quarta-feira, março 23, 2016

Sobre você ter ido embora cedo demais

    Depois de sua partida, sou por completo uma saudade inteira nessa cidade pequena. Andando com um sorriso frouxo, de lado, lembrando de quem não anda mais por rua alguma da mesma maneira cabisbaixa que a minha. Sou uma filha que sente falta do pai, uma menina que quase não soube se ver sem herói e mesmo assim cresceu salvando a si mesma dia após dia, em todos os sentidos mais clichês. Sei algumas músicas de cor em uma voz masculina que recorda a infância, na tentativa de não deixar mais nenhum dos poucos detalhes se perder para o tempo que passa sem receio. Os dias de junho de agora não são os mesmos dias de junho de dois mil e nove. De lá pra trás os dias costumavam ser mais curtos e menos vazios, de lá pra cá toda semana exige um fragmento de lembrança para dar vida ao que tenta morrer aos poucos, e não deixo dessa vez. Os meus passos não são contados, tampouco o tempo que já passou com exatidão, mas eu sei o tanto que caminho e quanta coisa aconteceu desde a vez em que olhei para ele sem saber que era o último momento. Assimilar dias passados e dias presentes, antes e depois, sempre provoca um impacto emocional, como se fosse ele quem estivesse notando a grande diferença e reagindo em minha frente. Sou quem comemora em silêncio e brinda ao céu quando algo bom nessa vida acontece, para orgulhar quem não teve chance de ficar e ver de perto. E me esforço para ser melhor por quem já foi tão incrível, à fim de assemelhar as vivências e manter um fio imaginário que nos ata desse mundo real ao mundo que ainda desconheço. Sou tanta saudade que aprendi a trazer os bons sentimentos resgatados comigo, e já nem choro mais. Sou uma parte dele que ficou e que precisa viver um pouco como ele quis, transmitindo a quem não o conheceu as melhores partes do que ficou salvo em mim.
Flavia Andrade

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