terça-feira, junho 09, 2015

Sobrevivência



    Naquela casa o telefone tocava, eu não atendia. Tocava sem parar e a campainha também tocava e eu não me movia. Alguém pressionava-o-botão-sem-descanso e eu rangia os dentes. Me cobria mais, quase por inteiro e sufocada pelo cobertor. Não sei por quantos dias fiquei lá dentro. Talvez dois, talvez sete, podem ter sido vinte ou mais de um mês. Não entenda esses barulhos como alguém tentando se comunicar contigo, veja tudo como o mundo tentando te trazer de volta ao buraco sem fundo de desgraças. Em silêncio, quase morta, nada me acontece. Não adianta somente beber e fumar para morrer mais cedo. O que funciona é morrer de vez, morrer para o mundo lá fora. Aqui fora. Se trata de morrer para sobreviver. A gente morre, de amor ou tédio, e continua vivendo sem que ninguém sinta o cheiro de defunto.

Flávia Andrade, A Viciada

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