segunda-feira, novembro 23, 2015

O caminho sem fim

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Deixou a chave no carro e o motor esquentando - tal como a cabeça. Somente estar ali já lhe causava um sufoco gritante, desses que não o deixam pensar em muita coisa que faça sentido, deixando-o meio atordoado. Os pés formigavam e as mãos suavam. O caminho percorrido entre a abertura da porta do veículo e as batidas firmes na porta da casa da mulher passou como dois segundos de blackout. Mas lá estava ele, supostamente forte e estático, parado em frente a entrada, encarando o número dezesseis. Balbuciando o discurso que ensaiou botar pra fora logo que fosse recebido por ela. Não olharia em seus olhos para não ser perder, não repararia nos seus lábios para não desistir de desistir, não faria nada além do planejado.
Os olhos se abrem e, na verdade, ele ainda está no carro.
Tira a chave da ignição, sente tudo desligado e silencioso - dentro e fora. Não há som algum às - ele não sabe que horas são. Acende a tela do celular, tenta se acostumar com a luz e vê: três e sete da manhã, às três e sete da manhã não há som. Desce do carro, caminha vagarosamente até a entrada prestando atenção a cada passo, como se um fio interligado entre ele e a moça o puxasse. Para de frente à porta e de si parecendo quem sai do próprio corpo querendo expandir a perspectiva, e com um pensamento distante a encara, toda feita de madeira, por alguns minutos. Como um milagre, alguma luz dentro da casa acende, remetendo-o ao clarão do celular em suas retinas e imagina os olhos castanhos lá dentro tentando lidar com a iluminação repentina das lâmpadas. Ele não pode encarar aquele olhar. Ouve passos se aproximando e prepara o discurso, respirando fundo.
É como se todas as casas da vizinhança o espiassem, vendo-o daquele jeito meio besta de tentar tomar uma atitude decisiva. O tempo não quer passar.
Seus olhos se abrem novamente, dessa vez em um estalo, meio apavorado. Ainda não se moveu no banco do carro. Ele se ajeita e sente com as mãos - como uma criança exagerada - o coração bater desesperadamente no peito. Sabe que na imaginação ou em um sonho acordado, nada do que está acontecendo pode se resolver. Ele precisa sair dali e encarar o que há de pior antes que seja tarde. Precisa de coragem.
- Olha, eu só queria dizer que eu desisto. Pra valer.
- Olha, eu só queria dizer... eu desisto, pra valer.
- Desisto! Desisto! Desisto!
- Olha, desisto. Digo, pra valer, eu desisto.
- Ei, tô desistindo, viu? Sério, já foi.
- Olha, você já desistiu? Porque eu estou planejando desistir.
Cada frase que ele tenta dizer para o nada, a fim de ensaiar, funciona como todas as vezes em que ele já desistiu dela, deles, de tudo. A cada dia, vinte ou trinta desistências. A cada desistência, um novo plano para voltar atrás. É tão difícil se desatar de alguém, que a liberdade que você costumava sentir ao lado da pessoa passa a soar como uma prisão. Como ir embora e deixar tudo o que já foi bom para um passado remoto? Como não se dedicar a cumprir até o fim as promessas feitas?
Mas pra ele, justo ele, as questões têm mais força. Desistir dela e deles dois, é desistir da única coisa que lhe restou para tentar levar para o resto da vida. Acima disso, não há mais nada. E não é como se pudessem reajustar a situação, tampouco recomeçar. O fim é um decreto de forca, mas caminhar até ela tem sido mais doloroso que o próprio enforcamento. Talvez pela demora, pelo drama, pelo suspense. A procrastinação das maiores decisões de sua vida se torna a causa de desassossegos.
Os olhos reabrem.
Olha em volta, vê tudo escuro, vazio e taciturno. Ele fala sozinho.
- É fácil, você consegue, vá lá.
Fala consigo, fala com outro ele dentro dele que lhe atormenta. Treina o discurso, parece muito agressivo. Treina a fala, parece muito calma. Sem palavras difíceis, sem repetir muito "você". Um beijo de despedida pode ser o melhor a se fazer, mas e a explicação? Ao fim, deixa a chave no carro e sai. Parado, aguarda um roubo, um assalto a mão armada, só para ter uma desculpa realmente boa para estar ali.
- Fui roubado e sua casa era a mais próxima.
- Aproveitando que estou aqui... Podemos parar de nos ver.
Ele resmunga. Até os ladrões com suas armas estão dormindo, e ele está inquieto sem se mover, tentando dar fim ao que não sabe viver sem. Finalmente para em frente a casa dela, fisicamente, e recupera memórias dentro de si.
- Desiste.
- Não posso.
Não pode.
- Sem chances.
Então, em completo desespero, com o coração querendo rasgar seu peito, volta para o carro não roubado, liga-o, ferve a mente, e vai embora. Hoje não é um dia favorável para pontos finais, diz em voz alta. Liga o som.
"Desculpe, estou um pouco atrasado, mas espero que ainda dê tempo de dizer que andei errado e eu entendo...". Nando Reis teve coragem.
Porra.
Amanhã ele tenta, ele jura que vai tentar. São só duas semanas fazendo essas visitas todos os dias, são só duas semanas com o mesmo CD no carro repetindo a música de sempre, são só duas semanas sendo um só numa cama, um só numa madrugada vazia, um só num carro não roubado, um só com tanta coisa para dizer. (Acontece que ela foi embora justamente porque disse seus tantos primeiro, sem medo). E ele fica ali, preso ao seu próprio corpo e mente, preso a ela, preso ao que sente.

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