quarta-feira, novembro 11, 2015

Entre neblina e nicotina

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    Nos embaraços do cabelo ainda estão a neblina e a nicotina da madrugada passada. Os fios encaracolados formaram nós dispersos, e nos nós dos dedos permanecem as digitais, os toques entre as mãos quentes, juntinhas, como se assim pudéssemos aquecer o resto de nossas vidas também. O vento frio batia e estávamos expostos àquelas horas tardias, pensando em histórias como se fossemos escritores de verdade, com bagagens de frases de efeito.
    Eu tinha algumas coisas, muitas e tantas, para te dizer entre os sussurros e os risos altos, porém tive medo de estragar aquele clima que se ajeitava pra gente. A lua deslizou silenciosa e calma, passando quase imperceptível por nós até alcançar o sumiço, para que não víssemos que já era tarde. O tempo esfriou, meio aflito, sem nos deixar com vontade de fugir depressa; apenas foi se infiltrando em nossas peles e, quando o frio nos fez correr, já estávamos perto de um abrigo que nos fizesse sentar e pensar em nossas vidas, aquecidos como se fosse na frente de uma lareira de filme americano. Eu não poderia desgraçar a situação.
    Contudo, sem medo nenhum, talvez por não ter notado a poesia toda daquele dia que não queria acabar, você falou o que queria dizer. Falou até mais e demais, sem receio de deixar escapar alguma confissão que pudesse me fazer chorar naquela hora, ou no resto de hoje, ou pelo semana toda - e deixou! - mas tento não ficar recordando. Eu mantive minhas pernas alinhadas ao chão, meio trêmulas, para você repousar sua cabeça em meu colo e contar sobre aquelas coisas que eu não poderia ter imaginado antes. Não poderia porque eram sobre você em relação ao mundo, vivendo lá fora sem mim e passando por tudo o que eu passava longe do seu contato. Eu não imaginava porque não queria imaginar, mesmo que fosse fácil; era por precaução e cautela comigo mesma, um zelo egocêntrico. Escutei palavra por palavra, daquelas que poderiam me ferir a qualquer instante em qualquer breve deslize, sem olhar nos seus olhos, sem ter respostas melhores que: eu te entendo.
    Meu corpo e alma transbordavam até a ponta da língua, querendo dizer: eu queria ter estado lá com você. Mas naquele aperto no peito, até naquele, por mais estranho que possa soar, encontrei felicidade.
    As pessoas se revelam em suas completudes de intensidade, elas se revelam por inteiro como realmente são. Quando encontram sossego e abrigo em alguém ou algum lugar, é quando não é mais possível que se mantenham uma pessoa só, de sempre. Explodem, expõem-se, brilham. E eu adoro quando saímos do cotidiano. Quando nos distraímos das próprias pessoas que estamos acostumados a ser, de nossas próprias existências, e nos revelamos com todas as particularidades de dentro, com pequenos gestos que dizem mais do que os diálogos compilados do mês podem dizer, vivemos inteiramente.
    Nessa madrugada, saímos. Você saiu do seu cotidiano banal, às vezes forçado, e me mostrou um sorriso novo, triste e embriagado, que eu achei tão, mas tão bonito! Eu poderia estudá-lo, roubá-lo pra mim, guardá-lo em uma fotografia torta feita com as minhas mãos aquecidas pelas suas. Nossa madrugada foi feita de detalhes, e todas as outras boas possibilidades se tornaram um sonho meu. E eu saí da minha rotina de disfarces: demonstrei todo o encanto em prosa da poesia simbolista que nos rodeava.
    As horas quase não passaram correndo como sempre passam, porque eu precisava reencontrar em você as minhas alegrias perdidas nos outros anos. Eram muitas, e eu não parava de sorrir. Eu estava confortável em ser a personagem confidente na sua cena surpreendente de protagonista. Percebe agora ou percebeu naqueles momentos o bem que me faz? Mesmo que não sejamos nada ou que sejamos apenas dois errantes, de alguma forma a gente se encontrou no melhor de nós. Estávamos ali costurando nossas angústias, desejos e os sentimentos mais bestas de um pelo outro e de nós pelo mundo, costurando entre nós.
    E, antes que você possa arrebentar as linhas tênues que ficaram nos atando daquelas horas até agora, antes que você lave e penteie seu cabelo - como eu não vou nunca mais fazer - e perca os resquícios do nosso ápice, confesso: eu quero que fique, certo?
    Eu quero que você fique ainda que traga outras pessoas, eu posso lidar. Ainda que não seja só por mim, afinal, os outros que nos unem também nos servem para amar. E, mesmo que os dias fiquem mais difíceis, mesmo que me encontrar com frequência te canse, quero que você não desista de passar aqui na rua, que nem precise admitir, em caso de vergonha, e possa até dizer que errou no meu caminho sem querer. Eu só peço para que não vá embora do nosso mundo mais uma vez, que não suma para uma casinha no Chile, para que não me deixe te expulsar novamente, pois essa é minha tendência, você sabe, e sei que pode ajeitá-la pra mim.
    Eu sinto a última madrugada e sinto partes de você e sinto muito do que somos, tudo parece certo, sem ajustes, sem que tenhamos qualquer definição.

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