quinta-feira, agosto 27, 2015

Mochileiros II

    Vamos vender gritos. Estridentes, roucos, cansativos, longos, assustados ou silenciosos. O Grito fez sucesso, não fez? Vamos vender poesias improvisadas. De amor ou escárnio, amizade ou prazer, realidade ou ficção. Poesia para quem está só, para quem casou, para quem não receberá rima de mais ninguém. O rap faz sucesso, não faz? Vamos vender nossos livros escritos, nossas roupas sociais, nossos sonhos vagos. Vamos vender os planos que não deram certo e os contatos dos desgraçados que atrapalharam. Vamos alugar uma beira de estrada de pedir carona, uma sombra de árvore, horas de histórias narradas. Vamos vender nossa vida antiga, o endereço e o telefone, o pagamento desses vai para a família. Vamos ganhar uma grana com a vida simples: acender fogueira e fazer comida para quem não trouxe nada na mochila. Sejamos, aliás, mochilas vazias meio cheias: não pesam tanto, mas trazem muito. Vamos ser melhores que os sentimentos atuais e piores que aquilo que esperam de nós. Vamos fugir das rotas, das linhas vermelhas e dos trilhos. Vamos evitar caminhos retos, mas não andemos em círculos ou passemos por muitas rotatórias. Vamos ser reais com a cara de frente ao vento, e zero reais no bolso. Um conto para contar, nenhum conto para os gastos. Vamos destruir o que nos prende, pois não estamos em gaiolas, estamos em jaulas. Somos maiores que pássaros cantarolantes e podemos ir mais além.

Flavia Andrade

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