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agosto 11, 2015

A guria das artérias folks

    Cabelos escuros sem cor definida acostumados a ser presos no alto da cabeça que sempre doía, por enxaqueca ou ressaca. Olhos que buscavam os detalhes emocionais e não enxergavam nada de material à primeira vista. Boca que se movia pouco durante o dia e se mantinha fechada enquanto todas as palavras corriam desesperadas pela mente. Fígado desgastado, pulmão meio ruim, coração com peças faltando, perdidas, peças que o serviço especial de consertos humanos não tinham no estoque. A guria em pé no ônibus não se vestia tão bem, não tinha ritmo na voz e não deu ouvidos a quem tentou corrigir sua postura. Porque os ouvidos só notavam, quando ela ainda tinha jeito de mudar, Bob Dylan e Neil Young
    Por que é que alguém foi dizer que gostava daquilo tudo? Depois que disse, ela quis mudar a cor do cabelo, quis olhar quantas cadeiras vazias restavam nos locais, quis falar sobre o que não sabia. Mas os pedaços defeituosos de dentro ainda estavam lá, sem remendos, sem cola, sem costura, sem novas instalações. Quando um certo alguém disse que gostava dela, não enxergou as músicas folks que percorriam suas artérias. E quando descobriu, não quis ficar.
     Ela era um pequeno erro por fora, um caos por dentro e uma noite de distúrbio que durava o tempo inteiro. Se estragou um pouco mais por uma pessoa só que viajou por todo seu corpo até encontrar seus caminhos sem saída. Quebrou mais algumas peças, apresentou mais falhas e não aceitou cura nenhuma depois que aquele do quis-e-largou foi embora.
    Por que é que alguém foi dizer que gostava daquilo tudo? Antes, ainda sabia viver um pouquinho bem, não queria se trocar por uma nova geração.

Flávia Andrade

julho 16, 2015

Necessidades


— Do que mais você precisa? — você me pergunta com todo o ar de superioridade. 

    Eu precisei ter duas gripes, ir ao posto de saúde, receber a medicação de sempre em ambas as vezes. Precisei levar o irmão mais novo da minha amiga para passear, precisei limpar a casa inteira quando a visita ligou dizendo que chegaria em dez minutos. Quase uma surpresa! Precisei organizar uma festa surpresa ao mal agradecido que nunca me deu presentes. Precisei reprovar duas vezes no vestibular e desistir de uma faculdade depois que finalmente passei. Precisei esquecer a carteira e só perceber isso na porta da boate quando eu não a encontrei para pagar minha entrada, e precisei aceitar ajuda do cara estranho que passou a noite inteira tentando me beijar como retribuição dos vinte reais de open bar. Precisei torcer o pé na entrada da sala do gerente, no dia da minha primeira entrevista de emprego. Precisei chorar cinco ou seis vezes pela mesma pessoa até decidir seguir em frente. Precisei pegar o ônibus errado duas ou três vezes, dormir no ônibus certo e passar reto pelo meu destino. Aliás, sobre o destino, eu precisei andar por todos esses caminhos tortos para numa sexta-feira de manhã decidir ir à padaria comprar pães doces e te ver. Precisei me apaixonar por você como me apaixono por quase todo cara com sorriso bonito que não sei o nome. Precisei ouvir um oi. Eu precisei te conhecer melhor depois desse dia e precisei te ligar duas vezes por ansiedade de te encontrar e precisei aceitar o pedido de namoro. 

— Eu sempre fiz tudo por você, do que mais precisa? — e você está perguntando outra vez, irritado. 

    Eu precisei pensar em como eu era antes de você. Precisei dizer que precisava fazer o que eu costumava gostar de fazer. Eu precisei dizer vinte vezes o quanto gostava de flores até finalmente receber uma rosa no dia do meu aniversário. Eu precisei ir à psicóloga desabafar sobre você não ter aparecido no aniversário do ano seguinte. Precisei dizer a minha família que estávamos bem, mesmo sentindo uma dor incômoda do fundo do peito, coisa de quem mente sobre sentimentos. Eu precisei receber três ligações estressantes até parar de atender. Precisei sair para espairecer e entrar outra vez na padaria para comprar pães doces e sair de olhos fechados para não conhecer mais ninguém, para não se apaixonar outra vez. Eu precisei avisar a mim que tudo deveria ter um final, pois sempre sou a última a saber do que eu realmente quero. Precisei não te ver mais. Precisei ouvir essas suas perguntas para buscar respostas, explicações, dizeres. 

— Eu preciso achar caminhos certos dessa vez. — Respondo, por fim.

     Você precisou não entender coisa alguma para compreender que não sou mais quem você conheceu. Que nunca fomos quem achávamos que fomos. Que apenas precisamos ser. Mas as necessidades se descarregam depois de tanto tempo acumuladas e o que era preciso se esvai.

— Certo. 

— Boa noite. — Me despeço.

— Boa. 

— Boa sorte. — Digo.

— Obrigado. — Você diz e anda para fora da casa, da minha vida, de tudo o que foi necessário para aprender mais essa coisa curiosa sobre as pessoas: só sorriem enquanto você dá a elas o que precisam.

Flávia Andrade

abril 27, 2015

A porta torta da cozinha à rua


    Na mesa para dois tomavam café na hora errada quase todos os dias. A rotina era torta, sempre com um desajuste de causa maior. A porta demorava a fechar, precisava de batidas fortes e de, no mínimo, três verificações antes de saírem. O descaso era dele que vivia perseguido por adjetivos de bar e a preocupação era dela, só dela. Às vezes pensava que via coisas em excesso, se flagrava imaginando que a vida fosse como o café servido nas manhãs: amargo e morno. Às vezes até encontrava razão em comparar o amor deles com a porta que precisava de uns trancos, uns empurrões para fechar, que não era fácil por culpa dos contornos amassados, por culpa de tanta batida que já aguentou. Mas ela não ia embora, checava a vida deles mais que a chave na fechadura. Ele passava quase despercebido porque ela cuidava pelos dois, mas aguentar não é sustentar e o vazio ficava maior. Depois de tanto ver tanta cena em um cenário só, tanto do que nunca quis ver, aliviou as forças. Na mesa para dois não tomaram café, já era tarde. A rotina se desfigurou de todos os outros dias. A porta nem foi fechada porque ela correu. E não tinha mais tempo para que ele reparasse na medida errada da receita, no trinco quase caindo, na vida estampada no azedume diário, ela já tinha ido.


Flávia Andrade

abril 04, 2015

Brecha


    Ela está de short jeans rasgado e sutiã verde com rendas. Eu estou na rua fumando um palheiro. Ela está dançando alguns blues com uma cerveja na mão. Ela está gritando a letra da música que diz alguma coisa que ela gosta, ignorando o mundo fora e eu bem dentro dela. Dentro da geladeira tem vinte e duas garrafas de cerveja que ela comprou com todo o dinheiro que sobrou no fim do mês. Eu a vi no mercado e não consegui voltar pra casa. Dentro do meu carro semana passada ela esqueceu a carteira com alguns trocados e não vai pedir de volta. Eu penso em usar como desculpa para ter voltado aqui. Eu estou de fora ouvindo sua voz desafinada e vendo algumas vezes ela dançar através de uma brecha da cortina, eu quero dizer que sinto muito. Quero dizer que não sou como todos os outros, que às vezes realmente bebo mais do que devo, mas que ela também faz isso e pode me entender. De longe eu sei que ela não está sentindo nada. Não nesse momento. Nós não sabemos o que está acontecendo com um e com outro, nem com nós mesmos. Nós apenas estamos nessa porra de relação complicada que está acabando desde semana passada. Ela está de short jeans rasgado e sutiã verde com rendas como eu disse que ela fica linda, como ela odiou ser vista da outra vez. "É minha roupa de ficar em casa", ela disse. Ela está linda. Eu estou parado enquanto ela segue em frente. Eu estou sem saber o que fazer. Bato palmas em seu portão, ela abre a cortina e a janela, sabe que sou eu.

- Eu posso entrar?

    Seu sorriso já está desfeito, a música perdeu o sentido. Eu sinto vontade de pedir desculpas por estragar seu dia, mas eu precisava fazer alguma coisa. Eu me perco imaginando-a virando toda aquela bebida gelada. Ela se afasta da janela e fecha tudo novamente. É um jeito de me mandar embora. Deixo-a com short jeans rasgado e sutiã verde com rendas para trás, deixo os elogios e a felicidade de abraçá-la para trás. Ele está descendo a rua, ele, o outro. Aquele que roubará meu lugar ainda quente. Eu daria um soco em seu rosto se eu mesmo não fosse um babaca e também merecesse. Eu o imagino tirando o sutiã verde de rendas dela antes mesmo de elogiar, antes mesmo de analisar o quanto ela fica bonita nele e no short jeans rasgado pelo simples fato de se sentir extremamente confortável. Eu o imagino no sofá com ela. Os dois transando. Eu sinto uma raiva filha da puta em mim e de mim porque eu sou um babaca. Eu paro no fim da rua e olho para trás, ele está na frente da casa dela, ele está entrando na casa dela, ele está fechando o portão da casa dela. Eu não pude entrar, eu não pude ficar e dizer que ela é minha. Ela não quis me esperar para consertar tudo novamente. Acendo outro cigarro e sigo em frente voltando cada vez mais para trás.

Flávia Andrade

março 30, 2015

2x2


    Deixou a chave no carro e o motor esquentando tal como a cabeça. O caminho entre a abertura da porta do veículo e as batidas firmes na porta da casa passou como dois segundos de blackout. Mas lá estava ele, supostamente forte e estático, vendo-a assustada, talvez admirada - por seu grande feito de encarar o problema maior, aquela relação.
    Os olhos se abrem e, na verdade, ele ainda está no carro. Tira a chave do carro, sente tudo desligado e silencioso dentro e fora. Não há som algum às... acende a tela do celular, tenta se acostumar com a luz e vê a hora: três e sete da manhã, não há som. Desce do carro, caminha vagarosamente até a porta, para de frente a ela e de si como quem sai do corpo e quer entrar na casa, com um olhar distante a encara por alguns minutos. Como um milagre, alguma luz dentro da casa acende, ele lembra do clarão do celular em suas retinas e imagina os olhos castanhos lá dentro tentando lidar com a iluminação repentina. Ouve passos se aproximando e prepara o discurso, respira fundo.
    Os olhos se abrem outra vez. Ele se ajeita no banco e sente, com as mãos - como uma criança exagerada, o coração bater desesperadamente: - olha, eu só queria dizer que suas falhas não me farão desistir de você(!)(?)(...)
     Os olhos reabrem.
    Olha em volta, vê tudo escuro, vazio e taciturno. Fala sozinho: é fácil, você consegue, vá lá. Fala consigo, fala com outro ele dentro dele que lhe atormenta. Treina o discurso, muito agressivo. Treina a fala, muito calma. Sem palavras difíceis, sem repetir muito "você". Lasca um beijo nela! Larga de tanto medo, cacete. Mas ao fim, deixou a chave no carro, até esperou um roubo só para ter uma desculpa realmente boa para estar ali, "fui roubado e sua casa era a mais próxima", mas até os ladrões com suas armas dormem. E ele lá, ex-babaca, tentando recuperar um relacionamento. Para em frente a casa, fisicamente, e recupera memórias dentro de si.
     Desiste.
     Não posso.
     Não pode. 
     Sem chances.
    Volta para o carro não roubado, liga-o, ferve a mente, vai embora. Hoje não é um dia favorável para ex-babacas, diz em voz alta. Liga o som. "Desculpe, estou um pouco atrasado, mas espero que ainda dê tempo de dizer que andei errado e eu entendo...". Nando Reis teve coragem.
      Porra.
      Amanhã ele tenta, ele jura que vai tentar. São só duas semanas fazendo essas visitas todos os dias, são só duas semanas com o mesmo CD no carro, são só duas semanas sendo um só numa cama, um só numa madrugada vazia, um só num carro não roubado, um só com tanta coisa para dizer. (Acontece que ela foi embora justamente porque disse seus tantos primeiro. Que inferno.)

Flávia Andrade
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