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setembro 17, 2014

Um filme

Escreve, apaga, escreve, risca, escreve, amassa, escreve, desiste, escreve, cansa, escreve, cria, escreve, persiste, escreve, copia, escreve, ouve, escreve, diz, escreve, arrepende-se, escreve, respira, escreve, enlouquece, escreve, ensurdece, escreve, dança, escreve, ri, escreve, pensa, escreve, chora, escreve, esquece, escreve, inventa, escreve, anuncia, escreve, pede socorro, escreve, foge, escreve, volta, escreve, não está, escreve, é outro, escreve, perde-se, escreve, reage, escreve, desencoraja, "escreve" vira uma palavra feia, as palavras perdem a magia, escrita descolore a vida, escreve outra vez, escreve enquanto ouve música, escreve o que está dentro de si e ouve o que esteve em outro alguém, escreve como quem chega atrasado no encontro marcado, escreve como quem pede a bebida mais fraca e acaba com os piores efeitos, escreve como quem morre, escreve para viver. Viver na loucura, escreve porque é insano, perdeu carteira, chaves, amor, escreve porque dizer não dá resultados tão bons, escreve porque frustra, escreve para trazer um problema à tona e compreender ao fim, escreve, pois decidiu, escreve por ter indagações, escreve por silenciar, escreve porque a mente grita, escreve o que estará em sua lápide, escreve cartas ao passado, escreve o inexistente, "escreve" é uma palavra bonita outra vez, escreve sem pontos finais, escreve sem fim, escreve porque predomina o vocabulário, escreve sem ações, escreve movendo cada parte de si, escreve porque é humano, escreve por pensar ser alguma coisa ainda não descoberta, escreve por saudade de escrever, escreve por rotina, escreve por paradoxo, escreve porque ama hipérbole, escreve sobre escrever porque assim não intimida, escreve sobre o que não incita a guerra no coração de outro alguém, escreve controlando o desassossego, escreve para ter paz, escreve sem perceber.

Flávia Andrade

agosto 04, 2014

Quando saiu de casa ainda tinha um foco e um rumo, veria quem tanto quis e nada mais interessava. Mas de uns minutos pra lá, quanto mais andava menos queria chegar, começou a sentir uma dessas coisas de não se sentir o suficiente, começou a se achar só uma gentinha sem jeito querendo cuidados de restos de outro alguém que se entregou pra uma pessoa mais sortuda. Parou os pés, acelerou a mente, nisso o choro veio e virou toda aquela cena de quem se arrepende de não ser o que planejou quando era criança. Coisas que acontecem quando se vive esperando muito e ganhando pouco. Que mal tem em ter o mínimo? Que mal tem em arriscar no máximo? Lembrou que tinha um bem muito maior em si e não queria sofrer por quem ilude. Relembrou que era mais forte do que imaginavam e foi, sem querer provar nada pra ninguém, para onde ria e ia sem motivos, sem esperanças, lá era certo que estaria feliz.

Flávia Andrade

julho 31, 2014

Aquela que era livro aberto

Por mais erradas que fossem as palavras, dizia. Tirava de si, sinceramente, e permitia que soubessem. Tudo se espalhava com o vento, seus segredos não eram mais só seus. Mas ela ria, ironizava, deixava como estava, tentava se esvaziar. Preenchia ouvidos com suas histórias, esperava o momento certo, então levantava e ia embora deixando o pior de si. Não demonstrava o melhor, era muito para ela, era muito para eles, era raro demais para se ver, era precioso para se perder.

Mas ser como água, transparecer e revelar sua profundidade foi o erro maior. Foi montanha comparada aos tropeços em pedras, aos mal entendidos e acasos. Foi entregar permissão a quem não entendia, deixar que dissessem sobre o que não conheciam. Eles acharam que sabiam dela, dos problemas e receios. Empurraram-na para um precipício, disseram: você vai melhorar se arriscar. Mas ela só queria sossego, de tumulto estava exausta, a mente fervilhante já era bagunça o suficiente. Os conselhos eclodiram como se desde sempre estivessem ali guardados até se tornarem surtos amargurados de quem sente pena. 
Ela só e só voltou para casa, desistiu de ser aquilo, repensou quem era, foi se renovar com as pernas bambas, coração apertado e olhos marejados.

Flávia Andrade

julho 20, 2014

Menina que sobe escadas todo dia, desviando de cada olhar, disfarçando o medo de rejeição. Menina que entra na mesma sala cinco vezes por semana, encara os mesmos rostos, mas não os vê lá fora. Menina que desorganiza bolsas, cômodos e corações, que não sabe silenciar mentes. Menininha que viaja para universos paralelos antes de dormir, mas enfrenta o mundo real quando levanta. Menininha tão diminuta em coragem, tão gigante em sensibilidade, só quer não amar. Deseja lutar sozinha. Mas a menina esbarra em amores, leva-se em palavras baratas de quem a quer e ela pensa também querer. Menina independente quando pensa, sobrevivente quando age, carente quando ama.

Flávia Andrade

Ela tinha algumas dúvidas, sabe? Aquelas que se acumulavam e faziam de sua mente um turbilhão. Ela se desligava quando começava a indagar motivos e perdia o rumo, caminhava só para espairecer, mas nem tinha certeza se sozinha era capaz. Cheia de opções, opiniões, confusões e devaneios, nem sabia como cabia tanto pensamento em si.
Havia somente uma coisa da qual ela não duvidava e oscilava: o amor por ele.
Mas ele, uma vez, em uma das discussões acusou:
- Você não me ama! Se me amasse não ficaria pelos cantos lamentando.
Mas era por o amar tanto que calculava cada passo. Uma inocente incriminada, um acerto perdido entre erros, por essa razão não conseguiu ser feliz.

Flávia Andrade


outubro 25, 2013

A louca

   Ela carregava consigo doses de loucura e percorria o trajeto mais longo para alcançar o vento com as mãos. Queria guardá-lo para um dia voar. Tinha uma teoria habitada por pensamentos que só faziam sentido para si mesma. Era uma dona de razões próprias procurando a liberdade do que ainda lhe afligia. Talvez nunca conseguisse ser extremamente livre, mas tinha a esperança de ser. Somente ser e viver.

Flávia Andrade

julho 02, 2013

Escritorinha

   Tão jovem se perdeu nas entrelinhas de seus costumeiros poemas e não mais se encontrou. Tão nova e já presa em vírgulas e reticências e nunca mais pôs ponto final. Proseava em versos, vivia em estrofes, sorria em palavras. Outrora chorava em algum meio e calculava suas metrificações. Repugnava a ignorância, mas adorava a desconfiança. E assim seguia os dias, quatro ou cinco linhas e uma queda para outro abismo de inspiração. Às vezes devaneio, às vezes atenção.

Flávia Andrade

março 27, 2013

Querer ser o que escreve


 Era noite quando ela despertava e era nas manhãs que cansada repousava. Nas madrugadas deixava resquícios de seu vocabulário entre folhas e pontas de lápis. O barulho do apontador caindo no chão era extremo e o da página folheando era sonífero. Conforme a ideia aflorava e as mãos apressadas escreviam, seu rosto aproximava-se mais como se pudesse entrar de vez no enredo que criava.

Flávia Andrade


março 14, 2013

Write

  Todas as noites ela deitava em sua cama e tentava dormir, descansar apenas um pouco, mas seus pensamentos e memórias não se desligavam, apenas despertavam cada vez mais imagens se passando como um filme. Então ela se levantava, pegava um caderno e uma caneta qualquer e começava a escrever o que guardava durante todos os seus dias... Era assim que ia compondo na solidão suas mais belas e confusas palavras. Das mais melancólicas às piegas. Abrir um caderno vazio era abrir uma vida para desvendá-la, ela sabia que encontraria em uma folha branca a inspiração para narrar uma vida tumultuada.

Flávia Andrade



março 04, 2013

Quem é ela?

   Se tivesse uma mala, fugiria. Se tivesse uma janela, pularia. Se tivesse um muro, derrubaria. E na verdade tem tudo isso, mas não se mexe, não se move, não age. Conta que pra lá foi, que de lá veio, mas a mesmice continuando lhe afligindo. Diz que festejou, bebeu, até morreu. Contudo se morreu foi de sobriedade e tédio. Quem é ela? Aquela que estuda, trabalha, se envolve em graça. Quem é ela? Aquela que bebe, fuma, se desgraça, mas se recupera. Aquela é quem queria ser a personagem principal de seus contos? Aqueles em que a garota foge, vai pra outro país, conhece o futuro astro de Hollywood, viajam pra Las Vegas e bêbados se casam. Ou queria ser ela a fuga do conto, a escritora monótona? Quem é ela que tanto se disfarça e se mente?

Flávia Andrade

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junho 30, 2012

Ela e o céu


  Ela cresceu como o azul do céu vai escurecendo a cada centímetro durante o dia, assim como toda aquela dimensão disfarçava-se entre nuvens, ela sabia como fazer suas mudanças não serem notadas, até atingir o ponto mais alto e mais escuro, no caso dela, o ponto mais forte. Eu não poderia descrever, nem soube também o fazer, mas conto-lhe que ela modelou-se como Deus modela suas nuvens, fez-se assim uma menina pequena, assim como nuvens na visão de uma criança parecer algodão - doce -, ela elaborou sua aparência inocente, mas tornou-se gigante, confiante, guerreira e sábia no coração. Ela brilhou como o sol iluminando a rua depois da chuva, discreto, mas ninguém poderia parar e fez surgir o arco íris, admirado por qualquer coração de pedra que apenas soubesse apertar um pouquinho mais os olhos para conseguir enxergar tal beleza extrema. 
  Mas depois sempre veio a noite... Ela alterava-se em todos os momentos em que precisava lidar com o mundo. Assim como o doce céu que ela observava e inspirava-se a no mesmo balanço, viver. Nunca se esqueceu de brilhar, mesmo quando a escuridão reinava. A lua lhe contou este segredo, o brilho destacava-se na noite e era nela que a magia deveria acontecer. Então, a garota guardava seus sorrisos singelos, suas gargalhadas estonteantes e o olhar encantador para as noites. Era maravilhoso de se ver, ela aprendeu com o céu, a surpreender. Certa vez, ela contou a uma menininha que observava as estrelas no parque uma de suas aventuras: "Com um impulso que durou um átimo, eu caí em queda livre, e enquanto caía, o aperto no coração foi sumindo, e só pela liberdade da queda, aquela ação já tinha valido a pena." Foi como chover... E completou dizendo "Você tem que surpreender a si mesma, não pode esperar que os outros apreciem e nem que se admirem, pois tudo o que você faz tem que agradar primeiramente e unicamente a você mesma." 
  Com essa teoria, ela sabia que ninguém nunca poderia esperar algo, ninguém nunca deveria saber se no íntimo daquela alma era inverno ou verão, ela surpreendia as pessoas a sua volta com o inevitável. Assim como dormir depois de um dia ensolarado e brilhante e acordar com um dia de tempestades e vendavais. Ela foi uma aspirante a princesa, uma pequena nuvenzinha modelada perfeitamente, uma garotinha gigante no coração. E aprendeu com o maior mestre de todos a viver e concluiu que o céu é escola para quem sabe aprender, ou apenas sutilmente observar.

Texto para a 122ª Edição Conto/História do Projeto Bloínquês.

Flávia Andrade


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