domingo, dezembro 20, 2015

a quebra do clímax

de repente, o dia chato ganhou um tom bonito, e eu estava com as minhas pernas esticadas no colo dele, questionando o gosto do vinho barato que compramos.

- dever ser o gosto de cerveja que já estava na sua boca.

ele tem explicações óbvias que sossegam meus questionamentos disparados. de repente, o frio nos serviu de empurrão do destino para nos juntar um pouco mais, aquecendo-nos. lá estávamos, parecendo duas pessoas que se pertencem com um conforto tamanho que os outros ao redor não podem interromper. olhávamos nos olhos para falar sobre o que há de mais simples.

eu não sei como tanta gente chegou, formando uma roda de onze ou doze pessoas com seus copos e seus cigarros e suas histórias e suas risadas. eu os conhecia, mas não queria ir além para desvendar todos os seus mistérios como queria fazer com ele que estava ali perto, ao meu lado. sei que soa clichê, mas nunca fomos mesmo de escapar dos dramas e romances mais comuns da história. talvez até gostemos de nos parecer com personagens de livros, tornando-nos assim uma reviravolta literária: a realidade exposta da representação do real. porque a escrita exagera a vida quando a imita e, estando juntos, somos essa prosa já exagerada - ainda que nos falte vocabulário. somos personificações da imitação de outras pessoas. lembro que o vinho era só para nós dois, e, a partir daquilo - daquele acordo de beber uma coisa só nossa, partimos para a sensação de beber só de nós também, adentrando um mundinho particular. eu estava bebendo da sua presença para não me sentir mais sozinha e ele estava bebendo do meu jeito de encará-lo como quem sente um amor gritante, assim, conseguia prosseguir com aquela noite que, antes mais cedo, ele nem queria viver.

eu deitei minha cabeça em seu ombro para que a tontura da embriaguez passasse, para que um afago viesse, para que tomar um pouco de si para mim ficasse mais fácil através dos pequenos toques e gestos. fiquei ali pensando em um futuro não tão distante que, por mais inventado que fosse, no meio de algum otimismo certo meu, poderia acontecer. não era minha hora de criar expectativa, mas eu criava como quem cuida de um animal dócil, criava com cautela.

nós saímos de lá de fininho, quase nas pontas dos pés. foi para escapar deles e somente assim poder no encontrar como estávamos querendo: profundamente. escorados no muro baixo da sua casa e de repente seu corpo contra o meu e de repente ambos os corpos enlaçados e de repente os dois no sofá e de repente suspiros. queríamos nos encontrar daquele jeito sem saber o porquê, mas lá estávamos. se foi cerveja, se foi vinho, pra ele eu não sei, mas pra mim foi só ele, o único motivo para estar ali.

eu ficaria até não existir mais aquele dia, até ser outro e outro e outro. eu permaneceria, assim tão fácil, sem pedido, apenas ficando mais e mais. feita de repetições do que foi bom. mas ele não sabe ter ninguém pra sempre quando o tempo começa a passar rápido demais. comparar os dias e ver todos iguais machuca-o um tanto, e ele não me deixaria transformar nós dois em rotina.

fim de embriaguez, ressaca e pé na estrada. minha hora de voltar pra casa. eu viverei mais dias chatos outra vez.

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Natasha

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