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julho 10, 2015

Corrida


    Ele corre observando o nada da paisagem verde e azul, grama e céu a sua frente, enquanto pensa no nada de sua vida azul por inteiro. Azul escuro e oceânico. Ele está morrendo de coisas inofensivas e por armas brancas, quase transparentes, mas corre para se sentir vivo. É clichê. Corre com os braços próximos ao corpo, dobrados, punhos fechados e boca semiaberta enquanto respira o ar poluído de seus planos que falharam e o rodeiam, planos contaminados de maus pensamentos. A cabeça não se mexe, o pescoço está enrijecido com veias quase saltando porque os pés estão doloridos e a dor o toma por inteiro. O desgaste do tênis provoca a sensação de estar pisando descalço na rua suja. Sensação. Ele tem vivido de sensações. Parece sempre estar perdendo algo que nem ao menos teve, perdendo quem prometeu ficar pela eternidade, deixando para trás aquilo que traz pregado no corpo. Sente como se estivesse se afogando no mar de água salgada toda vez que entra debaixo do chuveiro e não se acalma. E, às vezes, parece que sua pele queima. Sente como se estivesse sufocando quando se cobre no frio, quando usa cinto e camisa de botões.
Ele para.
Ele acende um cigarro.
Ele deita no meio da estrada e fuma. A vida está perdida.

Flávia Andrade

maio 31, 2015

coisas que eu sei


     eu sei que você já me esqueceu e também sei que não esqueceu completamente. sei que sou só mais um nome entre tantos outros e entre outras pessoas que também se chamam assim, mas também sei que você gostava de dizer o meu em um tom de voz único, e bons costumes não se perdem tão facilmente. eu diria que você não sente mais nada, mas te dou somente um quase nada, um nada com resquícios, pois magia, poder, medicina, oração ou feitiço nenhum removeu da sua mente por completo a minha imagem e todo o resto de mim, nem os diálogos, nem as noites, nem a viagem, nem as coisas boas, tampouco as coisas ruins. aliás, não prezo pelo esquecimento das coisas ruins, por mim, que fiquem, ainda que só restem elas. não prezo por uma memória emocional tão boa quanto a minha, nem por todo sentimento que ainda tenho e que você costumava ter. aceito a condição de ficarmos distantes sem que haja esforço algum para um reencontro, alguma conversa longa ou até mesmo um pedido de favor. mas não me impeço de saber que ainda sou uma parte, mesmo que mínima, em você. sei que sou um desvio, mesmo que feito de poeira, no seu caminho e que, assim quase sem jeito, te levei para algum lugar diferente. eu sei que também não lembrarei de você para o resto da vida e as lembranças já estão confusas, mas também sei que ainda vou lembrar por mais algum tempo, vou escrever mais alguns textos, contar para alguém, terei mais alguns porres pensando em você e vou tentar te encontrar em alguma madrugada sem rumo para depois me arrepender. sei que outra pessoa como você, mesmo que tenha mesmo nome e eu saiba chamar no mesmo tom de voz, não aparecerá na minha frente querendo criar uma história parecida e melhor, mas também sei que por mais um tempo insistirei, sem querer, em encontrar seus aspectos em outros rostos, suas qualidades no meio dos defeitos de outros e talvez até me apaixone por alguém que tenha o mesmo perfume. tenho a consciência de que você já vai bem desde alguns meses, enquanto eu continuarei indo de muito mal a pouco mal durante mais um tempo. sabendo de tantas coisas que talvez você acredite que eu não saiba (por eu fazer tantas coisas erradas e transparecer tão pouca maturidade), posso tentar me desprender, me desacostumar, me tirar daqui. pois sabe, estou no mesmo lugar, não me movo, pois me mover significa uma mudança drástica que causa fim, e a única coisa que ainda não sei é como chegar ao fim.

flávia andrade

maio 20, 2015

Vida de Cão


    O cachorro hoje se comportou. Não pulou em mim quando cheguei e nem sujou minha calça, não me arranhou, não latiu desesperadamente para os cachorros vizinhos, não roeu o pé da mesa, não destruiu o novo pote de ração. As bitucas de cigarro que fui jogando durante anos em cima do mesmo telhado foram caindo ao chão com uma ventania não vista há tempos. O dia revezou entre silêncio e grito, sossego e tormenta. O dia fui eu. O cachorro agiu como eu agiria se fosse um animalzinho de quatro patas trancafiado nessa casa por obrigações de um pseudo-dono. As bitucas despencaram como toda mentira minha vem à tona por mais tempo que perdure. A geladeira está vazia, o sofá está vazio, a televisão está vazia. Eu estou vazia. Em mim, apenas um cachorro sem dono sem raciocínios, nem emoções. Em mim, apenas uma bituca de cigarro sem utilidade alguma, sem nicotina pra se tragar. Em mim, apenas uma casa com paredes de tintas descascadas e móveis frios como o tempo. Nada aquece, nada preenche, nada causa coisa alguma. O cachorro hoje se comportou, e eu faço como ele: me deito no chão gelado, sem objetivos, sem sonhos, sem querer roer ossos, apenas deito e durmo como se fosse para o resto da minha vida.

Flávia Andrade

maio 12, 2015

De corpo sem alma


    Escorado na parede com as mãos nos bolsos, com cara de sono e mentalmente retornando ao sonho da madrugada. Distante do mundo exterior com cansaço e um pouco de frio, com saudade e fome matinal, com peso na mochila, nas pálpebras, no que chamam de coração. Carregando todos esses incômodos, alguns estampados e outros guardados, pensa em desistir. Diz "bom dia" com uma voz suicida que quer dizer: "antes não houvesse outro dia, antes eu estivesse esticado na cama". Pergunta o preço da passagem de ônibus para calcular quanto custa a ida, a volta, o cigarro e a janta, até planeja não voltar para que sobrem os trocados de um isqueiro. Escorado e imóvel, perdido no lugar de sempre que já sabe de cor, querendo não estar, desejando não ser. O dia está morto e ele anda por obrigação, sai do lugar para não ser expulso. Ele se move apenas para disfarçar e escorar em outro canto. Esse dia que não acaba parece com a saudade que não some, com aquela que não volta, com o tempo que não esquenta, só esfria. Escorado na outra parede não pensa em nada, não enxerga nada, mas ainda é o mesmo que sente tanta falta a ponto de não existir mais, de ser vazio por inteiro. É só um corpo escorado por precaução para não despencar.

Flávia Andrade

maio 11, 2015

Novacaine


    É tão fácil pra eu mesma me machucar, um corte no dedo por causa de uma folha de caderno, um corte na vida pra evitar outra decepção, um tropeço num degrau da escada e um tropeço na escolha de um certo alguém. Às vezes até sei que é arriscado, que tenho mais chances de me causar ferimentos do que chances de sair sã e salva, mas ainda assim eu vou, e vou como quem não tem medo, e comprovo que realmente não deveria ter ido: volto com um osso quebrado, com um coração em pedaços. Pedacinhos de pedaços porque estou sempre deixando que o quebrem, porque não sei cuidar bem. Mas até já sei como dá jeito, conheço umas plantas pra passar em feridas que são melhores que qualquer coisa de farmácia e umas sombras de árvores para deitar que são mais válidas que psicólogos. Conheço as medidas que se prepara um remédio e as quantidades de álcool que podem me sanar. Sei como que cura minha febre, dor no estômago e saudade. E depois que curo, volta e meia, os sintomas retornam. Ainda assim persisto, como quem acumula água parada para pegar dengue, como quem sabe de cor os sintomas da doença do ano, como quem todo dia sofre de um transtorno diferente. É tão fácil que as dores nem duram tanto mais, que estou quase em estado contínuo de anestesia. Quando chegar, então, avisa que a intenções são boas pra eu me preparar para bons sentimentos e dar um aquietada nas defesas.

Flávia Andrade

maio 03, 2015

Dia sem fim


    Corpo quase inexistente e angustia maior que o mundo, angustia que é medo de não ser o suficiente, de não ir além da mera contradição habitual. Corpo que não sente mais nada porque o sentimento já está transposto ao ambiente inteiro e se tornou zona de melancolia. No rosto: olhos pedem perdão e a boca impede consoantes e vogais de apelo. No resto do corpo: mãos repousadas em bolsos no contraste dos pés inquietos que movem a carcaça em círculos. Não passa de uma sobrevivente invisível numa construção de enjoos, é só um nome desconhecido numa plataforma honrosa de mesmices, não deixa nunca de ser o pequeno peso que segura a porta aberta.

Flávia Urder

abril 21, 2015

As coisas findas muito mais que lindas, essas ficarão


     Andando em círculos, curvas e paralelas. Dá voltas na mesma quadra com as mãos se entrelaçando descontroladas e com a mente dando nós. Não sabe aceitar com facilidade essas notícias repentinas sobre qualquer fim. Inquieta rodeia a mesma ideia que se passa enquanto vê o primeiro parágrafo do capítulo cinco do livro. Chegou a este capítulo na marra e ainda não entende o enredo, pois não está na leitura, está muito mais distante. Lê outras coisas na própria mente e as folhas em seu colo são decoração. Dá voltas pela casa com as mãos nos bolsos para sossegar e gostaria de correr para outro canto, alcançar outra pessoa e dizer: não é assim que termina um diálogo ou uma relação, não é assim que se dá fim a uma história como a nossa. Gostaria de acusar todos os erros enquanto dá voltas dentro dos próprios deslizes. Essa aflição toda, ela gostaria de confessar, é o peso da culpa por ter posto fim também, por ter deixado o fim ser mera cena de dois minutos. Quanto mais foge do que sente, mais adentra no âmago e a intensidade confunde.

Flávia Andrade


abril 15, 2015

Cinzeiro


    Apaga teu cigarro que o vício agora é outro, que eu já não aguento mais nossa dependência sendo ofuscada. A saudade nos mata aos poucos e toda a sua nicotina diária é para servir de disfarce, eu sei. Apaga teu cigarro pra eu ver teus olhos paranoicos por trás da fumaça. Joga fora os maços porque eu estou indo para longe e toda a dor da falta vai precisar de mais atenção. Não se perca nos tragos, por favor, apenas encontre um jeito de me trazer de volta. Apaga teu cigarro pra você não perder de vista a queimada que provocamos. Deixa o cinzeiro de lado, pois nossos dias estão mais escuros.

Flávia Andrade

abril 13, 2015

A Beleza da Contradição


    Às seis, ela vê nas borbulhas do café dentro da xícara um recado: o cotidiano é poesia. Ela sabe pelo cheiro reconhecível desde à infância, pela cor do país na bebida quente, simplesmente sabe. Talvez deva dar razão à luz matinal que de tão amarelada deixa os olhos muito mais suscetíveis ao que consideram "coisas do coração". Mas às sete da manhã, ele, o outro, prefere um conhaque e não há recado. Há somente aviso: o cotidiano é morte. A vida é pressuposto da morte e continuar tentando não o impede de continuar morrendo. Talvez deva dar razão à ressaca que de tão dolorosa deixa os olhos muito mais suscetíveis ao pessimismo. Às oito, porém, os dois dão as mãos e, prestes a sair, na porta da casa veem: a beleza da contradição. A contradição que tanto é poesia quanto dá ao mundo a certeza de sua morte. Que belo dia, pensam então (um muito irônico e outra simplesmente otimista), para serem felizes para sempre.


Flávia Andrade

abril 12, 2015

Um Pouco e Ainda Morta


    Acidentalmente dei vida àquelas palavras tuas, àquelas que se sobrepuseram na discussão. Dentro de mim toda a vida delas sufocaram a minha própria. Por fora pareciam personificadas dando como motivo da minha morte um sútil enforcamento. Eu sobrevivi, um pouco e ainda morta. Mas enquanto ando acompanhada de silêncio externo, internamente travo guerras. Suas palavras estão presentes, olha que ironia, logo as palavras que você usou para desaparecer. Com passos neuróticos tento fugir do tumulto que ocorre na minha mente, mas resta só tua voz se transformando em um monstro maior do que posso enfrentar, um monstro que eu enfrentaria se você estivesse comigo. Mas olha que ironia, esses monstros me encontraram porque você desencontrou nossos caminhos. Elas começaram a adquirir rostos desconfigurados que me seguem e, aos poucos, entre toda a dor e saudade, aproxima-se também a loucura. Por favor, avise ao mundo todo - que você teve coragem de visitar sozinho, que uma moça deixada por você não tem mais sobriedade para a vida repentina na qual ficou.

Flávia Andrade

abril 09, 2015

Ela escreve poemas


    Agora você imagina, com os olhos voltados para o céu e os pés no chão, o quanto de amor é desperdiçado por dia. E, silenciosamente, você faz uma lista mental de maneiras de racionamento para ver se assim as coisas ficam menos complicadas. Sabe, as coisas relacionadas aos exageros emocionais. E você vê aquela menina com um coração transbordando e se pergunta se talvez ela seja a maior culpada, se ela deixa amor caído por todos os quilômetros que passa correndo em busca de uma pessoa só. E você se vê paralisado num canto só, sem quantidade alguma e sabe que, se caso alguma quantidade houvesse, seria de má qualidade. E você se pergunta, ali parado: "por que é que essa menina corre na minha direção?"

Flávia Andrade

março 27, 2015

Reflexo de Uma Guerra Interna


    Um livro pesado arremessado no chão, algumas páginas estão sendo amassadas pelas outras deixando-o horrendo. Uma garrafa de vinho quebrada por alguém que não soube retirar a rolha está com pouco líquido e muitos cacos. Imagino cacos com gosto de vinho seco descendo garganta abaixo e olhos lendo história tão mal escrita que fizeram as mãos em um movimento ligeiro produzirem essa cena que causa pena das folhas. Ainda imaginativa visualizo mentalmente uma garganta com sangue e olhos querendo ser retirados com garfos ao ler o que agora escrevo. Morro um pouco, alguma dor em mim. Borrões de tinta na parede causadas e deixadas como rastros por quem quis apagar qualquer coisa que estivesse escrita, agora ilegível. Busco a relação do livro, vinho e parede. Provavelmente uma dor corrosiva foi sentida para causar tamanha desordem. Aproximo-me do espelho: duas manchas pequenas de vinho na blusa branca. Pouco encaro minha face assustada no reflexo. Os braços com sangue, o mesmo sangue que escorre de um dos tornozelos. Engulo em seco o que vejo e sinto o gosto na boca, o gosto de tudo o que vi. De vinho com cacos, de leitura interrompida, de braços cansados que esfregaram a parede. No fim da degustação, o gosto mais amargo. A dor que senti tem gosto tangível e ao mesmo tempo inalcançável. Um gosto que me tirou de mim. Vejo tudo o que fiz e no meio da pequena bagunça, eu, o caos.

Flávia Andrade

Ficção Realística


    O espectador está sentado no sofá e assiste a um filme de terror. O suspense está acontecendo na tela, a música assombrosa ficando mais alta. Ele encolhe os pés para cima do móvel e para baixo do cobertor. Todo o contexto cinematográfico avisa, implícito, que o pior vai acontecer. A agonia percorre o corpo de quem assiste enquanto a raiva percorre o personagem que se direciona para outro cômodo. Na sala ninguém se move. Um grito estridente penetra os ouvidos medrosos e com o som o espectador leva a mão direita aos olhos. Escuridão. Gritos inquietantes: a cena está acontecendo, é o ápice da trama. Enquanto a mão tapa os olhos o roteiro, o trabalho de direção e atuação são desperdiçados. É retirada dos cômodos a essência do horrendo. Silêncio. Ele tira a mão dos olhos, o filme vai bem, acabou o momento de terror, acabou a maravilhosidade do medo. Para o espectador o fim do filme foi em vão, ele ainda sente outros medos.

Flávia Andrade

março 26, 2015

Ele; A Ressaca de Meus Porres

    

    Esqueço-o enquanto, concomitante, abandono quem fui. Esqueço-o desfazendo enlaços que antes nos uniam. Noto, na confusão descarada de nossas histórias, que ele em sua total realização era somente reflexo dos meus erros. Era minha pele, carne e ossos; minha impertinência. Eu tragava o cigarro, ele era a fumaça que saía de mim e percorria o ar já poluído.  Se me deixo para trás, deixo-o também. Se me esqueço, talvez o esqueça também. Como um único dia que difama em silêncio todo o passado, a semelhança que nos põe como um corpo só nas mentiras não passa de algo que possa ser chutado porta afora. Esqueço-o enquanto não vivo mais a vida que vivia.

Flávia Andrade

março 04, 2015

Não Recuse Essa Carta


    Perdoa não cumprir as coisas que te prometi, as coisas prometidas para mim eu não cumpri também. Eu oscilo a cada passo, sou sempre um planejamento em desordem, um prédio que inclina um pouco mais a cada mês. Se penso que sigo frente estou somente retornando, se eu te deixo para trás é porque quero te levar comigo. Se desisto é porque ainda sonho e se ainda sonho é porque uma hora não vou querer mais. Eu sei que não posso decidir mais nada, não passo de um tumulto. Eu sei que não posso pedir mais, não passo de algo momentâneo que se torna desistente. Eu sei que não posso te fazer outra promessa, você não ouviu nem a primeira. Perdoa, eu só precisava explicar que se para você eu sou tão errada, para mim não tenho sido nada certa também.

fevereiro 19, 2015

O Remorso a Minha Frente



    Desconheço seu olhar manso, mas reconheço a fúria com qual me encara como se pudesse perfurar o rosto. É que a decepção deixa estragos emocionais. Sinto, além de sua dor, muito por não ter sido uma completa idealização e por não ter ficado para explicar quem realmente sou. Não vejo mais a simpatia das primeiras semanas juntas de um embalo fácil para conversar, nem ouço os convites que tentavam parecer espontâneos para lugar nenhum. Em pé, na minha frente, só você, muros, escudos e os clichês de auto proteção. Sinto muito por esse caos. Se eu não tivesse perdido toda a voz, toda a chance de explicação e se não tivesse tanto medo de te fazer fugir mais uma vez, desarmada eu daria motivos. Sem nada além do que não sou mais, permaneço aqui de mãos atadas e cabeça cheia querendo demonstrar que compreendo, em cada detalhe, a negatividade que seus passos transmitem para a minha direção.


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