quarta-feira, novembro 25, 2015

#MeuAmigoSecreto

    Meu amigo secreto não gosta de mulher que bebe, mas se aproveita de uma após embebedá-la. Meu amigo secreto é amigo, mas se eu "der mole", ele pega. E se eu não quiser, não é amizade, é o seu pesadelo da friendzone. Meu amigo secreto não se importa com aparência, mas não pega mulheres gordas, altas, e acha que cabelo curto é muito masculino. Meu amigo secreto gosta das minas branquinhas, mas não tem preconceito, longe disso, até já me contou de uma vez que pegou uma "mina de cabelo ruim". Meu amigo secreto é a favor do feminismo e entende que a mulher deve lutar por seus direitos, mas as "loucas peludas" é exagero, mas "mostrar os peitos na rua pra protestar" é vadiação, mas ter iniciativa e sexo casual é ser puta. Meu amigo secreto adora um puteiro, vai nesses locais frequentemente, mas até hoje não entendeu que putas são somente essas que cobram. Meu amigo secreto quer uma mina responsa pra casar, acha um absurdo o tanto de menina que é só pra pegar por aí, mas adora se vangloriar para os amigos com os números de quantas já comeu. "Essa foi fácil". Meu amigo secreto separa mulheres entre as que são para pegar e as que são para casar, mas quando entra em relacionamento sério, trai a namorada, porque "a carne é fraca". Meu amigo secreto não é homofóbico, só acha que não precisa ficar de esfregação em público, e acha tudo bem reduzir a homossexualidade a atitudes de exibição pública de afeto também praticadas por casais hetero. Meu amigo secreto ama sua mulher, mas "em momentos de raiva", "sem pensar", aponta defeitos a ponto de diminuí-la em relação a ele, chamando-a de burra, incompetente e tantas coisas piores. Meu amigo secreto adora "comer com os olhos" as minas que passam na rua, assovia e diz "gostosa", querendo ser ouvido, mas coitado, ele me disse que nunca assediou ninguém. Meu amigo secreto é feminista no facebook, mas na roda de conversa com os amigos já tentou me mandar calar a boca, porque eu sou mulher e não sei dar opinião. Meu amigo secreto não entende, sequer, o sentido das palavras que diz, das ações que pratica e das babaquices que comete.

    Toma meu presente pra você, fofo.

Flavia Andrade

segunda-feira, novembro 23, 2015

Diário II

Hoje o dia foi comum. Eu só sinto que ando comendo demais. E eu tenho um tipo de psicologia inversa que não sei controlar. Penso que estou engordando e que preciso parar, então me afundo em coisas que engordam. Quanto mais penso em diminuir o tanto de coisas que como por dia, mais como. Como exageradamente. Comi um lanche logo que cheguei na faculdade, junto de um suco de uva com leite. Depois comi um pote de salada de frutas e senti falta do leite condensado. Depois almocei, beleza. Mas quando cheguei em casa, almocei de novo e era strogonoff. Também comi um pote de pudim, um pote de salada de frutas - dessa vez com leite condensado. Mas agora a noite não comi nada. Senti um pouco de fome, mas ignorei. Totalmente desregulada, e sei que isso provoca problemas intestinais graves.
Antes que adentremos assuntos escatológicos. Conviver com pessoas é sempre complicado demais pra mim, até nas coisas mais básicas. Discordei de muita coisa que minhas colegas disseram hoje, concordei com muita coisa que o novo professor apresentou (embora estivesse atenta e pronta para ir contra), dormi na aula da minha professora favorita (psicologia reversa ataca novamente, pois eu prometi pra mim que ia ver a aula do começo ao fim, já que amo), passei um tempo com minha mãe no salão, falei um pouco com o meu irmão, puxei assunto com dois garotos que são razoáveis em questão de conversar, assisti o começo do jogo dos Patriots e, não necessariamente nessa ordem, postei a crônica de segunda-feira, que estava escrita pela metade e hoje só completei. Ficou meia boca. As primeiras foram tão boas! Estou com medo de estar entrando em um bloqueio criativo fodido.
Mais um dia sem pensar tanto no Sete, mais um dia, mesmo sem pensar tanto, querendo que ele venha falar comigo.

O caminho sem fim

[Disponível no Wattpad]
Deixou a chave no carro e o motor esquentando - tal como a cabeça. Somente estar ali já lhe causava um sufoco gritante, desses que não o deixam pensar em muita coisa que faça sentido, deixando-o meio atordoado. Os pés formigavam e as mãos suavam. O caminho percorrido entre a abertura da porta do veículo e as batidas firmes na porta da casa da mulher passou como dois segundos de blackout. Mas lá estava ele, supostamente forte e estático, parado em frente a entrada, encarando o número dezesseis. Balbuciando o discurso que ensaiou botar pra fora logo que fosse recebido por ela. Não olharia em seus olhos para não ser perder, não repararia nos seus lábios para não desistir de desistir, não faria nada além do planejado.
Os olhos se abrem e, na verdade, ele ainda está no carro.
Tira a chave da ignição, sente tudo desligado e silencioso - dentro e fora. Não há som algum às - ele não sabe que horas são. Acende a tela do celular, tenta se acostumar com a luz e vê: três e sete da manhã, às três e sete da manhã não há som. Desce do carro, caminha vagarosamente até a entrada prestando atenção a cada passo, como se um fio interligado entre ele e a moça o puxasse. Para de frente à porta e de si parecendo quem sai do próprio corpo querendo expandir a perspectiva, e com um pensamento distante a encara, toda feita de madeira, por alguns minutos. Como um milagre, alguma luz dentro da casa acende, remetendo-o ao clarão do celular em suas retinas e imagina os olhos castanhos lá dentro tentando lidar com a iluminação repentina das lâmpadas. Ele não pode encarar aquele olhar. Ouve passos se aproximando e prepara o discurso, respirando fundo.
É como se todas as casas da vizinhança o espiassem, vendo-o daquele jeito meio besta de tentar tomar uma atitude decisiva. O tempo não quer passar.
Seus olhos se abrem novamente, dessa vez em um estalo, meio apavorado. Ainda não se moveu no banco do carro. Ele se ajeita e sente com as mãos - como uma criança exagerada - o coração bater desesperadamente no peito. Sabe que na imaginação ou em um sonho acordado, nada do que está acontecendo pode se resolver. Ele precisa sair dali e encarar o que há de pior antes que seja tarde. Precisa de coragem.
- Olha, eu só queria dizer que eu desisto. Pra valer.
- Olha, eu só queria dizer... eu desisto, pra valer.
- Desisto! Desisto! Desisto!
- Olha, desisto. Digo, pra valer, eu desisto.
- Ei, tô desistindo, viu? Sério, já foi.
- Olha, você já desistiu? Porque eu estou planejando desistir.
Cada frase que ele tenta dizer para o nada, a fim de ensaiar, funciona como todas as vezes em que ele já desistiu dela, deles, de tudo. A cada dia, vinte ou trinta desistências. A cada desistência, um novo plano para voltar atrás. É tão difícil se desatar de alguém, que a liberdade que você costumava sentir ao lado da pessoa passa a soar como uma prisão. Como ir embora e deixar tudo o que já foi bom para um passado remoto? Como não se dedicar a cumprir até o fim as promessas feitas?
Mas pra ele, justo ele, as questões têm mais força. Desistir dela e deles dois, é desistir da única coisa que lhe restou para tentar levar para o resto da vida. Acima disso, não há mais nada. E não é como se pudessem reajustar a situação, tampouco recomeçar. O fim é um decreto de forca, mas caminhar até ela tem sido mais doloroso que o próprio enforcamento. Talvez pela demora, pelo drama, pelo suspense. A procrastinação das maiores decisões de sua vida se torna a causa de desassossegos.
Os olhos reabrem.
Olha em volta, vê tudo escuro, vazio e taciturno. Ele fala sozinho.
- É fácil, você consegue, vá lá.
Fala consigo, fala com outro ele dentro dele que lhe atormenta. Treina o discurso, parece muito agressivo. Treina a fala, parece muito calma. Sem palavras difíceis, sem repetir muito "você". Um beijo de despedida pode ser o melhor a se fazer, mas e a explicação? Ao fim, deixa a chave no carro e sai. Parado, aguarda um roubo, um assalto a mão armada, só para ter uma desculpa realmente boa para estar ali.
- Fui roubado e sua casa era a mais próxima.
- Aproveitando que estou aqui... Podemos parar de nos ver.
Ele resmunga. Até os ladrões com suas armas estão dormindo, e ele está inquieto sem se mover, tentando dar fim ao que não sabe viver sem. Finalmente para em frente a casa dela, fisicamente, e recupera memórias dentro de si.
- Desiste.
- Não posso.
Não pode.
- Sem chances.
Então, em completo desespero, com o coração querendo rasgar seu peito, volta para o carro não roubado, liga-o, ferve a mente, e vai embora. Hoje não é um dia favorável para pontos finais, diz em voz alta. Liga o som.
"Desculpe, estou um pouco atrasado, mas espero que ainda dê tempo de dizer que andei errado e eu entendo...". Nando Reis teve coragem.
Porra.
Amanhã ele tenta, ele jura que vai tentar. São só duas semanas fazendo essas visitas todos os dias, são só duas semanas com o mesmo CD no carro repetindo a música de sempre, são só duas semanas sendo um só numa cama, um só numa madrugada vazia, um só num carro não roubado, um só com tanta coisa para dizer. (Acontece que ela foi embora justamente porque disse seus tantos primeiro, sem medo). E ele fica ali, preso ao seu próprio corpo e mente, preso a ela, preso ao que sente.

Olhos-doidos

    São os olhos-doidos que me confundem, como se tivessem efeitos instantâneos de drogas caras. Ele segura seu copo de uísque e gelo na mão esquerda, leva-o à boca, dá um longo gole e me olha com as cores castanhas escuras, perfurando meu bom-senso. Eu sei que ele está enlouquecido, sem transparecer para ninguém além de mim. Antes eu não conseguia ler seu drama patológico no olhar, mas agora sei de cor como ele demonstra. Nenhuma outra pessoa pode ver, somente eu, que não sou mais enganada. Talvez eu tenha os olhos-doidos também, mais fortes que os olhos-tristes, mais profundos que os olhos-foscos. Meu uísque não tem gelo e fica na mão direita, a gente se completa. Eu atraio sua loucura, como se não houvesse nada melhor para mim. Esperar o pior é esperar por nós dois.

domingo, novembro 22, 2015

Diário I

Hoje o dia foi um misto de sentimentos, como os meus dias costumavam ser. Eu sinto demais, exageradamente, e isso me fode. Contudo, foi dessa maneira, pois (fundamentalmente) decretei uma mudança.
Anunciei à família que não sou mais vegetariana. Depois de um ano e oito meses, depois de ter comido algumas carnes escondida, depois de ter tentando entender de onde veio a desistência - sem êxito -, confessei. Soou como se fosse algo mais chocante, como se eu tivesse revelado algo como homossexualidade ou gravidez. Meu irmão não quis acreditar durante os primeiros minutos, minha mãe comemorou. De qualquer forma, por agora estou desatada de um movimento da minha vida que me distanciava do senso-comum e da aceitação universal. Parece estranho e, quando para pra pensar melhor, me sinto uma perdedora. Eu não vou até o fim de noventa por cento do que começo, e o vegetarianismo foi uma delas. Entretanto, contudo, todavia, eu sinto que pode ser algo mais otimista que pessimista.
Ter me tornado vegetariana me trouxe experiências únicas, e reflexões necessárias para a fase em que eu estava. Foi a decisão certa por um prazo razoavelmente bom, dependendo do ponto de vista. Eu vivenciei algo que eu mesma decidi, sem influências de pais, amigos, conhecidos. Eu vivenciei a tarefa árdua de estar do lado oposto. Eu comecei a enxergar as necessidades ridículas das pessoas se auto-afirmarem donas de suas verdades, pois o simples fato de ter mudado minha alimentação, restringindo aquilo que elas consideram fundamental (e deliciosa - a carne), causava alvoroço. "Como assim você não come carne?" "Vai comer o que? Alface?" "Mas nem peixe?". Eu ouvi perguntas e afirmações de todos os tipos e aguentei firme enquanto este era o meu propósito e talvez minha luta. Contudo, depois de um tempo, período este iniciado nessas últimas semanas, algumas perguntas e afirmações foram elaboradas dentro de mim. O vegetarianismo veio em mim como uma maneira de chamar atenção? De ser diferente? De ter algo para mostrar? De todos os meus defeitos, esse de "precisar ser notada mostrando alguma coisa especial que talvez poucos realmente se importem" é o pior. E, se foi por isso, eu posso ter rompido com algo maldoso criado por mim e para mim. Isso tudo, ainda que eu não tenha tantas certezas, me empurra para uma nova fase da minha vida.
Agora eu posso estar indo de encontro a novas experiências. Eu tenho aprendido a experimentar mais.
Pequenos detalhes do dia: acordei de ressaca pós-churrasco na casa do Celso, no qual fui com o Dani e observei os caras jogando truco. Acordei impregnada com cheiro de cigarro, mas também misturado ao meu creme de corpo - e eu adoro esse cheiro de manhã -. Tive um bom momento com minha mãe e irmão na cozinha, enquanto todos nós botávamos as mãos na massa preparando o almoço e as sobremesas. Tive o grande momento de anunciação do fim da vida vegetariana. Assisti ao jogo dos Packers e Vickings da NFL (e tive um grande momento de reflexão sobre "por que assisto isso?" e "por que torço para esse time?", e as respostas são muito relacionadas aquele defeito meu "precisar ser notada mostrando alguma coisa especial que talvez poucos realmente se importem"). Pensei no Sete poucas vezes, e só chequei sua última visualização no Whatsapp uma vez - aproveitei para perceber que se completaram três dias sem comunicação e ele não veio atrás, como eu achei que era de costume -. E por fim, decidi, repentinamente, começar a escrever esse diário. Pode me servir pra algo.

sexta-feira, novembro 20, 2015

Autofuga

Disponível no Wattpad

Tive que ir embora. Eu gostava de estar ali com ele, gastando todo o tempo que eu não poderia ganhar sem sua companhia. Perdíamos horas e horas juntos entre frases que significavam três ou quatro coisas de uma vez e olhares que faziam mil apelos. Mas ele, com seu charme de homem quase-resolvido da vida, não era só, e não era meu. Sua liberdade estava atada a outra, não completando minhas lacunas livres. Ela apareceu, o outro eixo da vida dele. Eu levantei e não soube me despedir, perdi a voz - talvez um pouco de adrenalina-melancólica corresse por mim. A felicidade ficou na minha marca de batom em seu copo de vinho, camuflando-se em saudade logo que saí.

Eu andei pela rua sendo um corpo invisível, motivada pela vontade de desaparecer, querendo ser um ponto de localização roubado do mapa. Mas ninguém poderia, nem iria, me roubar dali e eu precisava seguir em frente. Já fazia alguns minutos, quase meia hora, que havia saído da casa dele, e agora tentava chegar até a minha. A cada passo lento e sem som, sozinha, eu subia pelo meu caminho, sentindo a humilhação tomando meu corpo por inteiro. Estava devastada como uma árvore caída no meio de uma tempestade, uma árvore que não poderia nunca mais ficar de pé e nem bonita para ser admirada. Ia daquele jeito como se rastejasse, humilhada por ter sido encontrada no flagra ao lado dele. Justo dele que não era e nunca poderia ser meu.

O dia ia bem enquanto era somente de nós dois. Quando ainda só existia eu e ele, conversando sobre o que não tínhamos certeza, adorando nossas dúvidas, e incompreendendo o que há de mais lindo para não se entender. Éramos, àquela altura, cúmplices de um crime semi-perfeito. Sabíamos o quanto era errado nos render aos nossos encontros e falar sobre o que não tínhamos coragem de falar com nenhuma outra pessoa. Não poderíamos ser tão completos daquele jeito que acontecia, como peças se encaixando perfeitamente, pois não era de nossa obrigação nos pertencer. Ele já tinha alguém para amar, alguém que não era eu. Enquanto eu, sem ele, já estava certa de não amar mais ninguém. O que fazíamos juntos ali? Arriscamos tanto, talvez pela vontade incessante de nos ver tão perto, que fomos encontrados.

Quando ela chegou, ela que era dele, deixei meu espaço vazio ao seu lado, de cabeça baixa, com coração murcho e olhos marejados. Mal consegui olhar para a moça que nos descobriu. Conversávamos, antes dela chegar, sobre tudo o que eu sei que ela nunca poderá saber. Confessávamos nossos maiores medos, tais que ele, ele que é meu amor-confidente, nunca revelará para essa outra. A cena por um momento parou e nos tornamos um quadro de três pessoas desencontradas, com olhos procuradores, profundos, querendo um par. E ainda que eu seja seu porto-seguro, é ela quem chega para ficar e passar a noite. Eu não pude ganhar nada, fui o resta-um. Ali no meio daquela culpa inconveniente, metade de mim se perdeu. Eu deixei esse pedaço meu para trás, na pressa de sair correndo até alcançar meu caminho torto, corrompido, atravessado.

Na rua os meus lábios eram atacados pelo vento frio e perdiam a maciez a cada segundo. Meus lábios que não teriam chance de encontrar os lábios dele novamente e não queriam encontrar outros alheios. Meu rosto ficava cada vez mais pálido, pensando nas bochechas coradas da menina que ficou na casa sorrindo. Eu queria, a cada segundo, e desejava, a cada milésimo, não ser mais ninguém, não existir, não ser vista e nem notada, não ter chances. O apelo do meu "não" ecoava, ressoava em vão, pois eu continuava vivendo e precisando buscar descanso sob meu teto.

Quando pensei que havia sumido, finalmente, ao adentrar com tamanha força nos meus pensamentos desesperadamente exaustos de imaginar a continuação do que deixei para trás, algo me surpreendeu. Era no meio de uma rua a minha localização. Eu era um ponto trôpego errando a direção dos passos, desastrada. Eu senti olhares pousando em mim, no meu corpo, no meu rosto meio molhado, na minha áurea magoada. Eles estavam me olhando. Cerca de sete ou oito pessoas sentadas no meio-fio de uma esquina. Todas elas não perdendo o foco sobre mim. Nem meu casaco cinza e minha calça escura puderam me fazer passar despercebida.

Eu fiquei exposta. Sem defesa.

O frio batia desde antes, até quando ele tentou me aquecer sem nem mesmo me tocar, mas a partir dali senti um vento gelado bem mais forte, fazendo partes minhas tremerem. Eles ainda me olhavam. Eu que era pura incompreensão e não sabia qual o meu lugar além daquele rumo. Eu que era somente um sentimento indeterminado. Eu que não tinha nada mais do que uma falta enorme de ser alguém e ter alguém para mostrar. Olhavam curiosos, talvez com pena.

Eu me esqueci de onde deveria parar, para onde deveria ir, e apenas continuei andando. Um pouco mais rápido dessa vez. E, de tão exposta ao passar por todas aquelas pessoas, andei falando sozinha pelas outras ruas. Minha voz que havia sumido, começou a se expor sem meu controle. Fiquei fora de mim, em todos os sentidos da frase. As confusões estavam sendo colocadas ao meu redor e eu sem conseguir calar a boca. Resmungando sobre mim, sobre a vida. Não estava me aceitando daquele jeito. Reclamava sobre os extremos aos quais costumo chegar, e também lamentava sobre ele, por ser justo a causa da minha loucura. Logo ele que andava tão próximo de mim nos últimos dias e me fazia esquecer dos meus acessos paranoicos.

Metade de mim, a que havia ficado por lá, sabia que só um resto de vinho não seria o suficiente para nós, pois logo que a garrafa ficasse vazia, teríamos que nos deixar. Enquanto havia bebida, havia motivo para pedir mais uns minutos ao acaso para estarmos juntos. A outra metade, que era aquela andando sem destino pelas ruas mais mortas daquelas horas tardias, sabia desde o início que o dia não acabaria tão cedo e tão bom, pois um dia após o outro nunca é igual. Em um dia a gente é feliz pelo resto da vida, em outro a gente nem quer viver. Minha voz, em completo descontrole, dizia: eu queria mais um pouquinho daquele nosso dia bom para aguentar passar por todos esses dias ruins que virão.

A sorte da eternidade

    Somos um pedido de socorro não gritado. Sussurramos no meio da noite com as cabeças em nossos travesseiros, embargando o choro. Do que precisamos é um e outro, um do outro, um no outro, um com o outro; precisamos dessa junção de dois em uma cama pequena ou sofá largo, sem que nenhum de nós implore, no sufoco, por socorro, por sossego, por afago. Nossa eternidade não soa tão boa se estamos abaixo d'água afogando, sabendo que o tempo bom e duradouro está na superfície e só o alcançaremos ao respirar. Precisamos de um ar qualquer ao sair daqui. Batemos nossos braços e nossas pernas e nadamos e nadamos e nadamos, querendo fugir do mar que adentramos buscando águas salgadas que não fossem lágrimas, para que não víssemos as marcas borradas em nossos rostos. Eu te escuto, além da voz repetitiva acusando nossos erros, eu te escuto. Vou emergir e te buscar com as duas mãos, te trazer para o meu abraço outra vez, eu prometo e depois disso, depois de uma longa respiração, de uma tosse que bote pra fora toda a água engolida, toda palavra guardada, todo sentimento contido - um despejo de tralhas -. Quando vier a leveza, meu bem, estaremos juntos como desejamos nesse sono, nesse sonho, nessa sorte nossa.
Flavia Andrade

quarta-feira, novembro 18, 2015

Necessário

Disponível no Wattpad

— Do que mais você precisa? — você me pergunta com todo o ar de superioridade. 

    Eu só sei do que já aconteceu e do que precisei enquanto você ficava ao meu lado fingindo que estava ali para alguma coisa. Eu precisei ter duas gripes, ir ao posto de saúde por obrigação, receber a medicação de sempre em ambas as vezes e não te encontrar para me buscar na saída. Precisei levar o irmão mais novo da minha amiga para passear, me irritar com as crianças e não te ver nas redondezas do parque. Precisei limpar a casa inteira quando a visita ligou dizendo que chegaria em dez minutos. Quase uma surpresa! E te vi aparecendo depois com mais inconveniência que aqueles viajantes. Precisei organizar uma festa surpresa no seu aniversário, mal agradecido, que depois nunca me deu presentes. Precisei reprovar duas vezes no vestibular e desistir de uma faculdade depois que finalmente passei, até aí foi só para aprender a não esperar muito das coisas que acho que vale a pena esperar. Então precisei esquecer a carteira e só perceber isso na porta da boate, quando eu não a encontrei para pagar minha entrada, e precisei aceitar ajuda do cara estranho que passou a noite inteira tentando me beijar como retribuição dos vinte reais de open bar. Depois daquela noite, precisei torcer o pé na entrada da sala do gerente, no dia da minha entrevista de emprego e aprender, na raça e no imediato, a controlar o nervosismo com uma piada. Precisei chorar cinco ou seis vezes por você, depois de tudo, até decidir seguir em frente e depois desabar em choro mais uma vez, só para matar saudade. Precisei pegar o ônibus errado duas ou três vezes, dormir no ônibus certo e passar reto pelo meu destino, e enfim notar que eu ficava perdida demais sem seus pseudo-cuidados. Aliás, sobre o destino, eu precisei andar por todos esses caminhos tortos para numa sexta-feira de manhã decidir ir à padaria comprar pães doces e te ver. E você me ouviu até agora? Eu já tinha passado por todas essas coisas desastrosas. Precisei me apaixonar por você outra vez, como me apaixono por quase todo cara com um sorriso bonito que não sei o nome. Mas mais intensamente. Precisei ouvir um oi. Como da primeira vez, precisei te conhecer melhor e te ligar duas vezes por ansiedade de te encontrar. E precisei desejar profundamente o recomeço de tudo. 

— Eu sempre fiz tudo por você, do que mais precisa? — e você está perguntando outra vez, irritado. 

    Esse seu tudo me deixou tão vazia, que custo a acreditar. E por agora, eu precisei pensar em como eu era antes de você. Precisei dizer que precisava fazer o que eu costumava gostar de fazer, sem me importar com qualquer interferência, nem que eu fosse a única jogadora acertando a bola no gol vazio. Eu precisei dizer vinte vezes o quanto não gostava de flores e receber uma rosa no dia do meu aniversário. Eu precisei ir à psicóloga desabafar sobre você não ter aparecido no aniversário do ano seguinte. Precisei dizer a minha família que estávamos bem, mesmo sentindo uma dor incômoda no fundo do peito, coisa de quem mente sobre sentimentos, coisa clichê de sofreguidão. Eu precisei receber três ligações estressantes até parar de atender. Precisei sair para espairecer e entrar outra vez na padaria para comprar pães doces e sair de olhos fechados para não conhecer mais ninguém, para não me apaixonar outra vez. Precisei ter medo do amor. Eu precisei avisar a mim que tudo deveria ter um final, pois sempre sou a última a saber do que eu realmente quero e a primeira me frustrar com esses quereres pela metade. Precisei não te ver mais, evitar seus pais, seus amigos, seu local de trabalho, sua universidade, sua rua, seu carro, sua músicas preferidas, os filmes que viu comigo, o cinema do shopping, e uma vida inteira dentro de pequenos acontecimentos. Precisei ouvir essas suas perguntas para buscar respostas, explicações, dizeres e ver o tanto que já foi necessário nessa minha existência para não me render mais.

— Eu preciso achar caminhos certos dessa vez. — Respondo, por fim.

     Você precisou não entender coisa alguma para compreender que não sou mais quem você conheceu. Que, na verdade, nunca fomos quem achávamos que éramos. Que apenas precisávamos ser aquilo para não desistirmos tão cedo. Mas as necessidades se descarregam depois de tanto tempo acumuladas e o que era preciso se esvai. Não precisamos mais de nós.

— Certo. 

— Boa noite. — Me despeço.

— Boa. 

— Boa sorte. — Digo.

— Obrigado. — Você diz e anda para fora da casa, da minha vida, de tudo o que foi necessário para aprender mais essa coisa curiosa sobre as pessoas: só sorriem enquanto você dá a elas o que precisam.

segunda-feira, novembro 16, 2015

Ser

    Ser. Seja o que for, nada se priva. Somente ser. Isso é uma puta sobrecarga psíquica. Ser é excesso, sobreviver é demais. Too much. É muito. Mais do que controlável. Viver é exagero de poucos.

Eu, com acréscimo de você.

Disponível no Wattpad

Eu não vou falar nada, viu? Até queria ter uma notícia pra te trazer, como avisar que é alguma data especial que você esqueceu, mas acontece que hoje é dia nenhum de importante, e os dias em que te amo não contam pra nada. Eu declaro meu amor com a mesma frequência que você faz café, de manhã e de tardezinha, com fervura e filtrado. Mas, por ora, só quero sentar aqui ao seu lado e não conversar, pois a intenção de hoje não é te fazer feliz, é me fazer completa, é estar no seu aninho.

Eu até poderia tentar narrar uma história nova desse mundo que ninguém ainda te contou, mas só tenho mais do mesmo, como as músicas que só decorei depois que você enjoou e as notícias repetidas que vemos nos telejornais. Eu poderia inventar uma auto-ficção na sua frente para te distrair. Acontece que eu vim até aqui sem ter porquê, e mesmo que eu tentasse inventar uma razão maior, não faria sentido algum. São coisas sentimentais.

Eu andei até tua casa e parei na frente do teu portão, bati palma, disse que passei sem avisar mesmo e que não me importava de não ter nenhuma bebida na tua geladeira. Nem estava com sede, afinal. Fiz pouco caso, como se não fosse um grande acontecimento pra mim. Sentei no teu sofá educadamente, diferente do meu que piso com os pés sujos. Agi desse jeito porque do meu jeito mesmo não dá pra agir, seria difícil aceitar. E agora aqui estou, há mais de quarenta minutos em silêncio com você. Não que isso me deixe aflita ou incomodada.

Eu vejo o quadro próxima da janela, o berimbau e o agogô pendurados na parede branca e o único violão que gosta de tocar no chão escorado na sua mesa de desenhos. Dou risada da sua bagunça espalhada e sinto umas lágrimas beirando os meus olhos, querendo cair, sem vergonha nenhuma. Então, com o rosto ficando molhado, fico constrangida. Disfarço, bocejo, digo que meu sono me causa umas reações estranhas. Você nem liga. Essa mistura de riso e choro é efeito seu, mas tudo bem. Eu estou aqui, aquecida por sua aceitação, por me deixar permanecer nesse espaço, sem me mandar embora.

Eu te ouço falar sobre as contradições da vida, sem saber como o assunto veio à tona. Eu sei que essas coisas não passam, tampouco são esquecidas, mas justo agora? Poderíamos conversar sobre a água em Marte, sobre o retorno de considerações sobre Plutão, sobre qualquer constelação com um nome bonito. Desculpa, eu não faço sentido nenhum e a verdade maior é que aqui por dentro estou ficando um pouco mais louca. Desatenta ao que é comum e fixada nos detalhes mais estranhos, como o seu sorriso meio torto quando me viu, ainda que eu não saiba se foi realmente por me ver. É que em cada estranheza desse mundo, eu tento encontrar qualquer coisa que me diga que fomos feitos para ficarmos juntos. Tenho pouco sucesso.

Você diz que as mulheres sempre são loucas, que elas gostam de te confundir. Eu só quero levantar - sendo louca também, ir para o meio da tua salinha de estar e dançar aquela música que parece a nossa história de relacionamento quase inexistente. Quero dançar pra ver se assim você repara. Mexer os braços e as pernas bem na sua frente, sugestiva. Gesticular de corpo inteiro. Só que assim eu seria descontrolada demais e, tudo bem, nesses últimos meses aprendi a manter um controle disfarçado. É o que parece ou o que deveria parecer.

Eu vejo que os cães e os gatos, os policiais e os ladrões, os cafetões e as putas, as sogras e os genros, os estereótipos e as desconstruções, todos estão em paz. E nós estamos? Pois somos tão opostos quanto todos esses, e somos os únicos que eu não consigo entender. Você não me botou pra fora, mas você não me pediu pra ficar. Eu não te dei todos os abraços e beijos que queria dar e não soube dizer o que queria logo que cheguei. Mesmo assim, estamos parados vendo a vida correr depressa e não nos apressamos. Temos nossos tempos particulares, não olhamos para o relógio. Uma hora nossos quereres, nossos desejos, nossos sonhos podem acontecer.

Eu peço pra botar uma música pra tocar, sugiro até que seja aqueles blues que gosta de ouvir. Não me importo com o que seja, somente que goste. É basicamente o resumo dos meus sentimentos, não é? Não importa o que eu sinta, somente que você goste de mim também. O gostar está implícito nos meus exageros emocionais, está sendo gritado, como apelo do meu corpo e alma, através do que não digo. E, por agora, sem palavra alguma, sou somente eu, com acréscimo de você.

domingo, novembro 15, 2015

Mensagem

Acabo de escrever um novo texto sobre você. Recebo uma mensagem sua. Você quer saber se eu estou bem. Vê? São quatro novos parágrafos, sem introdução, tampouco conclusão. São palavras e palavras de desassossego, de sufoco, de saudade, e você me aparece numa tela querendo saber, supostamente, como eu estou. Eu poderia mandar todos esses textos de uma vez, eu poderia realizar uma ligação telefônica e narrar minhas prosas. Eu poderia mostrar minha loucura, esperando que você enlouquecesse também. Nunca fomos aptos à sobriedade, afinal. Contudo, eu fico aqui em completo silêncio, quase atravessando as paredes e muros, querendo desaparecer entre os tijolos e o cimento, desejando não ser. Não ser mais ninguém. Não ser essa que uma vez te conheceu e nunca soube como esquecer. Essa que não entende porque, entre tantas primeiras frases, a primeira frase que você disse a ela, essa garota que sou, é inesquecível, é uma voz renitente repetitiva na cabeça. São textos, são muitos, e mesmo assim, não superam a velocidade inquieta e frequência de pensamentos. Livros não poderiam superar. Um romance, uma auto-ficção, uma biografia, nada poderia superar. Porque eu penso demais em você, a cada minuto. Eu penso tudo o que você se poupa inconscientemente de pensar. Eu respondo a mensagem. "Sim, estou". E cada verbo, substantivo, adjetivo, vírgula e ponto final do meu último texto nega tudo, nega minhas duas únicas palavras, porque esse excesso não vem me fazendo bem nenhum. "E você?". Eu espero que esteja melhor que eu - perdida nesse desastre no qual me colocou.

sexta-feira, novembro 13, 2015

Camaleão por fora, Blues por dentro

[Disponível no Wattpad]
    Ela está de short jeans rasgado e sutiã verde com rendas, dançando alguns blues que tocam em seu rádio amarelo à pilha. Pela janela a cena me desperta recordações das festas a dois que fazíamos dentro de seu quarto alaranjado quando chegávamos bêbados e não queríamos parar, tampouco dormir. As noites quase mortas de Campo Grande eram como noites em Paris quando estávamos juntos, uma Paris sem cadeados. Nunca fomos de corromper nossa liberdade. Eu me lembro da sua voz embargada me jurando amor e drama, prometendo que pelo resto de sua vida com pulmões e fígado arregaçados estaríamos juntos, mesmo que não soubéssemos pertencer a ninguém. Ela dizia besteiras e me convencia de que era o melhor que eu poderia ouvir. Agora somente ouço seu som sem o meu.
    Dentro da geladeira tem vinte e duas garrafas que ela comprou com todo o dinheiro que sobrou no fim do mês e ficou em sua calça. Nem todo o álcool do meu cantil de bolso e o álcool em gel nas minhas mãos superaria o seu estoque de cerveja. Eu sei disso porque a vi no mercado e não consegui voltar pra casa, fiquei contando cada item de sua cesta para não correr o risco de buscar seus olhos pretos e perder meu auto-controle de não dizer nada. E dentro do meu carro, na semana passada, ela esqueceu a carteira com alguns trocados e não vai pedir de volta. Eu penso em usar como desculpa para ter voltado aqui, para bater palmas no portão em outra tentativa de entrar e ser o melhor que posso.
    Seus dedos estralam no ar, os pés pisoteiam o chão e a cintura segue um ritmo só dela, transparecendo despreocupação com tudo o que há fora de sua zona de conforto. Não que sua vida ali dentro seja tão boa. Os olhos estão fechados e os cílios pintados de rímel azul brilham refletidos na luz da sala de estar, sentindo a brisa leve que passa por mim até alcançá-la. Seus cabelos presos com fios soltos me impedem de continuar e eu paro na sua calçada, olhando-a com nostalgia. Nós fomos tudo o que pudemos ser, fomos tanto que não suportamos. Ela segura uma lata vermelha de cerveja gelada, equilibrando-a no meio da voz rouca que grita na música. Joga-se no sofá, ainda às cegas e sorridente. Seu blues salva o meu, sendo as cifras energéticas que sobrepõem minhas letras melancólicas. Toda a parte ruim de nós ficou comigo e eu quis fazê-la feliz, deixando a parte boa em sua casa, mesmo assim de longe, mesmo não tendo mais nada.
    Costumávamos ser os melhores quando a vida ainda não era de todo esse mal, e o que perco a partir dessas semanas sem ela é tudo o que adquiri do mundo por querer. Com ela eu desejei as (re)descobertas. Os aprendizados de gramática, Bhaskara e células tronco vieram pela precisão de notas, e eu sei das guerras mundiais, das revoluções e dos ataques porque assisti a filmes. Eu escutei sobre dor, sobre as armas e as drogas porque precisava sentir medo e não me arriscar, crescendo no modo "Papai Noel e bicho-papão". Mas com ela, e somente com ela, eu quis aprender os significados de amor, da necessidade de estar com alguém e dos efeitos de madrugadas afora sem pensar em dias anteriores ou seguintes.
     Agora, ao contrário de todo agora que escolhi para viver com ela, eu estou no clima sombrio de sua rua, fumando um cigarro de palha com cara de tédio. Eu sei que é saudade. Eu sei que é angústia. Eu sei que é vontade de invadir a casa e dizer que eu desisto do babaca que sou para ser o que ela sempre mereceu. Olhos vidrados, avermelhados pelo controle do choro. Quero dizer que sinto muito pelas noites em que não apareci e não expliquei meus motivos, e pelo tanto de vezes que meu carro quebrou no meio do caminho. Confessar que me arrependo de ter colocado-a em um não-lugar na minha vida, deixando-a em um abandono disfarçado de abrigo, como se no fundo, no fundo, eu fizesse algum bem; confessar que minha família queria conhecê-la no meio de nossa indecência de não nos assumir como casal.
    Eu explicaria por inúmeras vezes sobre como o que sinto é imediato: um sorriso após ouvir seu nome em todo lugar ou encontrar suas iniciais na logo de uma marca qualquer. Eu contaria que salvei pequenas partes de mim, como uma mínima inocência infantil, um pedaço de Pollyana, para que me adequasse ao que ela sempre teve, para me encaixar no seu livre arbítrio. Diria que nos separarmos é complicado demais pra mim, pois aprendi a nos enxergar como uma identidade única, criando-nos como uma pessoinha estranha que por coincidência gostava de todos os livros do Chuck Palahniuk com toda a força de gostar também de Bob Esponja e skittles.
    À tardezinha, não sei se é de sol ou de lua como ela, a iluminação é pouca aqui fora, mas lá dentro ela se move entre todos os sentidos aguçados que tem, satisfazendo-os na própria boate que arquitetou, sendo um tumulto a sós consigo mesma.
    Ela dança do mesmo jeito que dançou na minha frente com meia-arrastão e mais nada, quando ainda éramos felizes dentro de um quarto de solteiro reajustado para dois. Dança como se pudesse fazer as paredes e os móveis e o ventilador dançarem também, como se fosse uma cigana com toda a certeza do futuro de sua vida e não se preocupasse mais. Eu não posso ir embora e pego o celular, sabendo que é um erro, digito seu número decorado, escuto chamar três vezes no meu ouvido e em cima de seu sofá, vejo-a olhar para a tela. Número desconhecido, eu tenho certeza. Não vai atender, não vai atender, não vai atender.
     Eu sei que sou sempre pela metade: semi-embriagado, semi-feliz, pseudo-independente. Enquanto ela é por inteiro essa loucura que roda e roda e roda por cima do tapete marrom com os pés descalços sem pensar em mim ou qualquer outra pessoa que não lhe faça bem. E continua caminhando como se tentasse um equilíbrio em corda bamba nos pisos verdes de cerâmica da cozinha americana. Eu poderia entender a distância de nós dois apenas por nos comparar, mas para quem já esteve tão próximo, todo metro longe é como estar em outro lado do oceano.
     Ela atende e sem dizer coisa alguma anda até a janela de vidro, encontrando-me no portão. "Eu posso entrar?" eu pergunto, "Por que?" ela quer saber. É só por desejar de novo seu cheiro de mousse branco de morango na minha camiseta. "Só quero mais uma conversa". A ligação cai e a garota de sutiã verde volta a gritar a letra da música que diz alguma coisa que ela gosta, ignorando o mundo aqui fora e eu bem dentro dela, esquecendo que uma vez gostou de mim a ponto de me beijar embaixo de águas pesadíssimas de uma cachoeira. Porque você sabe, essas coisas de amor às vezes dão e passam, porque a vida tem que seguir.
     O tempo não passa porque seguro uma bagagem enorme e pesada de coisas para dizer, coisas ditas, coisas para serem entregues e coisas para pedir de volta. Eu me vejo em outra perspectiva, saindo de mim: estou de fora ouvindo sua voz desafinada e vendo-a algumas vezes dançar através de umas brechas da cortina roxa que acaba de abrir para me impedir de enxergá-la. No mínimo, pareço patético. Eu apenas sei que ainda tenho de dizer  que não sou - mais - como todos os outros, que às vezes realmente bebo mais do que devo, mas que ela também faz isso e pode me entender. Que erro embriagado e sóbrio, que sou figura errante sem jeito de melhoras imediatas. Ainda assim, quero pedir paciência para que me mude. Uma viagem com mochilas, uma saída para lugar nenhum, uma noitada no banco de trás, não importa, aceito toda resolução que me altere.
    E, de longe, tão leve em relação ao próprio corpo, eu sei que ela não está sentindo nada. Não nesse momento. Nós não sabemos o que está acontecendo com um e com outro, nem com nós mesmos. Nós apenas estamos nessa porra de relação complicada que está acabando desde semana passada e, enquanto tento remendar, ela fecha os olhos e dança.
     Ela está de short jeans rasgado e sutiã verde com rendas, como eu disse que fica linda, como odiou ser vista da outra vez. "É minha roupa de ficar em casa", ela disse. A mais bonita. Eu estou aqui parado enquanto ela segue em frente. Eu estou sem saber o que fazer e, desistindo de estar de mãos atadas, bato palmas em seu portão. Uma segunda chance pra mim mesmo. Ela abre a cortina e a janela. "O que é?"

- Eu posso entrar? - eu insisto.

    Seu sorriso está desfeito, a música perdeu o sentido. Eu sinto vontade de pedir desculpas por estragar seu dia, mas eu precisava fazer alguma coisa. Eu me perco imaginando-a virando toda aquela bebida gelada. Ela se afasta da janela e fecha tudo novamente. É um jeito de me mandar embora. Como se já não tivesse tido a mesma atitude tantas vezes. Deixo-a, cansado e sem meu último cigarro, com sua roupa que me tira do senso-comum para trás. Eu perco minhas certezas e ela não se importa. Deixo os elogios guardados e a felicidade de abraçá-la para lá. Um não que não é dito, mas apenas significado, como uma porta que batem na sua cara enquanto você nem completou sua frase, dói bem mais. Eu não vou ficar mais implorando.
      Ele está descendo a rua, ele, o outro. Aquele que roubará meu lugar ainda quente. Invadindo o espaço que eu nunca quis oferecer para mais ninguém. Eu daria um soco em seu rosto se eu mesmo não fosse um babaca e também merecesse. Eu o imagino tirando o sutiã verde de rendas dela antes mesmo de elogiar, antes mesmo de analisar o quanto ela fica bonita nele e no short jeans rasgado pelo simples fato de fazê-la se sentir extremamente confortável, sem notar suas pequenas manchas de nascença. Eu o imagino no sofá com ela. Os dois transando entre as almofadas rosas, sem nenhum sentimento intenso como o que sinto. Eu nem posso mais sentir. O que sinto é uma raiva filha da puta em mim e de mim porque eu sou um imbecil.
    Eu paro no fim da rua e olho para sua calçada. Ele está na frente da casa dela, ele está entrando na casa dela, ele está fechando o portão da casa dela. Tão simples. Eu não pude entrar, eu não pude ficar e dizer que ela é minha. Ela não quis me esperar para consertar tudo novamente e refazer nossa liberdade francesa a dois. Bebo no meu cantil cinza e sigo em frente voltando cada vez mais para trás da vida, indo cada vez mais para longe dela.

quinta-feira, novembro 12, 2015

Saco sem fundo

    Ainda não é tarde da noite, mas me esgotei. Do topo do quase-fim do dia, eu desabo. Por tão pouco amor, por tanta falta que se faz. Eu me sinto tão nada que ecoo repetições: as saudades do que eu era e do que eu tinha, de novo e de novo na memória. Tão vazia que não paro em pé, sou saco sem fundo e sem sustento. Um tanto triste, um tanto só, um grito rouco e sem forças que avisa que talvez seja necessário mais de um sono. Talvez um coma, talvez outra vida, talvez eu nem queira acordar. É que a dor - que tanto dizem sentir - é puro desconforto, como se pudesse ser puro. É uma inquietude na mente, uns nós nos dedos que não estralam, uma vontade que não passa, parecendo ser fome de um universo inteiro e sede de toda sua água. Eu sei que os dias não são circo ao ar livre, tampouco amanhecem para nos fazer felizes. Mas é que uns tempos pra cá, a vida vai muito como uma ópera trágica, e eu nem gosto dos assentos dos teatros. Sendo tão sem-nada-a-dizer assim, nem me restam palavras e as mãos se apressam para o ponto final, o ponto no qual eu pego um ônibus, escoro a cabeça na janela e tento ir o mais longe possível até atravessar esse fuso-horário, só para sair desse "ainda não é tarde da noite, mas me esgotei". Só para ficar um pouco melhor em qualquer outra hora.
Flavia Andrade

quarta-feira, novembro 11, 2015

Entre neblina e nicotina

[Disponível no Wattpad]
    Nos embaraços do cabelo ainda estão a neblina e a nicotina da madrugada passada. Os fios encaracolados formaram nós dispersos, e nos nós dos dedos permanecem as digitais, os toques entre as mãos quentes, juntinhas, como se assim pudéssemos aquecer o resto de nossas vidas também. O vento frio batia e estávamos expostos àquelas horas tardias, pensando em histórias como se fossemos escritores de verdade, com bagagens de frases de efeito.
    Eu tinha algumas coisas, muitas e tantas, para te dizer entre os sussurros e os risos altos, porém tive medo de estragar aquele clima que se ajeitava pra gente. A lua deslizou silenciosa e calma, passando quase imperceptível por nós até alcançar o sumiço, para que não víssemos que já era tarde. O tempo esfriou, meio aflito, sem nos deixar com vontade de fugir depressa; apenas foi se infiltrando em nossas peles e, quando o frio nos fez correr, já estávamos perto de um abrigo que nos fizesse sentar e pensar em nossas vidas, aquecidos como se fosse na frente de uma lareira de filme americano. Eu não poderia desgraçar a situação.
    Contudo, sem medo nenhum, talvez por não ter notado a poesia toda daquele dia que não queria acabar, você falou o que queria dizer. Falou até mais e demais, sem receio de deixar escapar alguma confissão que pudesse me fazer chorar naquela hora, ou no resto de hoje, ou pelo semana toda - e deixou! - mas tento não ficar recordando. Eu mantive minhas pernas alinhadas ao chão, meio trêmulas, para você repousar sua cabeça em meu colo e contar sobre aquelas coisas que eu não poderia ter imaginado antes. Não poderia porque eram sobre você em relação ao mundo, vivendo lá fora sem mim e passando por tudo o que eu passava longe do seu contato. Eu não imaginava porque não queria imaginar, mesmo que fosse fácil; era por precaução e cautela comigo mesma, um zelo egocêntrico. Escutei palavra por palavra, daquelas que poderiam me ferir a qualquer instante em qualquer breve deslize, sem olhar nos seus olhos, sem ter respostas melhores que: eu te entendo.
    Meu corpo e alma transbordavam até a ponta da língua, querendo dizer: eu queria ter estado lá com você. Mas naquele aperto no peito, até naquele, por mais estranho que possa soar, encontrei felicidade.
    As pessoas se revelam em suas completudes de intensidade, elas se revelam por inteiro como realmente são. Quando encontram sossego e abrigo em alguém ou algum lugar, é quando não é mais possível que se mantenham uma pessoa só, de sempre. Explodem, expõem-se, brilham. E eu adoro quando saímos do cotidiano. Quando nos distraímos das próprias pessoas que estamos acostumados a ser, de nossas próprias existências, e nos revelamos com todas as particularidades de dentro, com pequenos gestos que dizem mais do que os diálogos compilados do mês podem dizer, vivemos inteiramente.
    Nessa madrugada, saímos. Você saiu do seu cotidiano banal, às vezes forçado, e me mostrou um sorriso novo, triste e embriagado, que eu achei tão, mas tão bonito! Eu poderia estudá-lo, roubá-lo pra mim, guardá-lo em uma fotografia torta feita com as minhas mãos aquecidas pelas suas. Nossa madrugada foi feita de detalhes, e todas as outras boas possibilidades se tornaram um sonho meu. E eu saí da minha rotina de disfarces: demonstrei todo o encanto em prosa da poesia simbolista que nos rodeava.
    As horas quase não passaram correndo como sempre passam, porque eu precisava reencontrar em você as minhas alegrias perdidas nos outros anos. Eram muitas, e eu não parava de sorrir. Eu estava confortável em ser a personagem confidente na sua cena surpreendente de protagonista. Percebe agora ou percebeu naqueles momentos o bem que me faz? Mesmo que não sejamos nada ou que sejamos apenas dois errantes, de alguma forma a gente se encontrou no melhor de nós. Estávamos ali costurando nossas angústias, desejos e os sentimentos mais bestas de um pelo outro e de nós pelo mundo, costurando entre nós.
    E, antes que você possa arrebentar as linhas tênues que ficaram nos atando daquelas horas até agora, antes que você lave e penteie seu cabelo - como eu não vou nunca mais fazer - e perca os resquícios do nosso ápice, confesso: eu quero que fique, certo?
    Eu quero que você fique ainda que traga outras pessoas, eu posso lidar. Ainda que não seja só por mim, afinal, os outros que nos unem também nos servem para amar. E, mesmo que os dias fiquem mais difíceis, mesmo que me encontrar com frequência te canse, quero que você não desista de passar aqui na rua, que nem precise admitir, em caso de vergonha, e possa até dizer que errou no meu caminho sem querer. Eu só peço para que não vá embora do nosso mundo mais uma vez, que não suma para uma casinha no Chile, para que não me deixe te expulsar novamente, pois essa é minha tendência, você sabe, e sei que pode ajeitá-la pra mim.
    Eu sinto a última madrugada e sinto partes de você e sinto muito do que somos, tudo parece certo, sem ajustes, sem que tenhamos qualquer definição.

terça-feira, novembro 10, 2015

Pronomes Indefinidos de um Blues Mudo

[Disponível no Wattpad]
[Leia ouvindo I Looked at You, The Doors.]
    Ele era somente um rapaz alto no lugar de sempre. Construído pela própria vida: algumas tatuagens nos braços, algumas cicatrizes nas pernas, cabelos pretos emaranhados quase nunca penteados, cor dos olhos perdida pelo contraste das olheiras, e o grande peso dos problemas o faziam não ter tanta postura. Ia sempre carregando uma pasta de mão, raramente usando a alça maior para pendurá-la no ombro direito, e vestia calças beges ou pretas, dependia dos seus sapatos à moda antiga. Não ouvia músicas no ônibus, mas tinha estômago para ler livros do início ao fim do caminho, sem demonstrar qualquer enjôo pelos balanços nas ruas esburacadas. Seu nome era desconhecido.
    O outro era mais baixo, um tanto mais risonho - deixava sorrisos escaparem pelos bancos nos quais sentava para se aquietar com suas músicas no fone de ouvido. Parecia sempre em reforma: cortes novos e cores diferentes de cabelo, um estilo desleixado de roupa, como se qualquer coisa em seu guarda-roupa variado caísse como uma luva, ia agasalhado em dia de frio e com vestes leves no calor. A única coisa rotineira de suas manhãs era pegar o mesmo ônibus do mesmo horário e descer no mesmo ponto. Às vezes até tentava dar uma lida em algo, um conteúdo de prova, uma notícia no jornal, mas passava os olhos e desistia. Ele era sem nome.
    Ele desconhecido, ele sem nome, eles indefinidos. Contudo, curiosos. O desconhecido para o sem nome era alguém, enquanto o sem nome para o desconhecido era aquele. Para um, a especificidade era importante, era aquele e pronto, nenhum outro no veículo de todos os dias importava mais. Para o outro, no meio das generalizações existiam poréns, e seu porém, naqueles tempos, era o alguém alto e bem arquitetado.
    Vez ou outra, no meio das farsas da vida matinal. Farsas, porque demonstravam pureza, como se fossem seres sem bagagens e sem porquês, sem família e sem amigos, apenas dois sobreviventes no meio de figurantes. Vez ou outra, conversavam com seus olhares sorrateiros. Acontecia um bom dia de piscar de olhos pseudo-indiscretos, um dizia "você se atrasou hoje" com seu olhar mais duradouro de pouco mais que quatro segundos, outro dizia "você tem bom gosto para livros" quando deixava escapar um de seus tantos risos involuntários ao olhar intrometido na capa na mão do outro. Eles viviam felizes nos trajetos de trinta e seis minutos.
     Iam bem até o momento em que se estragaram com cumprimentos, rompendo o silêncio que valia mais do qualquer amizade ou relação que poderia se desenvolver. Eles, ainda hoje não sabem ou não querem descobrir, mas a saudade se dá pela inexistência também, por aquilo que não houve. Enquanto não eram nada, já era amor. Sem se conhecerem, poupavam-se de lamúrias, não entravam em competições de quem andava mais angustiado e não precisavam acompanhar os passos tortos e alheios. Apenas caminhavam sozinhos sentindo que tinham alguma coisa matinal, quase especial, que perdurava pelo resto de seus dias comuns.
    A existência deles dentro do ônibus, sem contato, era coexistência. Estavam e permaneciam, como seres intactos, dúbios - sem perderem a aura de mistério. Se fossem mais a frente daquilo, existiriam, imediatamente, um dentro do outro, sem que pudessem escapar para fora do veículo de suas vidas conjuntas depois. Corriam riscos apenas por desejarem conversar. Engoliriam um ao outro ao primeiro sinal de lábios entreabertos.
    Foi o moço mais alto, com seu estilo retrô e sua vontade de conhecer alguém cara-a-cara em um lugar normal com uma conversa qualquer vulgar, do jeito que costumava acontecer dos anos noventa pra trás, foi ele quem falou primeiro ao sentar-se pela primeira vez ao lado do outro no banco de dois lugares. Era o ônibus 547, e eram as poucas horas e muitos minutos da manhã. Quando veio a resposta, nenhum deles percebeu o erro que ambos cometiam. Tornaram-se cúmplices do crime de querer mais do que já tinham. Agiram como se pudessem contornar os traços do acaso, como se mandassem naquelas coisas que ninguém entende como e por qual motivo acontecem, direcionando-se para um encontro decisivo depois de tantos encontros, reencontros e repetições de primeiros encontros corriqueiros - ainda que intensos e de imaginações efusivas.
   Antes, o que tinham eram poucos minutos com muitos segundos não desperdiçados de um encontro casual, redescobriam-se e sondavam as mentes inquietas para descobrirem, no meio do que não diziam, tudo o que poderia estar acontecendo em suas vidas. E, dia após dia, aquilo durava, ia mais longe, aprofundava-se mais, de maneira imperceptível e inenarrável para o mundo exterior. E talvez naquele dia tenham sentido exageradamente a vontade de terem algo que pudessem expor. E romperam com o invisível. Iniciaram com um fim, divorciando-se do casamento mudo para residirem em um abrigo de falatórios com as novas pessoas que se mostraram, nas suas formas mais humanas: cheias, exaustas, incompletas, indecisas, com defeitos, e rodeadas de insuficiência. Não tão boas, não tão legais, não tão bonitas, não tão sinceras.
- Viu que hoje é um motorista diferente?
    A pergunta também dúbia martelou. Em metáfora, o hoje poderia dirigi-los de outra maneira, por ser um "motorista diferente". O rapaz não sabia se tinha esperado por aquilo durante os últimos meses inteiros - uma brecha para adentrar em um diálogo, ou se apenas aproveitou a chance. Deixou escapar sua pergunta e esperou a resposta.
- Vi. - Disse o "vi" mais sorridente de todos.
    Decidiram, ainda não tendo ideia do erro que cometeriam, que se apresentariam um ao outro e explicariam o que faziam e pensavam durante todo aquele tempo, rapidamente anterior e passado, de incerteza. Começaram uma conversa de trocas de nomes, informações sobre trabalho, faculdade e parentesco. Até endereço compartilharam, sem números citados. Falaram e ouviram sem muito receio, apenas aconteceu, como uma coisa que soava quase sufocada ha tempos e agora, naquele momento, explodisse em seus rostos que perderam toda a curiosidade, dando espaço às intenções. O que o moço alto poderia ganhar com o curso de matemática do outro? E como o moço loiro poderia se inserir na família daquele ao seu lado, se ele morava somente com o avô? Como marcariam encontro se um só voltava para casa depois das dez da noite, enquanto o outro dormia às nove? Os interesses investigavam as possibilidades remotas.
    Sucedeu-se que ali, na mesma hora, cansaram-se daquilo que aconteceu. Um tumulto de ideias, um aglomerado de endereços e nomes e títulos e locais e planos e a hora de chegar parecia não alcançá-los com o mesmo ritmo frenético que fazia o ônibus ir se esvaziando. Um deles não falava tão bem, um deles não sabia bem manter um assunto. Um estava meio perdido na vida, outro nem sabia a que veio. Talvez não servissem para serem protagonistas, a não ser que fossem de filme mudo para cegos. Antes daquilo, quais nomes poderiam ter? As possibilidades, como qualquer uma do passado em que ainda não se conheciam por voz, eram melhores, até mesmo mais duradouras.
    Ir embora foi tão fácil: os pés se aceleraram, cada um para o seu rumo com uma vontade de voltarem a serem aquilo de antes. Uma vontade tanta, tamanha, meio estranha. A despedida quase não quis sair em som, porque estavam habituados e confortáveis no adeus tímido e emudecido. Ainda mais, sobre as calçadas e ruas, em seus lugares distanciados, estranharam o fato de não olharem para mais ninguém com aquele olhar que tinham um sobre outro: o incomum encarando o diferente. Era só deles, e perderam. Mas que crime, mas que pecado, mas que troço ruim. Já se conheciam, não havia volta. Ele já era Pedro, ele já era Márcio, os nomes nem combinavam em ordem ou fora dela, nem se encaixavam, mas que horror.
    Do dia seguinte em diante, nenhum deles pegou o ônibus de sempre, nenhum deles se viu outra vez. Não sabiam se esperavam pelo passar do tempo e o provável esquecimento, para que em algum dia, meio sem querer e casualmente, pudessem ter o prazer de se encontrarem como desconhecidos mais uma vez, ou se apenas corriam para longe dos acasos para ignorarem suas culpas de terem acabado com algo tão silenciosamente bom. Fingiram, depois do fim das farsas, que nada aconteceu naquele dia, naquele veículo, naquele banco, no dia em que o motorista assumiu o volante e deixou dois passageiros desviarem seus trajetos.

Recordação

    Se não fosse sua visita naquele dia daquele mês daquele ano meio ruim, trazendo uma notícia boa, eu até teria sucesso em te esquecer. Aquilo é apenas um detalhe de meia hora entre todas essas horas tardias que não querem passar, mas ficou em mim. Eu lembro e sinto vontade de sentir de novo uma surpresa sua, um te-encontrar-sem-esperar novo no meu portão. Passo as tardes capturando a memória com as mãos para que não escape, até que você volte e refaça, até que a gente reviva, e enquanto o dia não chega, não esqueço. Perdoa a carga horária extra de pensamentos relacionados a você.
Flavia Andrade

Rotação

    Dou voltas ao nosso mundo sem bagagem, buscando qualquer coisa boa para levar de lembrança quando realizarmos, por acaso ou sem querer, nosso apocalipse. Cada pedra, parede, mesa com fotografia vai desabar sobre ambos, e rezaremos baixo para que não machuque. Eu só quero que você sobreviva e que eu vá bem; torço para que ninguém se perca nos escombros ou saia de mãos atadas. Enquanto isso somos grandes, uma paisagem até bonita, pertencendo a nós e nos sendo.
Flavia Andrade

segunda-feira, novembro 09, 2015

    Os garfos e as facas riscam os pratos. Servimos pouca comida, fizemos pouca janta. Hoje ninguém ligou o som ou quis ver algo na tevê, a casa está em silêncio. Os assuntos estão perdidos lá para fora, sempre que entramos em casa os deixamos. Estamos aqui com as mentes atentas a qualquer coisa melhor que ficou em outro ambiente há algumas horas atrás. Estarmos aqui é sufoco.

sábado, novembro 07, 2015

Vidas de mão única


    Pode ser essa ideia de pertencer a alguém que nos desestabilize. Não sabemos ser de ninguém. Não somos. Não temos plural. Não passamos de dois errantes, meio perdidos, bêbados sem álcool, escorados em balcões, deitados em sofás, caídos no chão. E se um quiser vir junto ao outro, pode vir e andar com passos ritmados, a estrada é para todos afinal. E se um quiser dormir na cama do outro também, pode dormir. Podemos nos cobrir de nós e fingir que somos sonhos e que, ao acordar, as nossas vidas de mão única continuam.
Flavia Andrade

sexta-feira, novembro 06, 2015

A guria das artérias folks


[Leia ouvindo Just Like a Woman, Bob Dylan]
    A guria em pé no ônibus não, e nunca, quis contar o que estava sentindo - e o que causava suas olheiras - ao sair de casa. Tampouco se pôs a falar quando fizeram um mutirão de três pessoas da família para questionarem sobre faculdade e namorados. Não mencionou o acontecido de quinta-feira e mordeu alguns pedaços de maçã. A realidade, de poucos instantes duradouros até o fim da semana, que ninguém quis perceber foi que toda aquela pressão e frequência de questões somente a fizeram fugir mais depressa. Ela também não sabia as respostas e subiu a rua na alta velocidade de um pé depois do outro. A guria não, e nunca, olhou para os lados ao atravessar, porque sua audição de menina inconsequente sempre a fazia acreditar que o caminho estava livre. Fora de casa a liberdade gritava em seus ouvidos.
    Ela tinha cabelos escuros sem cor definida, acostumados a serem presos no alto da cabeça que sempre doía - por enxaqueca ou ressaca. E, do meu banco até ela, olhava em seus olhos que buscavam os detalhes emocionais e não enxergavam nada de material à primeira vista, pois nunca foi dada aos objetos e sempre sentiu demais o que ninguém mais poderia entender. Sua boca se movia pouco durante o dia e, dispersa, se mantinha fechada enquanto todas as palavras corriam desesperadas pela mente. Parecia distraída, mas estava intensamente compenetrada nas pseudo-resoluções amorosas. E, se caso mostrasse muito os dentes em um riso, causava motivo de estranheza. Não era habituada a essa abertura dos lábios e, assim, aqueles que estavam ao seu redor também não eram. Por dentro: tinha fígado desgastado, pulmão meio ruim, e coração com peças faltando, perdidas ou quebradas; peças que o serviço especial de consertos humanos não tinha no estoque.
    A guria em pé no ônibus, com o braço direito esticado para segurar a barra amarela de apoio, e essa minha visão dela não escapa em um segundo sequer, não se vestia tão bem. Era só uma calça cinza e larga com uma blusa indiana trazida por um amigo que há tempos não fazia mais contato. Também não tinha ritmo na voz, contava piadas como se fosse música e cantava músicas como se fosse piada. E nunca, ela que era tão cheia de nuncas, deu ouvidos a quem tentou corrigir sua postura. Quanto mais pensava, mais entortava a coluna. Não precisava dar ouvidos aos outros, afinal, porque seus ouvidos só escutavam, desde quando ela ainda tinha jeito de mudar até se tornar aquilo para a eternidade, Bob Dylan e Neil Young.
    Não era, também, dada aos acertos; era somente uma coisa corriqueira sem esperanças. Ela era um pequeno erro por fora, um caos por dentro e uma noite de distúrbio que durava o tempo inteiro. E, ainda insuficientemente perdida, quis se estragar um pouco mais ao se render a uma pessoa só, que viajou por todo seu corpo até encontrar seus caminhos sem saída, dar meia volta e partir. Seus muros finais machucavam e, aquele que tentou enfrentar as tais barreiras, não aguentou. Ao ir embora, na fuga da escapatória contra vontade dela, quebrou mais algumas de suas peças e deixou outras tantas falhas. Sem explicação, se tornou o homem que quis-e-largou, assim, bem rápido.
    Acontece que, antes que ele fosse, tirou-a do lugarzinho de aceitação.
    Ela já era a guria da rotina comum que vivia em completa estranheza e nós sabemos. Você agora é cúmplice por entendê-la. Ligava o rádio para se desligar, comprava quase nada além de cigarros, falava pouco e escrevia livros de cem mil palavras. Ela subia as ruas, descia as ruas, mas ninguém a via.
    E ele apareceu. Por que diabos, entre tantas pessoas de tantos mundos de bairros daquela cidade estreita, ele foi aparecer na frente dela? O rapaz parou e disse que reparou naquele jeito da guria de se esgueirar paredes afora para chegar em locais que não queria estar. Disse que gostou daqueles risos, pelo simples fato de serem raros. (Ela quis sorrir mais, mas o elogio era pelo de menos). E até ousou comentar, na frente de uma multidão de seis pessoas, que ela era a melhor pessoa que ele já havia conhecido, com aquela falha de nascença na sobrancelha, com aquela única mecha loira por baixo do cabelo preto, com a voz de atriz de filme francês falando português; e com o dom de fazer macarronadas. Ele sabia que o que ela sentia era tão forte que alcançava seu esôfago como um soco e doía também.
    Depois de um tempo, além de dizer, demonstrava. Passava horas e horas deslizando alguns dedos por seus braços, seios e costas, enquanto ficavam deitados. Ele gostava de fazer cafuné, causar arrepios, tocá-la. Ela se sentia tão dele, que se esquecia do peso que era ser dela mesma. E a garota lembrava bem daquele dia em que, não se sentindo boa para mais ninguém, correu até ele em um ritmo frenético e, antes de sentir medo por talvez não encontrá-lo, avistou-o no meio do caminho, e ele disse:
- Estava indo te ver.
    Só ela soube o quanto aquelas quatro palavras significaram, pois não era ela sozinha fazendo de tudo para salvar uma relação crua, eram os dois super aquecidos se encontrando sem suas salvações. Estavam lutando um pelo o outro. Ele fazendo um bem que ela precisava, e ela se recompondo para fazer jus ao bem recebido.
    Por que é que alguém foi dizer que gostava daquilo tudo? Daqueles defeitos em um corpo com estrias desenhadas, daqueles defeitos em uma mente com imprecisões. Depois dos primeiros elogios, a guria quis mudar a cor do cabelo, quis olhar quantas cadeiras vazias restavam nos locais e procurar as de-dois-para-dois, quis falar sobre o que não sabia, apenas para continuar recebendo-os. Mesmo assim, os pedaços defeituosos de dentro ainda estavam lá, sem remendos, sem cola, sem costura, sem novas instalações.
    Quando aquele certo alguém disse que gostava dela, não enxergou as músicas folks que percorriam suas artérias. Gostou por fora e um cadinho de dentro. Não havia visto o espírito livre e zombeteiro, a vontade de amar por acaso, rápida e intensamente, e os planos repentinos de ir embora a qualquer hora. Não havia visto que ela não precisava de acompanhante, mas de alguém com coragem de segui-la. E quando descobriu esses detalhes - repentinamente quando as músicas altas dos fones dela escaparam para a sala de estar -, não quis ficar.
    Por que é que alguém foi dizer que gostava daquilo tudo? Antes daquilo, a garota ainda sabia viver um pouquinho bem, não queria se trocar por uma nova geração. Depois daquilo, de estar toda mudada para se adaptar de mansinho, mostrando o sorriso amarelo um pouco mais e suavizando lentamente seus toques para agradar aquele moço que sabia acariciá-la tão bem; depois de ter sido melhor para ele apenas para ser melhor para ela mesma também, não soube mais quem seria sozinha. A liberdade se comprimiu em uma pequena necessidade de ser amada.
    A guria em pé no ônibus segurava o choro. E eu não era mais eu, era só, e infelizmente só, o rapaz que havia deixado-a daquela maneira. Quando chegou ao seu destino, puxou a corda de parada, olhou a luz vermelha no topo da porta automática, olhou de soslaio para o rapaz que, por coincidência foi parar naquele mesmo veículo naquela manhã, e desceu para andar por vias eternas de desconhecimento dele. O folk permaneceu tocando durante o trajeto e ressoando nos ouvidos de todos. Mas só ela sabia sentir.
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Natasha

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