quinta-feira, julho 16, 2015


    Se você me ligar às quatro da manhã, eu vou atender. Talvez de mau humor, talvez dizendo alguns palavrões que te façam rir, mas não vou rejeitar a ligação depois de ler seu nome na tela. Porque sei que é insone. Sei do grande feito de ter assistido todos os filmes que passam na sessão da madrugada, e da problemática de não conseguir ler livros depois que anoitece porque não se concentra. Então eu atendo e digo uma coisa qualquer confortadora ou risível.

   Se você me pedir para te acompanhar ao mercado, eu vou. Talvez demore para colocar uma roupa de sair na rua, talvez antes disso pergunte por que é que você não vai sozinho, mas acabarei indo. Porque sei que morre de vergonha de falar com estranhos e se complica até para pedir meio quilo de alcatra no açougue. Sei que não gosta de fazer compras sozinho porque não difere marcas e vira uma indecisão ambulante na sessão de doces. Então eu encho seu carrinho e te convenço na fila de que é a  melhor compra da sua vida.

   Se você disser que não sabe para onde ir, mesmo depois que eu já tenha entrado no carro e colocado o cinto de segurança, eu vou continuar ali, esperando pelo destino no qual vai me levar. Eu vou confiar em gostar, seja o rumo qual for. Eu sei que, mesmo sem saber, você sempre chega a algum canto e faz dele o melhor lugar pra gente. No meio dos defeitos, você tem esse dom de deixar tudo melhor. 

    Se você segurar na minha mão durante o show que eu te convenci a ir por mais de um mês, eu vou saber que estará querendo ir embora. Eu vou esperar tocar só mais uma música e vou te tirar de lá. A gente pode ouvir o mesmo som no seu rádio no quarto, e sei que no escuro só comigo você vai acabar dançando sem ritmo como não fez na multidão.

    Se você disser coisas sem sentido no meio de um desespero emocional, não precisa pedir desculpas pela confusão. Eu vou olhar para os seus olhos, porque é a única parte de você que fica calma quando seu mundo parece desabar. Então vou dar um jeito de deixar a gente em ordem, vou dar meus pulos pra gente conseguir uns remendos.

    Mas, por favor, não se arraste sozinho para os tumultos que sente, vez ou outra, quando se esquece do quanto importa para um mundo inteiro dentro de mim. Não se esconda para gritar todo o sufoco que te invadir por inteiro até que não dê mais para manter guardado. Não chore no meio de um surto claustrofóbico por ter medo de correr até mim. Eu vou estar aqui. Acompanhando todos os seus jeitos de deixar o mundo ao contrário, e me virando de ponta cabeça para te ver. Eu vou estar aqui. Entre as coisas tantas que não te deixam ser só mais um na minha vida e as outras coisas exageradas que não me deixam te deixar.

Flávia Andrade

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