quarta-feira, agosto 26, 2015

O Trapo na Lixeira

    Minhas mãos estão sujas cavucando os sacos pretos dentro da grande lixeira. Meu corpo está quase todo inclinado para dentro, quase me fazendo afogar num mar de bactérias com cheiro de bicho morto. Perdi alguma coisa que não sei o que é, e estou procurando a essa altura da noite aqui no Beco. Procurando como se fosse fácil encontrar, ainda mais dentro da lataria enferrujada.
    O cara que sempre está onde eu estou aparece. Como de costume, como de praxe, como é feitio de viciado. Ele me pergunta se quero ajuda e mando-o se foder. Ao contrário da minha oferta imperativa, ele adentra a lata. Vejo-o se sujar rapidamente, se transformar num cão imundo.

— O que você quer aqui dentro?

    Ainda tem a coragem de me perguntar. O que eu quero? Francamente? Que ali pra baixo tenha uma passagem para o inferno e que ele vá, sem pensar duas vezes.

— Estou tentando ajudar. Está procurando o que? — Ele insiste.

    Mas que merda. Estou procurando minha reputação, minha vergonha na cara, os óculos que usei até os onze anos, todos os convites que já recusei nessa vida, o número de telefone de alguns caras que me fazem falta, meu currículo, qualquer garrafa de qualquer bebida. Estou procurando o que fazer, o que pensar, o que dizer, o que agir, uma solução. Estou procurando toda merda não pegajosa que possa estar aí dentro e seja útil pra mim.

— Não é nada. — Respondo. — Só estava mexendo.

    Ele sai da lixeira puto da vida, como se fosse culpa minha todo o acontecimento. Olhando naqueles olhos até encontro razão e admito que o que ocorreu foi consequência dos meus atos, então, para me redimir ofereço algo melhor:

— Uma cerveja. Vou comprar no Cão Andaluz e trago aqui pra nós. Você me espera?

— Espero. — Sua voz está calma novamente.

    Dou mais alguns passos.

— Nós vamos virar a cerveja e fingir que a vida se resolveu, certo?

— Certo.

    Paro e olho para ele.

—Vamos destruir nossas gargantas com cerveja gelada e congelar nossos corações com pessoas destruídas.

— Vamos.

    Dou risada. Talvez fosse ele quem eu estivesse precisando encontrar na lixeira. Alguém usado, quase um trapo, que soubesse me fazer sentir melhor.

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