo suas tralhas na mochila achando que é simples e que pode ficar, mas de onde tirou essa coragem? Escritora pode sobreviver com papel e caneta por mais de um dia quando precisa de texto novo e você quer interromper? Interromper pra mostrar a vida de mão única que você decidiu seguir? Logo pra ela que é junção de todas as histórias já lidas, de todos os enigmas e desfechos inquietantes e pensa que precisa, qualquer dia, escrever algo tão bom também. Ela vive pra se inspirar e você aí achando que pode chamar os dois, quase juntos assim, de acaso? Justo ela que, se caso parou para pensar em vocês, pensou em coisas tão melhores e até correlacionou aquela frase sua à poesia do dia anterior pregada em um poste. Não é querendo desanimar, até te dou um mínimo de apoio se ler aquele pequeno parágrafo de vinte palavras e encontrar os dois mil e cem caracteres nas entrelinhas. Mas não vá dizendo que ama uma escritora, não adianta, é como planejar para a vida uma comédia romântica hollywoodiana e terminar em uma tragicômica sem investimentos. Você precisa saber com quem vai lidar, escritora é uma suposta louca que pratica a ação e narra o ato como se fosse conto. E se ela disser que gosta de Poe nem tente imaginar como provavelmente enxerga o que a inspira. Vê aí o que você faz, porque eu mesma acho um tanto preocupante isso de querer se apaixonar por escritora. É melhor gastar esforço levando-a pra casa depois de um porre literário e, ao fim, fugir o quanto antes.

Flávia Urder

Coi' de besta


    "Esquecer (alguém)" em dicionário de besta é lembrar o dia inteiro e num segundo só de dispersão pensar em qualquer outra coisa sem referência alguma à pessoa. Esqueço você durante esse tempo todo, passo toda semana com uma memória um pouco mais modificada, mas que deixa a saudade cada vez maior. Esqueço você pensando no que poderia ter sido, esqueço fingindo que nem sinto mais nada. A gente tem essas coisas mal resolvidas e se acomoda um tanto, não é?

Flávia Urder

terça-feira, maio 05, 2015

Não é você, sou eu


    Inda que fosse noutra vida, acredito eu  com todos os meus devaneios não sóbrios, que procuraria por aí pelo mesmo tipinho de gente que é você: o qual me deixa perdida, sem rumo algum e ainda assim eu gosto um tanto. Perdoa o desabamento da construção que já fui, vou me desfazendo pra ver se mudo. Mas não dá em nada, nem noutra vida daria. Mesmo que você tivesse outro nome, morasse num lugar de nome impronunciável, não falasse minha língua, não entendesse o motivo desse texto, não assistisse o mesmo filme vinte vezes, de qualquer jeito eu te acharia pra me acabar nessa mesma história sem fim, nesse trajeto desajeitado e torto. Inda que eu não te encontrasse de um modo fácil, daria voltas recolhendo detalhes pra encaixar tudo numa pessoa só e fazer ser você. Esse você que é todo amor que me transborda.

Flávia Urder

domingo, maio 03, 2015

Dia sem fim


    Corpo quase inexistente e angustia maior que o mundo, angustia que é medo de não ser o suficiente, de não ir além da mera contradição habitual. Corpo que não sente mais nada porque o sentimento já está transposto ao ambiente inteiro e se tornou zona de melancolia. No rosto: olhos pedem perdão e a boca impede consoantes e vogais de apelo. No resto do corpo: mãos repousadas em bolsos no contraste dos pés inquietos que movem a carcaça em círculos. Não passa de uma sobrevivente invisível numa construção de enjoos, é só um nome desconhecido numa plataforma honrosa de mesmices, não deixa nunca de ser o pequeno peso que segura a porta aberta.

Flávia Urder

sexta-feira, maio 01, 2015

Anúncio de Rede Social


    Olho o sorriso inexato e indeciso, esse que não sabe se guarda lágrimas ou se ainda ri silenciosamente dos dias que deram certo. Vejo e sem certeza anseio para ser motivo, um motivo bom. O sorriso, mesmo que não me dê respostas, é bonito. Eu estampo como anúncio de rede social que quero ser a razão. Se você me lê: prometo que te faço um bem pra tristeza não ser coisa velha retornando, pra ser apenas algo que se acaba e te deixa livre. Prometo que não deixo que fique perdido por aí, trago pra essas semanas de lábios retos e quietos pra tudo ficar desse jeito seu, jeito manso entre disfarce e verdade, que quem vê não consegue desviar os olhos e corre pra fazer um texto.

Flávia Andrade

Arquivo do Blog

Tecnologia do Blogger.

Curta no Facebook