dezembro 31, 2015

pressa de ser feliz

eu iria parar aqui no meio do caminho, porque eu acho que tô indo rápido nisso, com uma pressa tamanha de ser feliz de vez com a cara e a coragem, - sentir medo é só mais um defeito meu que afoguei nos copos de bebidas que bebi quando as outras tentativas não deram certo -. eu iria parar, se uma coisa maior em mim não estivesse com tanta certeza de que, de agora em diante, errar é só uma questão de sorte para chegar às partes boas.

dezembro 25, 2015

Diário III

    É incrível como cerca de um mês foi capaz de mudar meus sentimentos. Uma nova pessoa apareceu. Seis. Não tão forte quanto o Sete foi e talvez ainda seja pra mim. Me faz bem quando está perto e me enlouquece quando está longe, mas isso  é coisa minha. É toda essa minha coisa de ser neurótica, obsessiva e desesperada. Imediata. Eu preciso dele aqui e agora, é sempre assim. Eu pressiono a saudade.
    O natal não foi a pior noite do ano, mas não entrou em patamar nenhum. Tive insônia, tive overdose de pensamentos, tive aquele sentimento de falta que me persegue. Falta não sei de quê.

Espírito natalino

    Essa noite não é como todas as outras, mas eu a conheço de alguma época, como se esse instante fosse uma coisa vivida há um tempo atrás. Não consigo lembrar quando aconteceu e não sei lembrar como termina, mas me arrisco em permanecer acordada até que o próximo dia venha. Quero vê-la passar.
    Sobre o que sinto agora, ainda não sei. Talvez seja a saudade barata causada por uma paixão passageira que me leve a essa nostalgia mais profunda, ou vice-versa. Talvez seja a falta de amor lá fora e o excesso de amor dentro de mim. Talvez seja o quanto não demonstro e o quanto sonho com demonstrações de afeto. Sobre o que sinto agora, somente o ar um pouco incômodo do ventilador, a paz dos ouvidos pelo fim dos fogos de artifício e a vontade de ter bebido qualquer coisa com álcool.
    Meus toques em mim, toques próprios ainda que desapropriados, os toques são bons. Eu estive sentindo minha pele e imaginando a sensação de outras pessoas que já a sentiram. Penso sempre em agradar o quanto posso e ter sido boa o suficiente na medida que pude. Por agora, não soa tão difícil. Mas o abraço de uma ou duas pessoas - com suas particularidades e impossibilidades de estarem comigo agora - me fazem falta.
    A noite não corre, a noite não caminha, a noite vaga. Os minutos são processos minúsculos de sentidos, pensamentos e devaneios que vão estourando - silenciosamente - no ar, aos poucos, depois de inflarem alimentados por tudo o que há na minha cabeça. Algumas luzes aqui e ali permitem que eu veja o máximo que é também o mínimo desse horário, a melhor parte: um pouco do céu lá fora, silhuetas dos móveis e os dedos das minhas mãos que teclam um novo texto.
    A noite não me apresenta nada além do que eu mesma posso produzir, e ainda assim me disperso. Procurando um objeto qualquer vulgar, um inseto qualquer chato, uma pessoa qualquer no portão. Procurando algo que me tire daqui de imediato - somente porque sei que nada vai surgir e não terei de sair do cômodo. Procurando apenas porque estar comigo mesma, tão entregue e livre, causa algum medo meio sem sentido.
    Às vezes a inspiração parece falhar, e lembro da única pessoa que me faz escrever até quando eu peço para sumir, desaparecer, não me ver mais por nunca mais pelo resto de nossas vidas. Por muitas vezes eu pareço falhar, apenas por ainda buscar inspiração nesse alguém. Quem diria, então, que todas as aparentes falhas fossem me trazer até aqui. A vida de escritora não soa tão mal quando se tem como matar o tempo em uma noite natalina de insônia.
    Não há muito o que desvendar nesse meio escuro. De todo jeito, encontro novos motivos para não estar tão feliz, tão triste, apenas meio-termo. A vida é morna daqui pra lá, como quis ser também de novembro pra trás. Há muito em mim, eu repito sem parar, e há pouco lá fora, eu reclamo sem parar, o equilíbrio ocorre em instantes raros que tento recriar de novo e de novo. Nessa noite, enquanto todos dormem, o equilíbrio quase acontece.
    Essa noite não parece fim. Os filmes, as relações - e também os amores -, as ceias, o trânsito, tudo deveria começar nessa média de horário das duas da manhã. Deveríamos dormir enquanto o sol estivesse forte e queimando nossas peles. Deveríamos ter investimentos nas luzes dos postes e nas lâmpadas e nas velas e em tudo o mais que pudesse colaborar com a lua.
Essa noite, tão melancólica e rara, com seus extremos emocionais, à flor da pele, parece a melhor noite para me encontrar.

Flávia Andrade

A saudade que tenho que sentir

    Eu sinto falta de você somente porque não posso dizer que é meu, e conto os dias para fazer um convite disfarçado de coincidência de ocasiões. Por acaso a gente se esbarra em um caminho calculado por mapas por mim e não conto a ninguém como foi que te encontrei. Eu sinto saudade apenas porque não sentir seria admitir que algumas horas longe não fazem tanta diferença. E fazem. Eu sinto vontade de te ver só porque fazia um tempo que eu não encontrava alguém que me dava esses impulsos de felicidade que você me dá, e senti-los é mais uma dessas coisas que mudam a rotina sem graça que eu tinha antes de te conhecer. Conhecer esse seu jeito, afinal, depois de saber seu nome, foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos meses. E por isso, eu tento ser um pouco melhor do que sou, de uma forma mais bonita de me apresentar, pra não te deixar desistir tão fácil.

Flavia Andrade 

dezembro 23, 2015

Here we go again.

As partes mais bonitas eu guardo pra mim, e aqui coloco só o que me resta para mostrar a um mundo que não confiava nas boas decisões que eu pudesse fazer. Eles me viram insistindo no que nunca poderia dar certo, como os choros no ponto de ônibus depois das dez da noite por não ter encontrado quem disse que me encontraria. Eles me viram desistindo de mim mesma apenas para me adequar às vontades de um alguém que nunca se interessou no que eu tive a oferecer. Eles quase não suportaram as mudanças, porque a dor de não ser mais eu transbordava e espirrava algumas mentiras neles. Mas, como se não fosse mais uma vida minha - vida errante, eu comecei a me (re)encontrar. Deve ser essa coisa sobre se encantar por um detalhe novo dos dias que finalmente parecem passar. Deve ser algo sobre se apaixonar novamente. Deve ser algo sobre confiar no amanhã, valendo como dia 24 de dezembro, valendo como um dia qualquer de 2015, valendo como um recomeço meu numa data propícia.

Flavia Andrade 

dezembro 22, 2015

Outra fuga

    Pra lá eu vou. Sem nome nenhum, porque só os mortos têm nome e sobrenome reconhecidos lá pra fora do país. Eu vou ainda viva, ainda que embriagada demais para jurar vivacidade de consciência. Vou atravessar de mundo em mundo pra chegar numa rua só: a que vai me fazer feliz. A rua onde você escondeu seu corpo esguio, fingindo não querer mais nenhum abraço meu.

Das dificuldades tamanhas

    Eu não consigo relaxar os músculos, não consigo desacelerar o coração de volta à normalidade aceitável. Eu não consigo respirar muito sem algum pensamento sobre você. Não consigo pensar muito sem parar no seu nome. Não consigo ver tanto seu nome por aí sem querer te ver. Não consigo ir te ver sem me encontrar primeiro, sem ter medo de me perder na sua frente. Não consigo perder esse medo enquanto você não me chama com breves insistências. Não consigo explicar o quanto umas tentativas a mais aos meus charmes às vezes caem bem. Não consigo explicar, afinal, muita coisa. Não sei fugir do meu próprio silêncio, mas sei que quero te deixar acomodado até quando não tivermos palavra nenhuma para dizer. Não somos de mudez mútua, mas risada a gente compartilha até que bem. E não sei perguntar se você está bem com a sinceridade maior de pedir para me contar cada angústia guardada e cada felicidade sua que não presenciei antes. Não sei manter a conversa até descobrir sua vida inteira e pedir pra me encaixar. Eu estou sentindo tudo, mesmo sem conseguir nada além de te abraçar bem forte significando muito além de um calor casual. Assim, perdida e bagunçada, como uma pedrinha importante no bolso de uma pilha de roupas sujas, eu espero você me descobrir.

Flavia Andrade

dezembro 21, 2015

Overdose de pensamentos sobre você

    Eu fico parada no meio da sala de estar enquanto aquela música que diz tudo o que eu não sei dizer toca. Eu fico aqui porque na cabeça os pensamentos giram acelerados, causando em mim uma overdose de possibilidades, hipóteses, otimismos e pessimismos. Eu tomo todas as doses de todos os tipos de ideias futuras. De agora em diante, faço o de sempre, pois sou uma persistência dos mesmos erros. Até aí, logo no início do meu relato, você se encontra percebendo que eu me esforço para não ficar em paz no que me meto sozinha, e que saboto a minha vida apenas por exagerar um tanto cada sentimento. Olha aqui a menina que erra de novo e de novo no mesmo ponto, no mesmo horário, com os mesmos motivos. Pode parecer o pior de mim, o pior do que faço, um jogo sujo contra o que desejo. E então, a partir dessa frase, começo a trazer alguma razão quase suficiente que me justifique e me salve por algum tempo razoavelmente bom. Eu erro de novo porque espero o melhor. Eu repito o erro porque nunca perco a confiança cem por cento. Eu insisto no que não deu certo porque alguma fé, superstição ou algum resquício infantil de acreditar em mágicas me move até o ponto de partida de sempre. As chances da vida me frustrar outra vez são sempre as maiores, mas os riscos me rodeiam, me contornam, funcionando como os riscos que faço em folhas formando letras e palavras e frases. E eu não sou de negar nenhum tipo de risco, nem de corrê-los nem de escrevê-los. Bato de frente, ainda que doa depois. Vou pra cima, ainda que despenque rapidamente ou lentamente no chão. Isso deve ser alguma coisa grande de gente otimista, algo que as camadas espessas e velhas de pessimismo por cima do meu corpo não conseguem aceitar tão bem. Ter otimismo, afinal, é o maior risco de todos. E eu pego pra mim como uma coisa casual que tenta ser séria.

Flavia Andrade

dezembro 17, 2015

Guria de papel

    Foi em um dia de sol, no qual o sol parecia desenhado e pintado com lápis de colorir amarelo: estava ali só de enfeite e não queimava, foi num dia desses que aquela menina nasceu. Sem dentes, embora já soubessem que logo que aparecessem também iriam amarelar. Ela nasceu felina, feito gato: ficou pouco com a mãe e logo foi largada no mundo. Não teve dono também.
    A menina ficou ali precisando de leite, mas só tinha sete vidas persistentes e vento nenhum, chuva nenhuma a fez se perder dela mesma. Suportou todos os traços coloridos de alguém bondoso que ainda se dava ao trabalho de pintar um céu inteiro para ela e, vez ou outra, coloria uns carros na cidade que tinham barulho só de papel amassando na mochila no meio dos cadernos.
    A menina nasceu no ar, tão abandonada e sem atenção que quase virou bolinha arremessada na lixeira do canto da sala de aula para crianças. Mas era sortuda, tão sortuda que foi esquecida na mesa mais limpinha e lá teve oportunidade de sentir o cheiro da merenda e o passar dos dias.
    Tinha olhos pregados pra direção exata de olhar pra fora e enxergar o universo no qual não poderia estar, mas, de alguma forma, vinha de lá realmente. 

dezembro 14, 2015

Ao Bukowski

     Você aposta em cavalos, Bukowski, eu só sei apostar no amor. Sei que também já apostou nessa coisa que é tudo aquilo que dissemos que não era, porque reconheço seu sentimentalismo de longe, nas entrelinhas mais discretas. A diferença entre você e eu, é que você sabe fingir bem que não sente nada por ninguém, só sente muito pela própria vida, como se um suicídio fosse um favor que você não vai cumprir tão facilmente. Eu não sei fingir nada e me deixo exposta em um sol de meio-dia lembrando das coisas suas que já li. Eu te vejo com suas incontáveis mulheres, adorando todas elas com seus defeitos mais gritantes - porque você gosta dos erros, das falhas -, e de minha mulher eu só chamo a cerveja, o único cão dos diabos que me dá bons efeitos. Essa cerveja aí é tudo o que você quer pra agora? Não vai pedir um vinho ou um uísque? Eu pergunto isso porque, na verdade, gostaria de estar perguntando o que te abala e te faz chorar deitado em posição fetal no meio de uma crise, mas soaria um porre. Perguntaria isso apenas porque estou aqui comparando sentimentos nossos, procurando qualquer deslize que sai de uma palavra sua e corre até uma minha para que possamos nos parecer em algo, porque meu desespero grita. Meu desespero de entender como é ser um escritor como você e para entender como é ter mais de cinquenta anos e não morrer de decepção com a própria escrita - porque acreditar que ela é boa é difícil demais. Eu me pergunto, e queria ter uma coragem tamanha de perguntar pra você, admitindo até que não reconheço em mim forças para isso, como os grandes títulos geniais aconteceram. Francamente,"Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém", como isso aconteceu? Como os pedaços de um caderno manchado de vinho surgiram? Como você colocou todas aquelas salas de estar que sempre davam em cozinhas com bebidas no Hollywood? Como uma crise existencial vai de um pássaro azul a uma reflexão sobre merda? Eu não saberia percorrer tanto caminho dentro de uma literatura assim nem se escrevesse em todo muro que eu encontrasse daqui pra frente. Eu não saberia enganar tanta gente do século XXI com frases pseudo-otimistas, soando com uma pessoa que até faz auto-ajuda, para em uma leitura mais aprofundada revelar que as lamentações de um velho safado nunca fizeram sorrir, a não ser através daquela risada ácida sobre as piores desgraças da vida.
    Nós podemos conversar sobre as mulheres e suas formas, e seus corpos, e seus cheiros, e seus jeitos. Nós podemos conversar sobre as bebidas e seus gostos, e seus efeitos, e suas ressacas. Mas a escrita sempre vai ser pertinente quando se trata de você. Seu silêncio eterno vai dizer "Don't try" e eu só queria saber como é não tentar em uma coisa tão imprevisível, como é não ir em frente até quando não se sabe se pode sair um texto muito bom ou muito ruim. Que porra você faz na frente da máquina de escrever? Vira garrafas e escreve tudo o que quer? Fica encarando aquelas letras, aquele papel, aquela ideia dentro da mente? Eu não sei como, de todos os resultados possíveis, você conseguiu os melhores, sendo apenas um fodido na vida. Digo, você não escreveu sobre dragões e deuses mitológicos, tampouco sobre fantasmas que não fossem a própria consciência e a própria razão. Você foi o melhor fodido nessa vida toda, certo?
    Sei que não ficará por aqui sanando dúvidas, então, antes que se levante para ir embora e eu precise começar uma briga com alguém do bar para te fazer ficar mais um pouco, eu só vou dizer uma coisa qualquer sobre inspiração. Sobre o quanto as duas primeiras páginas de Pulp, primeiro livro seu que li, mudaram toda a minha visão sobre tudo. É irônico como logo o seu último livro foi o meu primeiro - e a essa altura já não sei mais em que época planejo essa conversa toda -, e é um tanto engraçado como desde então eu nunca mais quis seguir padrão nenhum de escrita. E é curioso como uma garota de 15 anos lia Charles Bukowski escondida enquanto matava aula na escola e, sabendo pouco sobre a dor e lendo muito de um rabugento, quis fazer algo parecido na vida. Anos mais tarde, Buk, eu descobri o quanto o álcool salva a escrita, na hora ou depois, no porre ou na ressaca, na tontura ou na ânsia, no fogo ou no banho gelado. Salva sempre. E a escrita salva a vida, isso eu leio em cada linha sua. Nosso brinde pode ser contínuo: um copo de cerveja gelada virado de uma vez em todas as vezes que bebermos e pensarmos em algo para escrever.
Flavia Andrade

dezembro 03, 2015

Meu próprio City Lights

    Que a cidade me perdoe por encontrar em cada canto, beira e centro dela, muito de você que persiste em ficar aqui sem discrição. Parecendo que sobrou perfume seu no ar ao se despedir com os olhos semicerrados. E que perdoe a culpa das esquinas e dos bares, dos ônibus de número 87 e da praça por me fazerem (re)contar quanto tempo faz que a gente não se vê. A cada dia que passa, além de deixar tudo nosso mais pra trás, é uma chance a menos de ir te buscar, mas os números são só números. Sozinha assim, em meio aos crimes de apego, eu só desejo que minha mão que escreve saiba desculpar meu inconsciente inconsistente que transforma as frases mais banais em textos de poética dos sentimentos exagerados sobre nós. É que a saudade me mete em confusão. E de todas as formas de me perder na rua, o perigo maior é querer te ver outra vez e pegar estrada pra te encontrar. Porque só de estar aqui, a sua falta me empurra ao seu encontro, e eu juro que levo os filmes e os shows gravados daquelas bandas pra gente assistir aí nesse lugar novo que te prendeu. Que a cidade tão nossa, um pouco ciumenta, não chore quando eu for embora também, e guarde com zelo as nossas memórias até que a gente volte para reinventá-las.
Flavia Andrade

novembro 25, 2015

#MeuAmigoSecreto

    Meu amigo secreto não gosta de mulher que bebe, mas se aproveita de uma após embebedá-la. Meu amigo secreto é amigo, mas se eu "der mole", ele pega. E se eu não quiser, não é amizade, é o seu pesadelo da friendzone. Meu amigo secreto não se importa com aparência, mas não pega mulheres gordas, altas, e acha que cabelo curto é muito masculino. Meu amigo secreto gosta das minas branquinhas, mas não tem preconceito, longe disso, até já me contou de uma vez que pegou uma "mina de cabelo ruim". Meu amigo secreto é a favor do feminismo e entende que a mulher deve lutar por seus direitos, mas as "loucas peludas" é exagero, mas "mostrar os peitos na rua pra protestar" é vadiação, mas ter iniciativa e sexo casual é ser puta. Meu amigo secreto adora um puteiro, vai nesses locais frequentemente, mas até hoje não entendeu que putas são somente essas que cobram. Meu amigo secreto quer uma mina responsa pra casar, acha um absurdo o tanto de menina que é só pra pegar por aí, mas adora se vangloriar para os amigos com os números de quantas já comeu. "Essa foi fácil". Meu amigo secreto separa mulheres entre as que são para pegar e as que são para casar, mas quando entra em relacionamento sério, trai a namorada, porque "a carne é fraca". Meu amigo secreto não é homofóbico, só acha que não precisa ficar de esfregação em público, e acha tudo bem reduzir a homossexualidade a atitudes de exibição pública de afeto também praticadas por casais hetero. Meu amigo secreto ama sua mulher, mas "em momentos de raiva", "sem pensar", aponta defeitos a ponto de diminuí-la em relação a ele, chamando-a de burra, incompetente e tantas coisas piores. Meu amigo secreto adora "comer com os olhos" as minas que passam na rua, assovia e diz "gostosa", querendo ser ouvido, mas coitado, ele me disse que nunca assediou ninguém. Meu amigo secreto é feminista no facebook, mas na roda de conversa com os amigos já tentou me mandar calar a boca, porque eu sou mulher e não sei dar opinião. Meu amigo secreto não entende, sequer, o sentido das palavras que diz, das ações que pratica e das babaquices que comete.

    Toma meu presente pra você, fofo.

Flavia Andrade

novembro 23, 2015

Diário II

Hoje o dia foi comum. Eu só sinto que ando comendo demais. E eu tenho um tipo de psicologia inversa que não sei controlar. Penso que estou engordando e que preciso parar, então me afundo em coisas que engordam. Quanto mais penso em diminuir o tanto de coisas que como por dia, mais como. Como exageradamente. Comi um lanche logo que cheguei na faculdade, junto de um suco de uva com leite. Depois comi um pote de salada de frutas e senti falta do leite condensado. Depois almocei, beleza. Mas quando cheguei em casa, almocei de novo e era strogonoff. Também comi um pote de pudim, um pote de salada de frutas - dessa vez com leite condensado. Mas agora a noite não comi nada. Senti um pouco de fome, mas ignorei. Totalmente desregulada, e sei que isso provoca problemas intestinais graves.
Antes que adentremos assuntos escatológicos. Conviver com pessoas é sempre complicado demais pra mim, até nas coisas mais básicas. Discordei de muita coisa que minhas colegas disseram hoje, concordei com muita coisa que o novo professor apresentou (embora estivesse atenta e pronta para ir contra), dormi na aula da minha professora favorita (psicologia reversa ataca novamente, pois eu prometi pra mim que ia ver a aula do começo ao fim, já que amo), passei um tempo com minha mãe no salão, falei um pouco com o meu irmão, puxei assunto com dois garotos que são razoáveis em questão de conversar, assisti o começo do jogo dos Patriots e, não necessariamente nessa ordem, postei a crônica de segunda-feira, que estava escrita pela metade e hoje só completei. Ficou meia boca. As primeiras foram tão boas! Estou com medo de estar entrando em um bloqueio criativo fodido.
Mais um dia sem pensar tanto no Sete, mais um dia, mesmo sem pensar tanto, querendo que ele venha falar comigo.

Olhos-doidos

    São os olhos-doidos que me confundem, como se tivessem efeitos instantâneos de drogas caras. Ele segura seu copo de uísque e gelo na mão esquerda, leva-o à boca, dá um longo gole e me olha com as cores castanhas escuras, perfurando meu bom-senso. Eu sei que ele está enlouquecido, sem transparecer para ninguém além de mim. Antes eu não conseguia ler seu drama patológico no olhar, mas agora sei de cor como ele demonstra. Nenhuma outra pessoa pode ver, somente eu, que não sou mais enganada. Talvez eu tenha os olhos-doidos também, mais fortes que os olhos-tristes, mais profundos que os olhos-foscos. Meu uísque não tem gelo e fica na mão direita, a gente se completa. Eu atraio sua loucura, como se não houvesse nada melhor para mim. Esperar o pior é esperar por nós dois.

novembro 22, 2015

Diário I

Hoje o dia foi um misto de sentimentos, como os meus dias costumavam ser. Eu sinto demais, exageradamente, e isso me fode. Contudo, foi dessa maneira, pois (fundamentalmente) decretei uma mudança.
Anunciei à família que não sou mais vegetariana. Depois de um ano e oito meses, depois de ter comido algumas carnes escondida, depois de ter tentando entender de onde veio a desistência - sem êxito -, confessei. Soou como se fosse algo mais chocante, como se eu tivesse revelado algo como homossexualidade ou gravidez. Meu irmão não quis acreditar durante os primeiros minutos, minha mãe comemorou. De qualquer forma, por agora estou desatada de um movimento da minha vida que me distanciava do senso-comum e da aceitação universal. Parece estranho e, quando para pra pensar melhor, me sinto uma perdedora. Eu não vou até o fim de noventa por cento do que começo, e o vegetarianismo foi uma delas. Entretanto, contudo, todavia, eu sinto que pode ser algo mais otimista que pessimista.
Ter me tornado vegetariana me trouxe experiências únicas, e reflexões necessárias para a fase em que eu estava. Foi a decisão certa por um prazo razoavelmente bom, dependendo do ponto de vista. Eu vivenciei algo que eu mesma decidi, sem influências de pais, amigos, conhecidos. Eu vivenciei a tarefa árdua de estar do lado oposto. Eu comecei a enxergar as necessidades ridículas das pessoas se auto-afirmarem donas de suas verdades, pois o simples fato de ter mudado minha alimentação, restringindo aquilo que elas consideram fundamental (e deliciosa - a carne), causava alvoroço. "Como assim você não come carne?" "Vai comer o que? Alface?" "Mas nem peixe?". Eu ouvi perguntas e afirmações de todos os tipos e aguentei firme enquanto este era o meu propósito e talvez minha luta. Contudo, depois de um tempo, período este iniciado nessas últimas semanas, algumas perguntas e afirmações foram elaboradas dentro de mim. O vegetarianismo veio em mim como uma maneira de chamar atenção? De ser diferente? De ter algo para mostrar? De todos os meus defeitos, esse de "precisar ser notada mostrando alguma coisa especial que talvez poucos realmente se importem" é o pior. E, se foi por isso, eu posso ter rompido com algo maldoso criado por mim e para mim. Isso tudo, ainda que eu não tenha tantas certezas, me empurra para uma nova fase da minha vida.
Agora eu posso estar indo de encontro a novas experiências. Eu tenho aprendido a experimentar mais.
Pequenos detalhes do dia: acordei de ressaca pós-churrasco na casa do Celso, no qual fui com o Dani e observei os caras jogando truco. Acordei impregnada com cheiro de cigarro, mas também misturado ao meu creme de corpo - e eu adoro esse cheiro de manhã -. Tive um bom momento com minha mãe e irmão na cozinha, enquanto todos nós botávamos as mãos na massa preparando o almoço e as sobremesas. Tive o grande momento de anunciação do fim da vida vegetariana. Assisti ao jogo dos Packers e Vickings da NFL (e tive um grande momento de reflexão sobre "por que assisto isso?" e "por que torço para esse time?", e as respostas são muito relacionadas aquele defeito meu "precisar ser notada mostrando alguma coisa especial que talvez poucos realmente se importem"). Pensei no Sete poucas vezes, e só chequei sua última visualização no Whatsapp uma vez - aproveitei para perceber que se completaram três dias sem comunicação e ele não veio atrás, como eu achei que era de costume -. E por fim, decidi, repentinamente, começar a escrever esse diário. Pode me servir pra algo.

novembro 21, 2015

50 fatos sobre mim

1. Bebo muito, principalmente cerveja.
2. Falo sozinha em casa e às vezes até na rua.
3. Eu danço e canto alto quando estou sozinha.
4. Fumo cigarro às vezes, quando bebo, por exemplo.
5. Sou tímida com quem não tenho intimidade.
6. Falo muito palavrão. O tempo todo. Porra, pra caralho.
7. Adoro cenas silenciosas em filmes. Quando nenhum personagem está falando nada, mas algo está acontecendo.
8. Tenho medo de dentista, faz anos que não vou em um.
9. Só vou em um hospital se estiver em um caso grave, à beira da morte.
10. Prefiro continuar doente à tomar injeção.
11. Faço trocadilhos com tudo. A maioria é ruim.
12. Tenho três livros finalizados, e um deles foi publicado, Natasha.
13. O meu livro Natasha foi divulgado no Facebook pelo vocalista da banda que me inspirou a escrevê-lo, Capital Inicial. Best thing ever!
14. 

novembro 20, 2015

A sorte da eternidade

    Somos um pedido de socorro não gritado. Sussurramos no meio da noite com as cabeças em nossos travesseiros, embargando o choro. Do que precisamos é um e outro, um do outro, um no outro, um com o outro; precisamos dessa junção de dois em uma cama pequena ou sofá largo, sem que nenhum de nós implore, no sufoco, por socorro, por sossego, por afago. Nossa eternidade não soa tão boa se estamos abaixo d'água afogando, sabendo que o tempo bom e duradouro está na superfície e só o alcançaremos ao respirar. Precisamos de um ar qualquer ao sair daqui. Batemos nossos braços e nossas pernas e nadamos e nadamos e nadamos, querendo fugir do mar que adentramos buscando águas salgadas que não fossem lágrimas, para que não víssemos as marcas borradas em nossos rostos. Eu te escuto, além da voz repetitiva acusando nossos erros, eu te escuto. Vou emergir e te buscar com as duas mãos, te trazer para o meu abraço outra vez, eu prometo e depois disso, depois de uma longa respiração, de uma tosse que bote pra fora toda a água engolida, toda palavra guardada, todo sentimento contido - um despejo de tralhas -. Quando vier a leveza, meu bem, estaremos juntos como desejamos nesse sono, nesse sonho, nessa sorte nossa.
Flavia Andrade

novembro 16, 2015

Ser

    Ser. Seja o que for, nada se priva. Somente ser. Isso é uma puta sobrecarga psíquica. Ser é excesso, sobreviver é demais. Too much. É muito. Mais do que controlável. Viver é exagero de poucos.

novembro 15, 2015

Mensagem

Acabo de escrever um novo texto sobre você. Recebo uma mensagem sua. Você quer saber se eu estou bem. Vê? São quatro novos parágrafos, sem introdução, tampouco conclusão. São palavras e palavras de desassossego, de sufoco, de saudade, e você me aparece numa tela querendo saber, supostamente, como eu estou. Eu poderia mandar todos esses textos de uma vez, eu poderia realizar uma ligação telefônica e narrar minhas prosas. Eu poderia mostrar minha loucura, esperando que você enlouquecesse também. Nunca fomos aptos à sobriedade, afinal. Contudo, eu fico aqui em completo silêncio, quase atravessando as paredes e muros, querendo desaparecer entre os tijolos e o cimento, desejando não ser. Não ser mais ninguém. Não ser essa que uma vez te conheceu e nunca soube como esquecer. Essa que não entende porque, entre tantas primeiras frases, a primeira frase que você disse a ela, essa garota que sou, é inesquecível, é uma voz renitente repetitiva na cabeça. São textos, são muitos, e mesmo assim, não superam a velocidade inquieta e frequência de pensamentos. Livros não poderiam superar. Um romance, uma auto-ficção, uma biografia, nada poderia superar. Porque eu penso demais em você, a cada minuto. Eu penso tudo o que você se poupa inconscientemente de pensar. Eu respondo a mensagem. "Sim, estou". E cada verbo, substantivo, adjetivo, vírgula e ponto final do meu último texto nega tudo, nega minhas duas únicas palavras, porque esse excesso não vem me fazendo bem nenhum. "E você?". Eu espero que esteja melhor que eu - perdida nesse desastre no qual me colocou.

novembro 12, 2015

Saco sem fundo

    Ainda não é tarde da noite, mas me esgotei. Do topo do quase-fim do dia, eu desabo. Por tão pouco amor, por tanta falta que se faz. Eu me sinto tão nada que ecoo repetições: as saudades do que eu era e do que eu tinha, de novo e de novo na memória. Tão vazia que não paro em pé, sou saco sem fundo e sem sustento. Um tanto triste, um tanto só, um grito rouco e sem forças que avisa que talvez seja necessário mais de um sono. Talvez um coma, talvez outra vida, talvez eu nem queira acordar. É que a dor - que tanto dizem sentir - é puro desconforto, como se pudesse ser puro. É uma inquietude na mente, uns nós nos dedos que não estralam, uma vontade que não passa, parecendo ser fome de um universo inteiro e sede de toda sua água. Eu sei que os dias não são circo ao ar livre, tampouco amanhecem para nos fazer felizes. Mas é que uns tempos pra cá, a vida vai muito como uma ópera trágica, e eu nem gosto dos assentos dos teatros. Sendo tão sem-nada-a-dizer assim, nem me restam palavras e as mãos se apressam para o ponto final, o ponto no qual eu pego um ônibus, escoro a cabeça na janela e tento ir o mais longe possível até atravessar esse fuso-horário, só para sair desse "ainda não é tarde da noite, mas me esgotei". Só para ficar um pouco melhor em qualquer outra hora.
Flavia Andrade

novembro 10, 2015

Recordação

    Se não fosse sua visita naquele dia daquele mês daquele ano meio ruim, trazendo uma notícia boa, eu até teria sucesso em te esquecer. Aquilo é apenas um detalhe de meia hora entre todas essas horas tardias que não querem passar, mas ficou em mim. Eu lembro e sinto vontade de sentir de novo uma surpresa sua, um te-encontrar-sem-esperar novo no meu portão. Passo as tardes capturando a memória com as mãos para que não escape, até que você volte e refaça, até que a gente reviva, e enquanto o dia não chega, não esqueço. Perdoa a carga horária extra de pensamentos relacionados a você.
Flavia Andrade

Rotação

    Dou voltas ao nosso mundo sem bagagem, buscando qualquer coisa boa para levar de lembrança quando realizarmos, por acaso ou sem querer, nosso apocalipse. Cada pedra, parede, mesa com fotografia vai desabar sobre ambos, e rezaremos baixo para que não machuque. Eu só quero que você sobreviva e que eu vá bem; torço para que ninguém se perca nos escombros ou saia de mãos atadas. Enquanto isso somos grandes, uma paisagem até bonita, pertencendo a nós e nos sendo.
Flavia Andrade

novembro 09, 2015

Jantar entalado na garganta

    Os garfos e as facas riscam os pratos. Servimos pouca comida, fizemos pouca janta. Hoje ninguém ligou o som ou quis ver algo na tevê, a casa está em silêncio. Os assuntos estão perdidos lá para fora, sempre que entramos em casa os deixamos. Estamos aqui com as mentes atentas a qualquer coisa melhor que ficou em outro ambiente há algumas horas atrás. Estarmos aqui é sufoco.

novembro 07, 2015

Vidas de mão única


    Pode ser essa ideia de pertencer a alguém que nos desestabilize. Não sabemos ser de ninguém. Não somos. Não temos plural. Não passamos de dois errantes, meio perdidos, bêbados sem álcool, escorados em balcões, deitados em sofás, caídos no chão. E se um quiser vir junto ao outro, pode vir e andar com passos ritmados, a estrada é para todos afinal. E se um quiser dormir na cama do outro também, pode dormir. Podemos nos cobrir de nós e fingir que somos sonhos e que, ao acordar, as nossas vidas de mão única continuam.
Flavia Andrade

novembro 03, 2015

to-do list

antes de 2017

  1. invadir uma piscina
  2. encher a cara num lugar alto da cidade
  3. fazer uma aposta alta
  4. aprender a jogar truco
  5. aprender a dirigir
  6. terminar o livro "a vida é uma puta"
  7. fazer uma tatuagem
  8. ir pro rio de janeiro
  9. beber dez doses de tequila de uma vez e jurar sobriedade
  10. fazer uma noite de karaokê
  11. fazer mochilão
  12. publicar o segundo livro
  13. arranjar um emprego

Quase e por pouco


    Eu quase não te quis por um milésimo sequer de euforia, e quase me dispersei por completo dos seus lábios com outra coisa quase mais importante que o som discreto do seu riso. Foi por pouco. Se tivesse acontecido mais um bocado daquela cena maravilhosa brilhando nos meus olhos, só por mais alguns segundos, você me perderia. Eu penso nisso agora porque reconheço, admito, que quando estamos frente a frente, eu só sei te olhar. E voltar minha atenção a outro sentido é raro demais para mim, para nós. Eu vi a luz amarelada de um farol de carro se confundindo com a luz da lua, ainda baixinha e perto da gente, querendo aparecer por entre as árvores distantes. Fiquei estonteada. Fitei-as até o veículo sumir de vista, pedindo em prece que durasse mais um pouco. Mas que coisa mais bonita foi aquela! Eu quase me esqueci de você e do quanto gosto de te olhar com os cabelos bagunçados e barba por fazer. Até desejei rapidamente, confesso, que não olhasse também para onde eu olhava, apenas para que aquele momento fosse só meu. Como se uma estrela cadente passasse e somente eu pudesse fazer o pedido. Foi tão fugaz, assim como o egoísmo não duradouro, e te encarei de novo, com os olhos meio contentes, meio deprimidos. Eu não veria aquele encontro de luzes novamente, mas você sempre estaria ali e, para suprir meu último encantamento, eu continuaria sorrindo para cada contorno seu.

Flavia Andrade

outubro 30, 2015

Sobre ele

    Ele gosta de poesia romântica, mas não deixa de ler as rimas sujas. Depois de um porre de cerveja, bebe destilado. Ele gosta de cigarros caros e fuma os mais baratos. Gosta de sexo sem compromisso, mas chama de "fazer amor", olha nos olhos e não come mulher de quatro. Ele ouve as músicas exageradas, e compõe algumas de letras simples. Gosta de piadas prontas e adora um filme que quase não consegue entender. Ele gosta delas, delas todas, de todas as mulheres do mundo, e talvez até goste de mim também. Não se pode saber muito sobre ele, quem diria. Logo ele que fala o tempo todo sobre sentir tanto um bocado de coisas loucas.
Flavia Andrade

outubro 23, 2015

O que não é amor

    Amor que não é meu é tristeza, apontando que não posso sentir todo o amor do mundo. Ainda além e não mais que infinito, amor que não é meu é qualquer outro sentimento contido, reprimido, prestes a ser descoberto - ou nunca mais. Se todo alguém, ex-ninguém, me transborda, me desaproprio. Eu sou só via de passagem para alguns muitos, e não faço nenhum parar em mim. O amor fica sucinto em um enquanto o outro vai distraído; a vida é mesmo corriqueira, e somente sentir já é maratona. Eu fico só e vejo tanto coração que apenas pulsa, mas pensa que faz poesia. Sou só isso, uma realidade: meu coração não faz nada não-saudável, é só minha mente que se estraga
Flávia Andrade.

outubro 22, 2015

Os outros planos

    Não estou triste por ter me trazido aqui. Mas os lugares que almejo, os sonhos mais altos e os topos dos prédios não me deixam estar completamente feliz nessa acomodação. Insatisfação, ao seu dispor. Prometo que fico mais um pouco, que bebo dessa bebida quente, que olho para essas pessoas. Contudo, daqui a umas horas, eu vou correr sozinha pelos caminhos que realmente quero e gosto de seguir. Porque talvez eu seja mais livre do que sua maneira simples de liberdade que só alcança a próxima esquina. Quando me aproximo daqui e de você, me distancio de mim e nada mais me faz bem. Neste lugar, sou um abandono imediato do meu próprio corpo para te pertencer. Como é que vou me ser por inteiro? Pois também faço falta de mim, então, só aguardo mais alguns minutos e vou embora.
Flavia Andrade

outubro 19, 2015

É com você

    Desisto e não vou mais fazer planos para nós dois. Eu só preciso dizer que seria bom se você pudesse colaborar em me encontrar casualmente no meio daquela rua perto de onde trabalha e me convidar para ir na sua casa mais tarde. Sabe, é só um convite pra sentar no sofá e ver tevê. Talvez até para uma bebida que por acaso você tenha na geladeira e ainda lembre que eu gosto, mas pode ser tudo uma coincidência boa de aproveitar. Pode ser ainda melhor se me disser algumas coisas bobas que já se passaram nos diálogos que criei na mente, sabe, só porque essas coisas realmente podem acontecer e, como eu já ia esquecendo, nem vai soar repetitivo.
    Eu não vou ficar contando horas pra te ver, mas eu saio de casa às sete horas, volto ao meio dia, fico por aqui e quem sabe você não resolva passar porque estava dando uma volta sem motivos maiores pela vizinhança. Desisto mesmo, de verdade, de pensar tanto em te ver outra vez e ficar com uma saudade sem controle. Até porque, se caso você me encontrar, meio que sem querer, no supermercado onde sempre faz compras, a saudade passa rapidinho, não passa? Você prefere reabastecer sua cozinha no começo ou fim do mês? Não é por nada não. Eu até gosto de andar até lá e evitar o mercadinho daqui de perto.
    Esse negócio de planejar tudo o que se quer fazer não é mais comigo, mas posso abrir uma uma brecha se você me perguntar o que vou fazer no sábado. Ou na sexta, na quinta, na quarta, e posso expulsar de mim a vontade de ficar em casa que sinto nas segundas, terças e domingos. De resto, desisto, é com você.

Flavia Andrade

Não sei um título

    As coisas que não sei são várias. Eu não sei como se chega a algum lugar se ainda não enxerguei nenhum caminho, e qualquer rumo parece torto demais. Não sei como saio de casa se a rua ainda me assusta, mesmo que eu busque por proteção. Não sei como faço para mudar se nem sei quem sou, e até de onde venho parece incerto. Não sei como sano as dúvidas se sou somente um aglomerado de questões que psicanálise nenhuma resolve. Não sei como deixo de ser esse desespero emocional se coisa alguma consegue me acalmar, nem os reencontros que matam instantaneamente minhas saudades. Não sei se preciso de pílulas, de pessoas ou de mais um bocado de solidão, mas sei que tudo está incômodo demais para novos dias. Não sei como conversar sobre o que acontece, só sinto. Sinto sem saber também, pois não tenho certeza alguma. Não sei como posso pensar em qualquer outra coisa se minha mente não me obedece nem para não pensar em tanto não. E não sei se estou em minha mente ou se ela está em mim, apenas sei que não temos sincronia e, nessa semana, estarei outra vez perdida.
Flávia Andrade

outubro 16, 2015

Argh!

    É tão... argh! Essa coisa de ter todos os sentimentos do mundo por alguém ainda me leva à loucura. Meu amor indefinido por uma pessoa só é isso, essa coisa confusa de desejar amá-la com tamanha força que a sufoque e odiá-la por segundos tão longos que a transforme em outra pessoa melhor, mesmo sabendo que é só aquela ali, daquele jeito errado demais pra você, que é boa e ruim de gostar tanto assim. Gostar tanto a ponto de não querer tão perto todos os dias e brigar tanto pra depois morrer de saudades.
   Sentir muito, assim, desastrada, é como comprar o ingresso mais caro para o show menos esperado, apenas pra ouvir uma única música ao vivo. É dar a volta ao mundo correndo com o objetivo bobo de dar uma passadinha em um lugar pequeno que fica no outro extremo. É comprar toda a areia da praia pra construir um castelinho em formato de balde. Mas é que os detalhes são tão bons! E sempre que tento deixar para trás, superar as histórias e não gostar mais, um momentinho de poucos minutos no meio de um dia tumultuado já me prende de novo.

Flávia Andrade

Distraídos venceremos

    Há um momento no dia em que tudo para. Qualquer dia, qualquer hora. Dura um segundo, um minuto ou bem mais. Você não pensa em nada, mas não sente alívio. É quase sufoco. Você vê um objeto, um ambiente, uma paisagem e ao mesmo tempo não vê nada. É um estado de inexistência. E em algum desses momentos, tão raros, alguém repara. Uma distração é sempre pega no flagra por acaso. Música nenhuma toca, toque nenhum te alcança, cor nenhuma é vista. Mas aquela pessoa está lá, sentindo tudo, perguntando o que se passa no meio de tanto silêncio dentro do seu corpo parado.

Flávia Andrade

Artísticos.

    Seu riso de canto, torto, manso, me põe dentro de um filme mudo para cegos, no qual é preciso apenas sentir para assistir. As outras coisas, os objetos e as paisagens mais bonitas, ficam também de canto, tortas, mansas quando você está. Quietinhas, mas roubando a atenção como você faz. E olha bem pra mim, que sou outra arte qualquer sem nome e valor, que invado o centro a mil por hora em desespero sempre que te vejo, e tiro o tom da sua cena e me envergonho para o resto da plateia. Eu que não sei ter controle emocional, físico e tampouco mental; eu que tremo por trás das cortinas, eu que enlouqueço por trinta horas e só me acalmo com esse seu jeito particular de rir do que digo. Somos tanta arte que o abstrato e concreto se juntam, e o poeta parnasiano que passa pela gente elogia todo o nosso modernismo. Mas que coisa rara! Tão rara que reinventamos os nus artísticos e somos agora só nós. Nós artísticos.

Flávia Andrade

Contradição

    Pra eu me apaixonar de novo não leva muito tempo, já pra eu terminar um livro demora mais. Pra aprender a ser só, preciso sair menos, mas pra ser só, de verdade, tenho que viver na rua. Pra poupar decepções devo planejar festas menores, ainda que eu saiba, quase sem querer, que a vida é feita de grandes ações. Não paro de pensar. Pra ser quem eu quero ser: apenas arranquem minha cabeça. Pra ser quem eu sou: se afastem; pois estou sempre onde não devo e não me encaixo, então me escondo. Invento mais que escrevo e escrevo menos que desejo. Sou tanta contradição que, a essa altura, já discordo de tudo o que eu disse e falo pra mim: não é bem assim que funciona, essa é a direção errada. E me perco outra vez.

Flávia Andrade

Sou livre sim!

    Era só mais uma tarde de sol e eu recebi um olhar reprovador para as minhas roupas. "Está muito calor", expliquei. Então seguimos nosso caminho para um parque e não falamos mais nisso.
    Acontece que minha própria frase ficou se martelando na minha mente. Por que devo explicar meus motivos? Digo, é um short curto, é uma blusa solta, é um chinelo de dedo, é um cabelo preso de qualquer jeito, é o que me deixa confortável, e por que eu deveria dar satisfações sobre o meu próprio conforto?
    Eu me sentei na grama e pensei em todas as coisas que explico, mesmo sem querer, porque olhares julgadores me forçam. "A vendedora disse que ficou bonito", "não é tão curto assim, vai", "mas eu não ligo se marca minha barriga (...ou ligo?)", "não tenho muita paciência pra salão de beleza", "cabelo curto é mais prático", "é que roo minhas unhas quando tô nervosa", "peguei a primeira coisa que vi no guarda-roupa", "estava calor demais pra fazer chapinha", "salto alto me incomoda".
    A cada explicação, uma sensação crescente de que estou fazendo algo errado. É como ter uma voz gritante dentro de mim: por favor, alguém me mostra o manual de padrão porque não estou conseguindo seguir!
    Mas dentro de casa, sou livre. Só sutiã pode sim, quem disse que não pode? Roupa amassada pode sim, quem vai me obrigar a passar? E não é esculhambo, não é pouco caso, é me sentir bem o suficiente apenas por não me preocupar com a imagem que vou transmitir para qualquer outra pessoa.     Por que do portão pra fora tenho que ser presa? A liberdade está proibida na rua? Afinal, o que a visão de outra pessoa sobre minha aparência pode mudar em algo? Se incomoda, então me deixa continuar na persistência chata.
    É domingo, dia de parque, dia de sol, o rímel vai derreter por cima da base que vai escorrer rosto abaixo. Eu nem sei qual é a base adequada, acima de tudo. E o batom vai marcar meus copos, vai ficar falho na boca, vai me dar uma agonia. E a alça da blusa vai ficar caindo pelo ombro e o sutiã estará apertado demais e eu só vou querer chegar em casa para arrancar a roupa. No fim, a preocupação toda com o exterior do corpo parece ridícula demais em um passeio tão banal.
    Menina de saia tem que controlar o movimento das pernas, de vestido tem que segurar por causa do vento, de pseudo liberdade tem que se preocupar com cada gesto.
   E por que eu me transformaria tanto para continuar sendo só eu? Desculpa, mas não vai ter desculpa não. Minha voz é alta, meu tênis é baixo. Meu cabelo está pra cima, minha auto-estima também. Não vai ter mais explicação não. Meu corpo não está à mostra, apenas está no mundo sendo inteiramente meu. Cada um cuida do seu, não é?

Flávia Andrade

outubro 13, 2015

a menina lá dentro



a menina migra
sem mochila


sobrevoa a própria vida
do alto do sofá
e pousa no tapete
e deita, e grita, e chora
tão distraída, perdida


se encontra por dentro
do topo da mente
aos pés descalços
e sente, e pensa, e ora
sem som, disritmia


não sabe mais quem é ela
e desvenda, desbrava, perscruta
mergulha, afoga, naufraga,
ela é ilha

Liberta.

    Não sou mais sua, porque agora sou minha por inteiro. É como estar livre para ser quem eu nunca soube ser: eu mesma. E a essa altura parece que demorou tanto, mas eu precisava aprender no meio de toda a confusão.
   Você costumava ser o protagonista do meu mundinho fechado: rodeando uma história inventada que eu achava que era boa. Eu te assistia, te admirava, te procurava para passar os dias. Quase não vivia, que era para sobrar tenho para andar seus passos. Nem procurava meu próprio caminho, porque o seu parecia o certo a seguir. Acontece que eu ainda não conhecia nada e nem tinha colocado os pés lá pra fora. Acontece que você me levou pra rua e eu gostei tanto. Até comparei a visão do céu a você. Pensei que para ter um, precisava do outro.
    E agora, andando sozinha, com um riso causado por mim mesma e sendo completa, enxergo um céu bem maior. Vou mais longe. Sou eu quem decido minha velocidade: devagar ou depressa, depende de quando quero chegar. Desculpa por ter te deixado para trás, é que a liberdade é tão boa! Mas eu volto logo, volto para contar as minhas histórias, volto para agradecer. Afinal, a vida não é tão ruim como eu achava enquanto ainda estava do seu lado.

Flavia Andrade

Ainda dois

Eles são dois.
Dois corpos, duas bocas. Eles e suas mãos, pés, cabelos, olhos.
Eles e seus olhos, é aí que tudo muda.
Ela o olha tão sincera. Consegue transmitir um abraço, um afago, um cafuné só por olhar.
Mas ele, bem ali na frente dela - justo dela, não significa nada de olhos abertos; e quando os fecha: vê outra.
Eles são vários.
Ela é quem sente e quem finge não sentir. Ele é quem não sabe quem é e quem finge ser outro alguém um tanto bem melhor. Ela sente tanto e ele sente diferente.
Conforme as horas passam, os dias voam e as semanas mudam, tudo é (re)descoberto.
Eles são vagos.
Não são um para o outro (e ele até pensa que não é pra ninguém).
Aonde os dois vão? Porque andando assim ninguém enxerga os tumultos internos, e para o mundo são só dois que se combinam.
Ela até se pergunta:
Se eles se jogassem no mundo sem mais nada, o que poderiam ser?

Flavia Andrade

outubro 11, 2015

Filme de domingo

   O problema dos domingos é que tenho tardes e noites inteiras para deitar, seja no sofá, cama ou chão, e pensar sobre você. Você por completo. Os detalhes menores que somente meus olhos fechados e minhas lembranças distantes conseguem encontrar. E conforme as horas lentas passam, revivo as horas que não deveriam ter passado tão depressa. Eu dou risada sozinha mais uma vez das frases erradas e das piadas ruins, choro um pouco por alguns segundos que apenas transbordam, acrescento trilha-sonora ao que passamos e respiro bem fundo tentando recuperar os perfumes. A gente é vida real de segunda à sábado, e no domingo vira filme.
Flávia Andrade

Just feels right

    Nos embaraços do cabelo ainda estão a neblina e a nicotina da madrugada passada, e nos nós dos dedos estão os toques entre as mãos geladas que formavam uma barraquinha de calor. As horas quase não passaram depressa como sempre passam, porque eu precisava reencontrar em você as minhas alegrias perdidas nos outros anos. Eram muitas, e eu não parava de sorrir. Percebe agora ou percebeu naqueles momentos o bem que me faz? Mesmo que não sejamos nada ou que sejamos apenas dois errantes, de alguma forma a gente se encontrou no melhor de nós. E eu quero que fique, certo? Que fique ainda que traga outras pessoas, ainda que não seja só por mim, mesmo que os dias fiquem mais difíceis, mesmo que me encontrar com frequência te canse. Eu só peço para que não vá embora outra vez, para que não me deixe te expulsar novamente. É minha tendência, e sei que você pode ajeitá-la. Eu sinto a última madrugada e sinto partes de você e sinto muito do que somos, tudo parece certo.

Out(ro)ubro

    É outro outubro e estamos nos conhecendo novamente, nos reconhecendo. Eu não sou mais aquela de outubro repassado, e você não é mais aquele de outubro passado. Estamos próximos das datas mais importantes e não sei como vamos passar por elas dessa vez, só sei que gosto desse nosso novo jeito. Eu não sei como me sinto por agora, mas sinto que são sentimentos melhores do que aqueles que me fizeram derramar lágrimas por você. Não tenho certeza sobre o que é isso que está acontecendo, mas está me fazendo um bem imediato. Nós trouxemos de volta a nós a paz. Aquela paz boa sem orgulho desastroso. Trouxemos de volta a nós o início que desviamos sem querer em algumas escolhas erradas dos anos que não voltam mais. E eu nem desejo que voltem. Nós já voltamos com toda a felicidade que havia sumido entre o calor que costumávamos ter. É uma nova relação, e ela está boa. Consegue me entender? Somos novos, renovados, melhores. Que outubro seja o começo certo que nos distraia de todos os começos errados de nossas vidas. Que nós continuemos assim.

Flávia Andrade

outubro 07, 2015

2015

Em 2015, finalizei um livro, Retratos de Cinzas. Comecei e finalizei em alguns meses outro livro, A vida é uma puta. Continuei vendendo Natasha. Escrevi mais de duzentos textos, todos devidamente postados no blog, até mesmo os que por motivos maiores ou minúsculos não foram para a página. Aliás, mantive a página atualizada, ainda que com algumas rápidas desistências de três dias ou uma semana. Escrevi um roteiro de curta-metragem, uma fanfic pessoal, traduzi alguns textos e poemas, escrevi a contracapa do livro O diário dos trinta anos. Criei, junto de mais quatro amigos, O Beco Bêbado - que é nosso projeto/blog que em breve se tornará livro. Criei mais outras coisas que só poderão ser divulgadas no próximo ano. E isso, por enquanto, é somente a parte da minha vida neste ano relacionada à literatura, a essa vidinha de escritora.

discurso.

    sou mais da breja e do flerte. amor já tentei por um tempo, não funcionou bem e me enfiaram em um táxi pra voltar pra casa. tenho meia arrastão até os joelhos, porque eu gosto de arrastar multidões comigo, gosto que me sigam, que façam o que faço. não recomendo o que eu digo porque é tudo besteira, é tudo mentira. sou uma mentirosa compulsiva. eu ando pra longe que é pra deixar saudade, e quem sentir que venha me encontrar no topo do mais profundo da vida. sou de sentimentos rápidos, porém intensos. sou quem sente uma coisa só por uma semana e não esquece jamais, ainda que o sentimento se torne apenas um objeto na lixeira. por dentro sou cheia de interrogações, por fora estou rodeada de exclamações que me seguem até em sussurros. só a embriaguez é amiga e me ajuda a escrever melhor. das pessoas faço textos e proporciono décadas de sobrevivência. um brinde.

flávia andrade

outubro 04, 2015

Pra quem não acredita

    Não, meu senhor, eu não tenho emprego. Sou dessas pessoas que escrevem, sabe? Não tem isso de ter letra bonita, não tem regra nenhuma, não tem horário, não tem patrão. A gente bota uma ideia pra fora, vê se 'tá bom e é isso. Ninguém me encontra no fim do dia ou do mês para oferecer pagamento, dar agrado ou recompensa, mas, de alguma forma, espero por resultados. Senhor, quer saber quanto eu ganho? Eu só sei que não venho perdendo nada. Nem tempo, nem vida, nem paciência, porque esse negócio de escrever só faz bem. Quanto mais estragado a gente fica, mais texto rende. Duvida? Bota um escritor pra sofrer pra ver se não sai um livro novo. Às vezes acho que bloqueio criativo se resolve com uma decepção. (Mas vale a pena deixar a gente feliz também). Voltando ao lucro, recomendo que o senhor converse com editoras, isso fico pra elas. Eu só sei que escrevo, e, nesse meu caso, escrever é como sobreviver. É minha certeza de que estou aqui pra alguma coisa. Se alguém me lê, já bate uma felicidadezinha. Se alguém gosta de me ler, daí eu fico bem melhor. Se alguém vem elogiar... Senhor, senhor, eu poderia abraçar todos que elogiam. Até porque são bem poucos, nem ia cansar. Mas significa tanto que às vezes escrevo pra eles, pra eles que gostam. Escrevo para gostarem mais ainda. Eu descobri que não pode ser algo só sobre mim, porque isso é coisa de diário. Eu já superei fase de diário, senhor, agora escrevo umas coisas aí que nem sei de onde vêm. Não é querendo me gabar, mas só quem já escreve por algum tempo que sabe como funciona esse negócio. Às vezes a gente só sabe o que quis escrever quando termina, então já foi. Depois de algum tempo a gente até pensa menos na tal de gramática, mas isso parece com a vida também. Começamos querendo fazer tudo certinho, manter aparências e tudo o mais. Depois de tanto ficar consertando erro que nem queríamos ter causado, é mais fácil "meter o louco", sabe como é? 'Cê pensa: tanto faz. E começa a fazer do seu jeito único que ainda que não seja tão bonito, é como você gosta. Meu senhor, eu faço isso aqui o dia todo numa vida inteira que não pretendo largar, e nem adianta me dizer que é sem rumo, que não dá em nada além de prejuízo. Também não precisa ser cínico, sugerir que sou má escritora e dizer que não vai comprar meus livros. Pode poupar todo o tempo e todo o desgaste em tentar me tirar desse mundo, porque eu gosto tanto que ele está mais em mim do que estou nele. 'Tô pregada nisso de anotar todo sentimento, toda ação, toda coisa inexplicável e inexprimível que, por ser metida a escritora, consigo escrever. Consegui escrever até isso aqui que pode te servir para calar a boca, olha que coisa mais bonita, dá até pra assinar meu nome.

Flávia Andrade

Uma só

    Não posso ser todas as meninas, garotas, mulheres e mulherões do mundo em apenas um corpo desastrado. Não posso dançar no salão porque minha dança é feita de passos errados em lugares escondidos. Não tem como esperar muito de mim, pois eu mesma espero pouco, sou cheia de medos. Até gosto de alguns abraços, mas não sou de ficar tão perto por muito tempo. Posso até fazer declarações, mas a maioria sai confusa no meio de diálogos bobos que gosto de conversar. Falo bobagens, dou risos altos, fecho os olhos para esquecer algumas coisas ditas que me escapam sem querer. Não quero estar na medida padrão de corpo, não sirvo para medir palavras, não meço mais altura. Sou de tantos jeitos que quase não me encontro e pouco me descrevo, que é para não confundir mais. Se pareço errada, perdoa, sou só eu.

Flávia Andrade

setembro 30, 2015

Sobre o amor

    O amor começa a ser sentido, eu finjo que é sono e tento dormir. Mas amor é dos insones. Começo a sentir uma saudade enorme por vinte minutos de ausência e finjo que é fome. Mas saudade é para toques, corpo a corpo. Sinto uma vontade danada de dizer exageros gritantes sobre o quanto um pouquinho de você já me faz um bem maravilhoso, e depois tento disfarçar que é só animação e me arrumo para uma festa. Mas cada coisa que eu não digo aparece nas músicas que tocam lá fora e preciso voltar correndo para o silêncio da casa. Acontece que já gosto um tanto de você e isso me segue até que eu possa te encontrar e fingir que é só mais uma coisa banal. Mas o amor já pede espaço e tenta entrar na nossa conversa também. Daqui a pouco digo tudo, te assusto, tento acalmar, paro de fingir e espero que você fique.

Flávia Andrade

setembro 26, 2015

Meu bem, de verdade

    Qualquer lugar, à beira do abismo ou na única cadeira vazia do boteco, é melhor quando você está. Ainda que eu fique muda sem saber o que dizer, ainda que você dê risada do meu jeito quase-sem-nenhum-jeito de dizer que foi até bom ter me convidado para estar ali porque eu não tinha mesmo mais nada para fazer em um sábado à noite. Digo isso porque não quero que se preocupe se a bebida está quente, nem com minha melancolia sempre estampada na cara e principalmente nos lábios, porque você está fazendo isso aqui ser melhor que uma semana inteira de chuva. Eu sei, faz tempo que não chove. Mas chovia dentro de mim, dos olhos pra dentro, eu estava cheia de choros contidos. Você vem me salvando e nem sabe, vem me causando umas coisas estranhas que talvez alguém se arrisque a chamar de felicidade, mas que só digo ser efeito seu.
Flávia Andrade

setembro 25, 2015

Só uma história de amor

    É só o começo da sua vida em um dia que está quase acabando e você o vê. O cara na sua frente tem aparência que seu gosto estranho aprova e diz coisas que só te provocam riso porque vêm dele. Mais tarde você vai para casa com um pouco de álcool agindo por dentro, mas pensando na visão do lado de fora, naquele moço que te roubou por uma madrugada inteira. Você vai deitar a cabeça no travesseiro e cerveja nenhuma te fará dormir. A partir da noite sem fim, as horas nunca mais vão passar mais rápido, pois a vida acaba de desacelerar. É seu primeiro amor, grande amor, sua primeira MPB, seu primeiro filme francês, sua primeira comédia romântica de fim ainda indefinido. E, por destino ou peças que você prega, ele entra na sua rotina e se torna não só a pessoa que inunda suas semanas de ócio, mas seu plano de resolução da vida cansativa e tediosa que leva desde sempre. Você o encontra por acaso e se pega sorrindo sozinha no meio de uma distração. Fica dois ou três dias sem vê-lo e sente um aperto no peito, uma vontade de ligar, mandar mensagem, gritar o nome. Ele é o cara-dos-sonhos, das noites em branco, o apelo que se repete na sua mente quando você vai lavar louça, estudar para uma prova e conversar sobre amor com os amigos. Vinte e quatro horas é pouco tempo para dois e tempo demais para um. Em algumas noites o moço vem te resgatar na sua casa, te leva para lugares melhores, te apresenta histórias dele e constrói novas ao seu lado. Em algumas tardes vocês fogem para lugar nenhum, que ninguém pode encontrar, e são felizes por um curto espaço de tempo. Nas manhãs, o seu motivo de dizer bom dia é finalmente sincero. Ele é o único e o tanto de coisas sentidas nem cabem em um coração novinho que quase não sentia nada antes, só batia. Você faz uma decisão porque há dias já pensava em fazer algo. Você você vai ao topo de seu mundo, grita o nome dele e pede para que fique para sempre, ainda que "pra sempre" seja tempo indeterminado. Seus olhinhos brilham. Será o fim da vontade de encontrá-lo, pois a partir dessa hora ele estará perto em todos os momentos. Será a certeza de que ele é só seu, porque você é só dele desde a noite em que ainda não se conheciam. A resposta demora. A resposta parece nem querer chegar. Você pensa nas outras demoras, elas não doeram tanto. Pensa nas vezes em que os encontros foram desmarcados e foram mais fáceis de digerir que o sumiço de agora. Pensa demais até que ele aparece e diz: eu não posso ficar, não somos feitos para dar certo. Encerra-se o clímax. Você se encontra de um lado enxergando o outro: enquanto pensava só nele, ele pensava no trabalho, nas outras mulheres, nos estudos, no que fazer no jantar, por quantos dias a mais duraria o salário. Enquanto você imaginava uma vida mais bonita, ele lutava para se acertar no presente que nunca quis. As saídas, os encontros, os esbarrões faziam os dois felizes, mas a intensidade era para um só, para você.
    Então, nessa noite de um ano depois, no mesmo lugar, perdida quase do mesmo jeito, procurando ar para respirar e virando as cervejas fiéis, você o encontra. Ele ainda é a pessoa mais bonita do local, ainda tem a voz que mais chama sua atenção e ainda diz coisas que te fazem rir. Mas não é nele que você vai pensar quando voltar para casa e se deitar na cama. Você tem mais o que fazer, tem alguns problemas, umas coisas da vida que não adianta adiar por causa de amor.

Flávia Andrade

setembro 24, 2015

Vamos juntas

    Olha, desculpa puxar assunto igual as velhinhas simpáticas que perambulam o dia todo de ônibus em ônibus, mas eu só quero agradecer. Não sou de ficar falando assim com qualquer um, então vou me explicar. Eu fiquei feliz de ver que era você, uma mulher, que estava vindo se sentar ao meu lado nesse ponto. Já é tarde e qualquer homem desconhecido me aterroriza. Há muitos casos de assaltos, estupros por aí, e a maioria das vítimas são mulheres, sabia? Estava dando um medo danado de ficar aqui, a essa altura da noite, sozinha esperando pelo meu ônibus que passa a cada quatro horas e o pior, nem consigo saber qual a hora exata porque meu celular descarregou. Agora que você está aqui, podemos pensar que estamos seguras, certo? Se alguém estranho aparece, uma grita e outra corre. Esse pode ser nosso acordo.
    Eu desconfio muito de homens não só pelos noticiários, mas porque meu namorado era um romântico à moda antiga que se tornou um agressor. Ou foi o contrário a fim de disfarce, ainda não sei. Ele me mandava flores e chocolates e ursos de pelúcia. Uma vez pendurou balões em formato de coração no teto do meu quarto para comemorar meu aniversário. Algumas colegas invejavam nossa relação, sabe como é? Aquelas que sorriem quando você conta o que aconteceu, mas segundos depois percebem que queriam aquilo também e começam a sentir uns revertérios no estômago e um acúmulo de raiva por você continuar contando sua vida perfeita. Só conto tragédia agora.
    Sabe o que aconteceu com meu namorado? Escuta, a história não demora muito. Ele começou a mudar. Não bebia, não fumava, era formado, mas começou a mudar repentinamente.  Digo mudar porque ainda não sei se esse ódio, se essa coisa repulsiva já estava nele. O que sei é que uma vez ele deu um tapa no meu rosto e eu aceitei como consequência de seu estresse momentâneo. Eu não quis mostrar minhas mensagens do celular para ele. Da segunda vez foi um soco de punho firme e eu aceitei como algo que acontece quando você tem muita coisa na cabeça. Eu não cheguei a tempo para fazer seu jantar. Da terceira vez eu fiquei no chão agonizando de dor e eu comecei a me perguntar o que tinha de errado comigo. Afinal, ele não era daquele jeito, na verdade, era o melhor namorado do mundo, e o que eu estava fazendo com ele? No que eu estava o transformando? Naquele dia o motivo foi minha demora no banho, porque eu estava sufocada e chorando escondida. Ele entrou, viu a cena, pensou que fosse drama proposital.
    Mas quando se olha de longe, quando se olha para mim como mulher, dona de mim, percebe-se que ele não tinha motivo nenhum, nunca teve. As agressões não se explicam.
    Pensa comigo, tem três mulheres no ponto de ônibus da outra rua, olha lá. Acha que elas já sofreram alguma coisa parecida? Acha que já foram abusadas? Desculpa por te fazer olhá-las dessa forma, mas a melancolia desses pontos ajudam um pouco. Você pode pensar que provavelmente não, que isso não é fácil de encontrar, mas olha pra mim... Estou aqui do seu lado e eu apanhava do meu namorado perfeito. O namorado que minha família insistia para que eu casasse. "Amarra esse homem logo", minhas tias ficavam dizendo, acredita? Ninguém percebia nada até que começou a ficar difícil esconder as marcas roxas, os cortes, e disfarçar as dores.
    Agora pensa no medo que eu fiquei, e pensa no tanto de homem assim por aí, homem criado com a ideia de que ser homem é mandar, dar ordens e receber tudo feito pela mulher submissa. Homem que cresce como um guri que bate nas meninas da escola e é defendido pela ideia de amor infantil, uma forma inventada de demonstrar que gosta de alguém. Esses homens olham para nós duas aqui como seres bem menores que têm o dever de lhes servir. Somos donas da gente, certo? Eles não compram essa ideia, acham que são donos de todas as mulheres do mundo.
    Desculpa, não estou querendo te assustar. Daqui a pouco o ônibus chega. Nós vamos ficar aqui juntas e podemos descer no mesmo ponto e andarmos próximas até o destino em comum para enfim nos separarmos. Uma protege a outra. Eu me sinto segura assim, você não se sente?

Traços

    Meu mundo está nos traços. Os traços contornados do rosto dele que se embelezam entre o queixo e os ombros em um pescoço que eu beijaria toda vez. Os traços das dobras dos dedos que roubam minha atenção enquanto escrevo e os traços das letras no teclado que me trazem de volta ao enredo. As traças que deixam minhas blusas rasgadas. Os traços-estrias perdidos no meu corpo de mulher-sem-perfeição. Não me esqueço nunca dos traços mais bonitos nas fotos da família, dos amigos, dos perdidos desconhecidos. Não lembro tanto dos traços dos que já se foram, mas seus traços de perfume e riso ainda me acompanham em noites ou semanas de saudade. Os traços-laços das roupas de ocasiões especiais e os traços-amassos dos que encontro dentro do cotidiano. Ah, os maravilhosos traços da rotina que tentam me segurar e deles me arrebendo, e nessa brincadeira nunca repito um dia. Os traços das rotas mais curtas que sei de cor e os traços-sonhos das rotas que quero viajar, são os traços-mundo de uma vida cheia de mapas. Amo os traços que as veias desenham naturalmente e os traços que artistas fazem em nossa pele com suas tintas e agulhas mágicas. Sou feita de traços embolados como fios de fone de ouvido em bolsos de calça jeans. Não sou traço de costura, sou de lápis, pincel. Se uma linha se solta lá na ponta, meu mundo chega cá desabando, entortando, mas começo sempre um traço novo com giz, ponta dos dedos, compasso. Sugiro a ele um novo traço: dois em um, como se a corda bamba do palhaço pudesse dar nó com a corda firme e elástica de quem salta de bungee jumping.

Flávia Andrade

setembro 23, 2015

primavera

    meu bem, nem vejo a primavera chegar, só reclamo do calor e você já está com esse sorriso todo, torto e grande de flor. eu 'tô cinzas de inverno e 'cê-tembro, 'cê corre pelo mês. ainda não fui ver a decoração natural da cidade sem ventos, mas você já passou batom vermelho, botou saia colorida e foi ser feliz no asfalto com todos os arranjos, baias e penduricalhos. o que faço, mulher? se as estações estão voando e você está contente soprando dentes-de-leão e as crianças querem soltar pipa. o que faço se a melancolia dos últimos meses cresceu em mim e você me puxa pelos braços como num clipe do cícero. a gente não tem piscina, nem mar, mas você anda até o fim do mundo para encontrar cachoeiras e inunda os cabelos e corpo inteiro, diz que é outra, que é nova, que me ama. deixa eu confessar que até já gosto dessa primavera, mas você e ela vieram depressa, e eu nem guardei os sonhos de neve, nem retornei de alma por completo ao país.

flávia andrade

quase sem escrita

    sinto que preciso escrever. começar uma história, outro livro, tentar poesia, largar as crônicas, ser de contos. a briga em mim não é exatas e humanas. é sobre os textos curtos e os romances. é sobre deixar de escrever sobre você, sobre mim, falar de outras coisas mais mundanas. sinto que preciso escrever com todo esse tédio, todo esse vazio, toda essa sede, com o que me foi deixado. nem adianta inventar muita coisa, eu sou de coisa pouca: pensamentos, sentimentos, embriaguez. sou a parte menor do mundo: os que sentem mais que agem, que querem mais do que correm atrás, que sofrem mais que se machucam. fico aqui transbordando e nada vira palavra. não sei quando comecei a gostar mais dos gritos, só sei que não me avisaram que gritos não viram livros, não vendem e ninguém gosta de ouvir. perdoa a voz alta que repete uma sílaba estridente, estou perdendo a semântica toda.

flávia andrade

Desnuda

    Seu cotidiano é desconstruir paradigmas: desafinar a sintonia. Ela não sai no sol do meio-dia, mas nunca está em casa meia-noite. Por fora, parece vazia. Por dentro, sente os gestos mais simples. É de corpo e alma a dúvida, pois quem se entrega para as certezas se afunda em ignorância. Se diz emocional demais para a vida, mas racional demais para a poesia. Se equilibra no meio-fio: para que nem os carros e nem as pessoas a atropelem. Que seja arte quando suas mãos estiverem pintadas de tinta, cinema, literatura ou música. Que seja arte quando sua boca soltar os pensamentos mais complexos ou triviais. Que seja arte quando ninguém puder pará-la. Mas que não queiram que ela refaça, repita ou torne padrão. É improviso, descontração: uma dança espontânea e sem ritmo no salão clássico dos ensaiados. Ela é a melhor parte do mundo, boa demais para qualquer clichê.

Flavia Andrade

Fora do cinema

    Ela o chamou para sair e ele a encontrou no bar. Eles se cumprimentaram com um beijo no rosto, sentaram-se nas cadeiras de madeira e ficaram separados pela quina da mesa quadrada. Uma mão dele mexia no rótulo da garrafa enquanto a outra gesticulava seu discurso sobre o cinema francês. Falava sem parar tudo o que sabia. Ela notou que, àquela altura, se ele notasse mais detalhes como as chances e liberdades dadas, poderia estar com a mão da garrafa nas coxas dela, percorrendo os caminhos que não poderiam mais esperar pelo fim da noite, até alcançar a calcinha úmida. Ele não estava causando aquilo no corpo da moça, longe disso, as falas sobre filmes eram cansativas, mas ela imaginava coisas melhores e as sentia ali na cadeira imaginando-se em outros lugares. Cruzava as pernas e se apertava. Pensava no quanto ele poderia ser melhor que aquilo, desejava que ele pudesse se transformar em um homem de mais atitude em um quarto, no meio do mato, na sacada, na parte escura da rua. Desejava que ele abrisse suas pernas e mostrasse força, empenho, que a fizesse suar. Ele falava, falava e falava e não reparava na boca pintada de vermelho, um pouco entreaberta, clamando por um beijo que lhe tirasse o fôlego, a roupa, que lhe subisse o fogo. Ele parecia tão interessado em qualquer coisa desinteressante, e como poderia ser sem camisa? Como seria o peso de seu corpo contra o dela em uma cama? A mulher até poderia gozar sozinha por outra vez, mas naquela noite específica o queria. Sentia seus toques com os mesmos dedos nervosos que removiam o rótulo de cerveja da garrafa e batucavam na mesa. Pedia em silêncio para que fosse mais rápido, que usasse com mais ritmo. Ele não via o quanto os peitos estavam durinhos, prontos para a chupada da noite, por trás do sutiã digno de ser rasgado por baixo da blusa propositalmente decotada. Ele não sentia naquele ar de Vênus todo o tesão dela, enquanto do outro lado era possível perceber até o cheiro de sexo exalando. Que instinto aquele homem poderia ter? Não demonstrava nada. Ele dizia "a Nouvelle Vague é espetacular, mas o movimento da câmera na mão é meio...". E ela pensava em câmeras, mãos, boceta. Ele continuava "Godard foi fundamental, mas a falta de nudez por parte da Anna Karina deixou a desejar.". Ele percebeu a falta de nudez em Godard, mas não percebeu o exagero de roupas no bar. Ela ficaria nua bem ali e faria movimentos circulares nos bicos dos seios para demonstrar melhor o que sentia. Mas ele mal a olhava nos olhos, estava em profunda sintonia com os próprios pensamentos sobre filmes franceses. Ela explodiu, não de prazer:

- Escuta, nós vamos transar hoje?

    Foi a grande pergunta, interrompendo a frase dele sobre a corrida dos três jovens no filme Bande à part.

    Ele gaguejou. Não estava preparado. Ela estava lá de lingerie e batom vermelhos, blusa colada, short curto, pensando em putaria. E ele não estava preparado. Ela era tequila pura, ele era pura sobriedade.

setembro 19, 2015

peitos

    não são os olhos dela que lhe causam poesia, são os seios fartos, as tetas, os melões, aquele par que faz a boca salivar. ela pede sinceridade vestindo um decote e diz para ele vê-la olho a olho, mas os peitos estão ali convidativos querendo escapar da blusa. estão na imaginação dele com os bicos durinhos, pra frente, deliciosos de passar a língua de leve e fazê-la se arrepiar. quando ela chega, todos os dias, os olhos dele fotografam a pose dos peitões. quando ela vai embora, a mente dele se lambuza por entre a fotografia na memória. ele fecha os olhos e consegue dar mordiscadas nos mamilos, abocanhá-los, acariciá-los no ritmo que ela gosta. ele consegue ouvir o gemido e pensa que poderia ser poesia em som. ela não quer ficar muito tempo porque diz que não encontra amor. mas existe amor maior que tesão? coisa mais vívida, natural e gostosa de sentir não há. e ele elogia: eu poderia apertá-los o dia inteiro. ela não entende que eles o chamam.

flávia andrade

setembro 18, 2015

Gota que pinga

    Gota desse mundo, gota desse mar, gota de álcool, 'cê é um pouquinho que se cair em lugar errado enche, transborda ou embriaga. Eu chego com esse tanto de coisas sentidas, com esse coração maior que a vida, com esses textos tão grandes e digo que te amo, mas você é tão só, eu sou muito pouco, e a gente não aguenta levar todas esses meus exageros. O contraste grita, você ri, eu choro, a casa 'tá bagunçada e as malas foram desfeitas em cima da cama. Eu não sei onde é que vamos colocar o que trazemos lá de fora, mas sei que posso te fazer um bem quando me despir dos tumultos. Gota desse mundo, gota desse mar, uma garrafa inteira de bebida alcoólica, nós somos um tanto, um caminhão estacionado de humores, que se ficarmos por aqui fazemos a história ser pra sempre.

Flávia Andrade

'cêtembro

    É que você me é setembro. Meio chuva, meio frio, mas muito calor quando quer. Faz sol e tem eclipse. Os insetos voam pelo ar, acertam minha pele, a temperatura está alta, mantenho a casa aberta e você não entra. Esse mês vem depois do mês que parece nunca acabar e vem pronto para me aquecer para o fim, poderia ser mais você? É tão seu, tão do seu coração que os ipês amarelos e brancos estão nos seus cabelos. E eu acho tão bonito que peço pra ficar mais, que rezo pra não acabar, que aproveito o tempo todo no clima que flor.

Flavia Andrade

setembro 15, 2015

Não-promessas

    Eu, sentada em um banco, na feira movimentada, com um pedaço de papelão com uma frase escrita com pincel atômico vermelho: não faço promessas. Anunciando minha maior venda por propaganda enganosa. De pernas cruzadas, com o cotovelo escorado na coxa, com o queixo apoiado na mão, com as costas encurvadas, com o cabelo meio preso quase solto, com dívidas enormes a pagar. Devendo para todos que eu quis por mais tempo que poderia ter, devendo para os sobreviventes das boates falidas, devendo para os encostos de uma vida arregaçada por desencontros. Se em toda metáfora há sentido, que você entenda que te chamo com essa placa de papelão duvidosa. Não faço promessas, eu prometo. Juro que não crio planos e não sonho alto demais dessa vez. Aproveita que 'tá barato, porque só vendo não-promessas para você.

Flávia Andrade

Um novo você

    Eu já estava me perdendo sem ter mais o que dizer, em um sufoco quase raro e pouco rápido. Eu estava tonta porque o corpo, a alma, a mente, o espírito, estavam todos vazios. Eu estava prestes a cair direto nessa cama para não levantar mais. Então você reapareceu. E, quando reaparece, desperta esses textos escritos às pressas que dizem mais do que posso te mostrar. Reapareceu com lembranças de um dia que eu achava que não lembrava. Eu lembrei tanto que virou prosa, tanto que causei poesia, tanto que entre parágrafo, estrofe e verso, você comportou uma distância inteira dentro de um dia só. Eu já estava ficando sem inspiração nova, e o que pode ser mais novo que uma revisita ao passado? Assim como são todas as teorias, tecnologias, governos e ficções. Por agora, até respiro mais fundo: sou lucidez com álcool, sou embriaguez com você. Esse é mais um dos que são de sempre, espero que goste.
Flávia Andrade
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