A saudade sempre soa como uma tarde de 2006 procurando aquela música preferida entre as estações do rádio. Um momento comum demais para que fosse abraçado pela memória com forças quando foi possível, mas significativo o suficiente para ainda ser lembrança, mesmo dez anos depois.
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agosto 06, 2016
novembro 25, 2015
#MeuAmigoSecreto
Meu amigo secreto não gosta de mulher que bebe, mas se aproveita de uma após embebedá-la. Meu amigo secreto é amigo, mas se eu "der mole", ele pega. E se eu não quiser, não é amizade, é o seu pesadelo da friendzone. Meu amigo secreto não se importa com aparência, mas não pega mulheres gordas, altas, e acha que cabelo curto é muito masculino. Meu amigo secreto gosta das minas branquinhas, mas não tem preconceito, longe disso, até já me contou de uma vez que pegou uma "mina de cabelo ruim". Meu amigo secreto é a favor do feminismo e entende que a mulher deve lutar por seus direitos, mas as "loucas peludas" é exagero, mas "mostrar os peitos na rua pra protestar" é vadiação, mas ter iniciativa e sexo casual é ser puta. Meu amigo secreto adora um puteiro, vai nesses locais frequentemente, mas até hoje não entendeu que putas são somente essas que cobram. Meu amigo secreto quer uma mina responsa pra casar, acha um absurdo o tanto de menina que é só pra pegar por aí, mas adora se vangloriar para os amigos com os números de quantas já comeu. "Essa foi fácil". Meu amigo secreto separa mulheres entre as que são para pegar e as que são para casar, mas quando entra em relacionamento sério, trai a namorada, porque "a carne é fraca". Meu amigo secreto não é homofóbico, só acha que não precisa ficar de esfregação em público, e acha tudo bem reduzir a homossexualidade a atitudes de exibição pública de afeto também praticadas por casais hetero. Meu amigo secreto ama sua mulher, mas "em momentos de raiva", "sem pensar", aponta defeitos a ponto de diminuí-la em relação a ele, chamando-a de burra, incompetente e tantas coisas piores. Meu amigo secreto adora "comer com os olhos" as minas que passam na rua, assovia e diz "gostosa", querendo ser ouvido, mas coitado, ele me disse que nunca assediou ninguém. Meu amigo secreto é feminista no facebook, mas na roda de conversa com os amigos já tentou me mandar calar a boca, porque eu sou mulher e não sei dar opinião. Meu amigo secreto não entende, sequer, o sentido das palavras que diz, das ações que pratica e das babaquices que comete.
Toma meu presente pra você, fofo.
Flavia Andrade
setembro 24, 2015
Vamos juntas
Olha, desculpa puxar assunto igual as
velhinhas simpáticas que perambulam o dia todo de ônibus em ônibus, mas eu só
quero agradecer. Não sou de ficar falando assim com qualquer um, então vou me
explicar. Eu fiquei feliz de ver que era você, uma mulher, que estava vindo se
sentar ao meu lado nesse ponto. Já é tarde e qualquer homem desconhecido me
aterroriza. Há muitos casos de assaltos, estupros por aí, e a maioria das
vítimas são mulheres, sabia? Estava dando um medo danado de ficar aqui, a essa
altura da noite, sozinha esperando pelo meu ônibus que passa a cada quatro
horas e o pior, nem consigo saber qual a hora exata porque meu celular
descarregou. Agora que você está aqui, podemos pensar que estamos seguras,
certo? Se alguém estranho aparece, uma grita e outra corre. Esse pode ser nosso
acordo.
Eu desconfio muito de homens não só pelos
noticiários, mas porque meu namorado era um romântico à moda antiga que se
tornou um agressor. Ou foi o contrário a fim de disfarce, ainda não sei. Ele me
mandava flores e chocolates e ursos de pelúcia. Uma vez pendurou balões em
formato de coração no teto do meu quarto para comemorar meu aniversário.
Algumas colegas invejavam nossa relação, sabe como é? Aquelas que sorriem
quando você conta o que aconteceu, mas segundos depois percebem que queriam
aquilo também e começam a sentir uns revertérios no estômago e um acúmulo de
raiva por você continuar contando sua vida perfeita. Só conto tragédia agora.
Sabe o que aconteceu com meu namorado?
Escuta, a história não demora muito. Ele começou a mudar. Não bebia, não
fumava, era formado, mas começou a mudar repentinamente. Digo mudar porque ainda não sei se esse ódio,
se essa coisa repulsiva já estava nele. O que sei é que uma vez ele deu um tapa
no meu rosto e eu aceitei como consequência de seu estresse momentâneo. Eu não
quis mostrar minhas mensagens do celular para ele. Da segunda vez foi um soco
de punho firme e eu aceitei como algo que acontece quando você tem muita coisa
na cabeça. Eu não cheguei a tempo para fazer seu jantar. Da terceira vez eu
fiquei no chão agonizando de dor e eu comecei a me perguntar o que tinha de
errado comigo. Afinal, ele não era daquele jeito, na verdade, era o melhor
namorado do mundo, e o que eu estava fazendo com ele? No que eu estava o
transformando? Naquele dia o motivo foi minha demora no banho, porque eu estava
sufocada e chorando escondida. Ele entrou, viu a cena, pensou que fosse drama
proposital.
Mas quando se olha de longe, quando se olha
para mim como mulher, dona de mim, percebe-se que ele não tinha motivo nenhum,
nunca teve. As agressões não se explicam.
Pensa comigo, tem três mulheres no ponto de
ônibus da outra rua, olha lá. Acha que elas já sofreram alguma coisa parecida?
Acha que já foram abusadas? Desculpa por te fazer olhá-las dessa forma, mas a
melancolia desses pontos ajudam um pouco. Você pode pensar que provavelmente
não, que isso não é fácil de encontrar, mas olha pra mim... Estou aqui do seu
lado e eu apanhava do meu namorado perfeito. O namorado que minha família
insistia para que eu casasse. "Amarra esse homem logo", minhas tias
ficavam dizendo, acredita? Ninguém percebia nada até que começou a ficar
difícil esconder as marcas roxas, os cortes, e disfarçar as dores.
Agora pensa no medo que eu fiquei, e pensa
no tanto de homem assim por aí, homem criado com a ideia de que ser homem é
mandar, dar ordens e receber tudo feito pela mulher submissa. Homem que cresce
como um guri que bate nas meninas da escola e é defendido pela ideia de amor
infantil, uma forma inventada de demonstrar que gosta de alguém. Esses homens
olham para nós duas aqui como seres bem menores que têm o dever de lhes servir. Somos donas da gente, certo? Eles não compram
essa ideia, acham que são donos de todas as mulheres do mundo.
Desculpa, não estou querendo te assustar.
Daqui a pouco o ônibus chega. Nós vamos ficar aqui juntas e podemos descer no
mesmo ponto e andarmos próximas até o destino em comum para enfim nos
separarmos. Uma protege a outra. Eu me sinto segura assim, você não se sente?
agosto 17, 2015
Faz cultura
Bota nessa cultura um pouco de você, um cado de mim e bota aquelas músicas que a gente ouve quando bate a tristeza, e aqueles filmes que a gente vê sem entender nada do começo ao fim. Elogia o Chico, mas o Cícero também. Adora os filmes com o Wagner Moura, com o Selton Mello também. Bota nessa cultura o que veio antes e o que veio depois, como era nossa rua há anos e quanto comércio chegou. Aliás, fica de olho nas construções, na urbanização, e não perde a tradição de vista,aquela quase perdida no lugar de sempre, vai visitar. Bota nessa cultura tudo o que todos os seus sentidos já puderam alcançar nesse lugar, encontre pessoas que já sentiram igual e procure pessoas que nunca sentiram nada além. Mostra, ensina, grita na rua que a cultura é nossa depois de nós. Faz não é faça, faz agora antes que eu peça ou mande, faz como quem não pensa muito, apenas expressa. Esse é só mais um texto e os muros ainda estão apagados, esse é só mais um texto e o som ainda está mudo, esse é só mais um texto e sinto que não faço nem cócegas nesse mundo. Bota a gente nessa cultura, nos prega nas paredes e nos postes, faz acontecer.
Flávia Andrade
março 08, 2015
Sobre Ser, Acima de Tudo, Mulher
A cama cheia de roupas, cabides espalhados, as gavetas das cômodas abertas, portas do guarda-roupas escancaradas. Nada se encaixa, nada serve, nada combina: — eu não tenho roupa nenhuma para vestir! O esmalte que ainda não secou nas unhas e uma delas já borrou quando fui tentar experimentar os sapatos de saltos demoníacos e altos. O cabelo que ainda não quer ser encarado no espelho, o celular vibrando na mesinha com gente perguntando se já estou chegando, mas eu nem tenho roupa para ir. A saia está desconfortável, o short não fecha direito, a blusa marca a barriga, a outra blusa já usei nas últimas três ocasiões importantes, a outra blusa não vai combinar com a calça e eu nem quero ir de calça, o vestido está com um botão faltando e eu esqueci de ir na costureira, eu não tenho roupa para ir. Eu vou vestir um pijama e ficar em casa. Pego o celular para pedir uma pizza e lá está a mensagem: estou passando aí para te buscar. Eu nem quero mais sair e penso em fazer um drama. Eu poderia dizer que estou de tpm, mas usei essa desculpa cinco dias atrás, não vai funcionar tanto. Então eu me arrumo, na marra, com aquela roupa que já se tornou uniforme, a roupa de sempre. A mente está cheia com o diálogo do dia anterior, algo sobre me dedicar mais que o outro para manter uma boa relação, algo sobre a iniciativa ser sempre minha, sobre exigências para fazer mais do que posso e algo sobre não mudar por ninguém. Talvez eu tenha feito a coisa certa, mas alguma coisa no diálogo se subverteu e fez parecer que eu, como sempre, estive errada. Eu digo que vou sozinha só para ganhar tempo de pensar mais e me tornar outra quando chegar. As saudades mínimas de detalhes quase imperceptíveis batem. Eu penso em largar essa mania de reparar em sorrisos tortos, em gente torta que não me faz bem. Eu sempre ouço que posso ter alguém melhor, mas talvez eu sempre seja a pior de tudo. Estou com esses complexos e neuroses, tão agitada por quem anda tão calmo. Eu espero só encontrar aquela boa amiga para contar tudo o que houve na última noite e talvez conseguir algum conselho bom. Espero encontrar alguma bebida gelada para matar qualquer tipo de sede dentro de mim. Espero querer ficar até o outro dia ou encontrar uma desculpa boa para ir embora de uma vez. Espero não encontrar ninguém envolvido nos diálogos ruins. Passo a noite prestando atenção nas letras das músicas e ignorando as conversas perto de mim, vou me identificando com cada uma, vou me afundando. Repentinamente começo a dançar. Então me afundo outra vez. Bom humor, mau humor, bom humor, mau humor. Contente, descontente, contente, descontente. Sóbria, pouco sóbria, sóbria, pouco sóbria. A música que tocou no primeiro dia, a música que tocou no quinto dia, a música do primeiro mês, a música que ele gosta. Entro em repetições de tudo, em algo bem mais profundo do que pensei que fosse. Descubro em mim o que eu não quis perder, mas deixei escapar. Não voltarei atrás, farei valer o desespero para encontrar uma roupa para hoje. Farei valer os esmaltes nas unhas, as meninices todas. Bom humor outra vez, contente outra vez, ignorando a sobriedade outra vez. Algo sobre não querer e não precisar mais saber de nada, algo sobre o aqui e o agora. Algum mantra bom na mente. Algum otimismo nos conselhos recebidos. Algo sobre só voltar para casa quando estiver claro o suficiente para não precisar encontrar o interruptor da luz, apenas deitar na cama em cima de todas as roupas bagunçadas e continuar o plano de esquecer o resto do mundo.
agosto 07, 2014
maio 27, 2014
Chega esse momento da vida em que você acredita mais nas ausências e desfoques. Você deixa de procurar por aquilo que é tangível porque simplesmente se torna cansativo. Chega esse instante em que você, sem querer, vai dizer que a ausência de calor é mais aconchegante. A ausência de luz é mais confortável. A ausência de cor te veste melhor. Preferível também crer que essas coisas que nos cercam, segundo eles, não existem, pois ter fé em existência significa um trabalho árduo para a alma. Chega essa hora em que você só quer ouvir o que te tira dessa sintonia com o mundo, normalmente o silêncio. E vai chegando, e você vai percebendo, e vai deixando. Chega para muitos e as pessoas ficam assim, ausentes de amor.
Flávia Andrade
Um segredo-confissão:
Até alma livre tem rumo traçado e um dia se encontra com a qual está predestinada
março 27, 2013
Voo de ideias
A inspiração aflora e vai embora, como um pássaro que passa a sua frente belíssimo para que o admire e em um piscar de olhos voa pra longe, foge com sua cor.
Flávia Andrade
maio 31, 2012
Força sua, esperança minha
Se você fechar os olhos vai enxergar. Não a paisagem, não as pessoas passando apressadas, não o trânsito monótono, vai enxergar a beleza do que teus olhos segundos antes capitaram, o átimo entre o ato de observar rapidamente e o ato de ir para o seu próprio mundo. O prazer de respirar fundo.
Quando teus medos apenas se tornarem mais fortes, tornando-te mais fraca, não vacile, não caia. Segure em minhas mãos e não tema. Quanto tuas dores clamarem por tua queda, resista, aguente. Apoie-se em meus ombros e confie. Creia que a tempestade passa, mesmo sabendo que nem sempre após ela vem o arco-íris. Acredite que a alegria é daquele que sabe superar.
Menina, sorria das pequenas coisas, o que é maior não importa, eu sei que você sofre e chora todas as noites, mas olhe em tua volta, procure as cores escondidas no meio da escuridão. A luz implícita na solidão. Lute confiante de que vai ganhar. Seja teu próprio super-herói, minha pequena, pois neste mundo egoísta ninguém mais larga tudo para salvar outro alguém. Eu estou aqui, mas eu não posso te salvar dos teus próprios fantasmas.
Flávia Andrade
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