quinta-feira, agosto 11, 2016

    Quando me conheceu com esses seus olhos otimistas viu em mim somente as partes boas; você gostou do meu sorriso pelo olhar semicerrado e não pelos dentes tortos, e escolheu gostar do trançado do meu cabelo sem conhecer seus embaraços de todas as manhãs. Eu juro que sou de outro jeito sob iluminações mais fortes e te faço desacreditar de tudo num segundo. Naquele dia quis gostar de mim pelo meu jeito amigável depois de seis cervejas, não pelo jeito triste que fico aos domingos. Viu apenas quem eu era numa sexta-feira à noite, dentro do meu vestido preto preferido e por trás da maquiagem feita às pressas com alguma fé. Me achou bonita sem saber como me vejo no espelho.

    Nos outros dias eu não sou tão boa assim. Eu sorrio menos, não faço sempre aquelas piadas, e antes que você queira mais daquela que conheceu, aviso: tenho timidez demais para me reapresentar.

    Eu te conheci no meio de uma embriaguez e rodava o mundo todo com os olhos até te perceber por perto, agora tenho noites e dias divididos entre como eu era antes e depois de você. Daquele momento em diante eu quis ser a pessoa exata que enxergou em mim: feita de risos, danças, voz alta e humor ácido. Nem quis mais escrever.

    Mas não posso ser aquela de sexta-feira o ano inteiro, nem quero ser aquela da primeira vista em todos os dias de encontro. Estou longe de me refazer de novo e de novo, já aceitei a condição de ser quem me construí na própria vida, decisão após decisão.

    Quando me conheceu com seus olhos otimistas, negando meu pessimismo que nem esperava te ver de novo, anotou meu número e quis me visitar depois. De tanto encanto seu, adiei com desculpas para não me tornar decepção imediata. Por agora, essa quem te recebe à porta é outra, é nova, e quer se mostrar verdadeira com todas as contradições de ser tanto dona de si quanto perdida demais para se aceitar de um jeito só.

    Se for ficar, traga mais um pouco daquela pra mim, daquela que conheceu e que ficou em você com algum cheiro de cerveja, com o acordo de me deixar te trazer mais um pouco dessa, essa que é mais completa, mais inteira e mais real — e pode sair para dançar também.

sábado, agosto 06, 2016

Gosto dos seus olhos iluminando os meus como luz de abajur pra eu ler seu rosto deitado no travesseiro.

    Quando recebi aquela notícia boa, abracei-a sorrateira, feito coisa preciosa minha. Saí daquela sala agarrada às palavras ouvidas e guardadas cautelosamente. Lá fora, atravessando ruas, fui criando controle sobre o que eu tinha a compartilhar com o mundo inteiro, mas não poderia. Notícia boa tem que ser bem cuidada. Eu queria parar qualquer pessoa na calçada para dizer aos berros o que tinha me acontecido, queria entrar no primeiro bar para pagar uma rodada para todos e me declarar oficialmente como a pessoa que recebeu aquela notícia. Mas fui quieta, fechando um zíper imaginário na boca, levando minha novidade como um presente bem embrulhado para quem fosse ouvir com uma felicidade recíproca. Eu contaria apenas para quem tinha torcido por mim durante todos aqueles longos meses, para quem entenderia meus olhos marejados e eu toda feliz, feliz demais para não transbordar. Quando recebi aquela notícia boa, só quis a presença daquela pessoa ao meu lado para receber comigo. Corri o trajeto agarrada à lembrança, ainda suficientemente real, para contar logo que chegasse: eu diria a ele que dali para frente nossa vida mudaria.

    A saudade sempre soa como uma tarde de 2006 procurando aquela música preferida entre as estações do rádio. Um momento comum demais para que fosse abraçado pela memória com forças quando foi possível, mas significativo o suficiente para ainda ser lembrança, mesmo dez anos depois.

sexta-feira, agosto 05, 2016

    Só notei a nova estação quando vi da janela do ônibus a coloração rosa dos ipês; não haveria outra maneira mais bonita do tempo me avisar que vem passando por nós. Foi uma das poucas vezes que agradeci o movimento vagaroso do veículo, e até devo estar me tornando uma dessas pessoas que não trocam uma cadeira de fio por nada, apenas pelo prazer de sentar e observar a vida ir devagar. Mas entre uma floração e outra a maior descoberta é você: uma primavera que veio para ficar em mim, florescendo sem pausas, sem fins.

quinta-feira, agosto 04, 2016

Talvez me falte descobrir quantas pessoas cabem dentro de uma liberdade, para enfim decidir se tomo coragem para te somar comigo.

    Eu quero voltar para o início de todos os meus planos da vida, daqueles feito com seis, quinze e dezoito anos, apenas para deixar uma nota de rodapé em cada um, avisando a mim mesma, que nenhum deles vai dar certo exatamente como planejei; mesmo assim, cada erro, desencontro e desistência vai me trazer para a melhor realização que antes eu nunca poderia esperar: este momento exato em que tenho você com a cabeça deitada no meu colo e posso te olhar com todo o amor de sete vidas. Posso te ver me encarar com seus olhos desacreditados, mas insisto em dizer: eu não mudaria nada.

    Ele deitou no sofá e cantou os quatro discos inteiros daquela banda nacional. Cada música na sua voz acompanhando o som do rádio velho parecia muito melhor. Eu até quis pagar com a língua dizendo que a banda não era tão ruim assim. Fiquei deitada no chão da sala de estar, intercalando meu olhares entre seu corpo jogado no sofá e a pintura alaranjada do teto. Algumas das faixas dos discos pareciam com a nossa vida, mas eu não sabia se ele interpretava da mesma forma. Afinal, as músicas eram mais dele que de qualquer outra pessoa, e não havia como penetrar mais fundo em sua alma se não fosse com aquelas letras e sintonias de ritmos. Eu fui para sua casa para encontrá-lo e dizer a frase que estava guardando comigo há semanas, mas durante quatro discos inteiros eu não consegui dizer nada. Talvez as músicas estivessem falando mais por nós que qualquer diálogo possível.

    Não tenho sorte, eu confesso, tenho é leveza. Não esquento a cabeça e fecho os olhos sempre que me convém. No meu rosto só levo o sorriso fácil e frouxo, sou cão de rua que se alimenta de casa em casa. Espírito livre sempre tem espaço para receber do mundo as coisas boas. Vou além por andar despreocupada, não conto o tempo que passou nem conto horas para o tempo passar; estou onde pude chegar até agora, e se der, vou mais.

    Quando eu pisei na areia da praia pela primeira vez, já depois de velha e de tê-la como sonho, não disse nada. Eu poderia ter compartilhado a sensação num murmúrio ou grito, dizendo a delícia dos meus pés ali. Preferi o silêncio. Muda, fui adentrando ao ritmo natural das águas: eu, no lugar certinho para esperar uma nova onda vir me alcançar furtosamente; como também nos alcançam os romances mais sutis.

    Os minutos passam cadentes pelo céu quando te encontro, pois a eles não cabe a demora dos nossos beijos; se apressam para encerrar o dia enquanto agarramos cada instante. Estendemos noites com o dom de sempre ficar mais um pouco. Mais dez minutinhos de abraço, mais quinze minutinhos de conversa, outra parada para a sexta despedida. Se o tempo quer tanto passar, que seja para entrar em órbita com nosso amor. Eu vou nos alinhar na continuidade dos dias para que te ter comigo seja rotina.

    Os dias em que não escrevo são os mais vazios. Eu posso ir ao banco abrir uma conta, buscar a segunda via da minha carteira de identidade perdida, passar na casa da tia para um almoço e depois parar na esquina para tomar umas cervejas; de toda forma, estarei vagando por espaços vazios, ainda que exalando o cansaço de uma semana no tumulto. Só me completo quando me encontro, a sós comigo mesma, por dentro da minha pele — no mais fundo desse corpo que me habita. Nesses dias até ando pensando que nada vem sido tão bom que me fizesse escrever: estive errada. Para escrever basta fechar as portas e as janelas que dão para o mundo e abrir dentro de mim a transcendência da alma. Basta escrever o que não saberia dizer de nenhuma outra forma, se não fosse descobrindo meu próprio silêncio. Há sempre um texto novo para um papel de qualquer material que me espera.

quarta-feira, julho 13, 2016

    Na semana passada eu não pude calcular quanto tempo levaria para tomar coragem. Quatro dias atrás ainda não me cabia a ideia de dar um basta ao que já não me bastava mais nada. Ontem mesmo eu tive receios, quase fingi [de novo] que estava tudo bem, disfarçando a mim mesma as dores no corpo inteiro por excesso de estresse.

    Quando começamos, você me fazia feliz. Me roubava risos com uma facilidade dada como dom, não precisava mais do que uma piada curta ou um trocadilho improvisado, eu ria. E foi preciso que eu chorasse por dias seguidos para perceber, tempos depois, que não havia mais nenhum motivo restante entre nós. Depois de tantas brigas [aparecidas aos poucos, sorrateiras], das discussões dentro do carro e dos portões batendo, depois de tudo eu desconhecia sua graça, meu humor, nossa alegria. O que éramos a princípio ficou distante demais do que nos tornamos agora.

    O quanto levou para eu notar sua mudança, tão quanto a mudança dos meus olhos ao te ver – sem nenhum brilho como era, não há nada que recomponha.

    Custa muito para aguentar firme os problemas que começam a aparecer incessantes dentro de casa, mas custa muito mais para deixá-los para trás depois de perceber que não são obrigatoriamente seus. E eu precisei tolerar mais um bocado de gritarias, mais um tanto de decepções, de todas essas coisas que eu não poderia contar a ninguém que não fosse eu mesma [apenas para descobrir que a realidade bate à porta sem que a queira]. Precisei aguentar até hoje para não ter outra escapatória senão partir. Partir à pé, partir a relação, partir os laços e os nós, partilhar da minha companhia para não precisar de mais ninguém, tampouco de você.

     Porque hoje o que eu dei a mim foi a liberdade. Para não dizer que dinheiro não a compra, digo que comprei esse bloco de notas, essa caneta, mas o que escrevo é sem preço. De resto, me basta o amanhã sem você por perto para pagar cada palavra gasta. O que escrevo é adeus. Nessa casa não fico, com você não fico, onde meu mal é causado não é meu lugar.

terça-feira, junho 14, 2016

Entre os móveis, o som chiado e o tsunami de pensamentos, fora de todo sossego, com um grito entalado na garganta e o choro preso à força, entre o dia que não começa e a semana que não termina: você.

Você à espreita de mim, cuidando-me cautelosamente — mesmo com os meus empurrões te afastando. Porque você sempre fica. Fica até quando eu digo adeus, quando a despedida é somente a batida da porta.

São as crises de ansiedade que me fazem construir muros, não sair da cama, me abrigar em cobertores por dias. São os despreparos emocionais que me provocam esses impulsos de partida, como se eu não pudesse merecer bem nenhum, como se eu não pudesse respirar fundo. O tumulto da minha mente me causa exaustão. E ao te ver, eu desejo não sentir nada disso, para não te fazer sentir também. De alguma forma, me isolar é tentar te proteger.

Nesses dias eu estou inquieta, andar em círculos já não basta, mais garrafas de vinhos já não bastam. E, por vezes, sua presença me incomoda por ser a prova viva de que não estou sozinha, nem querendo. Me incomoda ainda por, de sua maneira mais única, me fazer bem. Me incomoda porque assim eu não consigo ir embora, porque assim desfaço meus planos. Mas eu juro, de todos os incômodos, esse é o que pode me resgatar. Então, não me ouça quando digo que não te quero por perto.

A casa parece um cemitério de otimismos, de esperanças ou coisa que o valha. E depois de dezoito horas com o telefone desligado, você veio descobrir o som da minha campainha. Veio e ficou sentado no sofá lendo o jornal da semana passada — o último do pacote de assinatura. Por ora, não tenho mais cômodos para ir para evitar te olhar e ter de confessar o que vem me acontecendo. Eu poderia até dizer que, na verdade, também não sei. Mas, eu sei que se começar a falar, descobriremos alguma coisa, um motivo de nos botar pra baixo. Sei também que se eu te contar um pouco do muito que sinto, vou te inundar comigo, transbordaremos.

Fugir de você é fugir de mim, por isso, quando me acalmo, eu posso te dizer: obrigada por ter vindo.

Eu vou me sentar ao seu lado, outra vez em silêncio, e farei minhas preces: eu quero que perdoe meus anseios de me afastar. Quero que entenda o quanto duas pessoas para mim já parecem multidão, e o quanto outras vidas alheias à minha me sufocam. E quero, se não for pedir muito, que continue ficando por perto. É você quem tem me salvado.
Eu não ando bem. De janeiro pra cá, de você pra cá, nada bem.

Desde os tempos da escola, do ensino fundamental ao médio, eu já era a pessoa que dificilmente estava disposta a ostentar alguma felicidade plena. Porque sempre fui dessas de sentir demais, em excesso, qualquer coisa por tanta gente diferente. De todos os sentimentais, era sempre eu que levava o troféu de decepções por amores exagerados para casa.

Recusava as festas, porque precisava de horas e horas na cama para idealizar meu futuro. Não ia aos encontros, porque eu sentia que poderia morrer de ansiedade no meio do caminho, porque sentir as sensações que me causavam era mais seguro em casa. Passava o dia esperando por uma ligação, e quando recebia não atendia, porque não sabia o que falar, não tinha voz o suficiente para dizer oi.

De todas as histórias que guardo na memória, só sei lembrar do que senti e do que as pessoas que estavam comigo pareceram sentir. As datas e horários, as ações, as cores, os objetos, isso tudo nunca importou, nem nunca se prendeu na minha mente. Fui feita de fatos invisíveis.

Alcançar os anos iniciais de uma vida adulta só me mostrou que essa personalidade introspectiva, movida por intuições e músicas melodramáticas de amor, que essa pessoa crescida dentro de uma bolha emotiva continuaria seguindo por uma linha cada vez mais tênue entre estar e não estar bem, pendendo mais para lá que para cá. Porque sentir tanto é nunca saber exatamente o que sentir, é pura instabilidade emocional.

Por algum tempo, gostar muito de alguém era somente correr alguns riscos: eu poderia me machucar novamente, poderia colocar um band-aid até sarar e no tempo certo arrancar de uma vez, pronta para outra. Mas depois de tanto, de muito, de um livro de desesperos, gostar muito de alguém como você é mais que correr riscos, é apostar a vida toda que venho tentando construir, tijolo por tijolo – como se fosse palha por palha e você pudesse derrubar tudo com um sopro.

Eu ainda sei, lá no fundo, que você pode me fazer todo o bem que desaprendi a esperar dos outros. Ainda sei que nem todos são ruins. Ainda acredito nos seus jeitos de me cuidar até quando não deixo. Mesmo assim, eu não ando bem – porque sinto um medo gritante de sentir aquelas dores de decepções novamente. Porque me apavoro ao pensar em todos aqueles anos que me afundaram e quase perco a força para emergir.

Me perdoe por não ir te encontrar hoje. Eu não tô bem.
Os dois lados do travesseiro estão molhados pelo choro, não quero deixar sua camisa assim também. Não quero ser um fardo, pesado e desajustado, para você. Não quero te afogar nesses meus rios. E não querer tanto, até, é querer demais. Sentir tudo isso sozinha implica em não te deixar sentir comigo qualquer coisa. Não te explicar nada implica te fazer supor o que há de pior. Por isso ensaio te dizer toda noite, te dizer que suportar dia após dia é um peso enorme sobre meus ombros, e não quero que tenha que encurvar suas costas também. Ensaio te dizer que esperar pelos dias seguintes envolve dores de cabeça por excesso de ansiedade e, por consequência, insônia. Dizer que eu penso em exagero porque encontrar a hora de parar é quase impossível pelo quanto estou deslocada de tudo. E não quero que se perca nesse meio de paranoias, não quero que me encontre sob tantos escombros. É precisando dizer tanto, que desisto todo dia. Perdoe a contradição.

Desse amor não quero infelicidade, não quero te causar qualquer tristeza perduradora. O tanto que te tumultuo já parece o bastante, antes mesmo de revelar qualquer emoção mais profunda. Eu contaria das frases que você diz despretensioso, mas que ao recebê-las com tanto medo, subverto-as, entendo de outras formas, quase sufoco, não durmo bem. Eu contaria dos pequenos gestos que valem como um resgate de mim mesma, gestos seus que me sobrepõem a tudo de ruim que eu crio para mim e me fazem me sentir bem mais outra vez. Eu diria sobre inúmeras vezes em que eu fiz um outro mundo que combatesse o mundo ruim que me derrubava, e das outras inúmeras vezes que fiz ao contrário e me derrubei sozinha. Falaria do quanto me salvo e do quanto me abandono, do quanto te deixo me salvar e do quanto me preocupo em te deixar entrar por aquela porta pra presenciar mais um pouco do caos que eu sou.

O que eu espero e guardo para você são momentos que te façam sorrir. Por essa razão, evito a cada minuto te trazer mais choro. Sei que merece quem ria das suas graças – e me perdoe por não conseguir rir de mais nada -. Eu estou sempre oscilando, precisando de qualquer certeza sua que me dê uma direção, um rumo. Sempre querendo voltar atrás e desistir, e mesmo assim, sempre tendo aquele impulso contínuo de correr até você. Me perdoe por sumir tanto, eu só quero que aceite minha voltas com saudades transbordadas. E juro que procuro um equilíbrio.
Faz algum tempo que não te vejo, e só pude perceber quando era tarde da noite, tarde demais para me levantar e ir te procurar em algum canto da cidade. Fui pega de surpresa com uma coisa na mente que me fez ter uma lembrança clandestina de você. Eu voltei a dormir pensando que nunca mais, desde a última vez que nos vimos, confundi seu nome no meio das conversas – talvez porque a vontade de te chamar tenha passado, assim como as datas festivas daquele fim de ano passaram -. Há algumas coisas que a gente costuma superar sem notar, enquanto os dramas maiores parecem ser perpétuos.

Das certezas que tenho, sei que você ficou para trás. Quando se encontra um horizonte para fitar e seguir sem pressa, com aquela autenticidade de ir sem medo porque foi escolha sua, não há nada que te prenda a quem não foi junto. A falta só dura o tempo necessário para que você aprenda a satisfazer-se de si mesmo, depois o que resta é um espaço maior ainda no cabide para laços afetivos novos e semi-novos, para criá-los, recriá-los e guardá-los.

Eu deixei de saber por onde você anda, com quem conversa e em que casa vive, desconheço por completo sua rotina – a não ser que não tenha mudado e minha memória não seja tão falha -, tampouco te procuro naquele endereço que eu costumava saber de cor. Deixo estar bem longe, deixo se desprender de mim com a mesma exatidão da intensidade de me desprender de você. Desatar laços afetivos, afinal, é tarefa para mais de um: quem tenta e quem deixa, quem inicia e quem termina, quem pede algum tempo e quem aceita que este tempo passe, mesmo que deixe um resquício ou outro pelas beiradas. Como o pequeno detalhe em cima da cômoda que me fez lembrar de você quando eu estava quase caindo no sono por completo, como alguma pessoa de mesmo nome que o seu que às vezes aparece no meu dia, como histórias parecidas com a nossa retratadas em filmes ou livros.

E, de qualquer forma, tudo já ficou pra trás.

quarta-feira, maio 25, 2016

Seja forte, demonstre

É preciso que você seja forte, firme, de pedra e sinta o menos possível. Esqueça as mensagens de amor declaradas às duas da manhã, porque é desespero. Não teime em ficar pronta no horário exato combinado, atrase-se, demonstre descompromisso nos cantos mais estreitos da relação que, por virtude, você não irá assumir. Tampouco assuma as vontades ávidas de fugir com ele para o mais distante apenas para ficarem a sós. Engula a sede de beijá-lo por um fim de semana inteiro, de sede só se morre depois de três dias e em três dias a segunda-feira reaparece para te sufocar na rotina cansativa. Trabalhe, estude, cuide da casa e não deixe sobrar mais de meia hora para respondê-lo em caso de convite repentino para uma ida à praça. Não aceite ir à praça, exija mais. É preciso que você tenha pulso firme para rejeitar a simplicidade da vida.

Eles dizem que é preciso que você não seja a melhor que pode ser, apenas para não ser desperdiçada. E então, você se desperdiça sozinha, dentro de você mesma.

Esqueça-os. Não se contenha. Faça.

terça-feira, maio 10, 2016

Não foi falta de coragem sua, nem foram exageros emocionais meus. A culpa é de ninguém. Nos conhecemos em um tempo estranho de nossas vidas; a hora errada para buscarmos em nós dois o que quer que fosse.

Ainda precisamos encontrar em nós mesmos todas as coisas que desejamos no outro, antes que cada um vire idealização. Essa é a particularidade do amor: amar-se o suficiente, ser a si mesmo o suficiente, para então se dar de corpo e alma, entregar-se, transbordar. Não somos tanto assim. Somos falhos – a ponto de aceitar as falhas e parar de lutar no ápice da briga. Somos sóbrios, tememos enlouquecer. Somos presos, porque a imensidão da liberdade ainda nos assusta. E eu não posso querer em você os acertos e insanidades, tampouco achar que me tornarei livre ao te ter comigo. Nem você.

Some a isso o quanto que nos falta para ajeitar em nós um espaço para caber alguém que amamos tanto – e consequentemente a rotina de quem vem se juntar. Saímos da adolescência com uma bagunça incessante de sentimentos novos e desejos à flor da pele, entramos na vida adulta criando tumultos sob obrigações, deveres e quereres. Mal sabemos diferenciar planos, sonhos e objetivos, afinal, devemos separar por tempo de realização ou força de vontade? Está tudo tão confuso.

Das pessoas incríveis que conheci, das relações boas que mantive, você foi o mais especial. Aquele que não esqueço, independente de quanta areia escorra pela ampulheta. E eu desejo que fique, mesmo que não seja como quisemos que fosse, que fique apenas porque nos conhecemos e descobrimos em nós aqueles impulsos de felicidade que proporcionamos.

E se daqui um tempo reencontrarmos em nossas agendas uma nova brecha para tentar o que não deu certo dessa vez, se finalmente estivermos completos, se as vidas não estiverem tão desordenadas como agora, se não precisarmos pensar em tanto “se”, que seja. Eu espero que seja.

sexta-feira, maio 06, 2016

Está tudo aqui. Um carrossel de palavras rodando por mim repetida e exaustivamente. O discurso principal tem apenas três palavras, mas o ensaio inclui gagueiras e palpitações. Eu quero tanto te dizer que de uns tempos pra cá tudo o que eu não pensei sentir além dos meus textos agora sinto. E que naqueles retratos de pessoas felizes até consigo nos enxergar. E quero tanto explicar que sem papel e lápis na mão é tão complicado deixar as frases em ordem com um vocabulário maior que reticências de respiração. Mas está tudo aqui querendo se tornar apenas um amor em queda livre: uma entrega.

Se eu não quase-morresse-quase-sufocasse todas as vezes em que tentasse mover os lábios para te falar tudo o que planejei, eu juro, você iria adorar ouvir. Se meu corpo não me apelasse para desistir depois de sussurrar seu nome, cada palavra dita combinaria com ele. E eu espero que entenda quando te digo coisas absurdas depois de te chamar, é porque metade de mim falha e a outra metade não sabe como reagir. Entro em contradição por dentro e por fora só pareço boba.

Eu sei que eu mesma me impeço de me entregar, apenas porque antes de todos os erros nunca notei os riscos que corria. (Porque se tivéssemos consciência de tudo, não erraríamos). E por mais certo que isso pareça agora, dá um desespero danado de ser só mais uma coisa que me fará chorar daqui uns dias – como as histórias que insistem em se repetir ano a ano. É um medo egocêntrico e cego, mas quem pode julgar quem já anda cheia de remendos? Por todas as vezes em que você me fez me sentir segura, quero pedir desculpas por ter me apavorado. De tão bons os momentos, senti calafrios, como se fossem os últimos vinte passos nas nuvens antes de uma queda no precipício. Percebe o tamanho do meu medo?

Se eu fosse culpar parte do mundo, falaria que nos colocam essa ideia de que amor faz sofrer. Compramos o choro antecipado junto de ingressos para a nova traição do cinema. Levamos sempre conosco os conselhos dos mais velhos que são como vacinas para o pior, mas que só usamos como remédios sem serventia. No meio de tudo, como encontro coragem para te declarar amor? Parece um salto de paraquedas sem o item que o faz abrir. Enquanto não pulo, respiro sempre fundo, me cubro de três pontinhos.

Mas se eu culpo apenas parte de mim, para nos poupar de mais drama e nos deixar completos de vez, venho procurando todas as maneiras possíveis de deixar isso escapar da minha boca sem soar como um grito de socorro para meus tumultos internos. Então, se eu te disser nessa noite que te amo, após interromper algum silêncio, eu quero que prometa por si só que não vai me deixar desabrigada. Porque te confessar qualquer coisa é uma fuga de mim mesma, consumida por uma vontade gritante de me aninhar em você.

quinta-feira, maio 05, 2016

Eu tenho esse vício. Chego a esquecer as chaves de casa no balcão da cozinha enquanto saio sentindo saudades. Inundada, cheia de falta, esqueço até de beber água. (Perdoa se eu te culpar pelo vazio que me torno). Chorei com músicas, passei na sua rua, deixei o arroz queimar na panela. Não pude parar de citar seu nome do meio da roda de amigos, porque todas as histórias me levavam até lembranças suas. Sorri mais do que deveria enquanto contava sobre a vez em que fomos juntos à casa da sua avó, e tive certeza: a saudade se manifesta nas coisas mais banais.

Ao te encontrar, sei que ainda terá alguma falta de você em mim. São tantos dias te querendo por perto que meu corpo se confunde no meio de tanto pedaço seu para sentir, finalmente. É como a dificuldade em respirar fundo depois de um sufoco. É como a voz falha depois de tantos gritos. Por isso, eu sei que não deveria acumular tanta saudade, mas se tornou meu hábito. O meu pior hábito.

Quando você dá o primeiro indício de que já vai embora, – por mais tarde que seja, é sempre cedo demais para ir – metade de mim se esvazia com a falta e a outra metade começa a se preencher com pequenos resquícios que ficam do último encontro. Eu volto para casa relembrando tudo o que aconteceu há poucos minutos, quase fecho os olhos andando pelas calçadas e quase não lembro de abri-los para atravessar as ruas. Vou perdida, pois isso de sentir falta é ficar meio incompleto também.

Toda vez que você vai embora, não há nada que eu faça que não me faça te querer de volta.

quarta-feira, maio 04, 2016

Seja você

Se for o melhor que você puder ser, eu espero que seja. Eu sei como às vezes fica complicado passar os dias acumulando mais do que respirações, sei o quão difícil se torna encontrar um caminho depois da idade em que ganhar mais anos de vida é ganhar mais anos de problemas. Eu vejo o tanto de gente que volta antes de alcançar um objetivo, porque até a metade a pressão faz desistir. Mas se, por agora, essa é a pessoa quem você realmente é e quer ser, eu espero que seja. Eu quero que sorria, sinta-se leve e seja, independentemente do que esteja ao redor, ainda que queiram te trancar num quarto de inseguranças. Se for o que você quer ser, eu espero que faça o melhor todos os dias.

Afundo-me, a fundo de mim

Eu pediria mais um vez desculpas pelo que te causo quando minha mente não me deixa ficar calma. Mas toda vez que tento te confortar após um tumulto meu, me deixo de lado. Por ora, dentro de um egocentrismo necessário, eu vou cuidar de mim - toda vez que noventa por cento do que eu sou não conseguir se conter dentro das adequações que faço para me encaixar em pequenas partes do mundo.

quinta-feira, abril 28, 2016

   Perto de você não quero mais fechar os olhos, nem perder tempo olhando o que há ao redor. O que me importa é te ver para acentuar a certeza de que está comigo, e assim, instantaneamente, me sentir segura. Os meus olhos radiantes perdidos no seu rosto só querem dizer todos aqueles clichês que não são permitidos escaparem da minha boca, e eu espero que você consiga ouvisentir — escutar de mim sem que eu diga palavra alguma.
Flavia Andrade

Ouvisentir

Perto de você não quero mais fechar os olhos, nem perder tempo olhando o que há ao redor. O que me importa é te ver para acentuar a certeza de que está comigo, e assim, instantaneamente, me sentir segura. Os meus olhos radiantes perdidos no seu rosto só querem dizer todos aqueles clichês que não são permitidos escaparem da minha boca, e eu espero que você consiga ouvisentir — escutar de mim sem que eu diga palavra alguma.

terça-feira, abril 05, 2016

    Eu sei que para você digo pouco do muito que sinto, mas se dissesse tudo, não restaria mais mistério nenhum que te fizesse olhar bem no fundo dos meus olhos para tentar me decifrar, como você faz perdidamente. Porque amor é uma dessas coisas que requerem fatos não explicados e questões irrespondíveis, tão quanto respostas irresponsáveis, para se auto-afirmarem. Amor é um desses milagres contemporâneos que não estarão nos livros religiosos, mas nos cartazes em postes de ruas. Uma dessas coisas raras que valorizam o mínimo que se demonstra e procuram o máximo que se esconde, apenas para desfrutá-lo depois de todo o esforço. Eu sei que te bagunço quando não explico o que acontece comigo, mas se explicasse cada detalhe, talvez você fugisse, talvez você não entendesse - nem peço, nem deve - e perderíamos aquele triunfo de descobrimento toda vez que você me encontra.
Flavia Andrade

quarta-feira, março 30, 2016

Das constelações às multidões

sky, night, stars

    Que não construam mais prédios, os olhos pedem. Os olhos que saem à noite apenas para encontrarem aglomerados de estrelas no céu. Eu interrompo falas noturnas de quem quer que esteja andando ao meu lado para adicionar um comentário verborrágico sobre o que vejo, e não há nada que me impeça de valorizar o plano-sequência real das caminhadas nessa cidade de casas baixas. É assim também com um corpo intensificado pela alma que quer encontrar outro corpo transbordando apelos de um coração devorador de espíritos e auras. Que as pessoas não construam mais barreiras, que não arquitetem mais medos, porque o amor precisa de espaço; precisa ser enxergado a olho nu, com telescópio ou olhos de caleidoscópio no meio de um tumulto ensurdecedor. É preciso que se sinta tão quanto se vê, porque sentimentos cegos são confusos e perdem a melhor parte: o reconhecer. É preciso que haja uma paisagem livre, digna da infinitude de uma fotografia horizontal, para que os olhos perscrutem até encontrarem quem desejam, como perscrutam o céu até encontrarem o Cruzeiro do Sul. Te reconhecer de longe, afinal, é o impulso que me faz correr sem me preocupar com qualquer obstáculo, querendo alcançar somente a parte sua que me falta, ainda que essa parte seja seu eu completo prestes a me inundar. Que as pupilas dilatem com cada estrela e pessoa encontrada.
Flavia Andrade

segunda-feira, março 28, 2016

   Mas é que eu gosto um tanto de te ter no silêncio do meu mundo pacato. Não quero convidar mais ninguém para esse lugarzinho que me pertence e não quero que te vejam chegando para evitar que desejem nos acompanhar. Eu gosto de quando só sobra eu e você no fim das festas, quando o som das músicas já está baixo e é tarde o suficiente para as ruas adormecerem, assim nenhum barulho de carro ou moto pode interromper nossas trocas de olhares confidentes que não deixam as bocas dizerem nada. Eu gosto do movimento dos nossos braços quando andamos de mãos dadas e, se fecharmos os olhos, podemos nos imaginar no espaço mais afastado da cidade com uma rede em dia de domingo para balançarmos. Porque não há nada que soe mais completo que nós dois entregues inteiramente, um ao outro. Então me desculpe por não contar a ninguém o quanto sua existência vem preenchendo a minha vida, porque não quero perder nem pedaço nem detalhe seu que tenho em mim.
Flávia Andrade

De escritora à louca

   De escritora à alcoólatra é um passo. O pequeno passo que você dá para sair da sala de estar, largando os papéis e as canetas no sofá, levando alguns trocados no bolso para gastar no boteco mais próximo. De escritora à louca é um olhar. Às vezes não é possível que te olhem com aquela licença poética requerida, apenas entendem todos os seus comentários devaneados como um surto qualquer de quem não tem muito auto-controle. Eu dei esse passo nos últimos dias, e andaram me olhando errado. Por fim, pareço alcoólatra e louca. Bebo e me encaram como se eu estivesse precisando ser presa em um quarto branco. Escrevo e me leem como se eu tivesse uma completa abstinência da vida real, sendo que a verdade é que a realidade não me chama tamanha atenção como os livros.
Flávia Andrade

O bem necessário

   A minha resposta continua sendo a mesma: eu só quero ficar bem. Isso significa me afastar das pessoas que andaram me prejudicando de alguma maneira simples ou complexa; significa deixar de lado os planos que foram impostos sem um mínimo de vontade minha e também os destinos para os quais eu estava indo sem admirar o caminho. Isso significa não parar para ouvir mais daquilo que eu já cansei de revidar, não olhar para quem e o que vai ficando para trás e não querer, em um segundo sequer, continuar com o que quer que esteja me fazendo perder a sanidade emocional durante os dias. Eu só quero ficar bem e isso significa pensar mais em mim, me colocar à frente do mundo para enfim poder enfrentá-lo.
Flavia Andrade
    Do fundo do meu exagero mais piegas, uma confissão: ainda que fosse o fundo de um poço, se fosse ao lado dele, eu ficaria. Eu afundaria meu rosto em sua camiseta para não sentir o cheiro ao redor e deixaria que seu rosto repousasse no vão do meu pescoço para também respirar. Ficaríamos abraçados com a força de um mundo inteiro para nada ruim nos atingir com nenhuma precisão. Por ele, por mim. E mesmo se começassem a arremessar algo lá de cima, nos espremeríamos bem no canto, sãos e salvos. Que outro gesto, senão um beijo, mataria mais sede? Sobreviveríamos. Eu não temeria em dizer que estar com ele provocava a melhor sensação que eu poderia sentir.
Flavia Andrade

domingo, março 27, 2016

Rotina

   Eu fugia da rotina, não queria nada demais. Errar caminhos e desviar de pessoas parecia o ápice da corrida mórbida de quem queria ser livre, como se liberdade a dois não fosse possível. Por quanto tempo a gente insiste em negar o que nos faz falta? Porque eu só percebi que precisava de dias repetidos quando um dia com você foi o melhor que eu pude ter, e ao voltar para casa foi preciso revivê-lo em memórias até pegar no sono às quatro da manhã. Querer mais do mesmo é aquietar a alma e a mente, vivendo dias que de tão parecidos não requerem mais nada que seja necessário ir buscar tão longe. Rotina traz sossego, por fim.
Flavia Andrade

sábado, março 26, 2016

    Meu cabelo embaraçado precisa dos seus dedos deslizando entre os fios para separá-los, penteando-os em um ritmo só seu que me afasta do frenesi mundano. Sinto vontade de me aconchegar em seu peito e sair somente quando disserem que o pior da vida já passou, ainda que dure uma eternidade. Se você entendesse o quanto me protege do que há lá fora, impediria-me de qualquer movimento retrógrado a partir da primeira despedida para eu não ir embora, para eu não ficar vulnerável novamente. Porque eu sei que me cuida e deixo que o faça. A maior parte de mim quer ser inteiramente sua para servir de base para a outra parte que tem que aprender a viver sozinha. São somente gestos que eu peço por agora, como provas de que ainda está comigo.
Flavia Andrade

sexta-feira, março 25, 2016

    Sei que andei errando mesmo depois de tanto te cobrar por mais acertos, e que venho fazendo o que te pedi para não fazer sem ver que essas coisas todas te machucam também, na mesma medida. Mas é que às vezes parece que se não é você, deve ser eu a primeira na semana a dar o aceno de retorno, pois há sempre um novo empecilho quando estamos prestes a ir de encontro ao ponto em que tudo dá certo. O ponto que almejamos com todo o ardor de nossos desejos misturados. Ocorre sempre um susto que nos toma e nos faz voltar, impedindo-nos de apenas seguir em frente de mãos dadas. Eu entro em um desespero que te atinge e me desespero mais ainda quando noto seu mal estado por minha causa, como se a cada tropeço torto eu nos separasse a ponto de nos deixar em dois pontos extremos com quase os mesmos motivos para não sorrir por algumas horas ou dias. Não sei se é por gostar demais que o medo nos atinja, ou se é por gostar com tanto medo que a distância tente nos impedir, apenas sei que quanto mais longe ficamos, mais sinto uma falta enorme de cada abraço seu. E toda vez que eu sinto que não estamos bem, só penso em me recompor o suficiente para te aninhar até o fim dos problemas maiores, porque com os problemas pequenos podemos conviver. Me perdoa por ser uma noite de distúrbio quando você planeja o melhor para nós, eu não durmo pensando em uma maneira de ser melhor do que o melhor que pedi que fosse para mim.
Flávia Andrade

Tic, tac, para trás.

    Faz algum tempo que não te vejo, e só pude perceber quando era tarde da noite, tarde demais para me levantar e ir te procurar em algum canto da cidade. Eu dormi pensando que nunca mais, desde a última vez que nos vimos, confundi seu nome no meio das conversas - talvez porque a vontade de te chamar tenha passado, assim como as datas festivas daquele fim de ano passaram -. Quando se encontra um horizonte para fitar e seguir sem pressa, com aquela autenticidade de ir sem medo porque foi escolha sua, não há nada que o prenda a quem não foi junto. A falta só dura o tempo necessário para que você aprenda a satisfazer-se de si mesmo. Depois o que resta é um espaço maior ainda no cabide para laços afetivos novos e semi-novos, para criá-los, recriá-los e guardá-los. Eu deixei de saber por onde você anda, com quem conversa e em que casa vive, desconheço por completo sua rotina - a não ser que não tenha mudado e minha memória não seja tão falha - tampouco te procuro naquele endereço que eu costumava saber de cor. Deixo estar bem longe, deixo se desprender de mim com a mesma exatidão da intensidade de me desprender de você. Desatar laços afetivos, afinal, é tarefa para mais de um: quem tenta e quem deixa, quem inicia e quem termina, quem pede algum tempo e quem aceita que este tempo passe, mesmo que deixe um resquício ou outro pelas beiradas. Como o pequeno detalhe em cima da cômoda que me fez lembrar de você quando eu estava quase caindo no sono por completo, como alguma pessoa de mesmo nome que o seu que às vezes aparece no meu dia, como histórias parecidas com a nossa retratadas em filmes ou livros. E, de qualquer forma, tudo já ficou pra trás.
Flavia Andrade

quinta-feira, março 24, 2016

    Porque eu preciso. Entre todas as coisas que não explico e as razões que não dou parecer nenhum, entre as ameaças de fugir para longe da sua incompreensão e de ficar para aguardar mais algum tempo até tudo passar, eu só sei que preciso. Porque as pessoas se constroem sobre amontoados e sob tumultos, a ponto de se perderem dentro de si mesmas, a ponto de não saberem mais quem são e o porquê. De toda forma, no ponto exato em que eu estava, você me achou no mapa e se aproximou. Porque você também precisa. Entre o que faço para te mandar para longe e o tanto que peço para não me ouvir quando digo bobagens, com paciência, continua por perto. E se as necessidades que sentimos, além daquelas mais naturais como sede e fome, são saciadas dia após dia, por que ir? Se em todas as voltas e retornos redescobrimos o que já sabemos desde o início: que a vida não vale muito se estamos andando sozinhos. Porque nós precisamos.

quarta-feira, março 23, 2016

Sobre você ter ido embora cedo demais

    Depois de sua partida, sou por completo uma saudade inteira nessa cidade pequena. Andando com um sorriso frouxo, de lado, lembrando de quem não anda mais por rua alguma da mesma maneira cabisbaixa que a minha. Sou uma filha que sente falta do pai, uma menina que quase não soube se ver sem herói e mesmo assim cresceu salvando a si mesma dia após dia, em todos os sentidos mais clichês. Sei algumas músicas de cor em uma voz masculina que recorda a infância, na tentativa de não deixar mais nenhum dos poucos detalhes se perder para o tempo que passa sem receio. Os dias de junho de agora não são os mesmos dias de junho de dois mil e nove. De lá pra trás os dias costumavam ser mais curtos e menos vazios, de lá pra cá toda semana exige um fragmento de lembrança para dar vida ao que tenta morrer aos poucos, e não deixo dessa vez. Os meus passos não são contados, tampouco o tempo que já passou com exatidão, mas eu sei o tanto que caminho e quanta coisa aconteceu desde a vez em que olhei para ele sem saber que era o último momento. Assimilar dias passados e dias presentes, antes e depois, sempre provoca um impacto emocional, como se fosse ele quem estivesse notando a grande diferença e reagindo em minha frente. Sou quem comemora em silêncio e brinda ao céu quando algo bom nessa vida acontece, para orgulhar quem não teve chance de ficar e ver de perto. E me esforço para ser melhor por quem já foi tão incrível, à fim de assemelhar as vivências e manter um fio imaginário que nos ata desse mundo real ao mundo que ainda desconheço. Sou tanta saudade que aprendi a trazer os bons sentimentos resgatados comigo, e já nem choro mais. Sou uma parte dele que ficou e que precisa viver um pouco como ele quis, transmitindo a quem não o conheceu as melhores partes do que ficou salvo em mim.
Flavia Andrade

sexta-feira, fevereiro 19, 2016

Autonominha

    Não sou mais sua porque sou minha por inteiro agora. Junte os dias, os meses, e reconstrua o ano em que esteve longe de mim. Perceba que eu tive tempo demais para me pertencer. Perceba que longe de você foi fácil me olhar sozinha diante do espelho, e enxergar alguém que não é somente sombra sua, mas a luz completa, o melhor lado.
Flávia Andrade

terça-feira, fevereiro 16, 2016

Auto-(p)reparo

    Se daqui um tempo eu não for te ver mais, me avise por agora, pra me sobrar no fundo do bolso um dinheiro para o bar e o táxi. Eu não sou dessas de borrar rímel, andando com os saltos nas mãos nas ruas de madrugada, mas sei fazer meus dramas, sei me afogar em destilados. E, se você oscilar por um momento enquanto estiver comigo, pode me dizer sem medo, para que eu possa me preparar para um desfecho não precipitado. Porque, apenas por estar aqui mais uma vez ao seu lado, já é cair em precipício e me arriscar demais. Somente por ter vindo a outro encontro. Se for acabar, que acabe um pouco antes do fim derradeiro, como se os créditos de um filme subissem antes da cena final. Quem sabe assim ainda me reste algum tempo para fugir primeiro.
Flavia Andrade

domingo, janeiro 31, 2016

    Eu sinto que ainda não estou preparada para escrever sobre nós dois. Tem muita coisa na minha mente que continuo sem entender, muito "por que" e pouco "porque". Algo foge de nós para que não fiquemos completamente juntos, para que reste alguma falha que nos incomode antes de pegarmos no sono. E, em alguns dias, um tempo chuvoso significa muito mais que um imprevisto. Significa que os encontros apenas não devem acontecer. Não sei quem de nós está nos prejudicando, e ainda que sejam os dois, não sei se somos nós do presente ou nós do passado, mas de qualquer forma, estamos impedindo nosso futuro. E por mais que desejar um tanto de momentos bons para as próximas semanas seja o que eu mais desejo, temer o que se passa na sua mente quando não está comigo vira uma barreira enorme que não me deixa te pedir para ficar. Eu sei que poderíamos ir além e também sei que podemos nos perder cedo demais. Eu quero muito do que você não disse querer ainda, e receber todo esse seu silêncio é abraçar incertezas. Por fim, escrever qualquer frase sobre nós é colocar as cartas na mesa. Embaralhadas. Viradas para baixo. E ao organizá-las e olhá-las, descobrir que estamos jogando o jogo errado.
Flavia Andrade

quinta-feira, janeiro 28, 2016

Antes do fim

    Qual foi o dia desse mês que você tirou para me deixar de novo? Que não seja outra segunda-feira. E qual será o dia em que vai enjoar do tanto de histórias que conto antes de você pegar no sono? Eu posso tentar escrevê-las, em silêncio, para evitar desperdício. Qual é o tamanho da saudade que você vai sentir até o próximo final de semana? A minha já alcança alguns satélites, fazendo o tempo parecer uma areia emperrada na ampulheta. Para onde você vai depois que chega cansado de um encontro nosso? Para mim não existe nenhuma outra possibilidade além de deitar a cabeça no travesseiro e refazer memórias (até o quarto sente saudade). Quem é você depois que me vê? Alguém mais sorridente ou alguém mais quieto? Alguém mais feliz ou alguém mais exausto? Eu venho te fazendo algum bem? De uns tempos pra cá, quando só gostar muito de você parou de ser o suficiente, eu venho me perguntando quanta coisa pouca ainda nos resta até tudo acabar. Eu sinto muito desde agora, sentindo que te perdi desde o começo da semana passada. Eu sinto os detalhes me dando avisos e quero respostas suas para ter certeza. Por quanto tempo a gente vai se distanciar até perceber que já estamos em mundos diferentes?


Flavia Andrade

terça-feira, janeiro 26, 2016

Silêncio

    Eu sei que a pressão de ter algo a dizer é gritante e que na maior parte do tempo bate um desespero em tentar mostrar o melhor de você. Aquele melhor que precisa superar qualquer outra pessoa que ele já conheceu. O desespero em mostrar te sufoca, porque precisa dizer sobre tudo o que sabe sobre o mundo e qualquer coisa da vida, inteirando-se de razões. Você quer ser aquela que tem algo a oferecer além - e ainda mais além - de corpo, alma e coração. Assim, transborda na pressa de não ser abandonada antes do tempo. Do tempo de chegar ao ápice de seus desejos: ser reconhecida como realmente é. Ser descoberta. Você arremessa suas informações, dados, números, histórias, coadjuvantes de sua vida; compartilha os segredos, os medos, e conta aquilo que nunca quis contar para mais ninguém. Mas dessa vez conta porque quer que ele te compreenda. Você confia às cegas apenas por carecer de confiança também. Por carecer de ser um alguém importante para outro, e quer ser para ele. Eu sei que quando se diz muito, espera-se uma resposta maior ainda. Sei que todo esforço por alguém se alimenta de expectativas. Sei que dele você quer muito mais do que os remendos que outros já ofereceram. Sei que querer tanto assim é se precipitar em queda livre. Mas eu te dou um conselho só, desses meio sussurrados, meio embargados de embriaguez: o silêncio também encanta.
Flavia Andrade

sexta-feira, janeiro 22, 2016

O seu bem

    Tem tanta coisa acumulada por aqui, meu bem. Eu quero simplificar para nós, mas não me desprendo do que já me causou tumulto e sinto medo de cair no meio dessas tralhas arranhando meu corpo e conseguindo alguns cortes mais profundos. Quando ficamos a sós, sinto que estamos em um cômodo lotado e bagunçado, sinto que estamos perdidos. E eu quero o sossego que você tenta me oferecer. Juro que quero. Eu tento não te olhar com os meus olhos de desespero, mas as pálpebras vacilam em fechar e peço socorro silenciosamente. Peço até que você me acalme, sorrindo assim, meio de canto, um pouco perdido também. Aos poucos vamos colocando as coisas no lugar, não vamos? Vamos dando suporte aos itens quebrados, remendando. Eu quero que a gente fique bem, só pra continuar sentindo essas coisas boas que você me traz, só pra continuar te roubando pequenos impulsos de contentamento.
Flavia Andrade

sexta-feira, janeiro 15, 2016

Improbabilidade

    Conhecer alguém nunca é um plano. Te conhecer nunca foi meu plano. Gostar tanto de você nunca foi anotado em um bloco de notas amarelo e pregado na parede. Mas acontece e aconteceu enquanto atuo nesse circo do improvável, enquanto vivo. 
    Encontrar em alguém muito do que nos falta nunca acontece à primeira vista. Talvez à segunda. Encontrar em você aquilo que eu nem sabia que poderia me fazer tão bem não foi o que esperei quando conversamos pela primeira vez. Mas os primeiros momentos sempre explicam, quase despercebidos depois, tudo o que há de vir. Porque a vida, ainda que improvável, somente nos apresenta aquilo que nos importa(rá). 
    Você veio sem avisar que viria, sem intermédios e ligações, ainda que uma coincidência qualquer apareça vez ou outra. Veio sem me contar que efeitos me traria, sem saber dos efeitos que poderia me causar. Eu apenas te deixei entrar no meu tumulto, mas terminar pedindo para que você fique cada vez mais ao meu lado nunca foi um plano. Precisar tanto de alguém nunca é um plano. Mas a gente precisa, e eu peço um lugar para ficar por perto.

Flavia Andrade

terça-feira, janeiro 12, 2016

Meu e minha, eu.

    Meu corpo fica bonito com poucas peças de roupa, caminhando tranquilo pela casa, dançando na ponta dos pés ao som daquelas músicas do Bowie. Parece lindo na frente do espelho, ainda que com curvas tortas nos contornos ou feitas de estrias na pele. Não se apresenta tão bem às câmeras, e não quer tanto. Guarda-se em casa, na liberdade de semi-nudez contemporânea. Hoje não quero sair. 
    Eu ando leve do quarto para a sala de estar, buscando novos pensamentos para desperdiçar horas. Os dias não me pedem muito e as pessoas não me procuram, eu quase desapareço. Não me sinto só, não tanto. E se me sinto, enrolo-me em um cobertor e trago de volta as boas recordações de bons abraços, até a solidão ir embora devagarinho, enganada. 
    O que me importa é o som funcionando e a porta da geladeira sendo aberta no meu tédio. Eu sinto que posso ser dessa forma estranha quando não há ninguém para ver. Eu me encontro e me reencontro e me escondo quando sinto medo de todas as descobertas sobre quem sou. São como os textos mais intensos e autobiográficos que me causam arrepios, apenas porque com palavras me revelam o que eu custo a acreditar. 
    Meu corpo quer dançar sozinho onde sobra algum espaço, entre os tropeços nos móveis. Eu gosto dele, mesmo cuidando pouco. Gosto de como não se solta tanto, sem perder a chance de parecer flutuar. Gosto de como abriga meus medos e meus segredos e meus gestos e minhas histórias e minhas ladainhas e aquelas mentiras que nunca desmenti para ninguém. Gosto de como suporta o peso dos meus problemas, mesmo que os suporte em cima da cama. 
    Dizem que o tempo passa depressa, mas eu desperdiço meu tempo contando horas e as horas ficam paradas me encarando com a mesma intensidade que as encaram. Os números no relógio só mudam depois de muito esforço. Eu fico agoniada. Então lembro novamente, estou sozinha nessa casa. 

    Danço. 

    Danço porque, de alguma maneira, a vida tem que seguir. Me sinto bem porque, de alguma maneira, eu tenho que estar bem. Aceito esse corpo e até gosto dele porque, de alguma maneira, é meu.

Flávia Andrade

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Três dias

Estive sem coragem de escrever, porque somente descubro os sentimentos reais frente às imaginações todas irreais quando não há mais outras palavras para acrescentar e outra sentença para ir além. Estive morrendo pela casa, morrendo em um sentido geral de desaparecer, ou ao menos tentar. Morrendo pelo esquecimento, embora a mente estivesse sendo preenchida de memórias. Memórias boas, memórias ruins e memórias de momentos que nunca aconteceram.
15:47 agora.
Às 15:45 eu ainda vestia o vestido de ontem, o vestido de sexta-feira, o vestido comprado em Santa Catarina em umas dessas viagens das quais me arrependo. Um vestido de vinte e cinco reais, azul escuro, com estampa de pássaros pretos. Pássaros voando pelo azul, como se voassem à noite. Pássaros libertos e eu ali tão presa.
Na sexta-feira eu quis encontrá-lo. Eu iria encontrá-lo. E seria no meu canto, perto da minha casa e com os meus amigos em uma noite regada à vinho de cinco reais e oitenta centavos. Foram dez vinhos, eu enviei a foto deles no carrinho de compras do supermercado. Ele tinha dúvidas sobre aquela noite, querendo saber se poderia me abraçar na frente das pessoas que estariam com nós, provavelmente bêbadas e cantando. Ele poderia me beijar, ele poderia me tirar de lá. Passar a noite de braços cruzados nunca foi o plano. Eu permiti, do meu jeito pouco didático. "Sim, cara", eu disse.
Eu mal me recordo quais foram as desculpas. Eu estava lá com o vestido azul de pássaros e cheirando à mousse de morango pelo corpo inteiro. "Estou cheirosa?", eu perguntei. "'Tá pra caralho", meu amigo respondeu. "Gostou do meu vestido?", eu perguntei. "Eu já ia dizer... Eu adorei", meu amigo respondeu. Era tudo por quem estava por vir. As desculpas não importaram tanto, o que significou foi o seu lugar vazio, ainda que eu nem tivesse trazido sua cadeira ainda (talvez porque desde cedo, com meu pessimismo covarde, já acreditasse que ele não viria). O que significou não foi palavra nenhuma dele, foi apenas sua ausência.
E eu bebi. Entornei taças e garrafas. E com o emocional abalado, e com uma saudade enorme, vomitei na pia do banheiro do ex-bar do meu amigo e lavei a pia jogando água da torneira ao redor. E ao sair peguei uma garrafa de água. E dormi na cadeira. E escorei no ombro de outro amigo. E escorei no ombro de uma semi-desconhecida. E mal vi outras pessoas chegarem. E fui a primeira a ir embora, depois que alguém quebrou uma das minhas taças. Eu dormi sentindo falta dele e sentindo falta de quem eu era antes dele. Esse alguém não vomitaria tanto vinho e saudade.
Eu não quis encontrá-lo no sábado, preferi dormir. "Eu vou dormir porque assim não faço merda", eu disse para o último cara por quem fui apaixonada e que agora é meu mais novo amigo. Ele se identificou com isso. Muitas vezes erramos igual. Muitas vezes estamos nos afogando no mesmo tipo de relação conturbada. Ele me vê errando por aquele que não apareceu e tenta me mostrar o pior que pode vir enquanto eu não fugir disso com toda pressa, mas ainda não quero fugir.
O domingo foi de promessas. Eu as recebi deitada na cama, ajudando a alimentá-las. Ele estava mandando incontáveis mensagens buscando maneiras de elaborar um novo encontro e dessa vez, com certeza, ele apareceria. O medo maior era que eu não pudesse fazer minha parte. Eu teria que mentir para onde iria, porque contar que sairia com um desconhecido seria motivo para ser segurada em casa. Eu falei com os meus amigos e fiz os planos, até buscando lugares para que nós dois pudéssemos ficar a sós nesse bairro pequeno. Iria dar certo.
Às 20:20, eu estava pronta. Com os mesmos amigos, no mesmo lugar, com o mesmo vestido. Tinha alguma vergonha em mim, uma pequena timidez, por estar na frente daquelas pessoas por mais um dia, com a mesma roupa e perfume, esperando pela mesma pessoa. Minha voz bambeava e eu não quis conversar tanto. Mas eles olhavam para mim e eu estava sorridente, radiante.
Minutos depois, depois de um breve sumiço, mensagens dele chegaram.
Eu não quero pensar nas desculpas, porque mais uma vez foi sua ausência que marcou. E dessa vez veio junto uma vontade enorme de chorar ali com eles, eles que estavam comigo me vendo repetir a história. Com os mesmos amigos, no mesmo lugar, com o mesmo vestido. Sua segunda chance de colocar as mãos por baixo do meu vestido e provocar os efeitos que somente ele sabe provocar, sua segunda chance se esvaiu.
Foi um pouco diferente. Eu não dei mais atenção às mensagens, somente às músicas que tocavam em nossa roda de cinco amigos. Ninguém estava tão feliz. Meu rosto me entregava mais que os rostos dos outros.
Eu fiz uma piada. Eles não esperavam e riram o mais alto que puderam e alguns jogaram seus corpos para trás e para frente para rir em suas cadeiras. Eu também fiz isso e abaixei o rosto algumas vezes, apenas porque no meu riso todos, meus olhos quiseram transbordar lágrimas. Eu não sabia como parar o riso sem derrubá-las e estava com uma vergonha gritante em mim. Quando pararam, parei e tornei a olhar para a pulseira de três pedras azuis claras que eu segurava na mão, concentrada nas linhas dela desde que recebi aquelas desculpas. Eu tentava fazer um nó e nas tentativas me perdia em pensamentos. Pensamentos que não diziam nada, apenas se tumultuavam e acompanhavam as vozes de fora, das outras quatro pessoas conversando sobre qualquer coisa que eu não queria tanto conversar.
Quando voltei para casa, quis ler mais mensagens, mas não as tinha. Antes que o impulso de mandar qualquer coisa a ele me tomasse, às 23 horas em ponto, dormi.
16:10 agora. Nada dele.
Mas hoje, quando acordei, tinham mensagens de 23:05, 23:06 e 23:07. Ele se sentia culpado e com alguma dívida sobre mim, ele prometia me recompensar pelo desencontros de sexta, de domingo e de todos os outros dias. Eu li, reli, eu continuei lendo até as onze da manhã, quando respondi finalmente. Mas já não valia de nada. Não valia como as promessas deixaram de valer também. Não valia para me acalmar. Não valia para sossegar o drama dentro de mim. Não valia para conter esse choro que tem medo de vir. Não valia para explicar aos meus amigos que ele não é assim, tão ruim quanto parece. Não valia porque o rompimento de todas as expectativas criadas por ele mesmo foi mais doloroso do que deveria ter sido. E, pela milésima vez desse mês, eu digo: eu não sei lidar.

quarta-feira, janeiro 06, 2016

Mais de nós

    Para não ser menos do que já somos, precisamos de mais do que já temos: um desperdício enorme de tempo para rir. Aproveitar um pouco mais de nós seria nos esconder numa dessas noites em que o mundo nos esquece, passando despercebidos por frestas de janelas e cortinas. Viver um pouco mais de nós seria percorrer outros caminhos, sem desatar as mãos. Eu sugiro, num sussurro em especial, que a gente gaste mais horas só para ganhar mais histórias, apenas para nos restar o que dividir depois. Para não perdermos o pouco do que por agora queremos, podemos ir mais a frente, mesmo que descalços pelo improviso e despreparo, mesmo que falte água e luz. Os postes podem nos iluminar até antes das três, depois só lua, depois só sol, e não importa. Para que eu possa ter mais de você, ofereço mais de mim, até que entre os compartilhamentos, ser nós, sermos, nos ser, te ser e tecer, seja tão simples quanto esse instante. Esse instante em que te olho e penso em tudo o que queremos e precisamos numa mesa para dois.
Flavia Andrade

Novo ano

    Eu iria reaproveitar textos de 2015 para escrever uma coisa qualquer sobre o que vem me acontecendo nesse começo de 2016, e senti uma pena de mim. Uma pena por pensar assim, desse jeito preguiçoso e acomodado, enquanto a vida vai caminhando sem esperar muito, meio apressada, olhando para trás apenas para me encarar um pouco indignada com minha demora. De qualquer modo, os dias apenas continuam na contagem exata de vinte e quatro horas e a mudança dos anos só nos serve de susto. Uma verdade repentina que se explode. Você espera por ela, mas ainda que esperada, no fim é sempre surpreendente. A verdade de que mais um ano inteiro se passou e mais uma fase inteira ficou para trás - mesmo que você não saiba se é possível finalizá-la ou não. Sem reajustes, o que vem acontecendo é apenas consequência desse tempo que não pára, dessa mente que não sossega, desse coração que ainda não cansa.

Flavia Andrade

terça-feira, janeiro 05, 2016

Intensidade por inteiro

    Meu emocional é feito de pressa, vira noite enquanto ainda raia o dia. Não espera muito, porque os sentidos se acumulam e se renovam e mudam o tempo todo, queimando de fora a fora, pulsando à flor da pele. Corre para o tumulto interno quando enxerga de longe a primeira multidão, com um medo danado das relações sociais - mesmo que no âmago os desesperos batam mais fortes e sem chances de fuga. Chora por não ter aninho, mas não se dá ao tempo de se entregar. É um tanto desestabilizado, mas tenta funcionar como um desses sentimentos bem resolvidos. Meu emocional é o resumo infindo do que sou, pois transbordo a todo instante. Por dentro sou pura intensidade e por fora sou o que não consigo conter, e de longe se estampa em mim o aviso de que sou toda exagero. Não sei porque ainda digo explicações, se me faço de incompreensão por inteiro. Pode ser apenas que venho pedindo socorro. Um pouco ou um pouco bastante, por menos suficiente que seja, de socorro para o aglomerado de sentidos, sentimentos e senti-medos meus. Pode ser que venho querendo um pouco mais de alguém que me deixe um pouco menos bagunçada. Pode ser que a exigência não seja em um todo tão complicada. Pode ser que para dar sossego a essas palavras, seja necessária somente uma frase boa dessas de me fazer acalmar.

Flavia Andrade

segunda-feira, janeiro 04, 2016

    Eu tenho medo das suas frases menores dizendo algo diferente que tentam passar despercebidas, mas percebo. Medo das pequenas oscilações entre tanta certeza, apenas porque confiar - assim, de olhos fechados - seria demais para quem levou tantas rasteiras de promessas. Eu sei que seu esforço para me dizer as coisas mais bonitas é maior do que o meu. Mas somos diferentes nisso de sentimento. Eu sou uma pessoa qualquer, contemporânea e abstrata, e você é um clássico romântico. Nem sei porque fui gostar tanto. E por agora, pode até parecer que venho me arrependendo e querendo desistir antes da hora. Contudo, explico, tudo isso não passa de medo. Medo de correr esse risco imediato, apenas porque de longe parece bom. Medo de querer mais do que sei viver, como uma vida a dois pra quem tem coração egocêntrico. Coração que sente muito mais do que os outros e divide quase nada. Mas, perdoa esses receios todos. Ainda posso tentar. Ainda posso seguir. Embora fique sempre em corda bamba e linha tênue. Embora sinta uns surtos de fuga. Mesmo que fique procurando em você um motivo prejudicial que seja para não insistir. Eu quero, até quando penso rapidamente que não temos razões.
Flavia Andrade

sexta-feira, janeiro 01, 2016

    O primeiro texto do ano é a primeira conversa comigo mesma, depois de um longo período acompanhado pelo calendário. Até quando os dias pareceram durar décadas, mesmo assim, eram sextas que virariam sábados e correriam para os domingos ignorando a mente presa ainda nas terças. Porque o tempo lá fora passa a cada vinte e quatro horas, mas dentro da gente só passa quando a mente e o coração se alinham, preparados para sei-lá-o-quê que pode nos alcançar. Por vezes alguns porres não me deixaram controlar os pensamentos e por outras vezes a sobriedade não me deu chances de agir por impulso. A vida é um tumulto sensitivo - e tão humano, afinal. Os textos escritos foram repetições de momentos vividos, tão intensos a ponto de significarem coisas novas até o fim deste novo ano e se adequarem ao que há de vir. Os textos que ficaram pra lá ainda vivem, porque independem da data exata em que foram escritos. Mas por agora, somente por agora, o texto prende o antes, o agora e o depois, de uma vez. O sentimento do que poderia ser feito, do que faço e do que poderei fazer. Somente por agora, enquanto escrevo, nas palavras ficam as vontades esperançosas e algumas decepções discretas. Fica a saudade e vem o desejo. Exatamente neste instante, cada palavra minha tenta alcançar duas ou três pessoas especiais, só para pedir que fiquem também. Fiquem como os melhores sentimentos ficarão. Fiquem enquanto o que há de bom durar e cobrir o que sobra de ruim. As palavras querem dizer o que ficou preso no ano passado e flutuarem no ar sem culpa. As palavras são de quem andou aprendendo (sem ter aprendido completamente) que força é também paciência, e vice-versa. São de quem esperou muito, a ponto de entender que esperar tanto é perder tempo. São de quem quis exageros até encontrar felicidade em detalhes. São de quem quer ver e ouvir da vida, por mais um ano, o que há de se fazer para viver em paz.

 Flavia Andrade

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