terça-feira, junho 30, 2015

Pro Criolo

    Os bares estão cheios de pessoas tão cheias que transbordam e se derramam em seus copos. Parte dessa gente misturada com álcool é receita de freguês. Os bares estão lotados de amores não correspondidos, daqueles que custam três meses de destilados e dois anos de qualquer bebida correspondente ao tamanho das coisas sentidas. Não é segredo que todo bar tem um livro grande com uma história longa dentro de algum cliente silenciado pelos tumultos lá de fora, mas é enigma encontrar um alguém sequer sozinho e sóbrio que pare pra ouvir. Quem passa por perto diz que os cheiros incomodam, mas não reconhece o peso de cada tragada e a profundidade de cada gole, não vê que naquele cheiro todo tem odor de gente que já partiu, gente que só quis ficar um pouco e gente que ainda nem apareceu. Tem gole que limpa e suja, ao mesmo tempo, aquele gole certeiro que mata a angústia, mas atinge imediatamente a vontade de ligar pra quem não gostaria de atender. Os bares estão cheios de pessoas tão cheias de coisas não ditas e entaladas, que só aquilo que queima a garganta consegue descer. Os bancos e cadeiras sustentam almas perdidas em corpos que só imaginaram aquele endereço quando a disritmia emocional bateu, e sustentam com tamanho zelo que os pés não sabem se comportar depois, ziguezagueiam entrelaçando as pernas. Os bares não têm gente de alma vazia, Criolo, os vazios estão fazendo discurso em rede nacional. 

Flávia Andrade

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