quinta-feira, setembro 24, 2015

Vamos juntas

    Olha, desculpa puxar assunto igual as velhinhas simpáticas que perambulam o dia todo de ônibus em ônibus, mas eu só quero agradecer. Não sou de ficar falando assim com qualquer um, então vou me explicar. Eu fiquei feliz de ver que era você, uma mulher, que estava vindo se sentar ao meu lado nesse ponto. Já é tarde e qualquer homem desconhecido me aterroriza. Há muitos casos de assaltos, estupros por aí, e a maioria das vítimas são mulheres, sabia? Estava dando um medo danado de ficar aqui, a essa altura da noite, sozinha esperando pelo meu ônibus que passa a cada quatro horas e o pior, nem consigo saber qual a hora exata porque meu celular descarregou. Agora que você está aqui, podemos pensar que estamos seguras, certo? Se alguém estranho aparece, uma grita e outra corre. Esse pode ser nosso acordo.
    Eu desconfio muito de homens não só pelos noticiários, mas porque meu namorado era um romântico à moda antiga que se tornou um agressor. Ou foi o contrário a fim de disfarce, ainda não sei. Ele me mandava flores e chocolates e ursos de pelúcia. Uma vez pendurou balões em formato de coração no teto do meu quarto para comemorar meu aniversário. Algumas colegas invejavam nossa relação, sabe como é? Aquelas que sorriem quando você conta o que aconteceu, mas segundos depois percebem que queriam aquilo também e começam a sentir uns revertérios no estômago e um acúmulo de raiva por você continuar contando sua vida perfeita. Só conto tragédia agora.
    Sabe o que aconteceu com meu namorado? Escuta, a história não demora muito. Ele começou a mudar. Não bebia, não fumava, era formado, mas começou a mudar repentinamente.  Digo mudar porque ainda não sei se esse ódio, se essa coisa repulsiva já estava nele. O que sei é que uma vez ele deu um tapa no meu rosto e eu aceitei como consequência de seu estresse momentâneo. Eu não quis mostrar minhas mensagens do celular para ele. Da segunda vez foi um soco de punho firme e eu aceitei como algo que acontece quando você tem muita coisa na cabeça. Eu não cheguei a tempo para fazer seu jantar. Da terceira vez eu fiquei no chão agonizando de dor e eu comecei a me perguntar o que tinha de errado comigo. Afinal, ele não era daquele jeito, na verdade, era o melhor namorado do mundo, e o que eu estava fazendo com ele? No que eu estava o transformando? Naquele dia o motivo foi minha demora no banho, porque eu estava sufocada e chorando escondida. Ele entrou, viu a cena, pensou que fosse drama proposital.
    Mas quando se olha de longe, quando se olha para mim como mulher, dona de mim, percebe-se que ele não tinha motivo nenhum, nunca teve. As agressões não se explicam.
    Pensa comigo, tem três mulheres no ponto de ônibus da outra rua, olha lá. Acha que elas já sofreram alguma coisa parecida? Acha que já foram abusadas? Desculpa por te fazer olhá-las dessa forma, mas a melancolia desses pontos ajudam um pouco. Você pode pensar que provavelmente não, que isso não é fácil de encontrar, mas olha pra mim... Estou aqui do seu lado e eu apanhava do meu namorado perfeito. O namorado que minha família insistia para que eu casasse. "Amarra esse homem logo", minhas tias ficavam dizendo, acredita? Ninguém percebia nada até que começou a ficar difícil esconder as marcas roxas, os cortes, e disfarçar as dores.
    Agora pensa no medo que eu fiquei, e pensa no tanto de homem assim por aí, homem criado com a ideia de que ser homem é mandar, dar ordens e receber tudo feito pela mulher submissa. Homem que cresce como um guri que bate nas meninas da escola e é defendido pela ideia de amor infantil, uma forma inventada de demonstrar que gosta de alguém. Esses homens olham para nós duas aqui como seres bem menores que têm o dever de lhes servir. Somos donas da gente, certo? Eles não compram essa ideia, acham que são donos de todas as mulheres do mundo.
    Desculpa, não estou querendo te assustar. Daqui a pouco o ônibus chega. Nós vamos ficar aqui juntas e podemos descer no mesmo ponto e andarmos próximas até o destino em comum para enfim nos separarmos. Uma protege a outra. Eu me sinto segura assim, você não se sente?

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Natasha

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