Scatola di Colore, Ettore Spalletti, 1991.

    Ele era poeta. Dessas poesias frouxas que não se arriscam. Achava que pinta de autor era adquirida ao falar sobre as rimas que fez na última noite. Falava que preferia a solidão, sabendo que na certa morreria se ela se fizesse presente com obrigatoriedade. Confessou-me uma vez que amava a palavra "caos". Ele, aquele porre, porre de quem bebe um copo de cerveja e boceja. Meus ouvidos doeram, frágeis para tanta baboseira. Recebi um exemplar de conjunto de poemas seus. Caos em cada página. Nunca mais usei a palavra em meus textos. Ele a estragou e compreendi. Poetas que estragam palavras não são poetas. Seus poemas têm cheiro azedo, de leite esquecido fora da geladeira que ninguém quis tomar. Não me descem.

Flavia Andrade
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Minimalist kiss drawing. Original line art illustration. by siret

Olha mais um riso seu no meu portão e ainda não me ajeitei, não tô pronta pra sair. Perdoa meu chamado, não era desses de empolgar, era pra te fazer ficar aqui. Do seu trabalho para o meu sofá eu quero um cafuné, você do lado, a televisão e nós alheios. Perder o tempo é de graça e eu jurei: não te trago mais gasto. Já sou desgaste, quero dias a serem preenchidos e escolhi suas manias para guardar no pote pra viagem.
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Henn Kim é uma ilustradora que cria imagens conceituais, minimalistas e repletas de significado, que envolvem ácidas críticas à sociedade contemporânea.

    Do momento em que o conheci até agora ainda me faço de incompreensões. De lá para cá eu não soube reconhecer em mim um sentimento específico que me fizesse ficar ao seu lado por tanto tempo, mas fico. Dizem que amor não requer explicação. Entretanto, amor sem razões tira o sono, e eu sinto falta de dormir por uma noite inteira. Talvez você tenha feito alguma coisa comigo, dessas de magia, dessas de prender alguém. Talvez eu tenha feito para mim mesma um desses truques de não saber me desvencilhar de mais ninguém. O que sei, a única coisa, é que de agora em diante, todos os dias: não saber nada é sentir tudo.
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JuxtapozMrzykMoriceau29

    Que seus olhos não alcancem meus passos apressados para longe da sua casa rua à frente, sempre em frente. Que não descubra a coragem que não tive para parar, dizer que estava por perto e decidi trazer meu corpo cansado para o seu sofá em troca de uma conversa longa. Porque agora, sobre você, sou somente silêncio. Ou no máximo palavras entaladas na garganta. Então ando mais rápido, quase corro para longe do seu portão reformado com uma nova cor e tento esquecer que estive tão próxima a ponto de sentir um pouco daquele cheiro da sua sala de estar que tem sempre os móveis em lugares diferentes. Talvez, se eu tivesse me deixado bater palmas buscando curiosa sua presença dentro da casa, você teria se escorado no muro para falar displicentemente sobre o que nenhum de nós quer ouvir sem me oferecer um convite. Um convite para sua hora, seu dia, sua semana. E não sou mais capaz de ser quem não encontra espaço onde quer estar, portanto, percorro caminhos que não me devem nada, caminhos que são descobertas e a eles me faço pertencer. Se me avistar por essas ruas, por esse bairro, talvez até mais distante, eu ando me perdendo para não lembrar que uma vez me encontrei onde não devia.   

Flávia Andrade
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1,061 Likes, 37 Comments - Frédéric Forest (@fredericforest) on Instagram: “Woman waiting - Etude - Flowers, Etude - All drawings, images, photographs and graphic design is…”

 Repete o finalzinho daquele poema do Drummond de novo, por favor  eu peço entornando a garrafa de vinho na taça que, a esta altura, foi esvaziada já umas seis vezes intercalada por duas bocas.
 Eu não devia te dizer, mas essa lua, mas esse conhaque...
 Vinho  corrijo apropriando-me do verso.
 ... Botam a gente comovido como o diabo.

    A estrofe sempre me dá um baque de verdade, como se eu me encontrasse ao lado daquele homem franzino e seus óculos e seus papéis de poeta para sentir a comoção da vida vilipendiada pela embriaguez.
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