domingo, março 08, 2015

A Labuta do Escritor

    Por algum motivo desconhecido você começa a escrever. Não lembra se já escreveu antes disso e não sabe se continuará escrevendo. Não sabe se está indo bem realmente ou se só pensa que está. Estranha o próprio vocabulário com palavras que no cotidiano nunca usou e em reflexões instantâneas acredita que pode ter aprendido com as inúmeras leituras. Acredita, então, que se lê tanto pode também escrever. O que te separa do autor que escreveu aquele livro que você tanto ama? Quem disse a ele que tem talento e quem te disse que você não tem? Continua escrevendo, pensa em voltar os olhos ao início e reler tudo, mas teme que não esteja tão bom quanto na ideia, teme que algum desvio no impulso enviado do cérebro para as mãos possa ter impedido que a narrativa fique clara. Aos poucos seu corpo perde todo o peso, o mundo silencia, aos poucos você não pertence a mais nada além da trama. E a trama, na beleza da inspiração, é uma criação sua. Você torna-se então o deus daquilo que é escrito e o sentimento passa a ser mais prazeroso do que imaginava ser.
     Contudo, e isso é estranhamente bem generalizado, você é um deus que procrastina. Um deus que às vezes abandona a criação e por outras vezes cuida com tanto zelo que acredita não ter restado nenhuma imperfeição. Com toda a divindade da liberdade narrativa, mesmo que demore, você chega ao fim e por ser fim, não importa se foi pulsante na trama, é o ápice. Repentinamente, o deus não é mais um ser que cria, avalia, lapida e dá forma, mas é aquele ser que precisa encontrar um mundo ao redor e que nesse mundo tenha pessoas que admirem a grande criação. Precisa, cautelosamente, colocar a criação em um lugarzinho e chamar calmamente: venham, observem o que fiz.
Um escritor iniciante sem bagagens literárias, sem livros autorais na mala, com no máximo três — ou nenhum conto publicado aleatoriamente no mercado nacional, ao finalizar sua primeira obra entra em uma maratona incessante para buscar chances. As chances, no entanto, são enganosas. O mercado editorial parece cada vez maior e interessado (ao menos é o que tenta demonstrar), enquanto apenas se limita a certos nomes e espécies de currículos de autores. O autor em sua maratona passa então a fazer uma coleção de links, endereços, telefones e e-mails para onde pode enviar o original da obra. Vai, de pouco em pouco, acumulando nomes de editoras e expectativas. Porém, e por aqui inicia-se o pesadelo para ser publicado, as respostas começam a chegar e não são, nem de longe, tão boas quanto foi esperado.
    As propostas não são apenas propostas, são, na verdade, orçamentos preocupantes. Não encontro frequentemente novos escritores que planejam ficarem milionários com isso, porém também não encontro nenhum que planeje perder uma boa quantia de dinheiro para ser publicado. É como se você pagasse para trabalhar. E isso, infelizmente, é a situação intrínseca à literatura atual nacional. Um número alto de editoras cobram para que seu livro seja impresso, dificilmente divulgado e com certas burocracias posto em livrarias. O número de editoras que não cobram é um pouco menor e primeiramente é para essas (e eu diria: unicamente essas) que um autor deve recorrer. Então, deixando para trás — apenas por um momento, os valores e exigências de uma editora e chegando à segunda fase de ser escritor, vejamos.
    Uma vez publicado, o autor passa então a aumentar o ritmo de sua maratona e dessa vez para encontrar leitores. A teoria é simples (principalmente se a essa altura o autor ainda se considera um deus da criação literária): encontre meios, divulgue, invista e fique famoso. A prática complica um pouco: os meios estão cheios de outros autores se divulgando também, as divulgações precisam de todo um suporte publicitário que o autor não planejou inicialmente ter, os investimentos também são caros e ficar famoso dificilmente é questão de talento. Você, o autor, é então um deus frustrado querendo causar um dilúvio — não associe nenhuma dessas palavras a textos bíblicos, por favor.
Uma vez publicado, o autor precisa superar preconceitos por ser o que simplesmente é: escritor, brasileiro, iniciante e com pouco dinheiro. Precisa por si só saber a vender sua obra, criar táticas próprias de divulgação, buscar por apoios, incomodar colegas, amigos e família com a mesma ladainha de sempre, precisa de muitas horas de seus dias somente para conseguir um certo alcance e através desse alcance quebrar estereótipos e convencer que o que fez é bom. Tudo bem, muitas profissões envolvem esse esforço, mas o caso é que, embora muitas envolvam, a literatura é uma das poucas que tem cunho social, cultural e pessoal ao mesmo tempo.
    E sem saber como chegou até esse "uma vez publicado..." apenas se dedica, dentro do mundo que se envolveu, a ser nada mais do que um escritor. Dedica-se a escrever mais para si do que para qualquer outro, pois onde se encontra, no momento, é primeiro preciso adquirir forças para continuar insistindo e somente depois tentar ser reconhecido.

Flávia Andrade

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