sexta-feira, julho 17, 2015

Construção do Esquecimento


    De repente, você está amando daquela vez como se fosse a última e morrendo na contramão atrapalhando o tráfego, como canta Chico Buarque. De repente, a experiência do fim é uma sequência de últimas melancolias. O último beijo sem emoção, a última batida firme na porta, a última vez olhando para ele descendo a rua, indo embora sem dizer que vai voltar, a última discussão e a decisão silenciosa e perturbada de quem dirá a última frase. Mas sem avisos, a frase acaba sendo sua. 

    O assunto nunca se encerra. Os dias vão passar e você ainda terá em mente aquelas boas respostas que na hora não soube dizer. As semanas vão passar e você encontrará nas lembranças do diálogo alguns desabafos por parte dele, que não havia notado, e vai querer correr de volta para dizer que sente muito. Os meses vão passar e você terá entrado em discussões fundamentais consigo mesma sobre quem errou primeiro, quem mentiu primeiro, quem desistiu primeiro. Mas a última frase foi sua. Quando notar que se aproxima de completar um ano, um desespero emocional latente vai começar a bater. Porque em um ano, ainda foi difícil pensar em uma frase só. Em um dia só. Em uma pessoa só. 

    De repente, por mais que num dia ensolarado qualquer as últimas coisas tenham acontecido, você ainda vive cada segundo do que já houve. O assunto não se encerrou e você não soube por fim. De repente, você tem mais últimas frases a dizer. Mais calculadas, repensadas, elaboradas. Mas a vida uma hora vai se encerrar, a saudade uma hora vai se encerrar, e como tudo se encerra, você sabe que pode dar fim a um dos dias em que algo acabou. Você pode retornar aquele lugar e criar novas memórias. Pode ser o lugar para onde levará toda pessoa especial que conhecer, e ele não será mais o aconchego para imaginar uma pessoa só. Uma pessoa esquecida. Você pode iniciar seus planos naquele mesmo dia e, da próxima vez, completará um bom ano de bons acontecimentos. De repente, você pode amar daquela vez como se fosse a única.

Flávia Andrade

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