quarta-feira, março 30, 2016

Das constelações às multidões

sky, night, stars

    Que não construam mais prédios, os olhos pedem. Os olhos que saem à noite apenas para encontrarem aglomerados de estrelas no céu. Eu interrompo falas noturnas de quem quer que esteja andando ao meu lado para adicionar um comentário verborrágico sobre o que vejo, e não há nada que me impeça de valorizar o plano-sequência real das caminhadas nessa cidade de casas baixas. É assim também com um corpo intensificado pela alma que quer encontrar outro corpo transbordando apelos de um coração devorador de espíritos e auras. Que as pessoas não construam mais barreiras, que não arquitetem mais medos, porque o amor precisa de espaço; precisa ser enxergado a olho nu, com telescópio ou olhos de caleidoscópio no meio de um tumulto ensurdecedor. É preciso que se sinta tão quanto se vê, porque sentimentos cegos são confusos e perdem a melhor parte: o reconhecer. É preciso que haja uma paisagem livre, digna da infinitude de uma fotografia horizontal, para que os olhos perscrutem até encontrarem quem desejam, como perscrutam o céu até encontrarem o Cruzeiro do Sul. Te reconhecer de longe, afinal, é o impulso que me faz correr sem me preocupar com qualquer obstáculo, querendo alcançar somente a parte sua que me falta, ainda que essa parte seja seu eu completo prestes a me inundar. Que as pupilas dilatem com cada estrela e pessoa encontrada.
Flavia Andrade

segunda-feira, março 28, 2016

   Mas é que eu gosto um tanto de te ter no silêncio do meu mundo pacato. Não quero convidar mais ninguém para esse lugarzinho que me pertence e não quero que te vejam chegando para evitar que desejem nos acompanhar. Eu gosto de quando só sobra eu e você no fim das festas, quando o som das músicas já está baixo e é tarde o suficiente para as ruas adormecerem, assim nenhum barulho de carro ou moto pode interromper nossas trocas de olhares confidentes que não deixam as bocas dizerem nada. Eu gosto do movimento dos nossos braços quando andamos de mãos dadas e, se fecharmos os olhos, podemos nos imaginar no espaço mais afastado da cidade com uma rede em dia de domingo para balançarmos. Porque não há nada que soe mais completo que nós dois entregues inteiramente, um ao outro. Então me desculpe por não contar a ninguém o quanto sua existência vem preenchendo a minha vida, porque não quero perder nem pedaço nem detalhe seu que tenho em mim.
Flávia Andrade

De escritora à louca

   De escritora à alcoólatra é um passo. O pequeno passo que você dá para sair da sala de estar, largando os papéis e as canetas no sofá, levando alguns trocados no bolso para gastar no boteco mais próximo. De escritora à louca é um olhar. Às vezes não é possível que te olhem com aquela licença poética requerida, apenas entendem todos os seus comentários devaneados como um surto qualquer de quem não tem muito auto-controle. Eu dei esse passo nos últimos dias, e andaram me olhando errado. Por fim, pareço alcoólatra e louca. Bebo e me encaram como se eu estivesse precisando ser presa em um quarto branco. Escrevo e me leem como se eu tivesse uma completa abstinência da vida real, sendo que a verdade é que a realidade não me chama tamanha atenção como os livros.
Flávia Andrade

O bem necessário

   A minha resposta continua sendo a mesma: eu só quero ficar bem. Isso significa me afastar das pessoas que andaram me prejudicando de alguma maneira simples ou complexa; significa deixar de lado os planos que foram impostos sem um mínimo de vontade minha e também os destinos para os quais eu estava indo sem admirar o caminho. Isso significa não parar para ouvir mais daquilo que eu já cansei de revidar, não olhar para quem e o que vai ficando para trás e não querer, em um segundo sequer, continuar com o que quer que esteja me fazendo perder a sanidade emocional durante os dias. Eu só quero ficar bem e isso significa pensar mais em mim, me colocar à frente do mundo para enfim poder enfrentá-lo.
Flavia Andrade
    Do fundo do meu exagero mais piegas, uma confissão: ainda que fosse o fundo de um poço, se fosse ao lado dele, eu ficaria. Eu afundaria meu rosto em sua camiseta para não sentir o cheiro ao redor e deixaria que seu rosto repousasse no vão do meu pescoço para também respirar. Ficaríamos abraçados com a força de um mundo inteiro para nada ruim nos atingir com nenhuma precisão. Por ele, por mim. E mesmo se começassem a arremessar algo lá de cima, nos espremeríamos bem no canto, sãos e salvos. Que outro gesto, senão um beijo, mataria mais sede? Sobreviveríamos. Eu não temeria em dizer que estar com ele provocava a melhor sensação que eu poderia sentir.
Flavia Andrade

domingo, março 27, 2016

Rotina

   Eu fugia da rotina, não queria nada demais. Errar caminhos e desviar de pessoas parecia o ápice da corrida mórbida de quem queria ser livre, como se liberdade a dois não fosse possível. Por quanto tempo a gente insiste em negar o que nos faz falta? Porque eu só percebi que precisava de dias repetidos quando um dia com você foi o melhor que eu pude ter, e ao voltar para casa foi preciso revivê-lo em memórias até pegar no sono às quatro da manhã. Querer mais do mesmo é aquietar a alma e a mente, vivendo dias que de tão parecidos não requerem mais nada que seja necessário ir buscar tão longe. Rotina traz sossego, por fim.
Flavia Andrade

sábado, março 26, 2016

    Meu cabelo embaraçado precisa dos seus dedos deslizando entre os fios para separá-los, penteando-os em um ritmo só seu que me afasta do frenesi mundano. Sinto vontade de me aconchegar em seu peito e sair somente quando disserem que o pior da vida já passou, ainda que dure uma eternidade. Se você entendesse o quanto me protege do que há lá fora, impediria-me de qualquer movimento retrógrado a partir da primeira despedida para eu não ir embora, para eu não ficar vulnerável novamente. Porque eu sei que me cuida e deixo que o faça. A maior parte de mim quer ser inteiramente sua para servir de base para a outra parte que tem que aprender a viver sozinha. São somente gestos que eu peço por agora, como provas de que ainda está comigo.
Flavia Andrade

sexta-feira, março 25, 2016

    Sei que andei errando mesmo depois de tanto te cobrar por mais acertos, e que venho fazendo o que te pedi para não fazer sem ver que essas coisas todas te machucam também, na mesma medida. Mas é que às vezes parece que se não é você, deve ser eu a primeira na semana a dar o aceno de retorno, pois há sempre um novo empecilho quando estamos prestes a ir de encontro ao ponto em que tudo dá certo. O ponto que almejamos com todo o ardor de nossos desejos misturados. Ocorre sempre um susto que nos toma e nos faz voltar, impedindo-nos de apenas seguir em frente de mãos dadas. Eu entro em um desespero que te atinge e me desespero mais ainda quando noto seu mal estado por minha causa, como se a cada tropeço torto eu nos separasse a ponto de nos deixar em dois pontos extremos com quase os mesmos motivos para não sorrir por algumas horas ou dias. Não sei se é por gostar demais que o medo nos atinja, ou se é por gostar com tanto medo que a distância tente nos impedir, apenas sei que quanto mais longe ficamos, mais sinto uma falta enorme de cada abraço seu. E toda vez que eu sinto que não estamos bem, só penso em me recompor o suficiente para te aninhar até o fim dos problemas maiores, porque com os problemas pequenos podemos conviver. Me perdoa por ser uma noite de distúrbio quando você planeja o melhor para nós, eu não durmo pensando em uma maneira de ser melhor do que o melhor que pedi que fosse para mim.
Flávia Andrade

Tic, tac, para trás.

    Faz algum tempo que não te vejo, e só pude perceber quando era tarde da noite, tarde demais para me levantar e ir te procurar em algum canto da cidade. Eu dormi pensando que nunca mais, desde a última vez que nos vimos, confundi seu nome no meio das conversas - talvez porque a vontade de te chamar tenha passado, assim como as datas festivas daquele fim de ano passaram -. Quando se encontra um horizonte para fitar e seguir sem pressa, com aquela autenticidade de ir sem medo porque foi escolha sua, não há nada que o prenda a quem não foi junto. A falta só dura o tempo necessário para que você aprenda a satisfazer-se de si mesmo. Depois o que resta é um espaço maior ainda no cabide para laços afetivos novos e semi-novos, para criá-los, recriá-los e guardá-los. Eu deixei de saber por onde você anda, com quem conversa e em que casa vive, desconheço por completo sua rotina - a não ser que não tenha mudado e minha memória não seja tão falha - tampouco te procuro naquele endereço que eu costumava saber de cor. Deixo estar bem longe, deixo se desprender de mim com a mesma exatidão da intensidade de me desprender de você. Desatar laços afetivos, afinal, é tarefa para mais de um: quem tenta e quem deixa, quem inicia e quem termina, quem pede algum tempo e quem aceita que este tempo passe, mesmo que deixe um resquício ou outro pelas beiradas. Como o pequeno detalhe em cima da cômoda que me fez lembrar de você quando eu estava quase caindo no sono por completo, como alguma pessoa de mesmo nome que o seu que às vezes aparece no meu dia, como histórias parecidas com a nossa retratadas em filmes ou livros. E, de qualquer forma, tudo já ficou pra trás.
Flavia Andrade

quinta-feira, março 24, 2016

    Porque eu preciso. Entre todas as coisas que não explico e as razões que não dou parecer nenhum, entre as ameaças de fugir para longe da sua incompreensão e de ficar para aguardar mais algum tempo até tudo passar, eu só sei que preciso. Porque as pessoas se constroem sobre amontoados e sob tumultos, a ponto de se perderem dentro de si mesmas, a ponto de não saberem mais quem são e o porquê. De toda forma, no ponto exato em que eu estava, você me achou no mapa e se aproximou. Porque você também precisa. Entre o que faço para te mandar para longe e o tanto que peço para não me ouvir quando digo bobagens, com paciência, continua por perto. E se as necessidades que sentimos, além daquelas mais naturais como sede e fome, são saciadas dia após dia, por que ir? Se em todas as voltas e retornos redescobrimos o que já sabemos desde o início: que a vida não vale muito se estamos andando sozinhos. Porque nós precisamos.

quarta-feira, março 23, 2016

Sobre você ter ido embora cedo demais

    Depois de sua partida, sou por completo uma saudade inteira nessa cidade pequena. Andando com um sorriso frouxo, de lado, lembrando de quem não anda mais por rua alguma da mesma maneira cabisbaixa que a minha. Sou uma filha que sente falta do pai, uma menina que quase não soube se ver sem herói e mesmo assim cresceu salvando a si mesma dia após dia, em todos os sentidos mais clichês. Sei algumas músicas de cor em uma voz masculina que recorda a infância, na tentativa de não deixar mais nenhum dos poucos detalhes se perder para o tempo que passa sem receio. Os dias de junho de agora não são os mesmos dias de junho de dois mil e nove. De lá pra trás os dias costumavam ser mais curtos e menos vazios, de lá pra cá toda semana exige um fragmento de lembrança para dar vida ao que tenta morrer aos poucos, e não deixo dessa vez. Os meus passos não são contados, tampouco o tempo que já passou com exatidão, mas eu sei o tanto que caminho e quanta coisa aconteceu desde a vez em que olhei para ele sem saber que era o último momento. Assimilar dias passados e dias presentes, antes e depois, sempre provoca um impacto emocional, como se fosse ele quem estivesse notando a grande diferença e reagindo em minha frente. Sou quem comemora em silêncio e brinda ao céu quando algo bom nessa vida acontece, para orgulhar quem não teve chance de ficar e ver de perto. E me esforço para ser melhor por quem já foi tão incrível, à fim de assemelhar as vivências e manter um fio imaginário que nos ata desse mundo real ao mundo que ainda desconheço. Sou tanta saudade que aprendi a trazer os bons sentimentos resgatados comigo, e já nem choro mais. Sou uma parte dele que ficou e que precisa viver um pouco como ele quis, transmitindo a quem não o conheceu as melhores partes do que ficou salvo em mim.
Flavia Andrade

Natasha

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