quinta-feira, dezembro 31, 2015

pressa de ser feliz

eu iria parar aqui no meio do caminho, porque eu acho que tô indo rápido nisso, com uma pressa tamanha de ser feliz de vez com a cara e a coragem, - sentir medo é só mais um defeito meu que afoguei nos copos de bebidas que bebi quando as outras tentativas não deram certo -. eu iria parar, se uma coisa maior em mim não estivesse com tanta certeza de que, de agora em diante, errar é só uma questão de sorte para chegar às partes boas.

sexta-feira, dezembro 25, 2015

    É incrível como cerca de um mês foi capaz de mudar meus sentimentos. Uma nova pessoa apareceu. Seis. Não tão forte quanto o Sete foi e talvez ainda seja pra mim. Me faz bem quando está perto e me enlouquece quando está longe, mas isso  é coisa minha. É toda essa minha coisa de ser neurótica, obsessiva e desesperada. Imediata. Eu preciso dele aqui e agora, é sempre assim. Eu pressiono a saudade.
    O natal não foi a pior noite do ano, mas não entrou em patamar nenhum. Tive insônia, tive overdose de pensamentos, tive aquele sentimento de falta que me persegue. Falta não sei de quê.

Espírito natalino

    Essa noite não é como todas as outras, mas eu a conheço de alguma época, como se esse instante fosse uma coisa vivida há um tempo atrás. Não consigo lembrar quando aconteceu e não sei lembrar como termina, mas me arrisco em permanecer acordada até que o próximo dia venha. Quero vê-la passar.
    Sobre o que sinto agora, ainda não sei. Talvez seja a saudade barata causada por uma paixão passageira que me leve a essa nostalgia mais profunda, ou vice-versa. Talvez seja a falta de amor lá fora e o excesso de amor dentro de mim. Talvez seja o quanto não demonstro e o quanto sonho com demonstrações de afeto. Sobre o que sinto agora, somente o ar um pouco incômodo do ventilador, a paz dos ouvidos pelo fim dos fogos de artifício e a vontade de ter bebido qualquer coisa com álcool.
    Meus toques em mim, toques próprios ainda que desapropriados, os toques são bons. Eu estive sentindo minha pele e imaginando a sensação de outras pessoas que já a sentiram. Penso sempre em agradar o quanto posso e ter sido boa o suficiente na medida que pude. Por agora, não soa tão difícil. Mas o abraço de uma ou duas pessoas - com suas particularidades e impossibilidades de estarem comigo agora - me fazem falta.
    A noite não corre, a noite não caminha, a noite vaga. Os minutos são processos minúsculos de sentidos, pensamentos e devaneios que vão estourando - silenciosamente - no ar, aos poucos, depois de inflarem alimentados por tudo o que há na minha cabeça. Algumas luzes aqui e ali permitem que eu veja o máximo que é também o mínimo desse horário, a melhor parte: um pouco do céu lá fora, silhuetas dos móveis e os dedos das minhas mãos que teclam um novo texto.
    A noite não me apresenta nada além do que eu mesma posso produzir, e ainda assim me disperso. Procurando um objeto qualquer vulgar, um inseto qualquer chato, uma pessoa qualquer no portão. Procurando algo que me tire daqui de imediato - somente porque sei que nada vai surgir e não terei de sair do cômodo. Procurando apenas porque estar comigo mesma, tão entregue e livre, causa algum medo meio sem sentido.
    Às vezes a inspiração parece falhar, e lembro da única pessoa que me faz escrever até quando eu peço para sumir, desaparecer, não me ver mais por nunca mais pelo resto de nossas vidas. Por muitas vezes eu pareço falhar, apenas por ainda buscar inspiração nesse alguém. Quem diria, então, que todas as aparentes falhas fossem me trazer até aqui. A vida de escritora não soa tão mal quando se tem como matar o tempo em uma noite natalina de insônia.
    Não há muito o que desvendar nesse meio escuro. De todo jeito, encontro novos motivos para não estar tão feliz, tão triste, apenas meio-termo. A vida é morna daqui pra lá, como quis ser também de novembro pra trás. Há muito em mim, eu repito sem parar, e há pouco lá fora, eu reclamo sem parar, o equilíbrio ocorre em instantes raros que tento recriar de novo e de novo. Nessa noite, enquanto todos dormem, o equilíbrio quase acontece.
    Essa noite não parece fim. Os filmes, as relações - e também os amores -, as ceias, o trânsito, tudo deveria começar nessa média de horário das duas da manhã. Deveríamos dormir enquanto o sol estivesse forte e queimando nossas peles. Deveríamos ter investimentos nas luzes dos postes e nas lâmpadas e nas velas e em tudo o mais que pudesse colaborar com a lua.
Essa noite, tão melancólica e rara, com seus extremos emocionais, à flor da pele, parece a melhor noite para me encontrar.

Flávia Andrade
    Eu sinto falta de você somente porque não posso dizer que é meu, e conto os dias para fazer um convite disfarçado de coincidência de ocasiões. Por acaso a gente se esbarra em um caminho calculado por mapas por mim e não conto a ninguém como foi que te encontrei. Eu sinto saudade apenas porque não sentir seria admitir que algumas horas longe não fazem tanta diferença. E fazem. Eu sinto vontade de te ver só porque fazia um tempo que eu não encontrava alguém que me dava esses impulsos de felicidade que você me dá, e senti-los é mais uma dessas coisas que mudam a rotina sem graça que eu tinha antes de te conhecer. Conhecer esse seu jeito, afinal, depois de saber seu nome, foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos meses. E por isso, eu tento ser um pouco melhor do que sou, de uma forma mais bonita de me apresentar, pra não te deixar desistir tão fácil.

Flavia Andrade 

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Here we go again.

As partes mais bonitas eu guardo pra mim, e aqui coloco só o que me resta para mostrar a um mundo que não confiava nas boas decisões que eu pudesse fazer. Eles me viram insistindo no que nunca poderia dar certo, como os choros no ponto de ônibus depois das dez da noite por não ter encontrado quem disse que me encontraria. Eles me viram desistindo de mim mesma apenas para me adequar às vontades de um alguém que nunca se interessou no que eu tive a oferecer. Eles quase não suportaram as mudanças, porque a dor de não ser mais eu transbordava e espirrava algumas mentiras neles. Mas, como se não fosse mais uma vida minha - vida errante, eu comecei a me (re)encontrar. Deve ser essa coisa sobre se encantar por um detalhe novo dos dias que finalmente parecem passar. Deve ser algo sobre se apaixonar novamente. Deve ser algo sobre confiar no amanhã, valendo como dia 24 de dezembro, valendo como um dia qualquer de 2015, valendo como um recomeço meu numa data propícia.

Flavia Andrade 

terça-feira, dezembro 22, 2015

Outra fuga

    Pra lá eu vou. Sem nome nenhum, porque só os mortos têm nome e sobrenome reconhecidos lá pra fora do país. Eu vou ainda viva, ainda que embriagada demais para jurar vivacidade de consciência. Vou atravessar de mundo em mundo pra chegar numa rua só: a que vai me fazer feliz. A rua onde você escondeu seu corpo esguio, fingindo não querer mais nenhum abraço meu.
    Eu não consigo relaxar os músculos, não consigo desacelerar o coração de volta à normalidade aceitável. Eu não consigo respirar muito sem algum pensamento sobre você. Não consigo pensar muito sem parar no seu nome. Não consigo ver tanto seu nome por aí sem querer te ver. Não consigo ir te ver sem me encontrar primeiro, sem ter medo de me perder na sua frente. Não consigo perder esse medo enquanto você não me chama com breves insistências. Não consigo explicar o quanto umas tentativas a mais aos meus charmes às vezes caem bem. Não consigo explicar, afinal, muita coisa. Não sei fugir do meu próprio silêncio, mas sei que quero te deixar acomodado até quando não tivermos palavra nenhuma para dizer. Não somos de mudez mútua, mas risada a gente compartilha até que bem. E não sei perguntar se você está bem com a sinceridade maior de pedir para me contar cada angústia guardada e cada felicidade sua que não presenciei antes. Não sei manter a conversa até descobrir sua vida inteira e pedir pra me encaixar. Eu estou sentindo tudo, mesmo sem conseguir nada além de te abraçar bem forte significando muito além de um calor casual. Assim, perdida e bagunçada, como uma pedrinha importante no bolso de uma pilha de roupas sujas, eu espero você me descobrir.

Flavia Andrade

O tumulto e a falta

[Disponível no Wattpad]

Imagina aquele bar lotado como você nunca viu. As luzes até pareciam insuficientes, as pessoas em pé cobriam a visão de quem, como eu, estava sentado. O atendimento sempre foi ruim e a mulher não ouvia meu pedido, eu só queria uma cerveja gelada. Para ser atendido era preciso gritar, mas minha timidez no mundo fora de casa nunca me deixou fazer isso, você sabe, e eu só consegui beber depois da meia-noite, uma coisa meio quente e sem graça. O tempo todo olhando ao redor buscando qualquer alma que pudesse me salvar da solidão de ter me enfiado ali naquele meio de gente esquisita. O tempo todo te buscando, tanto que te vi. Eu sabia, eu juro que ainda sabia que você estava longe naquelas horas, andando pelo Chile ou pelo Peru, mas imagina o bar lotado me sufocando, me deixando tonta, me deixando agoniada. Eu queria tanto te encontrar para buscar abrigo que te vi no rosto do moço com uma barba feia perto da nossa mesa. Nossa, porque a marcamos com fogo do isqueiro. Tentei, toda errada, passar pelas pessoas suadas e te alcançar - mesmo que dentro de mim uma pessoa mais sã estivesse gritando que não era você ali. Posso ter tropeçado duas ou quatro vezes, posso ter me perdido em um rápido apagão. As pessoas queriam ouvir o primeiro show acústico que iria rolar daquele homem quase-famoso no bar, enquanto eu só queria saber por que infernos tinha ido parar no pior lugar para se estar naquele dia, naquela noite. Eu correria dali, digo, atropelando todo mundo no meio de um surto desesperado. Eu correria, mas não poderia admitir que estar ali sem você era tão difícil a ponto de causar uma fuga.

As fugas são suas, no fim. É você quem vai embora sem deixar muitos rastros além de mentiras, é você quem some do dia pra noite. Enquanto fico aqui - querendo não admitir que outra vez o baque da sua falta foi causada pela minha falta de preparo para outra partida sua - acabo esquecendo como foram os erros que cometi ao seu lado, e sei que quando você retorna, eu os refaço.

Imagina aquele bar formigando como não aconteceu na inauguração e nem no dia de promoção de cerveja por dois reais e setenta e cinco. Você estaria achando graça do meu olhar assustado e não se preocuparia em buscar caminhos até alcançar o balcão e garantir quantas bebidas quisesse com todo o ar de certeza sobre as próprias decisões da vida que sabe transmitir.

Sem que eu precise pedir para imaginar, você sabe que fiquei naquele canto cobrindo os furos da mesa com os dedos como um joguinho infantil improvisado, toda distraída em relação aos movimentos alheios. Se não ficasse ali, eu não saberia ir mais longe e voltaria para casa para olhar fotos antigas e olhar seus olhos nelas e olhar o bem que você me fazia e olhar tudo o que você deixou escapar de mim.

Eu não estava gostando do som, da bebida, do trânsito de pessoas, dos sentimentos aflorando como uma sintonia que soa nos ouvidos até alcançar as partes que doem, como se dedos puxassem fios dentro de mim buscando notas musicais de ritmos tristes. Como são aquelas músicas que você me apresentou do Neil Young, como Like a Hurricane.

Os cachorros estão com gravatinhas natalinas, de banho tomado, esperando você voltar com o perfume que eles gostam de sentir a três quadras de distância. Eles sentem saudade e correm pela varanda e brincam entre eles e querem que alguém arremesse a bolinha amarela para que busquem o mais rápido que podem. Mas meu coração te espera como uma moça esperando seu homem no porto vindo na próxima embarcação, parado e taciturno.

Imagina aquele bar lotado como você vem lotando minha mente. Eu não sei dizer se os burbúrios de fora conseguiam ser piores que os de dentro de mim, mas sei que nenhum calava o outro. E para acalmar qualquer um dos dois, eu precisava de você ali. E para a noite não ser tão boa como poucas vezes foi, você não estava. E para variar um pouco do que sinto, eu me arrisquei naquele cara que parecia um pouco com você.

Imagina aquele bar lotado e eu - engolindo choro, cerveja e saudade - dei o amor que sobrou para o primeiro que falou algo que fizesse sentido, ainda que fosse só naquela hora, porque eu estava só, feita de só, lá, dó. Naquela hora, eu sabia, você percorria ruas e ruas parando apenas para tocar violão e notas mim. E sei ainda que perdeu de fazer seu maior concerto no bar. Eu apenas não sei quem anda perdendo mais, quem caminha mundo afora ou quem fica economizando pernadas. Quem vai e deixa a vida ou quem fica e perde a chance de viver melhor. Quem não liga mais por ter perdido a coragem ou quem não recebe mais ligações por ter perdido o contato. Quem vai pior?

No meio de tanta gente talvez eu não fosse a única no fundo de um poço emocional. Talvez estivessem ali os mais desgastados, os mais cansados de perder alguém. E se você foi embora para andar com os alegres, talvez esteja se desequilibrando, sendo o único sozinho e com espaços vazios a preencher. Eu não acuso, eu tento me conformar de um jeito distorcido como me ensinou. Essa comparação apenas nos aproxima porque, sem um e sem outro, somos iguais.

Imagina aquele bar lotado e você me encontraria, reconhecendo-me até mesmo se a lotação fosse só uma coisa de um sonho meu ou seu, assim como eu soube te encontrar.

segunda-feira, dezembro 21, 2015

    Eu fico parada no meio da sala de estar enquanto aquela música que diz tudo o que eu não sei dizer toca. Eu fico aqui porque na cabeça os pensamentos giram acelerados, causando em mim uma overdose de possibilidades, hipóteses, otimismos e pessimismos. Eu tomo todas as doses de todos os tipos de ideias futuras. De agora em diante, faço o de sempre, pois sou uma persistência dos mesmos erros. Até aí, logo no início do meu relato, você se encontra percebendo que eu me esforço para não ficar em paz no que me meto sozinha, e que saboto a minha vida apenas por exagerar um tanto cada sentimento. Olha aqui a menina que erra de novo e de novo no mesmo ponto, no mesmo horário, com os mesmos motivos. Pode parecer o pior de mim, o pior do que faço, um jogo sujo contra o que desejo. E então, a partir dessa frase, começo a trazer alguma razão quase suficiente que me justifique e me salve por algum tempo razoavelmente bom. Eu erro de novo porque espero o melhor. Eu repito o erro porque nunca perco a confiança cem por cento. Eu insisto no que não deu certo porque alguma fé, superstição ou algum resquício infantil de acreditar em mágicas me move até o ponto de partida de sempre. As chances da vida me frustrar outra vez são sempre as maiores, mas os riscos me rodeiam, me contornam, funcionando como os riscos que faço em folhas formando letras e palavras e frases. E eu não sou de negar nenhum tipo de risco, nem de corrê-los nem de escrevê-los. Bato de frente, ainda que doa depois. Vou pra cima, ainda que despenque rapidamente ou lentamente no chão. Isso deve ser alguma coisa grande de gente otimista, algo que as camadas espessas e velhas de pessimismo por cima do meu corpo não conseguem aceitar tão bem. Ter otimismo, afinal, é o maior risco de todos. E eu pego pra mim como uma coisa casual que tenta ser séria.

Flavia Andrade

domingo, dezembro 20, 2015

a quebra do clímax

de repente, o dia chato ganhou um tom bonito, e eu estava com as minhas pernas esticadas no colo dele, questionando o gosto do vinho barato que compramos.

- dever ser o gosto de cerveja que já estava na sua boca.

ele tem explicações óbvias que sossegam meus questionamentos disparados. de repente, o frio nos serviu de empurrão do destino para nos juntar um pouco mais, aquecendo-nos. lá estávamos, parecendo duas pessoas que se pertencem com um conforto tamanho que os outros ao redor não podem interromper. olhávamos nos olhos para falar sobre o que há de mais simples.

eu não sei como tanta gente chegou, formando uma roda de onze ou doze pessoas com seus copos e seus cigarros e suas histórias e suas risadas. eu os conhecia, mas não queria ir além para desvendar todos os seus mistérios como queria fazer com ele que estava ali perto, ao meu lado. sei que soa clichê, mas nunca fomos mesmo de escapar dos dramas e romances mais comuns da história. talvez até gostemos de nos parecer com personagens de livros, tornando-nos assim uma reviravolta literária: a realidade exposta da representação do real. porque a escrita exagera a vida quando a imita e, estando juntos, somos essa prosa já exagerada - ainda que nos falte vocabulário. somos personificações da imitação de outras pessoas. lembro que o vinho era só para nós dois, e, a partir daquilo - daquele acordo de beber uma coisa só nossa, partimos para a sensação de beber só de nós também, adentrando um mundinho particular. eu estava bebendo da sua presença para não me sentir mais sozinha e ele estava bebendo do meu jeito de encará-lo como quem sente um amor gritante, assim, conseguia prosseguir com aquela noite que, antes mais cedo, ele nem queria viver.

eu deitei minha cabeça em seu ombro para que a tontura da embriaguez passasse, para que um afago viesse, para que tomar um pouco de si para mim ficasse mais fácil através dos pequenos toques e gestos. fiquei ali pensando em um futuro não tão distante que, por mais inventado que fosse, no meio de algum otimismo certo meu, poderia acontecer. não era minha hora de criar expectativa, mas eu criava como quem cuida de um animal dócil, criava com cautela.

nós saímos de lá de fininho, quase nas pontas dos pés. foi para escapar deles e somente assim poder no encontrar como estávamos querendo: profundamente. escorados no muro baixo da sua casa e de repente seu corpo contra o meu e de repente ambos os corpos enlaçados e de repente os dois no sofá e de repente suspiros. queríamos nos encontrar daquele jeito sem saber o porquê, mas lá estávamos. se foi cerveja, se foi vinho, pra ele eu não sei, mas pra mim foi só ele, o único motivo para estar ali.

eu ficaria até não existir mais aquele dia, até ser outro e outro e outro. eu permaneceria, assim tão fácil, sem pedido, apenas ficando mais e mais. feita de repetições do que foi bom. mas ele não sabe ter ninguém pra sempre quando o tempo começa a passar rápido demais. comparar os dias e ver todos iguais machuca-o um tanto, e ele não me deixaria transformar nós dois em rotina.

fim de embriaguez, ressaca e pé na estrada. minha hora de voltar pra casa. eu viverei mais dias chatos outra vez.

quinta-feira, dezembro 17, 2015

Guria de papel

    Foi em um dia de sol, no qual o sol parecia desenhado e pintado com lápis de colorir amarelo: estava ali só de enfeite e não queimava, foi num dia desses que aquela menina nasceu. Sem dentes, embora já soubessem que logo que aparecessem também iriam amarelar. Ela nasceu felina, feito gato: ficou pouco com a mãe e logo foi largada no mundo. Não teve dono também.
    A menina ficou ali precisando de leite, mas só tinha sete vidas persistentes e vento nenhum, chuva nenhuma a fez se perder dela mesma. Suportou todos os traços coloridos de alguém bondoso que ainda se dava ao trabalho de pintar um céu inteiro para ela e, vez ou outra, coloria uns carros na cidade que tinham barulho só de papel amassando na mochila no meio dos cadernos.
    A menina nasceu no ar, tão abandonada e sem atenção que quase virou bolinha arremessada na lixeira do canto da sala de aula para crianças. Mas era sortuda, tão sortuda que foi esquecida na mesa mais limpinha e lá teve oportunidade de sentir o cheiro da merenda e o passar dos dias.
    Tinha olhos pregados pra direção exata de olhar pra fora e enxergar o universo no qual não poderia estar, mas, de alguma forma, vinha de lá realmente. 

quarta-feira, dezembro 16, 2015

Só por um dia e pra sempre

[Disponível no Wattpad]
[Recomendação de música: Heroes - David Bowie]

Perdoa o meu corpo cansado que deixei pousar no seu sofá. Eu não trouxe nada, além de chegar transbordando sentimentos, sentimedos, as más emoções sem-ti e coisas assim. Porque venho como uma curiosidade qualquer indecifrável. Pareço lua cheia em eclipse - me mostrando por inteiro no lado escuro. Escondo tudo de mim para que não roubem pedaços, e me revelo em quartos fechados apenas para não me sentir presa sempre. Ando com medo de assaltos à mão afável, que no primeiro toque discreto levam bens e segredos não-materiais. Deixei pra fora qualquer vontade, e fui um tanto mal educada não oferecendo (a mim mesma) abraço (seu) nenhum. Só cheguei para ser só, como sempre sou, mas dessa vez do seu lado.

Perdoa o meu cheiro de cigarro tomando a sua casa. Eu traguei a nicotina e a saudade, amarelando cada parte minha. Meus pés queimando dentro do sapato como se fosse dentro deles que as cinzas e bitucas tivessem caído, meus pés quiseram me fazer te buscar. E eu vim, desse jeito de quem não nega mais impulso algum. Eu vim sem explicar as razões que não tenho, que não engulo, que minhas emoções não deixam me atravessar.

Perdoa por não ter muito o que dizer agora que estamos frente a frente, e por pedir pra ligar o som naquela música que só eu gosto. É porque nela tem toda a poesia que não sei te mostrar e te fazer digerir através das palavras minhas. Aos poucos, eu apenas sei dizer que venho me apaixonando. Não é por você, é por detalhes seus. Não quer entrar nessa dança sem ritmo comigo? Passo-a-passo: olhares, desviares, um projeto de não ser mais um estranho pra mim, de não ser mais uma estranha pra você. Se fingirmos uma boate na sua sala com a coragem de uma embriaguez, podemos ficar até não existir mais calendário.

Para além do agora, não tenho planos. Para além de hoje, não conto dias. Para além de nós, não há mais ninguém. Mas eu espero que a gente sobreviva. Nós poderíamos ser heróis só por um dia, não é isso que o David Bowie canta? Nós poderíamos nos salvar e salvar a nossa atmosfera apenas se respirarmos juntos entre tudo o que podemos fazer com os nossos corpos.

Eu pediria desculpas apenas por ter começado esse novo texto sobre você, mas depois do vigésimo quinto a gente já não se preocupa mais. Eu pediria desculpas pelas ironias tamanhas que tentam disfarçar minhas vergonhas, meus anseios, meus desejos, mas depois de um dia inteiro fazendo confissões em um tom de voz sarcástico, você já aprendeu a descobrir as minhas verdades. Eu pediria desculpas por, a essa altura, te querer tanto. Mas estamos juntos, não estamos? Então você me quer também. A culpa é de quem não pode mais nos ter.

Sei que, caso você acredite em alguma coisa de instinto masculino, vai querer ir embora na minha primeira demonstração de afeto. Eu sou dessas pessoas que escrevem sentimentos, materializam sentimentos, transformam sentimentos, e uma demonstração é sempre exagerada. Mas eu juro que mesmo sentindo muito e mostrando ainda mais, o que peço de você é bem pouco.

Eu peço - como quem conta um segredo - para me encontrar por acaso até quando penso que não vai vir, para me roubar um riso até quando acho que o dia só quer me trazer uma dessas depressões contemporâneas que nos afundam só por estarmos vivos. E se for pedir muito, peço apenas para me deixar te encontrar e te fazer rir. Posso ser o bem pra você que eu quero que seja pra mim. Eu peço para acreditar no que não digo, porque significa sempre mais do que as besteiras que me escapam.

Por fim, me perdoa por andar pela rua sorrindo por lembrar das frases que me diz, algumas meio a toas, e por acabar tropeçando por ir depressa apenas por querer parar no portão de casa e te chamar mais uma vez. 





segunda-feira, dezembro 14, 2015

Ao Bukowski

     Você aposta em cavalos, Bukowski, eu só sei apostar no amor. Sei que também já apostou nessa coisa que é tudo aquilo que dissemos que não era, porque reconheço seu sentimentalismo de longe, nas entrelinhas mais discretas. A diferença entre você e eu, é que você sabe fingir bem que não sente nada por ninguém, só sente muito pela própria vida, como se um suicídio fosse um favor que você não vai cumprir tão facilmente. Eu não sei fingir nada e me deixo exposta em um sol de meio-dia lembrando das coisas suas que já li. Eu te vejo com suas incontáveis mulheres, adorando todas elas com seus defeitos mais gritantes - porque você gosta dos erros, das falhas -, e de minha mulher eu só chamo a cerveja, o único cão dos diabos que me dá bons efeitos. Essa cerveja aí é tudo o que você quer pra agora? Não vai pedir um vinho ou um uísque? Eu pergunto isso porque, na verdade, gostaria de estar perguntando o que te abala e te faz chorar deitado em posição fetal no meio de uma crise, mas soaria um porre. Perguntaria isso apenas porque estou aqui comparando sentimentos nossos, procurando qualquer deslize que sai de uma palavra sua e corre até uma minha para que possamos nos parecer em algo, porque meu desespero grita. Meu desespero de entender como é ser um escritor como você e para entender como é ter mais de cinquenta anos e não morrer de decepção com a própria escrita - porque acreditar que ela é boa é difícil demais. Eu me pergunto, e queria ter uma coragem tamanha de perguntar pra você, admitindo até que não reconheço em mim forças para isso, como os grandes títulos geniais aconteceram. Francamente,"Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém", como isso aconteceu? Como os pedaços de um caderno manchado de vinho surgiram? Como você colocou todas aquelas salas de estar que sempre davam em cozinhas com bebidas no Hollywood? Como uma crise existencial vai de um pássaro azul a uma reflexão sobre merda? Eu não saberia percorrer tanto caminho dentro de uma literatura assim nem se escrevesse em todo muro que eu encontrasse daqui pra frente. Eu não saberia enganar tanta gente do século XXI com frases pseudo-otimistas, soando com uma pessoa que até faz auto-ajuda, para em uma leitura mais aprofundada revelar que as lamentações de um velho safado nunca fizeram sorrir, a não ser através daquela risada ácida sobre as piores desgraças da vida.
    Nós podemos conversar sobre as mulheres e suas formas, e seus corpos, e seus cheiros, e seus jeitos. Nós podemos conversar sobre as bebidas e seus gostos, e seus efeitos, e suas ressacas. Mas a escrita sempre vai ser pertinente quando se trata de você. Seu silêncio eterno vai dizer "Don't try" e eu só queria saber como é não tentar em uma coisa tão imprevisível, como é não ir em frente até quando não se sabe se pode sair um texto muito bom ou muito ruim. Que porra você faz na frente da máquina de escrever? Vira garrafas e escreve tudo o que quer? Fica encarando aquelas letras, aquele papel, aquela ideia dentro da mente? Eu não sei como, de todos os resultados possíveis, você conseguiu os melhores, sendo apenas um fodido na vida. Digo, você não escreveu sobre dragões e deuses mitológicos, tampouco sobre fantasmas que não fossem a própria consciência e a própria razão. Você foi o melhor fodido nessa vida toda, certo?
    Sei que não ficará por aqui sanando dúvidas, então, antes que se levante para ir embora e eu precise começar uma briga com alguém do bar para te fazer ficar mais um pouco, eu só vou dizer uma coisa qualquer sobre inspiração. Sobre o quanto as duas primeiras páginas de Pulp, primeiro livro seu que li, mudaram toda a minha visão sobre tudo. É irônico como logo o seu último livro foi o meu primeiro - e a essa altura já não sei mais em que época planejo essa conversa toda -, e é um tanto engraçado como desde então eu nunca mais quis seguir padrão nenhum de escrita. E é curioso como uma garota de 15 anos lia Charles Bukowski escondida enquanto matava aula na escola e, sabendo pouco sobre a dor e lendo muito de um rabugento, quis fazer algo parecido na vida. Anos mais tarde, Buk, eu descobri o quanto o álcool salva a escrita, na hora ou depois, no porre ou na ressaca, na tontura ou na ânsia, no fogo ou no banho gelado. Salva sempre. E a escrita salva a vida, isso eu leio em cada linha sua. Nosso brinde pode ser contínuo: um copo de cerveja gelada virado de uma vez em todas as vezes que bebermos e pensarmos em algo para escrever.
Flavia Andrade

terça-feira, dezembro 08, 2015

O mundo a nós pertence

[Disponível no Wattpad]

    Eu o abracei com uma força tamanha, querendo deixar meu corpo largado de lado para tomar o seu para mim. Parecia, àquela altura, que ele sabia lidar melhor com seu peso, sem andar se arrastando, sem querer passar dias inteiros na cama. Eu queria um pouquinho daquela existência desejada, para variar meu sono de sempre diante de cada "bom dia" do mundo. Os dias pareciam piorar com o passar das manhãs, fazendo o sol matinal brilhar como uma risada irônica do destino. Nele, no moço ali no meu abraço apertado, isso não parecia tão ruim.
    Com o rosto afundado em seu ombro, contendo um choro fraco, pedi para ir pra casa. Minha voz estava embargada e eu tinha cautela para não manchar sua camisa. Demonstrava o quanto estava insegura perdida ali na calçada, como alguém deixada para trás, soando como um drama ensaiado. Afinal, nunca fui de negar comoção. "Mas você já está em casa", ele me disse na boa intenção de me pedir para entrar e oferecer minha própria cama com cobertores. Eu não quis, não aceitei. Aquela construção não me importava, pois eu não me sentia abrigada ali, tampouco sentia que pertencia a algum tijolo ou móvel. Meu lugar era algum outro que eu ainda não conhecia, embora quisesse visitar tanto.
    Meu pedido de ir para casa queria significar os desejos mais profundos, ainda que tímidos, de ser acolhida em seus braços pela eternidade da madrugada. De olhos bem fechados, sentindo os perfumes misturados em seu pescoço, querendo mais do que me era oferecido, eu fiquei ali, abraçando-o. Prendendo-o ao meu enlaço desastrado, pedindo conforto. Não é como se pudéssemos ir para longe encontrar um lugar melhor, mas não encontrar outra saída me forçaria uma despedida que eu não queria dizer ou ouvir. Eu queria estar com ele em um cantinho só nosso, e pedir aquilo soava melancólico demais.
    Minuto após minuto, ele não sabia encontrar uma escapatória para o meu tumulto interno com o qual eu não queria ficar sozinha. Eu não planejava parecer assim tão dependente, bebendo da sua presença para anestesiar o que doía em mim sem dó e controle. E, ao mesmo tempo em que pensava ser um sufoco a mais ao seu dia movimentado, eu gostava de acreditar que um pouco de mim e do meu desespero emocional lhe servisse para alguma coisa qualquer experimental, ou para uma prova somatória de pontos meus. Em algo aquilo acabaria, e eu torcia para que fosse bom.
    Eu queria ir pra casa e a chave era dele; eu queria seguir um novo caminho e era ele quem levava o mapa na palma das mãos.
    Nós começamos a dar alguns passos que me disseram afagos para o coração, como sinal de que finalmente fugiríamos para somente ele poderia me levar. Ele que soube ouvir meu grito efêmero e mudo de quem tentava quebrar cadeados invisíveis. Viu que era naquela calçada na frente daquele portão que eu não ficava bem, e quis me levar para um canto escondido como um cleptomaníaco vendo um objeto simples e desejando incontrolavelmente. Eu era sua pedra não-tão-preciosa que, mesmo não devendo estar sob sua guarda, brilhava para longe sem deixar rastros. Notando a minha importância, meio discreta e contida, quis puxá-lo para o meio da rua e dançar a dois, uma dança inventada e sem som sobre nós, apenas por ter me compreendido.
    Nosso caminho poderia, a partir daquela decisão de me levar embora, ser a descoberta das outras ruas até não restar mais chão. Eu não me importaria se fossemos tomados pelo cansaço e não conversássemos mais para poupar os lábios de se moverem. Seguindo dali eu poderia descobrir palavras até mesmo no vento quente da cidade abafada e ficaria bem. Ficaríamos bem.
     Ele me estendeu a mão direita e pisamos em sintonia, passo a passo, sem tropeço nenhum. Eu não sabia por onde aquela construção idealizada de casa tinha ficado, e não me interessava o esquecimento, pois não queria voltar. A meia-noite se esticou sem receios até as quatro, as seis, as sete e meia da manhã, quando paramos para tomar café com leite de um real e cinquenta. Seu efeito de me fazer bem foi crescente, aumentando da hora em que me encontrou até as horas em que não me deixou esquecê-lo. Roubando de mim os risos que as flores que cantam em Alice não souberam roubar tão bem e tirando do meu corpo o que os mantras antes não souberam aliviar.
     Eu me afastei por alguns vinte centímetros, apenas para enxergá-lo em completude. Obrigada por me levar pra casa, eu agradeci. E talvez, com as tantas olheiras no rosto, ele ainda não tivesse percebido o quanto rodeamos uma parte da cidade como se fosse nossa, tomando as ruas, os bancos, as árvores, os muros, as portas, as câmeras de segurança, os postes, as lixeiras enormes, alguns carros estacionados e telhados para nós. Fomos donos e empregados do mundo, ocupando os lugares que nos chamaram e organizando os espaços que nos transbordaram. Tínhamos ido para casa, finalmente.
    Renovada, soltei-o. O sol raiou pra nós sem rir do rumo que tomamos.

quinta-feira, dezembro 03, 2015

Se eu pedir

[Disponível no Wattpad]
   Se você me ligar às quatro da manhã, eu vou atender. Talvez com uma voz mau humorada e dizendo alguns palavrões que te façam rir, mas não vou rejeitar a ligação depois de ler seu nome na tela. Porque sei que é insone. Vou saber que precisa conversar comigo, nem que seja para não fazer sentido e não nos contextualizar em seus devaneios. Eu sei do grande feito de ter assistido a todos os filmes que passam na sessão da madrugada e que agora não tem ânimo nenhum de ligar a tevê, e sei da problemática de não conseguir ler livros depois que anoitece - porque não se concentra. Então eu atendo e digo uma coisa qualquer confortadora ou risível.
    Se você me pedir para te acompanhar ao mercado, eu vou. Talvez demore para colocar uma roupa de sair na rua, talvez antes disso pergunte por que é que você não vai sozinho, mas acabarei indo. Mesmo descabelada e com a blusa do pijama. Porque sei que morre de vergonha de falar com estranhos e se complica até para pedir meio quilo de alcatra no açougue. Eu sei que não gosta de fazer compras sozinho porque não difere marcas e vira uma indecisão ambulante na sessão de doces. Então eu encho seu carrinho e te convenço na fila de que é a melhor compra da sua vida.
    Se você disser que não sabe para onde ir, mesmo depois que eu já tenha entrado no carro e colocado o cinto de segurança, eu vou continuar ali, esperando pelo destino ao qual vai me levar. Eu vou confiar em gostar, seja o rumo qual for. Eu sei que, mesmo sem saber, você sempre chega a algum canto e faz dele o melhor lugar pra gente. No meio dos defeitos, você tem esse dom de deixar tudo melhor. Podemos ligar o som, podemos optar por uma única estrada, podemos amanhecer na rua, e ficaremos bem se formos juntos.
     Se você segurar na minha mão durante o show ao qual tentei te convencer a ir por mais de um mês, eu vou saber que estará querendo ir embora. Não é seu estilo e não sabe nenhuma letra de cor. Eu vou esperar tocar só mais uma música e vou te tirar de lá. A gente pode ouvir o mesmo som no seu rádio no quarto, e sei que no escuro só comigo você vai acabar dançando sem ritmo como nunca faria na multidão.
    Se você disser coisas sem sentido no meio de um desespero emocional, não precisa pedir desculpas pela confusão. Eu também sou um tanto assim. Vou olhar para os seus olhos, porque é a única parte de você que fica calma quando seu mundo parece desabar, então vou dar um jeito de deixar a gente em ordem. Vou dar meus pulos pra gente conseguir uns remendos e umas peças novas para nossos corpos cansados pelo que já foi quebrado.
    Mas, por favor, se eu pedir para confiar em mim como estou pedindo agora, não se arraste sozinho para os tumultos que sente, vez ou outra, quando se esquece do quanto importa para um mundo inteiro dentro de mim. Não se esconda para gritar todo o sufoco que te invadir por inteiro até que não dê mais para manter guardado. Não chore no meio de um surto claustrofóbico por ter medo de correr até nossa liberdade. Eu vou estar aqui acompanhando todos os seus jeitos de deixar o mundo ao contrário, e me virando de ponta cabeça para te ver na mesma sintonia. Eu vou estar aqui entre as coisas tantas que não te deixam ser só mais um na minha vida e as outras coisas exageradas que não me deixam te deixar.

Meu próprio City Lights

    Que a cidade me perdoe por encontrar em cada canto, beira e centro dela, muito de você que persiste em ficar aqui sem discrição. Parecendo que sobrou perfume seu no ar ao se despedir com os olhos semicerrados. E que perdoe a culpa das esquinas e dos bares, dos ônibus de número 87 e da praça por me fazerem (re)contar quanto tempo faz que a gente não se vê. A cada dia que passa, além de deixar tudo nosso mais pra trás, é uma chance a menos de ir te buscar, mas os números são só números. Sozinha assim, em meio aos crimes de apego, eu só desejo que minha mão que escreve saiba desculpar meu inconsciente inconsistente que transforma as frases mais banais em textos de poética dos sentimentos exagerados sobre nós. É que a saudade me mete em confusão. E de todas as formas de me perder na rua, o perigo maior é querer te ver outra vez e pegar estrada pra te encontrar. Porque só de estar aqui, a sua falta me empurra ao seu encontro, e eu juro que levo os filmes e os shows gravados daquelas bandas pra gente assistir aí nesse lugar novo que te prendeu. Que a cidade tão nossa, um pouco ciumenta, não chore quando eu for embora também, e guarde com zelo as nossas memórias até que a gente volte para reinventá-las.
Flavia Andrade
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