quarta-feira, maio 20, 2015

Não era uma noite só


    Não foi amor. Ele reparou no par de coxas grossas, no cabelo desgrenhado, na saia curta, no hálito de tequila, no relógio parado, no cheiro de qualquer perfume masculino em corpo feminino. Não foi a conversa boa. Ele reparou na voz alta contando histórias terríveis que sempre começavam com "eu estava bebendo e...", percebeu os traços da boca que pareciam de desenho animado e no quanto ela falava sem parar sobre coisas banais que pareciam extremamente importantes e não parava para respirar um segundo e as vírgulas se perdiam no ar com todas as boas intenções. Não era para levá-la para a casa. Mas ela tirou a carteira da bolsa, contou sete reais, o táxi queria cobrar vinte e oito, ela queria morrer de overdose, a banda queria tocar mais alguns minutos, ele queria ir embora, o dono do bar queria desistir daquela vida, ela queria uma garrafa de pinga de sete reais, ele queria parar de ver todas aquelas cenas, ele disse: vamos para a minha casa. Não era para ser, mas era ela, e ela conduzia a vida de olhos fechados, com faróis apagados, na contramão e mesmo assim chegava onde nem sabia que queria. Era ela, e foi.

Flávia Andrade

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