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novembro 23, 2015

Olhos-doidos

    São os olhos-doidos que me confundem, como se tivessem efeitos instantâneos de drogas caras. Ele segura seu copo de uísque e gelo na mão esquerda, leva-o à boca, dá um longo gole e me olha com as cores castanhas escuras, perfurando meu bom-senso. Eu sei que ele está enlouquecido, sem transparecer para ninguém além de mim. Antes eu não conseguia ler seu drama patológico no olhar, mas agora sei de cor como ele demonstra. Nenhuma outra pessoa pode ver, somente eu, que não sou mais enganada. Talvez eu tenha os olhos-doidos também, mais fortes que os olhos-tristes, mais profundos que os olhos-foscos. Meu uísque não tem gelo e fica na mão direita, a gente se completa. Eu atraio sua loucura, como se não houvesse nada melhor para mim. Esperar o pior é esperar por nós dois.

dezembro 23, 2014

O que faço é por conta própria

   Eu erro mais do que acerto, haja dias para consertar minhas noites. Eu culparia todo o mundo, mas se sou eu quem dou meus próprios passos, a culpa é de quem? E afinal, eu não tenho licença para errar? Talvez esteja escrito em algum lugar por aí que é a junção da idade com alguns traumas, talvez tenha alguém que me salve quando julga que só quero ter atenção. Eu estou distante de decidir pelo o que é certo, optar pelo o que é seguro, e no fim dá uns arrepios assustadores só de pensar em morrer dentro de casa por não fazer nada. Algo me diz que é desperdício não aumentar a velocidade na estrada por medo, que não vale a pena dizer tanto não. E algo me diz que pensar assim é errado e convenhamos: eu sou aquela que apontam e dizem: é caso perdido. E se ainda não apontaram e disseram, é porque ainda não viram muito de mim, não ouviram minhas histórias, então precisam de mais. Eu vou em busca de mais, afinal, não posso negar minhas próprias frases e eu já comecei dizendo o que faço.

— Flávia Andrade.

novembro 28, 2014

Olhos vermelhos

   "É uma nova embriaguez. Meus olhos coloridos de um pouco de sono e muito riso àtoa. Eu estive tão cansada, meu bem, foi tão difícil lidar sóbria com toda essa gente que não escuta, eu estive levando caixas de desaforos para a casa, arrastando-as por correntes amarradas nos tornozelos, deixando marcas nas ruas onde passei, os pés encravados no caminho ruim. Mas voltei para aquela rua nossa, a rua sempre minha, para a direção do bar.
   Eu estive pensando em você, meu bem, querendo a cada segundo correr para te abraçar. Dessa vez eu não pude correr, as pernas entrelaçavam enquanto eu ria de tanta coisa, mas cambaleando torta eu fui até você e senti seu corpo com a mesma intensidade que senti saudade nos últimos meses. Eu olhei para você, meu amor, para que visse a cor nos meus olhos de novo, eu estou de volta, com mais garrafas, mais álcool, mais de mim. E eu sei que você não vai ligar se eu cair aqui no sofá, sei que entende a despreocupação sobre o resto do mundo, sobre o que somos nós. Então eu deito aqui e penso nas nossas músicas, não lembro como canta.
   Amanhã, meu bem, a gente levanta, prepara um café, canta a música que não lembro agora, e a gente vai ser feliz. É uma promessa de bêbado, promessa pensada e repensada sóbria, promessa que escapou porque estava transbordando lá no fundo. Aliás, pode encher mais esse copo."

— Flávia Andrade

setembro 29, 2014

Mata a saudade no sufoco, quando as imagens já não se formulam exatas na memória, cria cenas novas, algo melhor para um futuro distante. Perambula pela casa, o perfume lá fora de um desconhecido tem cheiro que rouba os sentidos da pessoa de dentro. Alguma voz repetindo na mente, misturada ao trânsito da avenida, é aquela coisa nostálgica de quando saíam juntos: o silêncio tímido e o mundo conversando por eles. Sente falta do que não quis ter, mas agora quer e se arrepende. Sente falta do som que odiava, mas que de longe tem melodia boa. Sente falta do exagero e do pouco, quase inexistente, de detalhes que não notou anos atrás. Sente falta de algo que lhe preenchia sem querer, de um quebra cabeças ao qual não deu atenção.
Mata a saudade nos caminhos em que passaram, anda tudo novamente e ri do que não achou engraçado de primeira, chora da despedida que não foi tão trágica na hora, percebe a falta que foi avisada que faria, vê no fim o que deveria ter sido seu no começo.

Flávia Andrade

junho 08, 2014

Você que me trouxe essa balbúrdia, ora, seja direto, diga logo o que quer: roubar mais um pouco de mim ou apenas permanecer na minha vida de vez? Não posso mais adivinhar porque minha mente está sobrecarregada de lembranças e elas talvez sejam futuras, algo que ainda não houve, não confie em meus fatos. Você que veio de tão longe se sentar nesse único lugar perto de mim, ora, ou leve-o de vez ou traga uma cama, uma sala de estar, uma cozinha e todo o resto de uma casa. Porque eu já não sei para onde vou se você não decide se vai ou se fica. Você que desapropria o chão dos meus pés e desacelera minha calma, ora, pois trate de não tirar mais nada, apenas acrescentar e somar. Se for sumir por dois dias que seja para voltar com mais quatro. Você que é cheio de si, não me deixe cheia de mim, cheia de nada, quero mesmo é que transborde. Já vem? Pois venha, ora, para que se acanhar? Traga tudo o que tiver porque é tempo de nos construir.

Flávia Andrade

maio 30, 2014

   Isso não se trata de onde estamos agora e de quem somos, é questão de cumprir. Você ao menos se lembra de tudo o que me disse? Das promessas poucas e seguidas de pedidos de confiança?
  Desde que você se foi, eu me pergunto se tudo o que prometeste foi tão supérfluo a ponto de que pudesse esquecer-te ou se fora tão pacóvio a ponto de simplesmente jogar tudo para o ar.  Pois eu acreditei quando você disse que seríamos ‘para sempre’ e emocionei-me ao ler tuas palavras dizendo ‘juntos até o fim’. Pensando nisso, sinto vontade de gritar, esbravejar palavras de baixo calão, porque parece que você não entende que este não é o fim! Não, não acabou! Foi uma pausa, um pormenor... Por menor que foste. Não acabou, pois as promessas nos acorrentam, prendem nossas almas, nossas vidas e nossos corações, e vamos continuar juntos enquanto houver o único infinito deste mundo mortal... Enquanto houver amor.
   Eu continuo aqui, você pode enxergar isto? Meu corpo permanece parado e taciturno, mas meus sentimentos transbordam aflorados e correm até você, eles querem te salvar. Eu quero te salvar! Deixe-me invadir teu mundo como da primeira vez que conversamos. Lembra? Eu me entrosei de forma que você não pudesse fugir. Eu confesso, roubei teu coração sem que você pudesse evitar. Não sei se até hoje você conformou-se com tal fato, mas estarei ligada aos teus rumos enquanto eu não devolver tal preciosidade. Foi assim que o motivo dos meus sorrisos foi apenas o fato da ocorrência dos teus.
   Ousei intrigar e confundir teu mundo, mas nem assim cessou a vontade de te amar verdadeiramente. E você... Oras, porque fez tal armadilha com meu coração? Por que não se decidiu se cuidaria dele duma vez ou se o esmagaria até que não existissem mais rastros por onde passei amando ou até mesmo odiando, não sei ao certo o quanto esta bomba ambulante que levo aqui dentro aprontou nessa minha sede de ruar.
   Esqueceu-se mesmo de o quanto te amo? Esqueceu-se de como foi que tudo aconteceu  e o que prendeu-nos até o que antes era belo? Eu guardei todas as palavras que me disse para uma última canção. O final não chegou, meu amor, mas eu tenho que entregar tudo o que tenho. Meus pés não agüentam mais sustentar todo este peso de saudades, lembranças, memórias, paixões, amizades e etc. que levo aqui dentro. Pega. Leva tudo. Pode ficar com você.
    Arrumei uma mala, está ali na outrora que vem chegando. Quando você notar a presença, saberá que é pra pegar e levar pra casa. Mas cuida bem, viu? Eu aguentei tudo isso calada e sorrindo, eu estivesse tentando consertá-las de forma que pudéssemos mais uma vez compartilhá-las e você não deu a mínima. Agora cuide, pois são meus bens preciosos, alimentei-as com o brilho das estrelas que observei todas essas noites que nem ao menos pude ler teu ‘oi’. Pois você não se deu ao luxo de me procurar. Isso é questão de cumprir, lembra? Não cumpriu, velho amigo.

Flávia Andrade


janeiro 29, 2014

Amar-te

Ouço essa música porque canta nossa história. Assisto esse filme, pois é como ver você.  Frequento esses lugares só para te encontrar.  Bebo e fumo para compreender seu prazer.  Leio Hemingway e Bukowski porque te inspiram, porém me inspirar neles é somente outro caminho para pirar e sejamos francos, já estou louco, não sou mais eu. Há tanta explicação para o que eu tenho feito, sendo a única incógnita minha última chave de escape. Por que faço tudo isso por você? Por que te amo? Deixe-me saber e fugir.

Flávia Andrade

fevereiro 08, 2013

Só mais um pedido

  
  Tem muitas coisas que eu gostaria de dizer para você, mas as palavras somem. É horrivel. Os sentimentos afloram, eles fogem ao mesmo tempo em que me sufocam, mas não me permitem lhe dizer o turbilhão de pensamentos desesperados que me ocorrem. É uma loucura. E a verdade é que eu estou louca, não por você, pois isso sempre fui, mas estou louca pela falta que você faz ao meu lado e me impossibilita de receber um abraço todas as vezes que careço e preciso. Eu poderia, agora, te elogiar pela milésima vez, mas não farei, não citarei verdades sobre quem é, nem sobre quem sou. Quero manter as linhas de saudades que me acorrentam e tentar contar minhas ocorrências causadas por sua falta. Ocorrências de solidão, às vezes, de insônia sempre, de bipolaridade constantemente, de tristeza agora. Por que não vem pra cá ficar comigo? Larga essa vida aí, vem ter uma vida ao meu lado. Larga tudo enquanto não o posso fazer. Me tenha, me faça sua, me prenda a você, pois eu quero. Talvez isso pareça louco. E realmente é. Contudo, como eu inicialmente disse, obviamente estou enlouquecendo e apenas você pode me sanar. Diga alguma coisa, não suma assim, apareça, ligue, mande sms, me mantenha com pedaços de você. Não se distancie dos meus sentimentos, do que sou, do que me faz te amar. Não se distancie mais do que já está. Por favor. 
E quando vier essa semana, apenas me abrace...

janeiro 29, 2013

Fora do eixo


   Hoje os passarinhos cantando estão me incomodando, ontem estavam sem graça. Porém antes de ontem quando acordamos juntinhos, era o som mais bonito. A cama continua desconfortável, mesmo você dizendo que é a melhor que eu poderia ter comprado, adormecer e amanhecer sozinha, torna-a feita de cactos. O quarto está menor do que eu pensei que fosse quando o escolhi, talvez porque só agora parei pra observar as paredes, a falta do seu olhar me fitando mostrou o mundo que deixei de enxergar. A parede que era branca, agora está amarelada, talvez eu não saiba cuidar, assim como não soube aquele dia evitar a mancha de molho de tomate na sua camiseta branca. 

   Estou em silêncio como você odeia que fico. Eu odeio conversar, os diálogos nunca seguem meus planos e eu sou egoísta demais para largá-los. Como em nossa discussão a qual não era pra você ter dito "Viu? É aí que você se enganou", era pra me deixar livre pra ter razão. Isso me deprime, mas eu juro que mantive feliz - como pediu - até hoje cedo. Meu humor muda rápido demais. Meus dias mudam rápido demais. Nossa relação mudou rápido demais. Isso tudo me irrita... Eu sei que não estamos quebrados, apenas fora do eixo e é por isso que está tudo desajeitado. Sei que pediu um tempo, mas assim como os pássaros que agora me incomodam, a cama me machuca, o quarto pequeno me sufoca e tudo o mais, tua falta é a estrada de chão da minha caminhada, meus pés doem. 
   Volte pra mim, volte a ser minha estrada asfaltada.Volte a ser meu eixo exato. E então, podemos cantar Three Little Birds.

Flávia Andrade

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