quarta-feira, julho 29, 2015

Viagem ao fim da rua



    Quero a passagem só de ida pra sua casa. Então a gente se junta, emenda a cozinha e a sala, arranja utensílios para o fogão, paga a conta de energia, separa um lugar nosso com aparência de biblioteca e cheiro de conhaque. Nas férias a gente põe tudo numa mala só, é pouca coisa, e viaja pra ocupar qualquer lugar vazio. Se acabar a música, a gente canta, grita, ri e até chora. A gente diz aquelas coisas clichês perdidas no meio de tudo quanto é coisa sem sentido que adoramos e sabemos dizer. Arrumei minhas coisas quando você chamou e não embarquei, apenas corro pra sua rua. Eles dizem: ela vai para outro estado. Como se você estivesse um tanto assim bem longe, como se o varal tivesse sotaque, como se o latido dos cachorros tivesse um dialeto incomum. Mas o estado é meu, todo mudado. Estado de entrega, de mistura de quando duas pessoas se compõem uma na outra. A gente divide todo o espaço do estado novo e o mundo fica porta afora, se desprende de nós.


Flávia Andrade

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