quarta-feira, setembro 23, 2015

Fora do cinema

    Ela o chamou para sair e ele a encontrou no bar. Eles se cumprimentaram com um beijo no rosto, sentaram-se nas cadeiras de madeira e ficaram separados pela quina da mesa quadrada. Uma mão dele mexia no rótulo da garrafa enquanto a outra gesticulava seu discurso sobre o cinema francês. Falava sem parar tudo o que sabia. Ela notou que, àquela altura, se ele notasse mais detalhes como as chances e liberdades dadas, poderia estar com a mão da garrafa nas coxas dela, percorrendo os caminhos que não poderiam mais esperar pelo fim da noite, até alcançar a calcinha úmida. Ele não estava causando aquilo no corpo da moça, longe disso, as falas sobre filmes eram cansativas, mas ela imaginava coisas melhores e as sentia ali na cadeira imaginando-se em outros lugares. Cruzava as pernas e se apertava. Pensava no quanto ele poderia ser melhor que aquilo, desejava que ele pudesse se transformar em um homem de mais atitude em um quarto, no meio do mato, na sacada, na parte escura da rua. Desejava que ele abrisse suas pernas e mostrasse força, empenho, que a fizesse suar. Ele falava, falava e falava e não reparava na boca pintada de vermelho, um pouco entreaberta, clamando por um beijo que lhe tirasse o fôlego, a roupa, que lhe subisse o fogo. Ele parecia tão interessado em qualquer coisa desinteressante, e como poderia ser sem camisa? Como seria o peso de seu corpo contra o dela em uma cama? A mulher até poderia gozar sozinha por outra vez, mas naquela noite específica o queria. Sentia seus toques com os mesmos dedos nervosos que removiam o rótulo de cerveja da garrafa e batucavam na mesa. Pedia em silêncio para que fosse mais rápido, que usasse com mais ritmo. Ele não via o quanto os peitos estavam durinhos, prontos para a chupada da noite, por trás do sutiã digno de ser rasgado por baixo da blusa propositalmente decotada. Ele não sentia naquele ar de Vênus todo o tesão dela, enquanto do outro lado era possível perceber até o cheiro de sexo exalando. Que instinto aquele homem poderia ter? Não demonstrava nada. Ele dizia "a Nouvelle Vague é espetacular, mas o movimento da câmera na mão é meio...". E ela pensava em câmeras, mãos, boceta. Ele continuava "Godard foi fundamental, mas a falta de nudez por parte da Anna Karina deixou a desejar.". Ele percebeu a falta de nudez em Godard, mas não percebeu o exagero de roupas no bar. Ela ficaria nua bem ali e faria movimentos circulares nos bicos dos seios para demonstrar melhor o que sentia. Mas ele mal a olhava nos olhos, estava em profunda sintonia com os próprios pensamentos sobre filmes franceses. Ela explodiu, não de prazer:

- Escuta, nós vamos transar hoje?

    Foi a grande pergunta, interrompendo a frase dele sobre a corrida dos três jovens no filme Bande à part.

    Ele gaguejou. Não estava preparado. Ela estava lá de lingerie e batom vermelhos, blusa colada, short curto, pensando em putaria. E ele não estava preparado. Ela era tequila pura, ele era pura sobriedade.

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