sexta-feira, novembro 13, 2015

Camaleão por fora, Blues por dentro

[Disponível no Wattpad]
    Ela está de short jeans rasgado e sutiã verde com rendas, dançando alguns blues que tocam em seu rádio amarelo à pilha. Pela janela a cena me desperta recordações das festas a dois que fazíamos dentro de seu quarto alaranjado quando chegávamos bêbados e não queríamos parar, tampouco dormir. As noites quase mortas de Campo Grande eram como noites em Paris quando estávamos juntos, uma Paris sem cadeados. Nunca fomos de corromper nossa liberdade. Eu me lembro da sua voz embargada me jurando amor e drama, prometendo que pelo resto de sua vida com pulmões e fígado arregaçados estaríamos juntos, mesmo que não soubéssemos pertencer a ninguém. Ela dizia besteiras e me convencia de que era o melhor que eu poderia ouvir. Agora somente ouço seu som sem o meu.
    Dentro da geladeira tem vinte e duas garrafas que ela comprou com todo o dinheiro que sobrou no fim do mês e ficou em sua calça. Nem todo o álcool do meu cantil de bolso e o álcool em gel nas minhas mãos superaria o seu estoque de cerveja. Eu sei disso porque a vi no mercado e não consegui voltar pra casa, fiquei contando cada item de sua cesta para não correr o risco de buscar seus olhos pretos e perder meu auto-controle de não dizer nada. E dentro do meu carro, na semana passada, ela esqueceu a carteira com alguns trocados e não vai pedir de volta. Eu penso em usar como desculpa para ter voltado aqui, para bater palmas no portão em outra tentativa de entrar e ser o melhor que posso.
    Seus dedos estralam no ar, os pés pisoteiam o chão e a cintura segue um ritmo só dela, transparecendo despreocupação com tudo o que há fora de sua zona de conforto. Não que sua vida ali dentro seja tão boa. Os olhos estão fechados e os cílios pintados de rímel azul brilham refletidos na luz da sala de estar, sentindo a brisa leve que passa por mim até alcançá-la. Seus cabelos presos com fios soltos me impedem de continuar e eu paro na sua calçada, olhando-a com nostalgia. Nós fomos tudo o que pudemos ser, fomos tanto que não suportamos. Ela segura uma lata vermelha de cerveja gelada, equilibrando-a no meio da voz rouca que grita na música. Joga-se no sofá, ainda às cegas e sorridente. Seu blues salva o meu, sendo as cifras energéticas que sobrepõem minhas letras melancólicas. Toda a parte ruim de nós ficou comigo e eu quis fazê-la feliz, deixando a parte boa em sua casa, mesmo assim de longe, mesmo não tendo mais nada.
    Costumávamos ser os melhores quando a vida ainda não era de todo esse mal, e o que perco a partir dessas semanas sem ela é tudo o que adquiri do mundo por querer. Com ela eu desejei as (re)descobertas. Os aprendizados de gramática, Bhaskara e células tronco vieram pela precisão de notas, e eu sei das guerras mundiais, das revoluções e dos ataques porque assisti a filmes. Eu escutei sobre dor, sobre as armas e as drogas porque precisava sentir medo e não me arriscar, crescendo no modo "Papai Noel e bicho-papão". Mas com ela, e somente com ela, eu quis aprender os significados de amor, da necessidade de estar com alguém e dos efeitos de madrugadas afora sem pensar em dias anteriores ou seguintes.
     Agora, ao contrário de todo agora que escolhi para viver com ela, eu estou no clima sombrio de sua rua, fumando um cigarro de palha com cara de tédio. Eu sei que é saudade. Eu sei que é angústia. Eu sei que é vontade de invadir a casa e dizer que eu desisto do babaca que sou para ser o que ela sempre mereceu. Olhos vidrados, avermelhados pelo controle do choro. Quero dizer que sinto muito pelas noites em que não apareci e não expliquei meus motivos, e pelo tanto de vezes que meu carro quebrou no meio do caminho. Confessar que me arrependo de ter colocado-a em um não-lugar na minha vida, deixando-a em um abandono disfarçado de abrigo, como se no fundo, no fundo, eu fizesse algum bem; confessar que minha família queria conhecê-la no meio de nossa indecência de não nos assumir como casal.
    Eu explicaria por inúmeras vezes sobre como o que sinto é imediato: um sorriso após ouvir seu nome em todo lugar ou encontrar suas iniciais na logo de uma marca qualquer. Eu contaria que salvei pequenas partes de mim, como uma mínima inocência infantil, um pedaço de Pollyana, para que me adequasse ao que ela sempre teve, para me encaixar no seu livre arbítrio. Diria que nos separarmos é complicado demais pra mim, pois aprendi a nos enxergar como uma identidade única, criando-nos como uma pessoinha estranha que por coincidência gostava de todos os livros do Chuck Palahniuk com toda a força de gostar também de Bob Esponja e skittles.
    À tardezinha, não sei se é de sol ou de lua como ela, a iluminação é pouca aqui fora, mas lá dentro ela se move entre todos os sentidos aguçados que tem, satisfazendo-os na própria boate que arquitetou, sendo um tumulto a sós consigo mesma.
    Ela dança do mesmo jeito que dançou na minha frente com meia-arrastão e mais nada, quando ainda éramos felizes dentro de um quarto de solteiro reajustado para dois. Dança como se pudesse fazer as paredes e os móveis e o ventilador dançarem também, como se fosse uma cigana com toda a certeza do futuro de sua vida e não se preocupasse mais. Eu não posso ir embora e pego o celular, sabendo que é um erro, digito seu número decorado, escuto chamar três vezes no meu ouvido e em cima de seu sofá, vejo-a olhar para a tela. Número desconhecido, eu tenho certeza. Não vai atender, não vai atender, não vai atender.
     Eu sei que sou sempre pela metade: semi-embriagado, semi-feliz, pseudo-independente. Enquanto ela é por inteiro essa loucura que roda e roda e roda por cima do tapete marrom com os pés descalços sem pensar em mim ou qualquer outra pessoa que não lhe faça bem. E continua caminhando como se tentasse um equilíbrio em corda bamba nos pisos verdes de cerâmica da cozinha americana. Eu poderia entender a distância de nós dois apenas por nos comparar, mas para quem já esteve tão próximo, todo metro longe é como estar em outro lado do oceano.
     Ela atende e sem dizer coisa alguma anda até a janela de vidro, encontrando-me no portão. "Eu posso entrar?" eu pergunto, "Por que?" ela quer saber. É só por desejar de novo seu cheiro de mousse branco de morango na minha camiseta. "Só quero mais uma conversa". A ligação cai e a garota de sutiã verde volta a gritar a letra da música que diz alguma coisa que ela gosta, ignorando o mundo aqui fora e eu bem dentro dela, esquecendo que uma vez gostou de mim a ponto de me beijar embaixo de águas pesadíssimas de uma cachoeira. Porque você sabe, essas coisas de amor às vezes dão e passam, porque a vida tem que seguir.
     O tempo não passa porque seguro uma bagagem enorme e pesada de coisas para dizer, coisas ditas, coisas para serem entregues e coisas para pedir de volta. Eu me vejo em outra perspectiva, saindo de mim: estou de fora ouvindo sua voz desafinada e vendo-a algumas vezes dançar através de umas brechas da cortina roxa que acaba de abrir para me impedir de enxergá-la. No mínimo, pareço patético. Eu apenas sei que ainda tenho de dizer  que não sou - mais - como todos os outros, que às vezes realmente bebo mais do que devo, mas que ela também faz isso e pode me entender. Que erro embriagado e sóbrio, que sou figura errante sem jeito de melhoras imediatas. Ainda assim, quero pedir paciência para que me mude. Uma viagem com mochilas, uma saída para lugar nenhum, uma noitada no banco de trás, não importa, aceito toda resolução que me altere.
    E, de longe, tão leve em relação ao próprio corpo, eu sei que ela não está sentindo nada. Não nesse momento. Nós não sabemos o que está acontecendo com um e com outro, nem com nós mesmos. Nós apenas estamos nessa porra de relação complicada que está acabando desde semana passada e, enquanto tento remendar, ela fecha os olhos e dança.
     Ela está de short jeans rasgado e sutiã verde com rendas, como eu disse que fica linda, como odiou ser vista da outra vez. "É minha roupa de ficar em casa", ela disse. A mais bonita. Eu estou aqui parado enquanto ela segue em frente. Eu estou sem saber o que fazer e, desistindo de estar de mãos atadas, bato palmas em seu portão. Uma segunda chance pra mim mesmo. Ela abre a cortina e a janela. "O que é?"

- Eu posso entrar? - eu insisto.

    Seu sorriso está desfeito, a música perdeu o sentido. Eu sinto vontade de pedir desculpas por estragar seu dia, mas eu precisava fazer alguma coisa. Eu me perco imaginando-a virando toda aquela bebida gelada. Ela se afasta da janela e fecha tudo novamente. É um jeito de me mandar embora. Como se já não tivesse tido a mesma atitude tantas vezes. Deixo-a, cansado e sem meu último cigarro, com sua roupa que me tira do senso-comum para trás. Eu perco minhas certezas e ela não se importa. Deixo os elogios guardados e a felicidade de abraçá-la para lá. Um não que não é dito, mas apenas significado, como uma porta que batem na sua cara enquanto você nem completou sua frase, dói bem mais. Eu não vou ficar mais implorando.
      Ele está descendo a rua, ele, o outro. Aquele que roubará meu lugar ainda quente. Invadindo o espaço que eu nunca quis oferecer para mais ninguém. Eu daria um soco em seu rosto se eu mesmo não fosse um babaca e também merecesse. Eu o imagino tirando o sutiã verde de rendas dela antes mesmo de elogiar, antes mesmo de analisar o quanto ela fica bonita nele e no short jeans rasgado pelo simples fato de fazê-la se sentir extremamente confortável, sem notar suas pequenas manchas de nascença. Eu o imagino no sofá com ela. Os dois transando entre as almofadas rosas, sem nenhum sentimento intenso como o que sinto. Eu nem posso mais sentir. O que sinto é uma raiva filha da puta em mim e de mim porque eu sou um imbecil.
    Eu paro no fim da rua e olho para sua calçada. Ele está na frente da casa dela, ele está entrando na casa dela, ele está fechando o portão da casa dela. Tão simples. Eu não pude entrar, eu não pude ficar e dizer que ela é minha. Ela não quis me esperar para consertar tudo novamente e refazer nossa liberdade francesa a dois. Bebo no meu cantil cinza e sigo em frente voltando cada vez mais para trás da vida, indo cada vez mais para longe dela.

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