domingo, outubro 04, 2015

Pra quem não acredita

    Não, meu senhor, eu não tenho emprego. Sou dessas pessoas que escrevem, sabe? Não tem isso de ter letra bonita, não tem regra nenhuma, não tem horário, não tem patrão. A gente bota uma ideia pra fora, vê se 'tá bom e é isso. Ninguém me encontra no fim do dia ou do mês para oferecer pagamento, dar agrado ou recompensa, mas, de alguma forma, espero por resultados. Senhor, quer saber quanto eu ganho? Eu só sei que não venho perdendo nada. Nem tempo, nem vida, nem paciência, porque esse negócio de escrever só faz bem. Quanto mais estragado a gente fica, mais texto rende. Duvida? Bota um escritor pra sofrer pra ver se não sai um livro novo. Às vezes acho que bloqueio criativo se resolve com uma decepção. (Mas vale a pena deixar a gente feliz também). Voltando ao lucro, recomendo que o senhor converse com editoras, isso fico pra elas. Eu só sei que escrevo, e, nesse meu caso, escrever é como sobreviver. É minha certeza de que estou aqui pra alguma coisa. Se alguém me lê, já bate uma felicidadezinha. Se alguém gosta de me ler, daí eu fico bem melhor. Se alguém vem elogiar... Senhor, senhor, eu poderia abraçar todos que elogiam. Até porque são bem poucos, nem ia cansar. Mas significa tanto que às vezes escrevo pra eles, pra eles que gostam. Escrevo para gostarem mais ainda. Eu descobri que não pode ser algo só sobre mim, porque isso é coisa de diário. Eu já superei fase de diário, senhor, agora escrevo umas coisas aí que nem sei de onde vêm. Não é querendo me gabar, mas só quem já escreve por algum tempo que sabe como funciona esse negócio. Às vezes a gente só sabe o que quis escrever quando termina, então já foi. Depois de algum tempo a gente até pensa menos na tal de gramática, mas isso parece com a vida também. Começamos querendo fazer tudo certinho, manter aparências e tudo o mais. Depois de tanto ficar consertando erro que nem queríamos ter causado, é mais fácil "meter o louco", sabe como é? 'Cê pensa: tanto faz. E começa a fazer do seu jeito único que ainda que não seja tão bonito, é como você gosta. Meu senhor, eu faço isso aqui o dia todo numa vida inteira que não pretendo largar, e nem adianta me dizer que é sem rumo, que não dá em nada além de prejuízo. Também não precisa ser cínico, sugerir que sou má escritora e dizer que não vai comprar meus livros. Pode poupar todo o tempo e todo o desgaste em tentar me tirar desse mundo, porque eu gosto tanto que ele está mais em mim do que estou nele. 'Tô pregada nisso de anotar todo sentimento, toda ação, toda coisa inexplicável e inexprimível que, por ser metida a escritora, consigo escrever. Consegui escrever até isso aqui que pode te servir para calar a boca, olha que coisa mais bonita, dá até pra assinar meu nome.

Flávia Andrade

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