quarta-feira, setembro 30, 2015

Sobre o amor

    O amor começa a ser sentido, eu finjo que é sono e tento dormir. Mas amor é dos insones. Começo a sentir uma saudade enorme por vinte minutos de ausência e finjo que é fome. Mas saudade é para toques, corpo a corpo. Sinto uma vontade danada de dizer exageros gritantes sobre o quanto um pouquinho de você já me faz um bem maravilhoso, e depois tento disfarçar que é só animação e me arrumo para uma festa. Mas cada coisa que eu não digo aparece nas músicas que tocam lá fora e preciso voltar correndo para o silêncio da casa. Acontece que já gosto um tanto de você e isso me segue até que eu possa te encontrar e fingir que é só mais uma coisa banal. Mas o amor já pede espaço e tenta entrar na nossa conversa também. Daqui a pouco digo tudo, te assusto, tento acalmar, paro de fingir e espero que você fique.

Flávia Andrade

sábado, setembro 26, 2015

Meu bem, de verdade

    Qualquer lugar, à beira do abismo ou na única cadeira vazia do boteco, é melhor quando você está. Ainda que eu fique muda sem saber o que dizer, ainda que você dê risada do meu jeito quase-sem-nenhum-jeito de dizer que foi até bom ter me convidado para estar ali porque eu não tinha mesmo mais nada para fazer em um sábado à noite. Digo isso porque não quero que se preocupe se a bebida está quente, nem com minha melancolia sempre estampada na cara e principalmente nos lábios, porque você está fazendo isso aqui ser melhor que uma semana inteira de chuva. Eu sei, faz tempo que não chove. Mas chovia dentro de mim, dos olhos pra dentro, eu estava cheia de choros contidos. Você vem me salvando e nem sabe, vem me causando umas coisas estranhas que talvez alguém se arrisque a chamar de felicidade, mas que só digo ser efeito seu.
Flávia Andrade

sexta-feira, setembro 25, 2015

Só uma história de amor

    É só o começo da sua vida em um dia que está quase acabando e você o vê. O cara na sua frente tem aparência que seu gosto estranho aprova e diz coisas que só te provocam riso porque vêm dele. Mais tarde você vai para casa com um pouco de álcool agindo por dentro, mas pensando na visão do lado de fora, naquele moço que te roubou por uma madrugada inteira. Você vai deitar a cabeça no travesseiro e cerveja nenhuma te fará dormir. A partir da noite sem fim, as horas nunca mais vão passar mais rápido, pois a vida acaba de desacelerar. É seu primeiro amor, grande amor, sua primeira MPB, seu primeiro filme francês, sua primeira comédia romântica de fim ainda indefinido. E, por destino ou peças que você prega, ele entra na sua rotina e se torna não só a pessoa que inunda suas semanas de ócio, mas seu plano de resolução da vida cansativa e tediosa que leva desde sempre. Você o encontra por acaso e se pega sorrindo sozinha no meio de uma distração. Fica dois ou três dias sem vê-lo e sente um aperto no peito, uma vontade de ligar, mandar mensagem, gritar o nome. Ele é o cara-dos-sonhos, das noites em branco, o apelo que se repete na sua mente quando você vai lavar louça, estudar para uma prova e conversar sobre amor com os amigos. Vinte e quatro horas é pouco tempo para dois e tempo demais para um. Em algumas noites o moço vem te resgatar na sua casa, te leva para lugares melhores, te apresenta histórias dele e constrói novas ao seu lado. Em algumas tardes vocês fogem para lugar nenhum, que ninguém pode encontrar, e são felizes por um curto espaço de tempo. Nas manhãs, o seu motivo de dizer bom dia é finalmente sincero. Ele é o único e o tanto de coisas sentidas nem cabem em um coração novinho que quase não sentia nada antes, só batia. Você faz uma decisão porque há dias já pensava em fazer algo. Você você vai ao topo de seu mundo, grita o nome dele e pede para que fique para sempre, ainda que "pra sempre" seja tempo indeterminado. Seus olhinhos brilham. Será o fim da vontade de encontrá-lo, pois a partir dessa hora ele estará perto em todos os momentos. Será a certeza de que ele é só seu, porque você é só dele desde a noite em que ainda não se conheciam. A resposta demora. A resposta parece nem querer chegar. Você pensa nas outras demoras, elas não doeram tanto. Pensa nas vezes em que os encontros foram desmarcados e foram mais fáceis de digerir que o sumiço de agora. Pensa demais até que ele aparece e diz: eu não posso ficar, não somos feitos para dar certo. Encerra-se o clímax. Você se encontra de um lado enxergando o outro: enquanto pensava só nele, ele pensava no trabalho, nas outras mulheres, nos estudos, no que fazer no jantar, por quantos dias a mais duraria o salário. Enquanto você imaginava uma vida mais bonita, ele lutava para se acertar no presente que nunca quis. As saídas, os encontros, os esbarrões faziam os dois felizes, mas a intensidade era para um só, para você.
    Então, nessa noite de um ano depois, no mesmo lugar, perdida quase do mesmo jeito, procurando ar para respirar e virando as cervejas fiéis, você o encontra. Ele ainda é a pessoa mais bonita do local, ainda tem a voz que mais chama sua atenção e ainda diz coisas que te fazem rir. Mas não é nele que você vai pensar quando voltar para casa e se deitar na cama. Você tem mais o que fazer, tem alguns problemas, umas coisas da vida que não adianta adiar por causa de amor.

Flávia Andrade

quinta-feira, setembro 24, 2015

Vamos juntas

    Olha, desculpa puxar assunto igual as velhinhas simpáticas que perambulam o dia todo de ônibus em ônibus, mas eu só quero agradecer. Não sou de ficar falando assim com qualquer um, então vou me explicar. Eu fiquei feliz de ver que era você, uma mulher, que estava vindo se sentar ao meu lado nesse ponto. Já é tarde e qualquer homem desconhecido me aterroriza. Há muitos casos de assaltos, estupros por aí, e a maioria das vítimas são mulheres, sabia? Estava dando um medo danado de ficar aqui, a essa altura da noite, sozinha esperando pelo meu ônibus que passa a cada quatro horas e o pior, nem consigo saber qual a hora exata porque meu celular descarregou. Agora que você está aqui, podemos pensar que estamos seguras, certo? Se alguém estranho aparece, uma grita e outra corre. Esse pode ser nosso acordo.
    Eu desconfio muito de homens não só pelos noticiários, mas porque meu namorado era um romântico à moda antiga que se tornou um agressor. Ou foi o contrário a fim de disfarce, ainda não sei. Ele me mandava flores e chocolates e ursos de pelúcia. Uma vez pendurou balões em formato de coração no teto do meu quarto para comemorar meu aniversário. Algumas colegas invejavam nossa relação, sabe como é? Aquelas que sorriem quando você conta o que aconteceu, mas segundos depois percebem que queriam aquilo também e começam a sentir uns revertérios no estômago e um acúmulo de raiva por você continuar contando sua vida perfeita. Só conto tragédia agora.
    Sabe o que aconteceu com meu namorado? Escuta, a história não demora muito. Ele começou a mudar. Não bebia, não fumava, era formado, mas começou a mudar repentinamente.  Digo mudar porque ainda não sei se esse ódio, se essa coisa repulsiva já estava nele. O que sei é que uma vez ele deu um tapa no meu rosto e eu aceitei como consequência de seu estresse momentâneo. Eu não quis mostrar minhas mensagens do celular para ele. Da segunda vez foi um soco de punho firme e eu aceitei como algo que acontece quando você tem muita coisa na cabeça. Eu não cheguei a tempo para fazer seu jantar. Da terceira vez eu fiquei no chão agonizando de dor e eu comecei a me perguntar o que tinha de errado comigo. Afinal, ele não era daquele jeito, na verdade, era o melhor namorado do mundo, e o que eu estava fazendo com ele? No que eu estava o transformando? Naquele dia o motivo foi minha demora no banho, porque eu estava sufocada e chorando escondida. Ele entrou, viu a cena, pensou que fosse drama proposital.
    Mas quando se olha de longe, quando se olha para mim como mulher, dona de mim, percebe-se que ele não tinha motivo nenhum, nunca teve. As agressões não se explicam.
    Pensa comigo, tem três mulheres no ponto de ônibus da outra rua, olha lá. Acha que elas já sofreram alguma coisa parecida? Acha que já foram abusadas? Desculpa por te fazer olhá-las dessa forma, mas a melancolia desses pontos ajudam um pouco. Você pode pensar que provavelmente não, que isso não é fácil de encontrar, mas olha pra mim... Estou aqui do seu lado e eu apanhava do meu namorado perfeito. O namorado que minha família insistia para que eu casasse. "Amarra esse homem logo", minhas tias ficavam dizendo, acredita? Ninguém percebia nada até que começou a ficar difícil esconder as marcas roxas, os cortes, e disfarçar as dores.
    Agora pensa no medo que eu fiquei, e pensa no tanto de homem assim por aí, homem criado com a ideia de que ser homem é mandar, dar ordens e receber tudo feito pela mulher submissa. Homem que cresce como um guri que bate nas meninas da escola e é defendido pela ideia de amor infantil, uma forma inventada de demonstrar que gosta de alguém. Esses homens olham para nós duas aqui como seres bem menores que têm o dever de lhes servir. Somos donas da gente, certo? Eles não compram essa ideia, acham que são donos de todas as mulheres do mundo.
    Desculpa, não estou querendo te assustar. Daqui a pouco o ônibus chega. Nós vamos ficar aqui juntas e podemos descer no mesmo ponto e andarmos próximas até o destino em comum para enfim nos separarmos. Uma protege a outra. Eu me sinto segura assim, você não se sente?

Traços

    Meu mundo está nos traços. Os traços contornados do rosto dele que se embelezam entre o queixo e os ombros em um pescoço que eu beijaria toda vez. Os traços das dobras dos dedos que roubam minha atenção enquanto escrevo e os traços das letras no teclado que me trazem de volta ao enredo. As traças que deixam minhas blusas rasgadas. Os traços-estrias perdidos no meu corpo de mulher-sem-perfeição. Não me esqueço nunca dos traços mais bonitos nas fotos da família, dos amigos, dos perdidos desconhecidos. Não lembro tanto dos traços dos que já se foram, mas seus traços de perfume e riso ainda me acompanham em noites ou semanas de saudade. Os traços-laços das roupas de ocasiões especiais e os traços-amassos dos que encontro dentro do cotidiano. Ah, os maravilhosos traços da rotina que tentam me segurar e deles me arrebendo, e nessa brincadeira nunca repito um dia. Os traços das rotas mais curtas que sei de cor e os traços-sonhos das rotas que quero viajar, são os traços-mundo de uma vida cheia de mapas. Amo os traços que as veias desenham naturalmente e os traços que artistas fazem em nossa pele com suas tintas e agulhas mágicas. Sou feita de traços embolados como fios de fone de ouvido em bolsos de calça jeans. Não sou traço de costura, sou de lápis, pincel. Se uma linha se solta lá na ponta, meu mundo chega cá desabando, entortando, mas começo sempre um traço novo com giz, ponta dos dedos, compasso. Sugiro a ele um novo traço: dois em um, como se a corda bamba do palhaço pudesse dar nó com a corda firme e elástica de quem salta de bungee jumping.

Flávia Andrade

quarta-feira, setembro 23, 2015

primavera

    meu bem, nem vejo a primavera chegar, só reclamo do calor e você já está com esse sorriso todo, torto e grande de flor. eu 'tô cinzas de inverno e 'cê-tembro, 'cê corre pelo mês. ainda não fui ver a decoração natural da cidade sem ventos, mas você já passou batom vermelho, botou saia colorida e foi ser feliz no asfalto com todos os arranjos, baias e penduricalhos. o que faço, mulher? se as estações estão voando e você está contente soprando dentes-de-leão e as crianças querem soltar pipa. o que faço se a melancolia dos últimos meses cresceu em mim e você me puxa pelos braços como num clipe do cícero. a gente não tem piscina, nem mar, mas você anda até o fim do mundo para encontrar cachoeiras e inunda os cabelos e corpo inteiro, diz que é outra, que é nova, que me ama. deixa eu confessar que até já gosto dessa primavera, mas você e ela vieram depressa, e eu nem guardei os sonhos de neve, nem retornei de alma por completo ao país.

flávia andrade

quase sem escrita

    sinto que preciso escrever. começar uma história, outro livro, tentar poesia, largar as crônicas, ser de contos. a briga em mim não é exatas e humanas. é sobre os textos curtos e os romances. é sobre deixar de escrever sobre você, sobre mim, falar de outras coisas mais mundanas. sinto que preciso escrever com todo esse tédio, todo esse vazio, toda essa sede, com o que me foi deixado. nem adianta inventar muita coisa, eu sou de coisa pouca: pensamentos, sentimentos, embriaguez. sou a parte menor do mundo: os que sentem mais que agem, que querem mais do que correm atrás, que sofrem mais que se machucam. fico aqui transbordando e nada vira palavra. não sei quando comecei a gostar mais dos gritos, só sei que não me avisaram que gritos não viram livros, não vendem e ninguém gosta de ouvir. perdoa a voz alta que repete uma sílaba estridente, estou perdendo a semântica toda.

flávia andrade

Desnuda

    Seu cotidiano é desconstruir paradigmas: desafinar a sintonia. Ela não sai no sol do meio-dia, mas nunca está em casa meia-noite. Por fora, parece vazia. Por dentro, sente os gestos mais simples. É de corpo e alma a dúvida, pois quem se entrega para as certezas se afunda em ignorância. Se diz emocional demais para a vida, mas racional demais para a poesia. Se equilibra no meio-fio: para que nem os carros e nem as pessoas a atropelem. Que seja arte quando suas mãos estiverem pintadas de tinta, cinema, literatura ou música. Que seja arte quando sua boca soltar os pensamentos mais complexos ou triviais. Que seja arte quando ninguém puder pará-la. Mas que não queiram que ela refaça, repita ou torne padrão. É improviso, descontração: uma dança espontânea e sem ritmo no salão clássico dos ensaiados. Ela é a melhor parte do mundo, boa demais para qualquer clichê.

Flavia Andrade

Fora do cinema

    Ela o chamou para sair e ele a encontrou no bar. Eles se cumprimentaram com um beijo no rosto, sentaram-se nas cadeiras de madeira e ficaram separados pela quina da mesa quadrada. Uma mão dele mexia no rótulo da garrafa enquanto a outra gesticulava seu discurso sobre o cinema francês. Falava sem parar tudo o que sabia. Ela notou que, àquela altura, se ele notasse mais detalhes como as chances e liberdades dadas, poderia estar com a mão da garrafa nas coxas dela, percorrendo os caminhos que não poderiam mais esperar pelo fim da noite, até alcançar a calcinha úmida. Ele não estava causando aquilo no corpo da moça, longe disso, as falas sobre filmes eram cansativas, mas ela imaginava coisas melhores e as sentia ali na cadeira imaginando-se em outros lugares. Cruzava as pernas e se apertava. Pensava no quanto ele poderia ser melhor que aquilo, desejava que ele pudesse se transformar em um homem de mais atitude em um quarto, no meio do mato, na sacada, na parte escura da rua. Desejava que ele abrisse suas pernas e mostrasse força, empenho, que a fizesse suar. Ele falava, falava e falava e não reparava na boca pintada de vermelho, um pouco entreaberta, clamando por um beijo que lhe tirasse o fôlego, a roupa, que lhe subisse o fogo. Ele parecia tão interessado em qualquer coisa desinteressante, e como poderia ser sem camisa? Como seria o peso de seu corpo contra o dela em uma cama? A mulher até poderia gozar sozinha por outra vez, mas naquela noite específica o queria. Sentia seus toques com os mesmos dedos nervosos que removiam o rótulo de cerveja da garrafa e batucavam na mesa. Pedia em silêncio para que fosse mais rápido, que usasse com mais ritmo. Ele não via o quanto os peitos estavam durinhos, prontos para a chupada da noite, por trás do sutiã digno de ser rasgado por baixo da blusa propositalmente decotada. Ele não sentia naquele ar de Vênus todo o tesão dela, enquanto do outro lado era possível perceber até o cheiro de sexo exalando. Que instinto aquele homem poderia ter? Não demonstrava nada. Ele dizia "a Nouvelle Vague é espetacular, mas o movimento da câmera na mão é meio...". E ela pensava em câmeras, mãos, boceta. Ele continuava "Godard foi fundamental, mas a falta de nudez por parte da Anna Karina deixou a desejar.". Ele percebeu a falta de nudez em Godard, mas não percebeu o exagero de roupas no bar. Ela ficaria nua bem ali e faria movimentos circulares nos bicos dos seios para demonstrar melhor o que sentia. Mas ele mal a olhava nos olhos, estava em profunda sintonia com os próprios pensamentos sobre filmes franceses. Ela explodiu, não de prazer:

- Escuta, nós vamos transar hoje?

    Foi a grande pergunta, interrompendo a frase dele sobre a corrida dos três jovens no filme Bande à part.

    Ele gaguejou. Não estava preparado. Ela estava lá de lingerie e batom vermelhos, blusa colada, short curto, pensando em putaria. E ele não estava preparado. Ela era tequila pura, ele era pura sobriedade.

sábado, setembro 19, 2015

peitos

    não são os olhos dela que lhe causam poesia, são os seios fartos, as tetas, os melões, aquele par que faz a boca salivar. ela pede sinceridade vestindo um decote e diz para ele vê-la olho a olho, mas os peitos estão ali convidativos querendo escapar da blusa. estão na imaginação dele com os bicos durinhos, pra frente, deliciosos de passar a língua de leve e fazê-la se arrepiar. quando ela chega, todos os dias, os olhos dele fotografam a pose dos peitões. quando ela vai embora, a mente dele se lambuza por entre a fotografia na memória. ele fecha os olhos e consegue dar mordiscadas nos mamilos, abocanhá-los, acariciá-los no ritmo que ela gosta. ele consegue ouvir o gemido e pensa que poderia ser poesia em som. ela não quer ficar muito tempo porque diz que não encontra amor. mas existe amor maior que tesão? coisa mais vívida, natural e gostosa de sentir não há. e ele elogia: eu poderia apertá-los o dia inteiro. ela não entende que eles o chamam.

flávia andrade

sexta-feira, setembro 18, 2015

Gota que pinga

    Gota desse mundo, gota desse mar, gota de álcool, 'cê é um pouquinho que se cair em lugar errado enche, transborda ou embriaga. Eu chego com esse tanto de coisas sentidas, com esse coração maior que a vida, com esses textos tão grandes e digo que te amo, mas você é tão só, eu sou muito pouco, e a gente não aguenta levar todas esses meus exageros. O contraste grita, você ri, eu choro, a casa 'tá bagunçada e as malas foram desfeitas em cima da cama. Eu não sei onde é que vamos colocar o que trazemos lá de fora, mas sei que posso te fazer um bem quando me despir dos tumultos. Gota desse mundo, gota desse mar, uma garrafa inteira de bebida alcoólica, nós somos um tanto, um caminhão estacionado de humores, que se ficarmos por aqui fazemos a história ser pra sempre.

Flávia Andrade

'cêtembro

    É que você me é setembro. Meio chuva, meio frio, mas muito calor quando quer. Faz sol e tem eclipse. Os insetos voam pelo ar, acertam minha pele, a temperatura está alta, mantenho a casa aberta e você não entra. Esse mês vem depois do mês que parece nunca acabar e vem pronto para me aquecer para o fim, poderia ser mais você? É tão seu, tão do seu coração que os ipês amarelos e brancos estão nos seus cabelos. E eu acho tão bonito que peço pra ficar mais, que rezo pra não acabar, que aproveito o tempo todo no clima que flor.

Flavia Andrade

terça-feira, setembro 15, 2015

Não-promessas

    Eu, sentada em um banco, na feira movimentada, com um pedaço de papelão com uma frase escrita com pincel atômico vermelho: não faço promessas. Anunciando minha maior venda por propaganda enganosa. De pernas cruzadas, com o cotovelo escorado na coxa, com o queixo apoiado na mão, com as costas encurvadas, com o cabelo meio preso quase solto, com dívidas enormes a pagar. Devendo para todos que eu quis por mais tempo que poderia ter, devendo para os sobreviventes das boates falidas, devendo para os encostos de uma vida arregaçada por desencontros. Se em toda metáfora há sentido, que você entenda que te chamo com essa placa de papelão duvidosa. Não faço promessas, eu prometo. Juro que não crio planos e não sonho alto demais dessa vez. Aproveita que 'tá barato, porque só vendo não-promessas para você.

Flávia Andrade

Um novo você

    Eu já estava me perdendo sem ter mais o que dizer, em um sufoco quase raro e pouco rápido. Eu estava tonta porque o corpo, a alma, a mente, o espírito, estavam todos vazios. Eu estava prestes a cair direto nessa cama para não levantar mais. Então você reapareceu. E, quando reaparece, desperta esses textos escritos às pressas que dizem mais do que posso te mostrar. Reapareceu com lembranças de um dia que eu achava que não lembrava. Eu lembrei tanto que virou prosa, tanto que causei poesia, tanto que entre parágrafo, estrofe e verso, você comportou uma distância inteira dentro de um dia só. Eu já estava ficando sem inspiração nova, e o que pode ser mais novo que uma revisita ao passado? Assim como são todas as teorias, tecnologias, governos e ficções. Por agora, até respiro mais fundo: sou lucidez com álcool, sou embriaguez com você. Esse é mais um dos que são de sempre, espero que goste.
Flávia Andrade

quinta-feira, setembro 10, 2015

Resposta

    Se não era despedida, o que mais poderia ser? O abraço foi triste, o choro foi contido, a conversa foi pouca, como poderia não ser a última vez? Os postes, as ruas, os muros estavam frios. Algumas folhas das árvores ainda pingavam restos de chuva. A fome, a sede, a saudade ninguém soube matar. Eu fui para te ver e você era só um corpo vazio, você quis me ver e eu era um corpo transbordando. Se não era despedida em passo a passo de completa tortura emocional, o que mais poderia ter acontecido naquelas horas? Não tínhamos tanto tempo, não tínhamos outras histórias, a cidade gritava que o que acontecia ali não importava para mais ninguém. Eu sentia muito, você fumava um cigarro. Se não soubesse que acabaria ali, não teria sumido de vista tão rápido. Que olhos assustados são esses? Aquela noite aconteceu e foi para ter fim.

Flávia Andrade

segunda-feira, setembro 07, 2015

Eu não fui

    Eu estava lá. Na hora exata em que você me esqueceu. Quando contou a magnífica história daquele dia louco e inesquecível. Quando citou um a um que esteve presente. Quando não falou meu nome. Eu continuei lá enquanto você narrava do início ao fim, com maestria, os detalhes de uma noite que teve um quê de risível, um quê de questionável, que até fez um de nós chorar. Eu estava lá quando você pausou um pouco, tentando lembrar o que havia acontecido em seguida. Estavam todos ansiosos para ouvir o desfecho. Eu sabia, eu poderia contar, mas você não disse meu nome. Meu nome que assina todos esses textos. Meu nome. Você tentava lembrar e meus olhos inundavam, as palavras estavam navegando neles. Eu fiquei lá até o fim, até o fim que você demorou a alcançar porque quis contar tudo, sem deixar escapar nada. Mas eu percebi, bem naquela hora, que eu já tinha escapado, já estava solta, já estava em uma liberdade clandestina há muito tempo. Você se esqueceu do que nunca quis lembrar e eu queria não ter ido. Eu poderia ter ficado em casa assistindo filmes do Godard, lendo os romances dos que não esquecem, escrevendo um novo livro sobre as falhas de uma vida toda. Uma vida toda de uma esquecida. Mas eu estava lá e tentei sair sem ser notada. Fui desviando, tropeçando, eu corri para que você não me visse. Eu corri até aqui para você não me ver nunca mais. Eu corri para sumir de vez, sumir de mim, sumir da história que naquele dia eu quis contar também.

Flavia Andrade

Não é nada

    Eu fico incomodada. Por gostar tanto de você, acabo não vivendo. Não como eu era por inteiro, mas toda em pedaços. Eu sinto cada parte de mim indo para inúmeras direções na esperança de que alguma te encontre, para então eu me recompor ao seu lado. Mas você vai embora. Você chega, me faz feliz e vai embora. Não fica até os amanhãs, e todo amanhã sem você vira um ontem triste. Eu fico incomodada com a quantidade de coisas que sei sobre você. Tenho esse dom em decorar letras de músicas e decorar seus gestos, todos os seus sorrisos, os seus olhares e as manias. Os olhos que piscam muito rápido no meio da confusão, os pés que batem no chão por impaciência. Eu sei disso tudo e guardo aqui como se fosse meu, mas não sou nada sua. O cálculo não bate, você vê? Pergunta se estou bem, mas se eu disser que não estou... É só isso. Não estou e não vou ficar, porque você não vai me levar pra sua casa. Eu fico olhando assim meio de lado, querendo fugir, porque me incomoda o quanto penso em você. Penso por mais horas que existem em um dia, penso por mais tempo que os inventores gastam em suas ideias, penso por mais tempo que os desvendadores de enigmas. Enquanto isso, você anda por aí sem nem imaginar o enigma que é para mim. A angústia, o tumulto, o desespero que me causa. Você não sabe nada, e é por isso que essa é minha única resposta sempre. Se não pode sentir, não pode entender. Desculpa qualquer coisa, eu tento esconder bem que é pra não me causar danos. Os grandes danos de entregar tudo, não receber nada de volta e ficar só. Só e vazia.

Flavia Andrade

Te vejo

    Te vejo. Me torno universo. O que sinto se expande de céu a céu, ao norte da boca, ao sul da queda das lágrimas de riso, aos pés no raso, ao corpo no profundo, à mente em órbita. Me torno estrela. De noite, de cinema, sol. Me torno mais do que sou, uma Flavia que vale por dez. Me torno mais do que você é, um nome gritante ecoando por meus paraísos. Me torno ilha e lua, cidade grande e sertão. O que tento dizer até agora é que por te ver viro todos os sentimentos do mundo, toda a vivacidade de ser. O que tento explicar é que sem você por perto sou a cabisbaixa na grande festa dos alegres, sou solidão. Vê se assim aparece mais vezes, pra eu sentir a imensidão do sentir. Te vejo e sorrio.

Flávia Andrade

quinta-feira, setembro 03, 2015

Quase sem você

    Não sei como faço pra chegar até você se não for por todos os meios de histórias com início e fim. Às vezes fico perdida nos encantos dos diálogos que não tivemos e pouco consigo recordar do que foi real nos mundos não imaginários. Porque te deixo livre para vir quando quiser e sonho. Espero que destino sejam aquelas palavras que não digo para mais ninguém, que venho guardando entre você e eu. Em pensamentos que trago em sacolas frágeis sei te encontrar, como as bolsas cheias nas quais só seus donos sabem onde as moedas se escondem. Você é o que mais vale aqui dentro e não vendo por nada, nem que as ofertas sejam amores menos tristes, com poucos textos e mais beijos. Eu já gostei um tanto da sua distância, porque de olhos fechados posso te encontrar mais vezes.

Flávia Andrade

Pra me dizer

    Não peço para me dizer o que já sei de cor, só preciso ouvir o que ninguém ainda soube me dizer. "Eu te amo" é simples, clichê, um pouco cafona. "Eu te amo" está atrasado em questão de nós dois. O que são três palavras para três livros? O que é uma frase curta para uma vida longa de tempos infinitos? Não te deixo ir embora sem mostrar para o que veio, sem deitar na cama para rir do que venho te dizendo e esticar bem os braços, ocupar todo o lugar, para ser um novo móvel na casa. Empilho as roupas, empilho os olhares, empilho as brigas, tudo em cima de tudo para sobrar espaço para uma dança sem ritmo. Pra no meio da música você interromper só porque precisa tanto dizer que não é justo guardar o que sente, só pra dizer que nesse tempo todo aprendeu o que escola nenhuma ensinou e anotar em mim, como quem anota em caderno novo, os versos sem métrica que te fazem algum sentido.
Flávia Andrade

Com Amor, Delirante Urbana

    Escuta bem que não sou bonita e não sei por que me olha tanto. Bonito é seu jeito sossegado de me dizer adeus, pra depois voltar com uma saudade mais pesada que todas as roupas e presentes na mala, pra depois contar que cada canto da cidade tinha um pedaço que te fazia se lembrar de mim. Bonito é seu olhar de sono tentando me ver mais um pouquinho antes de adormecer, bonito é seu sorriso torto no meio da terceira explicação sobre o filme que não entendi. Escuta bem que não sou tudo o que pensa. Bonito é seu tempo pra pensar tanto em mim até encontrar detalhes que possa elogiar e que me façam acreditar que é verdade. Que é verdade que você sempre me quis e ainda me quer. Bonito é seu jeito convencido de me convencer a gostar de mim também. Bonito é você me fazendo alguém bem melhor.
Flávia Andrade

terça-feira, setembro 01, 2015

choro contid(g)o

    vejo seus lábios se estreitarem, fechadinhos, deixando as bochechas mais cheias, numa mordida escondida meio de lado. os olhos ficam marejados, tem um mini rio em cada um. vejo o resto do corpo ficar parado, na minha frente, esperando por um vento que te empurre pra longe, por uma mão que te puxe, por alguém que te busque, mas eu também não consigo me mover daqui. vejo a gente sem lugar pra ir, sem sono e com esses choros presos como o seu cabelo: curto, com umas amarrações no alto e várias pontas escapando por todos os lados. se você deixar sua tristeza escapar, eu deixo a minha ir também. se por um acaso não for mais possível ficar aqui, se por um destino inventado qualquer você se jogar na frente de um carro, eu corro um pouco atrás, te socorro ou deixo me atropelar junto. porque, meu bem, eu 'tô nesse barco, nessa fria, nesse jogo, nessa vida, nesse mundo também. eu vejo sua história e leio a minha, elas se encontram em alguns parágrafos. te tiro pra dançar na balada triste das músicas obscuras, te faço rodar pras lágrimas voarem e molharem o chão, não sua roupa; disfarço suas fungadas com cafunés, entendo toda a dor no meio do jogo de luz preto e branco. vejo cada extensão trêmula do seu rosto, sinto tudo por dentro de mim tremer também, mas te digo que em breve vamos sorrir.

flávia andrade

Natasha

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