quarta-feira, agosto 05, 2015

Nessa casa


     Vê? Como o tempo não passa, a vida não muda e o mundo parece desligado, você vê? Olha como os objetos fogem de nossas mãos num piscar de olhos. Olha como a casa vira bagunça sem fim sempre que voltamos do trabalho. Percebe como não consegue escutar música nenhuma porque lá fora há um som mais alto? Os ruídos se misturam tanto que você prefere trancar todas as portas e dormir. Notou como o gás acabou mais rápido nesse mês, a conta de água veio mais cara e o tempo no banho refletindo sobre a vida dobrou? Ainda pode ver como tudo era antes da gente se conhecer? Porque por aqui era tudo calmo, vejo bem de longe, sob borrões, e o que causamos um no outro nos deixou fora do eixo. A letra torta quando te escrevo à mão, o aumento da gasolina, o rasgo na calça, o corte exagerado no cabelo, a discussão no emprego, a crise econômica, as mazelas reportadas. Isso tudo nos habita. Tropeçamos, derrubamos, batemos, e nada nos move para longe. Vê como pertencemos a um lugar só? Onde a gente se adequa à largura do alto do abismo, e não nos deixamos cair.


Flavia Andrade

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