segunda-feira, julho 13, 2015

sem trégua

eu tive um pouco de cautela, um pouco de canalha, um pouco de conhaque. eu fui meio bebida quente, meio cabeça fria, meio deixada para trás quando o mundo começou a rodar e as pernas bambearam e o café ficou morno. eu perdi a visão, ceguei por horas, enquanto você ia embora para a casa na qual não me convidou para entrar. eu dobrei a esquina, sentei no lugar perdido, porque queria que você voltasse e colocasse os braços ao redor e me levasse para o sofá do canto, perto dos violões. eu estava numa fuga inventada para que você me buscasse com os olhos de quem me queria por perto, mas você desceu a rua, não olhou para cima, não pagou outra cerveja. desculpa, por ter errado, gritado, chorado tanto, por ter sido mais eu do que você poderia conhecer nas conversas casuais de encontros que eu planejava o tempo todo. desculpa, pelos textos sem fim, pelo livro publicado, por ter escrito sobre você em tanta página que não quis ler. desculpa, pelas vezes em que fui uma velha ranzinza reclamando sobre o mundo, o aquecimento global e as pessoas que não ligam no dia seguinte, por ter pensado que assim você veria em mim todas as preocupações sobre o que me dava um medo tremendo de viver. desculpa, pelos pedidos de desculpa que duravam horas enquanto você se arrumava para mais um dia sem peso algum na consciência, para mais um dia que eu transbordava todos os sentimentos que você nunca teve por mim. desculpa por todos os exageros, os afogamentos de mágoas que viraram uma dança escandalosa no meio da rua e por todas as vezes que eu disse seu nome como se pudesse te trazer pra mim. e por todas aquelas outras coisas erradas que fiz em tentativas inconsistentes e inconscientes de ficar mais um pouco e mostrar que eu poderia ser melhor. me desculpa pelo fim cansativo e estressante e pelos dias que se seguiram como se nunca fossem acabar. me desculpa, mais uma vez, agora que já acabou, por tentar voltar atrás e me recompor para nos reconsertar.

flávia andrade

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